Hoje era mais um daqueles dias em que acordei tarde, mas por um motivo um pouco diferente: eu havia despertado do sonho mais esquisito de toda minha vida, no meio da madrugada. Tudo bem... Não foi tão esquisito assim. Mas era estranho pensar em mim próxima de Logan de forma íntima. E pareceu ser real. Ainda podia sentir seus lábios preenchendo os meus mesmo após estar acordada. Era loucura, e então cheguei a cruel conclusão de que eu estava atraída por ele.

Houve um tempo em que eu diria que isso era amor e ficaria extremamente brava com qualquer um que dissesse ao contrário. Talvez porque eu não soubesse a grande diferença entre essas duas palavras ou porque o amor soava um pouquinho melhor para alguém como eu que sempre cresceu vendo filme de princesas e seus príncipes encantados. E definitivamente, Logan Porter estava longe de ser príncipe encantado. Algo que eu soube assim que meus olhos se encontraram com os dele.

Já eram duas da tarde e eu lavava o prato que eu havia usado para comer algumas sobras do almoço já que eu havia acabado de acordar. Taylor e Lola foram ao mercado; Meredith decidiu fazer compras. Todos têm estranhado as atitudes dela em relação às vestimentas e o cuidado com rosto, cabelo e corpo. Segundo sua família, ela nunca demonstrou interesse em se arrumar demais. Kyle, pai de Taylor, se ofereceu para levá-las já que o mercado era longe e Logan não precisaria de seus serviços, pois decidiu usar o carro hoje.

Tirando a quantidade de seguranças do lado de fora, eu estava sozinha. E pensando nisso, agradeci eternamente pela existência de funcionários tão queridos como Lola porque era assim que seria minha vida o tempo inteiro sem eles ali e os minutos se tornam horas quando não tenho companhia alguma. Decido por fim, vasculhar a casa e conhecer um pouco mais o lugar já que eu não havia visto muita coisa. As informação de Taylor em relação a esse casarão não podiam estar mais corretas, e eu comprovei isso ao ver que a maioria dos cômodos, realmente, eram quartos.

Então eu finalmente entro no último quarto do corredor e havia um pequeno móvel que o diferenciava dos outros cômodos. Ele era repleto de prateleiras contendo livros para todos os gostos. Fazia um bom tempinho que eu não lia algo legal, afinal, não era todo dia que eu tinha dinheiro para comprar um. Chloe me dava quando Charlie decidia ser bonzinho e acrescentar um pouquinho mais no salário das prostitutas. O último livro que eu havia lido era o famoso Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Meus olhos brilham fascinados ao notar aquela quantidade de livros e corro praticamente quicando até o móvel. Observo os títulos que havia em sua lombada por uns bons minutos até finalmente achar um interessante que estava na última prateleira. Estico os braços tentando inutilmente puxá-lo para mim quando ele finalmente está próximo de minhas mãos, cai no chão quase atingindo meu rosto.

Praguejo baixinho, me abaixando na correria temendo com todas as forças do mundo que o livro não tivesse nenhum dano e, por sorte não teve. Logan me mataria. Suspiro aliviada e meu rosto se vira observando o móvel. Um vinco se forma em minha testa ao notar a pequena fenda que havia entre a estante e a parede branca. No começo pareceu uma rachadura, mas só então noto que parecia mais uma passagem que dava para algum lugar dessa casa.

Me levanto, posicionando, mais uma vez, com muita dificuldade, o livro em seu devido lugar e volto a notar a fenda, e rezando para que eu conseguisse, empurro o móvel com força para o outro lado do cômodo. Caminho até a pequena passagem e corro até a porta do quarto somente para checar se havia algum segurança no corredor ou algum barulho da presença de um deles no andar de baixo. Após finalmente comprovar que, sim, eu estava sozinha, entro e vasculho os vários túneis ali. O local fazia eco e podia ouvir até mesmo o que os funcionários falavam do lado de fora. Era pouco iluminado e as paredes possuíam um vermelho intenso e alguns quadros de artistas famosos enfeitavam o local.

Poderia até mesmo aproveitar o momento e apreciá-los, mas eu queria vasculhar mais aqueles corredores escondidos. Eu finalmente havia achado algo interessante para fazer. Então eu escuto um grito chamando, de forma rude, pelo nome de Logan. Caminho seguindo o som daquela voz que parecia tão conhecida e paro em frente a uma escada. Supus que desse no primeiro andar, mas era longa demais e provavelmente daria em um cômodo um pouco mais abaixo: o porão.

O lugar onde eu também estava proibida de ir. Mordo o lábio inferior pensativa sobre o assunto. Logan me mataria. E Taylor também. Meus pensamentos tratam de ir embora e quando dou por mim, estou descendo os lances de escada com rapidez após ouvir mais uma vez o grito de alguém ali. Paro assim que chego ao último degrau e em frente havia uma longa porta blindada. Ela estava entreaberta e me aproximo espiando o que havia atrás dela. Havia um garoto, suas mãos estavam amarradas acima da sua cabeça e ele estava sem sua camiseta. Seu abdômen definido exibia milhares de cortes recentes e machucados profundos. Abro a porta vagarosamente temendo que ele reagisse de forma ruim.

— Finalmente decidiu mostrar a cara, Logan Por... Hannah? – Sinto todo o meu corpo gelar e fico em estado de total desespero.

O espanto ao ter ele ali se cruzou em meus pensamentos junto com o aperto no coração ao vê-lo assim, mesmo após o ocorrido da última vez que nos vimos. Um grande nó se forma em minha garganta. Aquele lugar fedia muito. Aquele lugar... Cheirava a morte. Alguns instrumentos perigosos como armas, e facas de vários estilos, poderiam ser motivos para o mais novo ponto de interrogação formado em minha cabeça, mas tudo que eu conseguia pensar era:

O que diabos Wren faz aqui?

Um homem entra no cômodo resmungando me fazendo dar um salto e voltar à realidade. Não podendo ficar mais perplexa, Wren aparece logo atrás e eu o encaro pasma.

— Pai, você poderia ao menos pensar de forma sensata agora? – Ele pergunta ao homem que se aproxima de mim segurando meu braço com violência me fazendo levantar.”

— Hannah... O que você está fazendo aqui? – Sua pergunta demonstrava os mesmos sentimentos que eu tinha em relação ao notar a sua presença ali.

— Essa pergunta deveria ser minha. Afinal, eu moro aqui. – Respondo e aquilo sai com tanta naturalidade que só agora noto que, eu chamei esse lugar de lar, meu lar, indiretamente. – Oh meu Deus! Você está todo machucado.

Caminho até uma pia suja, pegando um pedaço de pano limpo que achei em um lugar qualquer, e umedeço o tecido me aproximando do garoto. Quando estou a um palmo de distância, observo suas expressões esperando delas, alguma permissão para ajudá-lo e como ele não protesta, levo aquilo como um sim e meus olhos voltam a dar atenção aos machucados. Minhas mãos seguram o pano com força, mas meus dedos são delicados ao tocá-lo e limpar seus machucados mais profundos.

— Não precisa fazer isso. Pelo menos não depois do meu pai ter tentado te matar.

— Mas eu não sou seu pai. E eu certamente não sou você também. Só porque me desejaram mal, não quer dizer que eu tenha que corresponder a esse sentimento.

— Você sempre foi assim, não é? Simplesmente não consegue desejar mal a uma pessoa. – Comenta quase em um sussurro como se falasse consigo mesmo. Sorri fraco terminando de limpar seus ferimentos em silêncio.

— Foi o Logan que te colocou aqui? – Questiono cortando aquele assunto e seus olhos azuis me analisam.

— Eu não sei se...

— Responda. – Exijo.

— Sim.

— Por quê? Foi ele quem te espancou e machucou desse jeito também? – Ouço um barulho alto vindo da porta do fundo da mansão e a risada estridente de Taylor. Era incrível como se podia ouvir tudo daqui. – Preciso tirar você daqui.

— Você está louca? Logan te mataria. – Grita ele, tentando me impedir.

Pego uma das facas que havia ali e me aproximo dele. Respiro fundo antes de ficar nas pontas dos pés e aos poucos, cortar as cordas que o prendiam. Seu corpo, tão fraco agora, tomba próximo a mim e eu o segurei para que ele não caísse. Seus olhos observam os meus por alguns segundos até finalmente se recompor.

— Hannah. – Ouço os gritos estridentes de Lola como se ajudasse sua filha a me procurar.

— Precisa ir agora.

— O quê?

— Essas escadas levarão você a uma série de corredores, continue sempre em frente e irá chegar em um quarto branco. Será algo fácil para você porque eu tenho que ir por esse caminho, mas aí tudo complica porque terá que se virar.

— Hannah...

— As janelas do quarto darão a bela visão da praia, passe ainda sobre o telhado até a casa que há nos fundos. A distância entre uma e outra é mínima então acredito que para você, é fácil pular. Atravesse a floresta e chegará na praia, o local é amplamente aberto e te dará a chance de sair. – Comento ignorando sua interrupção.

— Como pode me dizer isso? – Pergunta ele completamente perplexo. – Meu pai está tentando te matar ainda, caso não saiba. Ele levou um tiro durante o ocorrido, mas com a minha ajuda, conseguiu sair do bordel com vida. E agora, para ele, encontrar você se tornou uma questão pessoal.

— Sei que não contaria.

— O que te faz pensar...?

— Porque nós estudamos na mesma escola desde que me entendo por gente. Eu já tive uma queda por você e com isso minha rotina naquele lugar era observar seu jeito de agir, sorrir e falar. Eu te conheço tempo o suficiente para saber que jamais contaria isso ao seu pai, principalmente depois de eu ter te ajudado. – Digo dando de ombros. Ele solta um riso fraco e só então noto que era a primeira vez que eu dizia a ele os meus antigos sentimentos. É lógico que ele sabia, talvez todo o colégio soubesse, mas eu nunca admiti olhando em seus olhos e tudo mais.

— Obrigado. – Sussurra ele e partimos para longe dali.

Nos despedimos assim que chegamos no quarto e após sua ajuda a colocar a estante no devido lugar. Observo ele partir por um bom tempo quando ouço Taylor abrindo a porta e sobressalto sentindo meus batimentos se acelerarem de susto.

— O que está fazendo aqui? – Pergunta e eu aponto para a estante de livros deixando que ele falasse por si só considerando que meus lábios trataram de ficar completamente imóveis. Ela sorri e caminha até um livro. Coincidentemente, aquele que eu havia pegado agora a pouco. – Esse aqui é muito legal. Recomendo.

Sorri educadamente ainda sentindo meu coração subir pela minha boca e saímos do quarto voltando para o meu, onde eu tomei um banho relaxante e coloquei uma roupa fresca. Descemos as escadas e fomos para sua casa, pois Taylor tinha inventado de fazer uma maratona de filmes de romance. Os filmes baseados nos aclamados livros de Nicholas Sparks me faziam chorar. E minha querida amiga tinha que ser fã justamente desses filmes que fazem de mim, uma verdadeira manteiga derretida. Lola havia nos preparado uma pipoca doce e Meredith já chegou me olhando feio e se trancando no quarto.

— Hannah... Logan exige sua presença em sua casa. – Anuncia Kyle assim que entra. Engulo em seco sentindo todo o meu corpo tremer.

Sorri docemente e saio ouvindo os protestos de Taylor. Meus passos são lentos. O que eu menos queria era chegar a tempo. Talvez ele ainda não tivesse entrado no porão. Isso. Talvez ele simplesmente tenha chegado e quisesse anunciar algo com aquele velho tom grosseiro. Abro a porta que dava na entrada da casa e vejo Logan na mesma posição de noite passada: braços cruzados observando a bela vista que era o lado de fora de sua moradia.

— Queria falar comigo? – Pergunto me segurando para não gaguejar.

— Vou ser claro e direto Hannah... Você entrou no porão? – Aquilo havia me pegado de surpresa e eu não havia preparado nada para aquele momento depois de ter colocado em minha cabeça que aquilo não era nada do que eu pensava. Eu estava errada.

— Como assim? Eu estava proibida de entrar lá. – Digo soltando a risada mais forçada da minha vida.

— Então me diga como Wren conseguiu alcançar um punhal que estava a três metros de distância e cortar as cordas que o amarravam?

— Não sei do que...

— Deixe de ser cínica, droga. – Grita ele finalmente se virando para mim.

— Se eu confirmasse isso, faria alguma diferença? Você... Por acaso... Me mataria? – Pergunto sentindo um nó em minha garganta.

— Por sua culpa, jamais ireisaber quem contratou o pai dele para te matar.

— Espera... Era por isso que havia prendido ele?

— E por acaso haveria outro?

— Andrew pode ter morrido, mas ele me pagou bem antes disso e nosso acordo foi claro... Não importa o que aconteça, pegue a garota e use-a como isca. Seja útil e me ajude porra. – Grita o grandalhão ao meu lado me chacoalhando enquanto falava. Seus olhos eram azulados como os de Wren, a diferença era seu cabelo loiro.

— Andrew. – Sussurro e os olhos de Logan se arregalam. – O nome do homem que contratou o pai de Wren para me matar.

— Como pode saber disso? – Sua voz agora era em um tom suave, sem toda aquela falta de educação.

— Ele me prendeu em um cômodo e quando Wren tentou impedi-lo de fazer burrada, acabou soltando algumas coisas, inclusive quem o contratou. E, na verdade, não foi para me matar. Queriam me usar de isca. Segundo eles, eu sou filha de... Alguém importante. – Digo deixando as palavras soltas no ar, e sem comentar sobre a parte em que meu pai era mafioso como ele. Talvez fossem inimigos e se odiassem. E minha situação ficaria pior do que eu imaginava.

— Alguém importante? Quem?

— Não faço a mínima ideia de quem seja.

— Ótimo... Eu devia saber. Andrew sempre tem uma carta na manga. Mas que droga. – Grita Logan e então ele me observa. – Sei que estudou com Wren há um bom tempo. E você vai me ajudar a encontrá-lo.

— O quê? Espera... Logan... – Suas mãos seguravam meus ombros me guiando para fora da mansão e me colocando dentro de seu carro. Coloco o cinto de segurança e ele entra ligando o automóvel e pisando fundo no acelerador. – O que você vai fazer com ele?

— Vou matá-lo. E você... O que vai fazer em relação a isso?

Me encolho no banco do carro observando sua expressão séria de como quem diz que...

Eu fiz merda.