Era a primeira vez que eu encarava o espelho. Tento evitar ele de todas as maneiras possíveis. Aquele simples objeto, podia realmente mudar a vida de alguém. As patricinhas do colégio, os melhores do time da escola...

Todos eles estão aí para comprovar isso.

O ego era tão grande que eu ainda me perguntava como aquilo caberia em um único cômodo, mesmo que seja grande como a quadra esportiva.

Meu olhar caminha pelo meu penteado, a maquiagem na medida certa e por fim no vestido longo de cor bege, com mangas e completamente rendado. Minha mãe, Chloe, aparece com um cinto preto, me ajudando a dar mais um detalhe a roupa. Ela tinha cabelos ruivos, quase castanhos, e olhos extremamente verdes. O rosto quadriculado e o corpo fino, sem muitas curvas. As grandes olheiras abaixo de seus olhos demonstravam seu cansaço.

Nas últimas semanas, durante o dia, quando tinha tempo para dormir, ela comprou tecidos e fez meu vestido.

Abraço-a com força demonstrando meu agradecimento. Era desgastante ver ela assim. Mas não é todo mundo que nasce em um berço banhado a ouro ou que ganha oportunidades na vida. Minha mãe nunca teve nenhuma.

— Minha filha... – Sua voz é suave e ela força um sorriso. – Você está tão linda.

Seus lábios se aproximam de minhas bochechas, me dando um breve beijo estalado. Ela já estava vestida para ir ao trabalho, e mesmo sabendo que Charlie, seu patrão, iria se estressar ao notar seu atraso, ela não se importou em me ajudar.

Minha mãe era prostituta, e ao contrário do que muitos pensam, tenho orgulho dela.

Ela me cria sozinha desde que me entendo, e até desisti de descobrir algo sobre meu pai. Uma raiva desconhecida toma conta dela, demonstrando o quanto odeia quando toco nesse assunto. É lógico que não é tão difícil adivinhar. Uma noite longa com um homem desconhecido por dinheiro.

Mas confesso que, algumas vezes, me pergunto quem seria ele.

— Graças a você. – Murmuro retribuindo o sorriso.

— Então, quem será seu par esta noite? É um baile de formatura e até agora não toco nesse assunto. – Diz cruzando os braços.

— Eu não toquei nesse assunto porque eu não vou com ninguém. – Suspiro pesadamente. – Mas não significa que não conseguirei me divertir, não é?

— Mas é claro... É claro que irá se divertir muito, com ou sem um par. – Suas mãos acariciam meus cabelos e ela sai do quarto.

Morávamos em uma quitinete, nos fundos do bordel onde todas trabalhavam. Era um local bastante confortável a não ser pelos gemidos que eu e as filhas de outras prostitutas éramos obrigadas a ouvir a noite já que os quartos eram no andar de cima. A quitinete tinha apenas três cômodos e um pequeno banheiro. O maior deles compunha a sala de TV e a cozinha.

— Tem certeza que a Stella não se incomoda se eu me atrasar por duas horas? – Pergunto baixinho quando já estávamos na rua esperando pelo meu táxi. Havia dois anos que eu cuidava do filho de Stella, melhor amiga da minha mãe.

— Fique tranquila, ela já conseguiu outra babá esta noite. – Sussurra.

— Mas, Carl pode ficar desconfortável em ter uma nova pessoa com ele e talvez...

— Querida. – Minha mãe me interrompe. – Se isso for alguma desculpa para não ir, simplesmente diga que não quer.

Eu realmente não queria ir ao meu baile de formatura. Temia com todas as minhas forças o que podia acontecer lá. Mas eu sabia que isso não poderia me impedir de me divertir.

— Com licença. Não está trabalhando hoje Chloe? Sabe que é minha preferida de todas nesse bordel. – Sussurra um homem maliciosamente após se aproximar dela. Faço uma careta. Minha mãe me avalia por alguns segundos, se perguntando se eu me importaria caso ela fosse.

— Está tudo bem, mãe. – Digo baixinho e ela me abraça uma última vez antes de entrar, puxando o homem para dentro do local.

Não demorou muito tempo para que o táxi chegasse. O frio que estava em minha barriga pareceu se aglomerar em cada canto do meu corpo, podia sentir o meu medo, mesmo que ele estivesse há quilômetros de distância. Observo a paisagem do lado de fora. Observo as folhas das árvores balançando de acordo com o vento. A escuridão por entre seus troncos e o que escondiam atrás de cada uma delas. Talvez uma casa. Ou uma pessoa. Gostava de imaginar aquilo. Distraía-me o bastante para se esquecer do medo e escondê-lo em uma máscara formada pelo sorriso.

O motorista estaciona bem em frente ao baile e eu conto as moedas enquanto o mesmo espera pacientemente. Demoro mais tempo do que eu pensava para contá-las e quando finalmente consigo, ouço-o resmungar pelas minhas costas enquanto desço de seu automóvel. O colégio estava muito enfeitado. E não era para menos já que cada estudante havia contribuído para que tudo ficasse perfeito. Não é todo dia que nos formamos e terminamos mais uma fase de nossas vidas. Caminho vagarosamente. Acho que nunca vou me acostumar com um salto alto, é mais desconfortável do que eu pensava. Alguns fotógrafos estavam na entrada então chego ao salão cabisbaixa podendo ainda ver os flashes por entre meus fios ruivos.

Elisa, uma das garotas que provavelmente mais me odeia na face da Terra, se aproxima de mim com um sorriso educado. Arqueio a sobrancelha. Era a primeira vez que a via sorrir, ou melhor, primeira vez que a via sorrir e... Esse sorriso... Ser direcionado a mim. Seu rosto era oval, mas suas bochechas davam a impressão de um formato redondo. Seus lábios eram muito finos e seu olhar azulado era extremamente penetrante em função do delineador exagerado nos olhos. Seus fios loiros estavam presos e jamais imaginei viver tempo suficiente para vê-la usando coque.

— Hannah... Imaginei que não viesse. Estava agora a pouco comentando sobre isso com minhas amigas. Espero que se sinta confortável aqui. – Sua voz era muito fina e seu sorriso se aumenta ainda mais me deixando completamente desconfiada.

— Obrigada, eu acho. – Arqueio a sobrancelha lhe devolvendo um sorriso cínico. Mas não tão cínico ao ponto de causar má impressão. O que eu menos precisava agora, era disso.

— Seu amiguinho não vem hoje? – Suspiro pesadamente enquanto ela me conduzia entre a multidão de adolescentes. Alguns já bêbados e outros mais preocupados com qual garota iriam pegar esta noite.

— Ele preferiu ficar em casa. – Digo um pouco mais alto após notar o quão perto estávamos do palco e, consequentemente, do som.

Elisa assentiu demonstrando ter entendido e noto a presença da diretora segurando dois cartões.

O rei e a rainha do baile. Típico. Reviro os olhos não acreditando que teria que aturar tal tradição, desejando com todas as forças não estar ali. Ou pelo menos não estar ali sozinha. Estava sendo uma droga ver todas as garotas com seus pares que, eventualmente, tentavam arrancar dela sorrisos e olhares agradecidos com elogios fajutos.

— A vencedora, e também rainha do baile é... – A longa pausa da diretora parecia que tudo aquilo fosse realmente um suspense. Como se ninguém soubesse que quem ganharia era Elisa. – Hannah Thierry.

Meus olhos se arregalam e sinto minhas bochechas arderem ao notar todos os olhares direcionados a mim. A diretora arqueia a sobrancelha e eu sabia que ela se perguntava “isso está mesmo certo?”. Quer dizer, eu nunca ganhei nada na minha vida e quando a deslocada da turma ganha um título que é tão importante para as outras, você só pode esperar o pior. Eu já havia visto isso em filmes e não teve um final muito feliz. O sorriso largo de Elisa só comprovava todas as minhas hipóteses e engulo em seco. A saliva quase rasgando minha garganta.

Caminho quase que contando os passos até o palco e espero a diretora anunciar quem seria o rei. Então os lábios da diretora se movem e pronuncia o nome daquele que definitivamente, faz minhas pernas fraquejarem e meu olho esquerdo piscar freneticamente por tamanho nervosismo. Era bem capaz de eu estar fazendo aquilo agora e não estar notando. Wren é definitivamente o garoto mais lindo que eu já vi em toda a minha vida.

E, algo que provavelmente seja óbvio, mas eu não tenha destacado, ele é o popular da turma. Melhor em tudo e o astro do futebol americano. Havia fofocas pelos corredores de que ele havia recebido uma oportunidade de se tornar jogador profissional. Outra coisa típica nos colegiais: a esquisita sempre se apaixona pelo popular. Isso provavelmente é lei nos Estados Unidos e eu não estou por dentro.

Seus olhos. Oh meu Deus... Seus olhos! Eram do mais intenso azul. Poderia facilmente mergulhar naquela imensidão azulada e jamais enjoaria. Os cabelos castanhos e o sorriso... Aquilo é definitivamente a coisa mais bonita existente nele. Na verdade, tudo nele era bonito. Mas nunca conversamos. A não ser quando eu tinha nove anos e deixei cair sorvete em sua camiseta e ele me chamou de pentelha. Aliás, esse se tornou meu apelido. E eu deveria odiá-lo por ter sido “batizada” por esse apelido. Mas era impossível. Wren era o sonho de qualquer garota do colegial. E ele estava perto de mim. Muito perto de mim. O que eu faço? Como reajo? Ele está me encarando. Seus incríveis olhos azuis estão me encarando. Reaja Hannah, meu consciente praticamente gritava. Não diga algo idiota, não diga algo idiota, não diga algo idiota.

— Oi. – Sorri abobalhadamente, acenando com a mão. É normal parecer uma idiota na frente de quem está a fim? Está aí algo que provavelmente nunca saberei. Não tenho amigos no colégio.

— Oi. – Ele sorri para mim. Wren sorriu para mim. Um milhão de borboletas são liberadas em meu estômago e suas asas batem desesperadas me causando sérios calafrios. – Festa bonita não é?

— Sim, a festa está simplesmente incrível assim como... – A voz desaparece em minha garganta e ele dá uma risada. – esse terno. Cai bem em você.

— Obrigado, eu acho. Você também não está nada mal.

— Vida longa ao nosso rei Wren e a nossa rainha Hannah. – Ouço a diretora dizer batendo palmas. E ela é a única a bater palmas. Geralmente, todos vão a loucura com toda essa tradição. Um vinco se forma em minha testa e encaro ele ali do meu lado. Parte de mim queria que eu aproveitasse.

Então se ouve uma vaia ao longe, gerando risos em cada canto da festa. Minha respiração se torna descompassada enquanto ainda escuto mais vaias se formar. Wren me encara confuso, como se procurasse alguma resposta minha, mas eu estava tão confusa quanto ele. Uma nota de um dólar cai sobre o palco e observo Elisa com o sorriso mais largo do mundo para mim. Um garoto joga mais algumas notas no palco e sorri maliciosamente.

— Dizem que filho de peixe, peixinho é... Por que não pega essas notas e me encontra nos fundos da festa gostosa? – Sua pergunta faz todos rirem e jogarem mais notas no palco.

— Eu também quero. – Gritavam alto, as vozes de cada um ecoando em meus ouvidos como dinamites, prestes a explodir dentro do meu cérebro e sabe Deus o que poderia acontecer depois.

Meus pés se movem, descendo os dois degraus que me separavam da multidão, eu me sentia fraca. Não que eu já não estivesse acostumada com aquele tipo de brincadeira na qual eles achavam tão divertido, mas eu esperei que pelo menos hoje eles dessem um tempo. Esperei que ao me elegerem rainha quisessem apenas sair do colegial sem parecerem imaturos. Eles abriam espaço, me deixando caminhar livremente pelo salão.

A cada passo, podia se ouvir uma ironia diferente. Sinto alguém segurar meu vestido, me fazendo tropeçar e vê-lo ser rasgado pela metade. Semanas inteiras desperdiçadas por esses idiotas. As lágrimas em meus olhos se acumulando enquanto eu me levantava. Mais alguns passos, só mais alguns passos... Minha mão encosta na grande porta metálica, abrindo-a vagarosamente, as risadas se aumentam e eu levanto o rosto somente para ter a chance de observar um grande balde cheio de tinta roxa, de cheiro nojento, cair sobre minha cabeça. Wren se aproxima de mim, segurando meu braço.

— Vem, eu vou te tirar daqui... – Empurro ele com toda a força que ainda restava em mim e encaro seus olhos. O medo, a angústia... O arrependimento estava estampado em seu rosto. Ele sabia. Eu podia sentir cada pedaço de seu corpo pedir desculpa mesmo que ele não movesse os lábios. Ele nem precisava.

Consigo ver a diretora se aproximar, um olhar apavorado no rosto. Suas mãos se moviam, mas ela não fazia nada. Estava tão petrificada quanto eu. Seu rosto era quadriculado e seus fios castanhos estavam ondulados. Seus lábios em forma de O, e seus olhos arregalados. Ela me puxa para longe da multidão que ainda vaiava, gritava e ria pelas minhas costas.

— Está tudo bem querida. – Murmura quando já estávamos em seu escritório. Era amplo e confortável, havia um sofá de cor clara com vários travesseiros de cor verde que complementavam a paisagem do lado de fora. A mesa não era tão grande e havia uma grande prateleira de livros atrás dela. – Vou ligar para sua mãe e tudo ficará...

— Não. – Dou um pulo e minha voz sai como um grito abafado. – Por favor, ela está... Trabalhando. – Encaro o chão e ela assentiu entendendo.

— Eu posso te levar para casa então... Tudo bem?

Assenti baixinho. A senhora Cooper termina seu trabalho em poucos minutos e rapidamente pega as chaves de seu carro. Saímos pelos fundos do colégio. A última coisa que eu queria ver era a cara de todos eles ali, comentando sobre o ocorrido. As mangas de meu vestido estavam completamente rasgadas e eu sentia frio. Sento em seu banco de couro, e passo o caminho todo me desculpando por sujar seu automóvel de tinta roxa e ela dizendo que tudo estava bem. Era incrível o jeito dela tranquilizador que ela achava passar para seus alunos com essas palavras.

Estava tão difícil notar que nada estava bem? Que o fato de eu concordar com ela era só uma maneira de mentir até para mim mesma. Quando dou por mim, ela já estava estacionada em frente ao bordel. Seus olhos analisando atentamente o local. Saio de seu carro agradecendo sua atenção e entro por um corredor sujo onde algumas prostitutas que trabalhavam nas ruas eram obrigadas a fazer o seu trabalho e abro uma porta amadeirada.

Ela dava para uma grande sala de estar onde as garotas conversavam nos seus horários de descanso. Algumas notam minha presença e se levantam em desespero até mim. Stella é uma das primeiras a me alcançar em um abraço confortante. Deixo todas as minhas lágrimas caírem em desespero em meio de soluços altos.

— Vou mandar chamar a sua mãe e termino o trabalho dela. – Sussurra Stella.

— Não, por favor. Ela me perguntaria o que houve e eu não acho que eu tenha coragem de contar para ela o motivo. – Digo baixinho tentando inutilmente engolir o choro.

— Eu posso ficar com ela. – Murmura Allan me puxando até as escadas. Ele era meu melhor amigo. O único na verdade.

Era filho de Charlie, o patrão das garotas e praticamente crescemos juntos. Consequentemente conversávamos bastante e quando notamos, já estávamos próximos o bastante para nos considerar grandes amigos. Subimos sabe se lá quantos lances de escada. Entrego a chave da quitinete para ele que rapidamente abre, e eu entro trancando a porta.

— Allan, obrigada de verdade. Mas você não precisa...

— Nem começa. Você sempre ficou do meu lado em situações difíceis, vai sonhando que eu não irei sair daqui tão cedo. – Ele sorri me passando confiança. Seu cabelo era castanho claro, quase que um dourado. E seus lábios bem desenhados.

— Eu estou um caco. – Suspiro pesadamente passando a mão pelo meu cabelo completamente sujo de tinta. – Acho melhor eu tomar um banho...

— Enquanto isso eu separo um filme para assistirmos e faço pipoca. Nada melhor do que algo assim para acabar com a tristeza e deixar ela de lado. – Grita animado e eu dou uma risada assentindo.

— Tente não queimar a cozinha. – Sussurro entrando no banheiro do meu quarto e arrancando a roupa de meu corpo.

Me encaro no espelho pela segunda vez hoje. Meus cabelos estavam molhados e completamente encaracolados, sujos de tinta. O delineador escorrendo por todo o meu rosto. Minhas mãos ainda tremiam. Caminho até o chuveiro e ligo-o, colocando a temperatura no gelado. Eu amava água gelada. Sentir aquele calafrio e se preocupar mais com o frio que está sentindo do que com o ocorrido desta noite. Minhas mãos passeiam pelos meus cabelos com cuidado, tirando a tinta e o cheiro ruim que a mesma transmitia. Não demoro muito tempo no banho. Banhos demorados geralmente me fariam lembrar sobre o assunto que tanto quero esquecer então, provavelmente eu choraria, e eu odeio esse drama interno. Coloco um pijama confortável e saio do quarto dando de cara com Allan colocando um filme e deixando um grande balde de pipoca na mesa de centro. Sento-me no sofá e reviro os olhos assim que o filme começa.

— Zumbis de novo não... – Balbucio e ele dá uma risada se sentando ao meu lado.

— Não entendo porque você não gosta de zumbis. – Vocifera me puxando para mais perto e eu encosto minha cabeça em seu ombro.

— Não entendo porque você gosta. – Digo alto sorrindo. Ele deposita um beijo em minha testa e eu respiro fundo.

— Desculpe não ter te acompanhado no baile... Eu precisei ajudar meu pai em algumas coisas hoje. – Ele respira fundo e eu me viro para ele.

— Não foi sua culpa. Foi ruim, mas acredite, estou melhor agora. – Sorri tentando demonstrar confiança, mas estava aí uma coisa na qual eu era péssima.

Ele volta a prestar atenção no filme. Sua cabeça encostada na minha, algumas gotas de água ameaçando a chuva forte que estava por vir. Meus olhos começavam a se pesar e minha respiração diminuir. O sono chegando devagar e tomando conta de mim.

— Você vai dormir... Como sempre. – Murmura ele me assustando e arqueando a sobrancelha desafiadoramente.

— Não, eu não vou dormir. – Digo baixinho.

— Sim, você está quase dormindo.

— Não, eu não estou...

E ele não podia estar mais certo porque não demorou muito para que eu pegasse no sono.