A Herdeira Da Máfia

2 II. Last Day Here.


Essa era uma das únicas maneiras que conseguia me desligar do mundo exterior. Lentos passos que faziam toda a diferença. O estúdio de dança ficava no antigo porão do bordel. Quase ninguém ia lá para treinar, a não ser que as novatas ainda não tenham decorado os movimentos sensuais que deveriam fazer no palco. Elas não se importavam com minha presença ou talvez pensassem que ser melhor amiga do dono desse estabelecimento me dava alguns créditos.

Novatas...

A maioria das músicas que havia no aparelho de som do cômodo era completamente diferente do meu gosto musical peculiar, então sempre tinha que levar um CD. Eu amava dançar. Os vários espelhos na parede me davam uma ampla visão de mim mesma e não estava nada apresentável considerando que eu havia passado a manhã inteira ali. Parecia que jamais me cansaria daquilo. Respiro fundo ao tomar um pouco de água da minha garrafa térmica. Sentia todo o meu corpo implorar para que eu voltasse para meu quarto e dormisse por pelo menos a tarde inteira, quando tudo que eu mais queria era simplesmente continuar ali dançando mais e mais.

— Cuidado aí bailarina, talvez seja hora de descansar. – Sorri me virando na direção daquela tão conhecida voz. Allan estava encostado no batente da porta. Pego meu CD e a garrafa saindo dali e sendo acompanhada por ele.

— Bom dia para você também. – Suspirei pesadamente aceitando o lenço que ele me estendia e enxugando o suor que escorria por meu rosto.

O Sol havia finalmente saído de seu esconderijo e se mostrava vivo no céu azulado. Realmente fazia um bom tempo que eu estava dançando. Subo os milhares de degraus da escadaria até finalmente chegar na porta da quitinete. Noto a porta entreaberta e encaro Allan mordendo o lábio inferior.

— Ela está aqui não é? – Perguntei baixinho estremecendo sem nem ao menos esperar sua resposta. Era notável que ela estava.

Acordei o mais cedo possível a fim de evitá-la. Os rumores de como sua filha chegou noite passada havia se ampliado diante desses vários corredores e eu não tinha coragem de confirmar tal boato a minha mãe. O motivo do ocorrido seria pior que um tapa em seu rosto e eu odiaria isso. Provavelmente doeria mais em mim do que nela.

— Ei... Ela precisa saber. – Allan me incentiva enquanto volto à realidade assentindo.

— Me deseje sorte. – Sussurro lhe dando um rápido abraço.

Continuo plantada no corredor observando meu melhor amigo se afastar. Ele já havia virado o corredor e não havia sinal nenhum de sua presença ali. Sinto meus olhos ficarem marejados... Eu simplesmente não consigo.

Poderia mentir e dizer a ela que não foi nada ou que eu levei um fora de algum garoto, mas Chloe me conhece melhor do que qualquer pessoa no mundo e eu não sou uma boa mentirosa, o que pioraria ainda mais a situação. Algumas garotas passam pelo corredor e me cumprimentam educadamente, voltando rapidamente aos seus assuntos rotineiros. Abro a porta devagar depois de finalmente sentir um vestígio de coragem surgir.

— Pensei que nunca iria entrar. – Quase caio para trás ao ver minha mãe ali, sentada no nosso pequeno sofá velho de cor marrom. Seus olhos demonstravam o mais puro cansaço, como se estivessem encarando a porta sem piscar a um bom tempo.

— Oi. Pensei que estivesse... Dormindo. – Minto com um sorriso amigável no rosto me sentando ao seu lado. Era notável que ela se segurava para não chorar. Não era necessário nenhuma explicação. Infelizmente, há muito tempo, ela havia presenciado uma dessas humilhações, mas acreditou quando menti ao dizer que era a primeira vez que aquilo acontecera.

Saio da sala ainda ouvindo as risadas de Elisa em minhas costas, podia ouvir seus passos alguns metros atrás de mim, me seguindo. Fecho os olhos com força desejando poder não estar mais ali. Eu odiava aquele colégio. Era quase impossível a possibilidade de eu poder odiá-lo mais.

Meu consciente trata de me manter informada dos dois anos que ainda faltavam para que eu nunca mais visse esse lugar na minha vida. Só mais um pouco Hannah. Só mais um pouco. Abro meu armário apressadamente, pronta para pegar minha bolsa e sair dali. Me afasto assustada ao ver várias camisinhas caírem no chão. Meus olhos se arregalam e agora todos me encaravam com sorrisos maliciosos.

— É bom se cuidar querida... Antes que engravide sem querer e seja obrigada a criar como a sua mãe. – Encaro Elisa. Suas palavras eram ásperas e ela parecia saborear a forma como me atingiam. – Aceite Hannah. Você é uma perdedora... Assim como ela.

— Ei. – O grito de Chloe ecoando pelo corredor do colégio me fez estremecer. Eu só posso estar tendo um pesadelo. Nunca havia me sentido tão fraca na frente de alguém como agora.

Me sentia completamente nua enquanto todos voltavam a sua rotina e fingiam não estar participando de toda aquela palhaçada. Elisa me lança um olhar rápido, antes de se virar e sair dali. Minha mãe não sabia o que dizer e eu me xinguei mentalmente antes de pegar minha bolsa, fechar o armário e quebrar a distância entre nós duas.

— Filha... Seja sincera comigo. – Sua voz praticamente se prendia a garganta e eu engulo em seco. Meus lábios travam, não demonstrando a ela nenhuma confirmação sobre seu pedido, mas ainda assim, ela continua. – Aquela vez em que eu te busquei no colégio e presenciei aquela... Aquela... Humilhação. Não era a primeira vez não é? E pelo visto, não foi a última também.

— Está tudo bem... As aulas acabaram. Já enviei milhares de e-mails para várias academias de dança. O que quer que tenha ocorrido não importa mais. Nunca importou, na verdade. – Digo baixinho tentando passar ao menos um pouco de confiança.

— Oh meu Deus. – As lágrimas que ela tanto tentava esconder, agora saiam com facilidade e seus braços envolvem meu corpo protetoramente em um abraço confortante. Eu sabia que ela estava cansada e me sentia uma egoísta por querer prolongar aquilo a puxando para mais perto. Nunca imaginei precisar tanto daquilo quanto agora. Beijo seu rosto demoradamente e me afasto, limpando seu rosto. – Eu sinto tanto.

— Não deveria. – A interrompo me levantando. — Sei que odeia quando toco nesse assunto paternal, mas está óbvio que meu pai só passou uma noite com você e foi embora de manhã. Mãe, você poderia ter abortado. Sabia que não teria nenhum auxílio. Sabia que seria somente nós. E eu te amo por isso. Vai por mim, nada do que me disserem vai mudar o que penso sobre você. Agora vai descansar um pouco...

Sorri aliviada ao vê-la se levantar e caminhar em direção ao quarto sem protestar, deitando na cama já dormindo, praticamente. Fecho a porta vagarosamente e decido arrumar a cozinha depois da noite passada. Allan era um desastre e sempre fazia bagunça, mesmo quando é para ser feito uma simples pipoca... Eu até poderia citar o fato dele ser rodeado por funcionárias que fazem tudo para ele, mas aquele não era o caso.

Geralmente, ele até ajudava Charlie que, abusava da boa vontade do filho. Lavo as louças e, ainda não satisfeita, limpo o cômodo apesar de tê-lo feito recentemente. Tomo um banho rápido tentando ao máximo não fazer barulho e saio dali a procura dele, que estava jogando videogame, como sempre. Ele morava com Charlie em um grande casarão, atrás das quitinetes. A sala de TV tinha pouca iluminação e o sofá era o mais confortável do mundo. Pelo menos, da minha visão de mundo, que não era lá muita coisa.

— Como foi? – Pergunta ele ainda concentrado e eu me sento ao seu lado pegando outro controle e já ativando o personagem que ele havia criado para mim no jogo. Não que fosse fã e jogasse com ele sempre, mas Allan havia feito aquilo afirmando que um dia eu iria viciar e poderia se gabar por ter me apresentado tal “perfeição”. Nem um pouco exagerado...

— Poderia ter sido pior. – Sussurro começando a apertar vários botões sem ter idéia do que eu estava fazendo.

— Está apertando no botão errado. – Murmura e eu encaro o objeto em suas mãos tentando imitá-lo.

— Ih... Você morreu. – Digo ao observar a televisão.

— Errado, minha cara. Você morreu. Mas conseguiu apertar alguns botões, é um progresso. – Sua voz irritada me fez dar uma risada e eu lhe lanço um olhar de desculpa. – Pronta para outra rodada?

— Desculpe te decepcionar, mas eu tenho que ir para o colégio esvaziar o armário. – Minha voz simplesmente some ao respondê-lo. Allan se levanta já desligando os aparelhos e pegando as chaves do carro de seu pai.

— Vamos então.

— Allan...

— Eu não vou deixar você ir lá sozinha Hannah. Não depois de ontem. – Vocifera desapontado e eu assenti, me sentindo derrotada enquanto saíamos dali e íamos em direção ao carro.

Era a milésima vez que eu tentava convencê-lo de dar meia volta e me deixar ir sozinha até lá, mas tudo que eu recebia era um olhar debochado e uma palestra sobre o que ocorreu noite passada, algo que não passava de rotina, afinal, aquilo acontecia o tempo todo. Mas assim como todo mundo, Allan não sabia de tudo o que me rodeava quando eu entrava naquele colégio.

Já estávamos estacionados em frente a ele e vários alunos estavam lá esvaziando seus armários. O medo de ser humilhada na frente dele fazia eu me sentir como um pássaro fora do ninho, tentando inutilmente voltar para casa. Por que mesmo fui chorar assim que entrei na grande sala de estar? Se eu tivesse me segurado por mais alguns segundos.

— Posso ao menos entrar sozinha? – Questiono e ele arqueia a sobrancelha pasmo por eu ainda tentar convencê-lo. – Prometo te chamar se alguma coisa acontecer... Por favor...

— Tudo bem. Mas se você demorar, eu vou atrás de você. – Allan murmura e eu lhe dou um beijo estalado na bochecha saindo do carro e correndo para dentro do colégio.

Todos os olhares se viraram para mim em um único instante e trato de encarar o chão e apressar meus passos em direção ao meu armário. Ouço alguns sussurros atrás de mim e respiro fundo tentando não surtar. Fazia um bom tempo que eu engolia as humilhações e as palavras de baixo calão e, confesso que, por ser o último dia que os verei, aquilo me dava certa coragem de dizer umas poucas e boas para cada um ali. Então eu vejo Wren. Seu olhar rapidamente se encontra com o meu e parte de mim se sentia completamente feliz por todo o encanto que eu tinha por ele ter se esvaziado.

Tão rápido como quando comecei a gostar dele. O sorriso desaparece de seu rosto e seus passos agora são lentos. Era como se ele estivesse pensando em parar e falar comigo. Nego com a cabeça a partir do momento em que tenho a confirmação de que ele estava para fazer isso, o que o faz parar imediatamente.

Lanço um sorriso educado e Wren retribui como todo jovem galanteador. Seus amigos o puxam para longe animados com alguma coisa e eu volto a abrir meu armário. Completo vazio. Vejo os outros adolescentes, todos pouco se importando com os livros e retirando apenas as memórias que agora não passavam de fotos e recados fofos que deixavam um para o outro. Cada um com uma história diferente para dizer quando forem perguntados do que tanto sentem falta no colegial. Pego todos os meus livros e medalhas de melhor aluna e fecho o armário. Elisa passa por mim e tento me desviar de suas mãos que tratam de alcançar os objetos que eu segurava e jogá-los no chão. Nunca senti tanta raiva dessa garota. Respiro fundo me abaixando para pegá-los quando ouço alguém pigarrear atrás de mim. Um silêncio se instala por todo o corredor e dou de cara com Allan atrás de mim encarando a garota loira a minha frente em fúria.

— Não notou que deixou cair os livros da garota? – Eu conhecia aquela voz. Era o tipo de voz que ele usava para esconder a raiva que estava sentindo.

— Allan, está tudo...

— Não ouse se abaixar para pegá-los Hannah... Quem derrubou foi essa loira horrível aí, não você. – Grita ele me interrompendo assim que me vê pronta para me abaixar e pegá-los do chão. Seguro seus braços tentando tirá-lo dali, mas ele me impede.

— O que foi que você disse? – A pergunta dela saiu afiada e suas amigas encaravam Allan como se ele tivesse cometido um crime.

— Nada além da verdade. – Retrucou imediatamente a fazendo ficar boquiaberta.

— Desculpe querido, mas acho que não tem reparado muito na sua namoradinha ridícula...

— Mil vezes ela do que você. – Sua resposta foi como um soco na cara de Elisa que rapidamente me encara como se esperasse alguma reação minha. Podia apostar que ela esperasse que eu a defendesse, mesmo depois de tudo que ela havia me feito. Allan se abaixa, pega os meus livros e me arrasta para longe dali. – Da próxima vez, seja mais educada. Você não é melhor do que a Hannah só por causa da sua conta bancária.

Assim que ele fecha as grandes portas atrás de mim, ouço os gritos raivosos de Elisa e encaro Allan com as sobrancelhas arqueadas.

— Quer falar sobre isso? – Pergunto baixinho e ele me encara descrente enquanto entrávamos no carro.

— Talvez outra hora... Você demorou. – Respondeu piscando para mim e eu sorri agradecida pelo que ele havia feito, apesar de ainda achar desnecessário.

Não trocamos uma palavra durante todo o trajeto de volta para casa. Meus olhos revezavam entre a paisagem do lado de fora e o olhar atento de Allan no trânsito. Queria por alguns segundos, poder saber o que ele estava pensando. Infiltrar naqueles pensamentos tão privados e procurar as respostas para todas as minhas dúvidas que envolvia ele agora.

Saio do carro já em direção ao beco do bordel que dava para os fundos, onde as quitinetes ficavam. Subo as escadas e estranho todo aquele vazio. Não havia ninguém nos corredores, nenhum barulho, nenhuma fofoca correndo solta. Um vinco se forma em minha testa e meus olhos se arregalam ao ver um homem se aproximar apontando uma arma na cabeça de Allan que paralisa no chão me encarando atordoado.

— Calada ou eu atiro no seu amiguinho. – O homem diz antes que eu pudesse abrir a boca para dizer alguma coisa.

Engulo em seco.