A Herdeira
9 O desnudar dos sentimentos
O dia que se seguiu foi dedicado às finanças do reino, a fim de avaliar o caixa necessário para fazer frente a tantas demandas sociais.
Anita não entendia nada de contas, mas amava o Direito, por isso, deixou os números com Heitor e Augusto e tratou de ler os principais diplomas legais de Seráfia.
Descobriu que a abdicação de Jesuíno a Rei Augusto violava as leis serafianas e, justamente por isso, os revoltosos não a aceitaram.
Pelas leis de Seráfia a abdicação só poderia se dar de um ascendente para um descendente de sangue. Daí porque ela e Heitor foram chamados à sucessão.
Ela percebeu ainda que Seráfia, durante séculos, desde a fundação por Serafim D’ávila, contava com a mesma Constituição, apesar da evolução dos tempos.
Viu que até o atestado de virgindade da Rainha regente encontrava-se na Constituição e na lei civil.
Ela pensou que se tivesse o objetivo de realmente ser Rainha de Seráfia para a eternidade, faria uma nova Constituição.
Enquanto os homens estavam concentrados nas contas no gabinete real, Anita preferiu ir à biblioteca, onde encontrou os Códigos e também muitos livros sobre temas diversos, o que a encantou.
Ela passou o dia estudando as leis, jantou e retornou à biblioteca, agora com o intuito de desbravar os livros. Encontrou o melhor da literatura mundial. Foi separando livros e tinha vontade de lê-los todos de uma vez. Mas, começou por um romance francês.
Heitor foi se deitar tarde da noite. Ele e o avô Augusto se esforçaram em simulações de aplicação dos escassos recursos públicos, em vão. Estava aborrecido por ter trabalhado tanto sem nenhum resultado imediato.
O quarto estava escuro e ele não quis ascender a luz para não acordar Anita. Entrou pisando leve e dirigiu-se ao quarto de vestir, onde ascendeu a luz e colocou o pijama. Então, se lembrou que precisava das cobertas que estavam na cama com Anita.
Foi devagar até a cama e ascendeu um abajur, mas, para a sua surpresa, Anita não estava lá. Ficou preocupado e saiu pelo Palácio procurando-a.
Encontrou o mordomo Baltazar no corredor e perguntou:

— O senhor viu a Rainha Anita por aí?
— Não, vossa majestade. Mas, posso procurá-la, também posso acordar outros empregados para ajudarem nas buscas, afinal, uma Rainha perdida é algo para se preocupar.
— Não há necessidade. Não é para tanto. Eu mesmo vou procurá-la. Se não a encontrar, chamo o senhor novamente.
— Como queira, vossa majestade – fazendo uma reverência e se retirando.
Heitor se recordou que ao sair da mesa de jantar naquele noite, Anita informou que iria continuar seus estudos das leis de Seráfia na biblioteca e dirigiu-se para lá.
Encontrou a moça deitada sobre um livro numa mesa, dormindo profundamente. Ele sorriu diante da visão. Tentou chamá-la uma, duas, três vezes, mas ela tinha um sono realmente pesado e apenas murmurava coisas desconexas.
Heitor então se decidiu: Pegou a moça no colo, saiu da biblioteca com ela nos braços, subiu as escadas, chegou ao quarto e a depositou sobre a cama. Cobrindo-a com o lençol.
Admirou-a por uns instantes. Anita era realmente bela. Lembrou-se que o que ela tinha de linda também tinha de geniosa e que provavelmente acordaria o xingando se visse que ele a colocou na cama. Então, pegou suas cobertas e travesseiro e foi em silêncio para o quarto de vestir.
Enquanto isso, no Brasil, a família Peixoto Avignon de Toledo acabava de chegar ao Palácio do Governo de Pernambuco. Tiveram que driblar os repórteres ao desembarcar.
Sentiam-se em casa, porém, numa casa vazia sem a presença de Anita.
Jesuíno e Açucena ainda teriam chão pela frente. Já que chegando a Recife, rumariam para Brogodó, mas, como já se fazia noite, Dora e Felipe convidaram o casal para pernoitar no Palácio da Capital, o que foi aceito.
Anita acordou, espreguiçou-se e se deu conta de que não se recordava de ter ido para sua cama na noite anterior. Sua última lembrança era a leitura de um bom romance na biblioteca, já com os olhos pesados de sono. Seria ela sonâmbula?
Ainda divagava quando viu Heitor se aproximar:
— Bom dia, Anita! Dormiu bem?
— Sim, mas acordei confusa. Como eu vim parar aqui?
— Se eu te contar, é hoje que você arrebenta esse travesseiro de penas de ganso em mim – disse ele, rindo.
— Faço coisa pior se não me contar.
— Eu te trouxe, você estava ferrada no sono lá na biblioteca.
— Grata pela gentileza.
— Só isso, não vai me xingar ou me bater por tê-la carregado para cá?
— Heitor, você foi gentil, não tenho razão para ficar brava. Acho até que você merece um agradecimento.
Anita se aproximou dele e deu-lhe um beijo estalado na bochecha. O rapaz sentiu os lábios quentes dela no seu rosto, desejou tomá-los junto aos seus, mas se conteve, dizendo apenas:
— Obrigado.
— Eu que agradeço. Posso tomar banho primeiro?
— Claro, vai lá.
Anita levantou-se e correu para o banheiro.
Heitor ficou sentando na cama perdido em seus pensamentos. Pensou: “Temos que resolver a situação de Seráfia o mais rápido possível, Anita mexe demais comigo, mas jurei a ela que jamais a tocaria contra a sua vontade e tem sido cada vez mais difícil me controlar”.
Anita saiu do banho envolta apenas numa tolha e ele pensou: “Ela quer me enlouquecer, só pode ser isso”.
A moça parecia nervosa:
— A água esfriou! Preciso que você desça e peça para algum criado resolver isso.
— Eu posso dar um jeito nisso – falou Heitor, dirigindo-se ao banheiro.
Anita ficou esperando, mas parecia-lhe que o rapaz estava demorando demais e foi atrás:
— Heitor, se não sabe consertar isso, vá chamar o criado, eu preciso terminar o meu banho.
— Calma, estou terminando aqui.
Ocorre que o cano estourou e a água começou a jorrar sobre os dois. Anita soltou um grito, enquanto Heitor, nervoso, tentava conter a vazão.
Ela ergueu os braços e se esticou para fechar o registro e, nesse momento, a toalha caiu. Heitor até se esqueceu do cano e contemplou o corpo nu de Anita. Ela parecia-lhe perfeita como uma ninfa da mitologia grega.
Rapidamente ela recolheu a toalha e se enrolou novamente. Pediu desculpas sem olhar para Heitor e correu para o quarto.
Heitor teve a certeza de que quem precisava de um banho frio agora era ele e saiu rapidamente, quase correndo, para a suíte ao lado, onde também havia um chuveiro.
No café da manhã, Anita e Heitor estavam visivelmente constrangidos um com o outro e Maria Cesárea percebeu:
— Rainha Anita e Rei Heitor acordaram indispostos hoje?
— Trabalhamos muito ontem – justificou Heitor.
— E eu fiquei na biblioteca até muito tarde lendo – explicou Anita.
Rei Augusto disse:
— Vocês têm se esforçado demais já nos primeiros dias de reinado. Melhor irem com calma, se não acabarão doentes e reis não podem ficar doentes. Aprendi isso nos longos anos de reinado.
— Obrigado pelo conselho, vovô, vamos pegar mais leve.
Maria Cesária corrigiu;
— Vão ter mais parcimônia. É esse o vocabulário de um nobre.
— Está certo, tenho que aprender. Então, repito: Teremos mais parcimônia.
Um mês se passou desde então, sem parcimônia dos jovens no trabalho. Ambos já se sentiam exaustos, mas encontraram no trabalho uma fuga dos próprios sentimentos. Estava cada vez mais difícil para um e para outro a proximidade.
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