A Herdeira
27 O calor do nordeste
Anita caminhava na Fazendo colhendo os lírios do campo. Alguns dias haviam se passado desde sua forte crise depressiva provocada pelo telefonema de Heitor. Sabia que voltar para Seráfia seria inevitável, porém, só conseguia adiar essa decisão. Havia se afastado com a esperança de arrefecer os ânimos com Heitor e aconteceu justamente o contrário, sentia-se uma burra. Ainda era a Rainha de Seráfia e a mãe de Vitória, mesmo que não fosse mais a esposa de Heitor. Mas, como se daria isso? Nunca antes na história de Seráfia ocorrera um divórcio de reis. Ela ainda divaga a respeito de tudo isso, quando ouviu uma tosse forçada perto de si, virou-se e viu Júnior. Ele estava parado próximo a ela com um punhado de rosas vermelhas nas mãos e disse:
- Lírios são muito bonitos, mas apenas as rosas fazem jus a sua beleza – entregando o buquê para moça, que o tomou nas mãos e cheirou seu perfume.
- São muito bonitas e perfumadas, obrigada! Eu nem sabia que tinha rosas por aqui.
- Fica na parte dos fundos da Fazenda, quase chegando na Fazenda vizinha. Quer ir comigo lá ver as roseiras? São lindíssimas!
- O sol está ficando quente, já está quase na hora do almoço, melhor voltarmos para a casa da Fazenda.
- Vai ser rápido se formos a cavalo.
- Está bem, mas eu vou no meu próprio cavalo.
- Eu não a ofenderia lhe pedindo para que viesse no meu, sei a grande amazona que és.
Anita subiu no seu cavalo e Júnior no dele. O rapaz chicoteou o seu cavalo e se pôs a correr, gritando:
- Quero ver você chegar primeiro que eu!
Anita forçou os pés contra o corpo do cavalo em ambos os lados e o fez correr, acelerou mais que Júnior e chegou primeiro.
- Cheguei primeiro, Júnior! – rindo – ganho o quê?
- Eu perdi a corrida, mas ganhei seu sorriso, só por isso me sinto o verdadeiro vencedor.
- Sempre com esses galanteios.
- Desce aqui para eu te dar teu prêmio.
Anita desceu e Júnior a puxou para perto de si, fazendo cessar qualquer distância entre os corpos dos dois. Os seios dela sob a blusa de seda fina roçavam sobre o peito musculoso dele, sob a camisa semiaberta. Sem que ela tivesse tempo de ter qualquer reação, ainda tomada pelo susto, ele abocanhou seus lábios com paixão.
Tomada pela emoção do momento, Anita se entregou ao beijo e correspondeu. As suas línguas se encontraram numa dança frenética, cheia de desejo. Até que a moça caiu em si e o afastou, ofegante:
- Eu não te deixei fazer isso! Sou uma mulher casada e descente!
- Eu não perguntei se você deixava mesmo, mas você correspondeu e pareceu gostar bastante – dando um sorriso irônico.
Anita deu um tapa no rosto de Júnior, que continuou rindo. Subiu em seu cavalo e foi embora rapidamente. Chegou vermelha à mesa do almoço em família, seus pais repararam, mas ela disse que se devia ao dia muito abafado.
Mais tarde, sozinha com seus pensamentos, decidiu que o melhor mesmo era voltar para Seráfia e se resolver com Heitor, afinal, ele ainda era seu marido. Não conseguiu negar para si mesma que o beijo de Júnior lhe despertou desejos intensos. Deu-se conta de que Júnior era um rapaz muito bonito, na verdade, tão bonito quanto o seu pai biológico, com olhos de um azul profundo, pele clara e cabelos castanhos claros.
Ocorre que, o pai do rapaz, o que tinha de bonito, tinha de ruim, embora nada a levasse a crer que Júnior tivesse puxado o mal caráter dele também. Júnior sempre foi bem visto pela família e recebeu bons valores morais de seu pai adotivo, o tio de Anita: Fausto, irmão de sua mãe Doralice.
Anita não havia conhecido o falecido Coronel Timóteo Cabral, mas ouvira muito falar de suas maldades e de sua beleza, a irmã dele, Antônia, já havia lhe mostrado uma foto.
Antônia era casada com seu tio Inácio, irmão do seu pai Felipe, e juntos tinhas dois filhos adultos: Clara e Francisco.
Clara já era casada e tinha três filhos, ao passo que Francisco decidiu ser Padre e vivia para fazer caridade aos necessitados do nordeste, tal qual Inácio na sua juventude, embora não fosse Padre.
Ela resolveu parar de divagar, estava fazendo isso demais desde que regressara a Brogodó. Abriu a sua grande mala e começou a colocar as suas coisas dentro, no dia seguinte iria pedir ao motorista de seus pais que a levasse até a estação de trem, que dava na Capital, onde poderia comprar uma passagem de navio, de volta para Seráfia.
No jantar, comunicou aos seus pais a sua decisão. Doralice disse:
- Assim tão de repente?
- Ora, mamãe, estou aqui há mais de um mês, já passou da hora de eu voltar para casa. Já estou morrendo de saudade da minha filha e me sinto uma mãe relapsa por ter passado tanto tempo longe dela.
Felipe falou:
- Você está longe de ser uma mãe relapsa, minha filha, basta ver como Vitória lhe ama. Foi bom ter ficado esse tempo aqui, colocando a sua cabeça no lugar.
- Acho que ela saiu ainda mais do lugar – murmurou Anita.
Nesse momento, Júnior sentou-se à mesa:
- Boa noite, pessoal! Desculpem o atraso. Uma vaca entrou em trabalho de parto e tive que correr para o Centro de Brogodó atrás do veterinário. Mas, deu tudo certo. Temos na Fazendo mais um lindo bezerro.
- Que boa notícia, Júnior! – animou-se Felipe.
- Sim, tio, seu rebanho não para de crescer.
A cozinheira entrou com a copeira e ambas serviram o jantar. Depois, foram à sala ouvir um pouco de música na vitrola. Felipe tirou Doralice para dançar e Júnior convidou Anita:
- Me daria a honra dessa dança, milady?
- Acho melhor não, estou cansada e amanhã pretendo ir para a Capital ver quando sai o próximo navio para Seráfia e comprar a minha passagem, logo cedo, no primeiro trem. Acho melhor eu ir me deitar.
- Você já está voltando para Seráfia? – surpreendeu-se Júnior.
- Eu me demorei até demais, já passou da hora.
- Uma dança não vai tomar muito tempo do seu sono de beleza. Não sabemos quando voltaremos a nos ver. Seráfia fica muito longe! Não lhe custa me dar esse pequeno prazer essa noite.
Anita se convenceu e deu a mão para Júnior, que a conduziu para o centro da sala, onde Felipe e Dora dançavam coladinhos.
Anita sentiu a mão quente de Júnior lhe puxar pela cintura, aproximando os corpos. Uma onda de calor a invadiu e se sentiu ruborizar. Ele percebeu:
- A minha proximidade lhe constrange, querida prima?
- Nem um pouco, acontece que não estou mais acostumada a esse calor do nordeste brasileiro, em Seráfia faz muito frio. Como tenho pele muito clara, logo fico vermelha, ainda mais me movimentando na dança.
- Entendi – disse Júnior sorrindo com certa ironia.
A música acabou e Anita se desvencilhou de Júnior, aliviada.
- Quer que eu lhe acompanhe até o andar de cima, prima? – perguntou Júnior.
- Não há necessidade, faça cia aos meus pais, estou com pressa para me deitar. Boa noite a todos! – levantando a barra da saia e subindo as escadas apressada.
Ao entrar no quarto, Anita o trancou. Não sabia ao certo se tinha medo de que Júnior o invadisse ou se tinha medo dela mesma caso ele realmente fizesse isso.
No dia seguinte, Anita foi comprar a passagem, mas se entristeceu ao saber que o próximo navio só sairia em 3 semanas, pois fazia apenas uma semana que saíra o último com destino à Europa. Mesmo assim, comprou a passagem para o próximo. Teria que encarar mais 3 semanas em Brogodó, perto demais de Júnior.
Ao contrário das expectativas de Anita, Júnior se manteve afastado dela nas duas semanas que se seguiram. Ele a tratava com educação, mas sem galanteios. Anita estranhou e até sentiu falta da atenção especial que ele dedicava a ela antes. Num café da manhã em que o primo se ausentara para fazer compras na cidade, Anita aproveitou para indagar aos pais:
- O Júnior está comprometido? Teremos mais um casamento em breve na família?
Dora respondeu:
- Não, Júnior é um solteirão convicto, nunca o vimos com uma namorada firme. Mas, por que o interesse, minha filha?
- Nada, só curiosidade feminina. Pensei que talvez eu possa apresentar uma de minhas amigas solteiras para ele. Certamente candidatas não faltam.
Felipe disse:
- Melhor deixar seu primo resolver sozinho a própria vida amorosa, ele não gosta de palpites e intromissões.
- Pena que eu não tive a mesma sorte que ele, no meu casamento todo mundo se intrometeu e decidiu por mim.
Dora indagou:
- Você não é feliz no seu casamento, minha filha?
- Se eu fosse, não estaria aqui.
- Mas, houve um tempo em que vocês foram muitos felizes, todos podiam ver... – continuou Dora.
- Agora quem não quer palpites e intromissões na minha vida amorosa sou eu. Com licença, quero ligar para Seráfia, ontem não consegui falar com a minha filha.
Anita ligou e Maria Cesárea lhe disse que Vitória estava muito gripada, com febre, mas que era coisa de criança e logo passaria. Anita ficou com o coração apertado, uma angústia tomou conta dela, teve vontade de retornar a Seráfia nem que fosse a nado.
À noite, Anita não conseguiu pregar os olhos de preocupação com Vitória. Decidiu sair do quarto em silêncio, pois todos já dormiam, e foi até a biblioteca, pensou que talvez uma boa leitura pudesse a distrair de seus pensamentos.
Ela lia com a luz fraca de um abajur quando ouviu passos no corredor e se assustou. Apagou o abajur e abriu uma pequena fresta na porta, para sua surpresa a luz do corredor se ascendeu, revelando Júnior.
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