A Herdeira

29 De volta à vida Real


Anita chegou a Seráfia num dia nublado e frio, parecia que uma tempestade estava para cair a qualquer momento, da mesma forma que sentia em seu íntimo. Chegou ao Palácio sem avisar, deixando a sua filha Vitória imensamente feliz:

- Mamãe!!! – exclamou a menina correndo, ao vê-la entregar a mala para o mordomo, pulando em seu colo.

- Ah, minha filha! Quanta saudade eu senti. Teu cheirinho é tão bom – abraçando a filha em seus braços, cheirando seu pescoço e apertando-a num abraço que não queria nunca mais soltar.

Maria Cesárea apareceu:

- Rainha Anita! Por que não avisou a data de sua chegada? O motorista iria pegá-la no Porto e o Palácio estaria preparado para sua recepção.

- Eu não quis fazer alarde, não é necessário. Voltei como uma mãe saudosa, não como uma Rainha a espera de pompa e circunstância.

- Vitória sentiu tanto a sua falta. Eu não falei para não lhe preocupar, você estando tão longe sem poder chegar rápido. Mas, aquela gripe demorou para sarar. Ela tinha febre alta e chamava por você o tempo todo. Só melhorou quando eu disse que a mamãe já estava voltando.

- Eu fiquei doente de saudade, mamãe – disse a menina no colo, passando os braços em volta do pescoço da mãe e deitando-se no ombro dela – Promete que não vai mais passar tanto tempo longe de mim?

- Eu prometo, minha filha, foi a maior idiotice que eu fiz na minha vida. O meu lugar é ao seu lado, o resto, não importa.

Anita desfazia a mala no seu quarto, ouvindo a filha contar as novidades, quando Heitor entrou:

- Olá, Rainha Anita. Lembrou-se que tem casa?

- Heitor, vamos conversar civilizadamente, Vitória está aqui.

- Vocês não vão começar a brigar de novo, né? – perguntou a menina, nervosa.

- Não, minha querida. Ninguém está brigando, o papai está só brincando. Mas, eu também estou com saudade do papai. Você pode ir procurar Maria Cesárea e me deixar sozinha um pouco com o papai? – pediu Anita à filha.

- Eu vou, mas quero que vocês se beijem, como antes, e não que briguem.

- Ninguém vai brigar, a mamãe já falou. Vai lá – Anita deu um beijo no rosto da filha e ela saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.

- Quer mesmo ficar a sós comigo? Faz muito tempo que você não deseja isso – ironizou Heitor.

- Eu prometi à Vitória que nós não iríamos brigar e não vamos. Quero apenas conversar, como pessoas civilizadas que somos, os regentes desse País unificado.

- Diga o que tanto quer falar comigo – declarou Heitor, sentando-se na poltrona do quarto e cruzando os braços.

- Pelo visto ainda há muito ressentimento de sua parte por mim, sei que você tem as suas razões, não quero me justificar, nem me defender. Eu errei, você também errou, mas agora estou buscando a paz. Eu sei o que você fez enquanto eu não estava aqui...

- Essa é boa! Você abandona marido e filha e quer que eu lhe preste contas? Como posso saber se você foi fiel a mim nesse tempo em que esteve longe?

Anita sentiu-se empalidecer, respirou fundo e prosseguiu:

- Não importa, como eu disse, você tem a sua razão e não lhe tiro. Quando viajei, nosso casamento já estava mal.

- Que casamento? Nosso casamento já não existia mais quando você viajou. Há quanto tempo já não nos tocávamos? Eu sou homem, tenho as minhas necessidades...

- Eu sei, Heitor. Não o estou recriminando, nem pedindo contas. O fato é que somos Reis de Seráfia e pais de Vitória, a herdeira do trono, isso é imutável. Podemos não nos entender mais como marido e mulher, mas essa é apenas uma parte do nosso contrato pelo bem do País.

- Agora você está reduzindo o nosso casamento a um simples contrato, igualzinho fez no início. Só que agora temos uma história que você não está considerando.

- Você realmente ainda me quer como mulher, Heitor?

Heitor ficou mudo por longos segundos, até que respondeu:

- Eu não preciso de você como mulher, faça o que quiser. Tenho com quem me satisfazer, posso escolher.

- Está bem, eu entendo.

- Não venha dar uma de boazinha e de vítima para cima de mim.

- Não farei isso, eu mereço tudo isso. Não sou boazinha, nem vítima de nada.

- Aonde você quer chegar? Por acaso enlouqueceu e também quer me deixar louco?

- Quero chegar a um acordo de paz. Não vou me opor às suas aventuras amorosas. Mas, enquanto você se deitar com as suas amantes, não quero que se deite comigo. Apenas peço que seja discreto e que não me envergonhe perante os nossos súditos, familiares, amigos e empregados. Quanto a mim, serei a melhor esposa aos olhos públicos, vou cumprir todos os meus deveres reais, como uma esposa obediente, submissa e atenta aos compromissos do reino. Vou parar de tentar me intrometer na política e nos assuntos do Parlamento. Também serei a mãe mais dedicada que eu puder ser, não voltarei a me apartar da nossa filha e me dedicarei a ela com a minha alma para que ela seja a melhor governante que esse País já teve. Mas, continuarei dormindo neste quarto, no qual espero que você não tenha se deitado com suas amantes, e você pode escolher qualquer outro. De dia, reis, pais e cônjuges; de noite, você é livre, eu não.

- Eu jamais profanaria a nossa cama. Com você aqui eu fiz amor, com elas, é outra coisa. Mas, eu entendo que não me queira mais. Quem é ele?

- Ele?

- Não se faça de desentendida. Uma mulher quando liberta o marido desse jeito, sem se importar com os casos dele, é porque já tem outro homem no coração.

- Se pensa assim, devo deduzir que você se deita com outras mulheres porque nada mais sente por mim?

- Homens funcionam de forma diferente. Nós temos desejo, precisamos nos saciar com as fêmeas. Eu disse que só com você eu faço amor. Mulheres se entregam por amor ou deixam de se interessar pelo mesmo motivo.

- Então todas as suas amantes lhe amam?

- Anita, você está desviando do assunto. Você é ótima nisso! Apenas me responda: você se apaixonou por outro homem no Brasil?

Anita não sabia o que dizer, engoliu em seco. A porta se abriu e Vitória entrou correndo e pulou na cama, dizendo:

- E aí? Já se acertaram? Já deram muitos beijos?

Anita apenas sorriu e se sentou na cama, colocando a filha em suas pernas. Heitor disse:

- Vou descer, tenho trabalho me esperando no escritório.

Anita o chamou:

- Heitor, nós estamos combinados?

- Sim, Vossa Majestade – fazendo uma reverência – Se é assim que quer, assim será.

Heitor saiu e fechou a porta atrás de si. Sozinho no escritório, sentiu uma lágrima teimosa lhe descer pela face. Pensou: “não vou chorar por ela, ela não merece”. Sobre a mesa, a foto do casamento deles. Ambos sérios, não estavam felizes, era um compromisso real. Mas, depois que ela se entregou a ele e com o passar do tempo, ele realmente acreditou que se amavam de verdade, até ela começar a rejeitá-lo novamente, igual fez no início do casamento.

O tempo foi passando, Heitor a tratava com uma frieza educada. Não havia mais brigas, apenas uma grande distância emocional, mesmo que próximos nos seus compromissos.

Certo dia, Vitória fez birra, dizendo não querer iniciar suas aulas naquele dia. Os pais foram conversar com ela, a pedido de Maria Césarea. A menina exigiu:

- Só vou para as aulas se vocês se beijarem primeiro.

- Que ideia maluca é essa, minha filha? – indagou Anita.

- Antes eu via vocês se beijarem, nem que fosse para se cumprimentar quando se encontravam, quando o papai chegava, por exemplo. Agora vocês não se beijam mais. Isso é por que não se amam mais?

- Estamos apenas tentando ser mais discretos e reservados, filha – disfarçou Heitor.

- Então se beijem agora que eu vou para aula.

Heitor deu um beijo na bochecha de Anita. Vitória não ficou satisfeita:

- Assim não, tem que ser na boca, por que vocês são namorados, não são?

Maria Césarea interveio:

- Desculpem me meter, Altezas, mas é melhor beijar logo, a Vitória já está atrasada.

Heitor se aproximou de Anita e forçou seus lábios contra os dela. Fazia tempo que não sentiam o gosto dos lábios um do outro, sentiram-se estremecer com aquele beijo discreto, que durou um pouco mais do que o necessário.

Vitória comemorou:

- Agora sim vou para as aulas chatas feliz!

A pequena deu um beijo no rosto da mãe, outro no rosto do pai e seguiu Maria Cesárea pulando.

Anita e Heitor se encararam por breve minutos. Heitor quebrou o momento:

- Preciso ir, muito trabalho.

- Claro, bom trabalho para você.

Cada um foi para um lado.

Dias depois, Anita estava no café da tarde com as nobres do Reino. Comeu um generoso pedaço de torta de limão e sentiu o seu estômago revirar. Uma das Baronesas percebeu o mal estar dela e questionou:

- Sente-se bem, Vossa Majestade? Está suando e vermelha. Posso ajudar?

- Acho que eu comi torta demais, revirou o meu estômago, vou tomar mais um pouco de chá de hortelã, costuma acalmar o sistema digestivo.

Uma das Duquesas se manifestou:

- Será que vem mais um herdeiro real por aí?

Anita respondeu:

- Não, claro que não.

- Por que não? Você tem marido, é moça ainda, natural – rebateu a Duquesa.

- Você tem razão, natural...

O chá não ajudou. Anita pediu licença e subiu rapidamente para o seu quarto, correu para o banheiro e despejou todo o lanche na pia. Deitou-se com a cabeça erguida, ainda se sentindo enjoada. Ficou pensando nas palavras da Duquesa: “seria possível estar grávida?”. Lembrou-se da noite tórrida de amor com Júnior. Mas, se ela não engravidara durante tantos anos fazendo amor com o marido, como poderia engravidar de uma aventura? Afinal, Heitor lhe jogara na cara várias vezes que ela não podia mais engravidar.

Continuou matutando: “E se realmente estivesse grávida? Que tragédia seria!”.