A Herdeira
32 A doença
Maria Cesárea foi levar o café da manhã para Anita no quarto, como sempre e falou:
- Está um dia tão lindo lá fora, Rainha! O verão está chegando. Vitória foi brincar com outras crianças do Palácio nos jardins, hoje é domingo. Você não se anima a ir tomar um sol? Está muito pálida, precisa de vitamina D para você e o bebê.
- Fico feliz que a minha filha esteja feliz.
- Tomar sol melhora o ânimo.
- Hoje não.
- Continua se sentindo mal com a gestação?
- Do corpo, não, apenas da alma.
- Vossa Alteza já está de quantos meses?
- Pelas minhas contas, quase três.
- O tempo passa rápido. Bom, vou deixar seu café da manhã aqui, depois venho buscar. Bom dia!
Anita beliscou, fazia tempo que não tinha apetite.
Todas as noites, depois das aulas, Vitória ia ao quarto da mãe com um jogo para jogarem juntas. Dessa vez, era de empilhar torres, que não podiam cair, porque quem derrubasse, perderia. A pequena era boa nisso e Anita deixava a filha ganhar sempre.
De repente, a pequena parou e olhou para a mãe:
- Mamãe, eu não estou me sentindo bem, não quero mais brincar.
- Dói alguma coisa, filha?
- Dói um pouco a minha garganta e me sinto quente.
A mãe pegou na testa da filha para medir a temperatura, constatou uma febre baixa.
- Deita aqui com a mamãe, quer dormir comigo hoje? Eu acho que você está se gripando.
- Eu quero.
- Vou pegar o seu pijama e passar na cozinha, pedir um chá de limão com mel para você.
Anita saiu do quarto, como há muito tempo não fazia. Retornou com o pijama e trocou a filha, que estava com os olhos lacrimejando e um pouco vermelhos. Pegou na testa e na barriga dela para medir a febre, parecia igual, baixa. Logo a empregada entrou trazendo o chá solicitado e a pequena tomou tudo.
Anita mal dormiu a noite toda, sempre monitorando a temperatura da filha, ela tossia e o nariz parecia congestionado. A mãe colocou mais um travesseiro em baixo da cabeça dela, a fim de melhorar a respiração. Passou a mão na cabeça da filha, afastando os cabelos longos que teimavam em cair no rosto, sentiu uma íngua atrás da orelha da filha, verificou a outra e também tinha, bem como no pescoço. Pensou que deveria ser uma infecção de garganta e ouvido, e que deveria chamar o médico no dia seguinte para prescrever o melhor remédio.
Na manhã seguinte, acordaram quanto Heitor entrou no quarto. Anita sentiu o coração bater acelerado, fazia tempo que não o via. Ele lhe pareceu ainda mais bonito. Talvez o fato de não poder tê-lo despertava ainda mais o amor.
Ele falou:
- Eu soube pelo Mordomo que ontem você pediu chá para a nossa filha, porque ela não se sentia bem e que ela tinha dormido com você essa noite. Fiquei preocupado, vim vê-la. Como ela está?
- Com sono, né meu amor? – disse Anita, beijando a testa da filha e aproveitando para aferir a temperatura – Ela continua febril, mas não está alta, desde ontem.
Heitor foi pegar na testa da filha:
- Realmente não está. Você acha que devemos chamar o médico?
- Eu acho que sim, ela está com ínguas atrás da orelha e no pescoço, acredito que seja uma infecção de garanta e ouvido.
- Isso é comum em crianças, você deve ter razão.
Heitor ligou para o médico, que informou estar do outro lado da cidade, de modo que demoraria um pouco para chegar. O Rei informou que a filha não parecia ter nada grave e que iria aguardar.
O Rei almoçava quando Anita desceu aflita, chamando-o:
- Heitor! Venha ver a nossa filha, estou muito preocupada.
No mesmo momento, ele parou de comer e subiu, acompanhando a esposa. Vitória estava com manchas avermelhadas no rosto e nos braços.
- Essas manchas parecem estar se espalhando – informou Anita.
Heitor foi verificar. Viu que a menina tinha no rosto e nos braços. Anita levantou a blusa do pijama da menina e mostrou que também tinha na barriga.
- Isso parece uma alergia. Será que ela comeu alguma coisa diferente? – indagou o pai.
- Não que eu saiba, melhor perguntar para Maria Cesárea – respondeu a mãe.
Heitor foi chamar a governanta, que prontamente veio, preocupada:
- Não, Vitória não comeu nada diferente. Eu tomo muito cuidado com a alimentação dela, embora nunca tenha manifestado alergia a nada.
Os pais passaram as horas seguintes sentados na cama com a filha no meio deles, monitorando a febre, verificando as manchas, que mais se espalhavam, perguntando a ela se doía alguma coisa ou se queria algo. A mãe a levava ao banheiro quando necessário e o pai trazia as refeições.
Finalmente o médico chegou e examinou a menina sob o olhar atento dos pais, chegando logo ao diagnóstico:
- Ela está com rubéola, tem um surto na cidade. Não é grave, é comum em crianças, poucos dias e ela estará totalmente recuperada. O tratamento é simples: repouso, hidratação e um comprimido para febre, se precisar. Caso os pais não tenham tido a doença na infância, correm o risco de pegar, é bastante contagiosa, mas inofensiva, só apresenta perigo para mulheres grávidas.
Anita tomou um susto e Heitor se adiantou:
- Mulheres grávidas podem morrer com essa doença?
- Não, mas o feto sim, especialmente nos primeiros meses de gestação. Se não morrer, pode nascer com más-formações.
Anita engoliu em seco. Heitor agradeceu ao médico e o acompanhou para fora do quarto. Depois ele retornou e disse à Anita:
- É melhor você se afastar dela.
- Eu passei a noite toda com ela, se é tão contagiosa, eu já posso ter pegado, não faz diferença agora.
Vitória se manifestou:
- Mamãe, não fica longe de mim, você prometeu que nunca mais ficaria.
- Você ouviu, Heitor?
- Você está se arriscando bastante.
- Eu sei.
- Bom, você é adulta e sabe o que faz – disse ele, retirando-se.
Em poucos dias, Vitória estava recuperada, voltando a ser a menina alegre de sempre. Anita começou a sentir os primeiros sintomas da doença: poderia ser apenas uma gripe, pensou. Os dias que se seguiram confirmaram a rubéola. Ela estava com grande mal estar, febre baixa e as manchas começaram a lhe sair pelo corpo.
Maria Cesárea encontrou Heitor no corredor e avisou:
- Estou muito aflita! A Rainha pegou rubéola e grávida!
- Fale baixo, Maria Cesárea.
- Me desculpe, Vossa Majestade, é porque estou nervosa.
- Vou vê-la.
Heitor entrou no quarto e encontrou Anita acamada, com a pele avermelhada, cheia de manchas, os olhos lacrimejando. Tocou a testa dela e sentiu um pouco de febre.
- Como você é teimosa, Anita! Olha só o que conseguiu com a sua teimosia!
- Eu não fui teimosa, Vitória precisava de mim e eu havia prometido a ela.
- Agora é tarde para eu falar qualquer coisa. Mas, eu avisei.
- Sim, avisou.
Heitor sentiu uma grande compaixão de Anita ao vê-la naquele estado. Acariciou os cabelos dela, beijou-lhe na testa e saiu.
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