A Herdeira

1 20 anos depois...


20 anos haviam se passado desde a expulsão de Coronel Falcão das terras de Antônia. Doralice jamais esqueceria a data, afinal, depois de, contrariando a todos, lutar junto aos policiais sob seu comando e aos cangaceiros até a rendição do Coronel, entrou em trabalho de parto e deu à luz Anita na própria Fazenda, com a ajuda de Sinhá Benvinda.

Ainda se recordava da linda bebê que foi a sua filha, hoje uma linda moça que arrancava suspiros por onde passava, embora parecesse não se importar com isso nem um pouco. Felipe entrou no quarto, tirando a esposa de suas lembranças. Ele a beijou nos lábios, ela sorriu e perguntou:

— Veio mais cedo para casa hoje, meu amor?

— Hoje é o aniversário da nossa princesa, eu não poderia me atrasar.

— Ainda falta muito para o anoitecer. Só daremos aquele jantar com frutos do mar que ela tanto gosta. Pediu para que não houvesse festa.

— Mesmo assim, quero passar esse final de tarde com ela. Sabe onde ela está?

— Provavelmente no quarto, imersa nos livros jurídicos.

— Ela vai ser uma brilhante advogada tal como a mãe – beijando os lábios da esposa mais uma vez e saindo do quarto a procura da filha.

Felipe quase foi atropelado no corredor pelo pequeno Victor, de 10 anos, o temporão da família e a boa nova ao casal que já não esperava mais filhos.

— Vitinho, olha por onde anda – ralhou Felipe – Já disse que não devemos andar correndo dentro de casa.

— Ah, pai! Essa casa é tão grande! – justificou o garoto que muito se parecia a Felipe e ao irmão Jorge.

— É o Palácio do Governo e por isso mesmo precisamos...

— Dar o exemplo – completou o garoto – Já sei – bufando.

— Que bom que já sabe, agora basta colocar em prática – disse Felipe, abrindo um sorriso e bagunçando os cachos do filho, que continuou o seu percurso, agora sem correr.

Felipe deu leves batidas na porta do quarto da filha e entrou. Como a mãe previra, a moça estava concentrada na leitura de um livro jurídico. O pai comentou:

— Estudando até no dia do seu aniversário?

— Tenho prova na faculdade amanhã, pai!

— Com certeza vem mais um dez por aí.

— O dez não cai do céu, tenho que me esforçar.

— Nem tanto, você herdou o talento da sua mãe, é boa nisso. Aliás, você é todinha filha da sua mãe, na aparência e na essência.

— Eu tinha que me parecer a ela, afinal, os dois garotos são suas cópias.

Os dois riram e concordaram.

— Eu vim mais cedo para casa só para passar o resto do seu dia com você – contou Felipe.

— Pai, o Estado de Pernambuco precisa do seu governador e eu preciso estudar...

— Só por hoje, Anita! O Estado não vai pegar fogo sem mim e você não vai perder a fase do curso de Direito se der uma volta no jardim com o seu velho pai.

Felipe fitou a filha com cara de pidão e a moça não resistiu:

— Sabe que eu não resisto a esses seus olhos azuis de pedichão – fechando o livro, abrindo um sorriso e acompanhando o pai ao jardim.

Pai e filha caminhavam juntos no agradável final de tarde de Recife. A moça comentou:

— Eu adoro esse ar praiano da Capital, mas, volte e meia me pego com saudade do sertão. É louco isso, né?

— Eu não acho. Mesmo depois de décadas no Brasil, que eu amo, ainda sinto saudade de Seráfia do Sul vez ou outra. Nossa terra natal sempre fará parte de nós, não importa onde estejamos.

— Faz tempo que o senhor não vai a Seráfia...

— Os ânimos estão cada vez mais exaltados, Seráfia do Sul nunca engoliu a entrega da coroa por Jesuíno ao Rei Augusto que sempre governou apenas Seráfia do Norte, a eles pareceu um golpe de Estado e a vitória do norte sobre o sul.

— Por que o senhor não tenta mais uma vez exercer a diplomacia?

— Já tentei tantas vezes, minha filha. Deixei claro que apoio o governo de Rei Augusto, mas, graças a minha insistência, fui praticamente banido de Seráfia do Sul. Muitos gritam pelas ruas que sou traidor da pátria e que entreguei o sul de “mão beijada” ao norte. Até sua avó Helena teve que se mudar para o Sertão, temendo pela própria vida.

— Será que essa guerra nunca terá fim?

— Estou perdendo as esperanças, minha filha. São muitos anos!

— Pai, não fiquei triste. Há de ter uma solução e vamos descobrir um dia.

— Você tem razão, vamos descobrir um dia.

Jorge entrou no Palácio acompanhado da namorada, Verena. O rapaz de 23 anos estava concluindo o curso de Administração Pública e sonhava seguir os passos do pai na política.

— Oi, pai, oi, Ninita (a forma carinhosa como se referia à irmã) – cumprimentou o rapaz.

A namorada dele cumprimentou Anita com beijos no rosto, repetindo o gesto com Felipe.

Verena, 22 anos, era estudante de arquitetura e conheceu Jorge no campus da Universidade. Logo, a beleza física do rapaz a atraiu, mas, depois de saber que ele era o filho do Governador do Estado e de uma renomada advogada da cidade, o moço virou sua obsessão, não sossegando até a tão esperada conquista.

Anita não simpatizava com Verena, mas se controlava em nome da felicidade do irmão. Via o rapaz feliz e se esforçava para ser simpática com a namorada dele, embora sempre mantivesse uma distância segura, não aceitando os convites dela para passeios de meninas com as mais variadas desculpas.

Doralice apareceu no jardim, cumprimentou o filho e a namorada dele sem prestar muita atenção na moça, com a qual também não simpatizava, e contou:

— Meus pais acabaram de ligar, não conseguiram sair de Brogodó. Parece que Seráfia está pegando fogo, literalmente, Jesuíno e Açucena estão partindo com Rainha Helena e Inácio para Seráfia. Meus pais estão acolhendo Antônia e os filhos, estão todos muito nervosos. O caos está instalado!

— Por que a minha mãe não me avisou? Eu iria com eles! É meu dever! – questionou Felipe.

— Seu dever agora é com o Estado de Pernambuco, Felipe! Você corre risco de vida se pisar novamente em Seráfia! – respondeu Doralice, nervosa.

— É a minha mãe e o meu irmão, não posso deixá-los sozinhos em meio a uma guerra!

Anita interveio:

— Pai, hoje é o meu aniversário, por favor, não vá! Eu só te peço esse presente, mais nada. Esteja comigo.

Felipe respirou fundo e respondeu:

— Está bem, hoje eu não vou. Com licença, preciso de um banho – entrando no Palácio do governo.

Doralice disse à filha:

— Por hoje, você conseguiu. Temos que pensar em algo para amanhã e depois – suspirando fundo.