A Herdeira
6 A Tia
Notas iniciais
Draco fora claro, a fortuna seria de Weasley. Ao terminar seu trabalho, o leitor saiu do escritório deixando os presentes embasbacados, incapazes de se levantarem de suas cadeiras, devida tamanha surpresa. Irritada, Daphne retirou-se do local acompanhada pelo marido. Não diziam uma palavra sequer, porém suas expressões e gestos condenavam as opiniões de ambos a respeito do assunto. Pouco depois, os acionistas da empresa também tomaram o mesmo trajeto, lançando comprimentos à ruiva na saída. As testemunhas também se retiraram. Aos poucos, a sala esvaziava e, por fim, ficaram apenas os irmãos Weasley e Scorpius Malfoy. Hugo segurava forte a mão da irmã, que suava devido ao nervosismo.
– Você é a melhor opção. – o rapaz loiro pronunciou virando-se na cadeira para olhar Rose – Meu pai sabia disso e eu também.
– Não tenho direito a nenhuma das recompensas que ele deixou. – retrucou – Esta situação me causará graves problemas, eu sinto. Viu a cara da sua avó ao sair daqui? E os seus tios tinham olhar assassino.
– Meu pai não confiava em nenhum deles, sequer simpatizava com algum.
– E por isso devo me apossar de uma multinacional? Não possuo experiência alguma, Scorpius, não vou conseguir. – tornou desesperada.
– Se meu pai confiou a você a tarefa de administrar a empresa é porque você vai conseguir. Ele nunca errava nessas questões.
– Me parece que cometeu o primeiro erro agora.
Ela saiu da sala em silencio deixando que sozinhos os garotos. Não estava com ânimo para conversas, muito menos discussões. Teria de arranjar um modo de escapar de toda a situação formada em torno de si.
No dia seguinte, seguiu sua rotina normal. Ao contrário do que fazia em consideração aos hóspedes, acordou antes de quase todos na casa, tomou café da manhã e foi para o campus da universidade correr com Dominique.
– Então ontem estava morrendo de medo de ser jogada na sarjeta e hoje reclama por estar mergulhada na grana. – disse ofegante devido ao recente exercício – Você é muito estranha, Rose Weasley.
– A história não é simples assim. – parou por um instante para beber um pouco de água – A minha situação se agravou. Se antes queriam me tirar de lá por não gostarem de mim, agora vão fazer de tudo para que eu desista da herança. E é o que pretendo fazer, abrir mão do que foi destinado a mim e fazer um empréstimo com Scorpius para que meu irmão e eu vivamos confortavelmente até eu conseguir me estabilizar. Não sou burra e muito menos boba, não quero sair de mãos abanando já que Draco deixou muita coisa para mim, contudo esse poder exacerbado não me fará bem algum. Só trará problemas.
– E daí? A vida é cheia de problemas, basta saber organizar as coisas. Se o senhor Malfoy deixou a responsabilidade nas suas mãos é porque sabe que é capaz de suportar. – tentou convencê-la.
– Scorpius disse o mesmo. – recordou.
– É porque estamos certos, Rose. Sou sua amiga desde Hogwarts, sei pelo que teve de passar durante esses anos. Já teve problemas piores. – declarou – Você é estudante de administração, sabe resolver qualquer contratempo relacionado a finanças e pessoas que mexem com finanças, se é que me entende. – insinuou.
– É a família dele. O nome da empresa é Construtora Malfoy, deveria ficar nas mãos de um Malfoy ou o mais próximo possível disso.
– Concordo. Porém o Malfoy que sobrou não quer nada disso para a vida dele e o restante da família não presta. – expôs – Está mais do que claro que você é perfeita para a função. Além disso, acho que ele não deu escolha. Ou aceita ou aceita.
– Só tenho dezenove anos. – murmurou.
– Com a experiência de vida de mais de cinquenta. – a loira fez graça – Confie em mim, você consegue.
Mais uma vez Rose não conseguiu prestar atenção em nenhuma aula, porém, desta vez, não saiu da sala para cabular. Pelo contrário, ocupou seu tempo fazendo uma lista de prós e contras de aceitar o que o destino colocara em seu caminho. Para seu azar, havia mais contras. Era uma ótima oportunidade de trabalho, uma garantia de futuro financeiramente favorável para ela e o irmão, poderia auxiliar mais ativamente os avós, teria poder e até mesmo certo fama. Com certeza alguém poderia ajudá-la dentro da Malfoy, no entanto, tinha plena certeza de que Zabini e outros tentariam derrubá-la e esses teriam aliados. Também abandonaria um pouco Hugo, Scorpius e outros amigos, não teria tempo para ficar com eles, sua dedicação deveria ser completa. Juntamente a isso, havia o risco de nada dar certo e ela, de alguma maneira, afundar a construtora. Decidiu que conversaria com o irmão quando chegasse em casa, entretanto, quando colocou os pés no piso de mármore do hall de entrada, foi abordada pela tia de Scorpius.
– Boa tarde, menina. – cumprimentou de mau grado – Precisamos conversar.
– Desculpe, senhora Zabini, estou um pouco ocupada no momento. – a ruiva tentava esquivar-se indo em direção às escadas.
– Não. – a voz da mulher ressonou alto e grave, fazendo com que a jovem interrompesse seu percurso – Nós iremos esclarecer tudo agora mesmo.
– Suponho então que deveríamos conversar num local mais reservado, não é mesmo? – sugeriu dando-se como derrotada. Não poderia fugir por tempo demais – A senhora poderia acompanhar-me ao meu quarto.
– Você me acompanha ao meu. – decretou passando pela Weasley, que a seguiu.
Chegando à suíte, Daphne acomodou-se numa das poltronas brancas dispostas ali, indicando a outra defronte a primeira para a mais nova, que fez o mesmo.
– O que fez para conseguir a herança? – foi direta.
– Não fiz nada. – defendeu-se firmemente, mesmo que estivesse passando os dedos por entre os leves rasgos de sua calça jeans como sinal de nervosismo – Desde que me mudei para cá Draco tem me dado muito, mais do que mereço. Ele sempre foi bom, tanto para mim quanto para meu irmão e penso que diante da recusa antecipada de Scorpius, ele pensou em mim como uma substituta, contudo quero deixar claro que não pedi por nada do que recebi, ele ofereceu de boa vontade.
– Não seja cínica. – acusou irritada – Francamente, onde já se viu? Nem sei do que devo chamar você, garota! Bastarda? Não é filha do meu cunhada para assim ser nomeada. É apenas uma aproveitadora.
– Não desfira calúnias a meu respeito. – protestou Rose indignada – Não faz ideia do quão difícil foi abandonar minha casa, minha vida, para vir para cá.
– Não é difícil largar a pobreza para alcançar o luxo.
– Eu tinha uma família. Não era somente uma casa, era um lar. – ela explicou – A senhora não entenderia.
– Não, não entenderia. – desdenhou – O que eu entendo é que depois da morte da minha irmã o que era dela deveria ser repassado à família. Draco está morto, eu tinha o direito.
– Que eu saiba o direito de receber era da sua mãe.
– É a mesma coisa, mamãe repartiria comigo.
– Sua ganância é assustadora, senhora Zabini. – comentou, levantando-se, pronta para sair dali.
– Eu não acabei ainda, garotinha.
– Mas eu sim. – terminou com a mão sobre a maçaneta da porta.
– Vocês se relacionavam, não é? – insinuou – Você e meu cunhado.
Rose se voltou para a mulher já tremendo de ódio. Não conseguia imaginar as razões por uma mulher de classe se portar de maneira exorbitantemente baixa.
– Como? – indagou pensando não ter escutado direito.
– Mantinham um caso, relações. – falava naturalmente cruzando os dedos das mãos uns nos outros – Entendo que uma menina insinuante possa despertar algum desejo num homem mais velho. Há tantas lolitas por aí.
– Eu nunca me insinuei para o senhor Malfoy e ele não sentia atração por mim. – redarguiu – Tinha a mim como filha.
– Quer que eu acredite nessa baboseira? – inquiriu calmamente – Seu sexo deveria ser muito bom para convencê-lo a mudar o testamento.
A jovem tinha certeza de estar vermelha e sua visão embaçava-se devido às lágrimas formando-se em seus olhos. Ela tremia, seu queixo e as palmas de sua mão fora de seu controle.
– Jamais me deitei com homem algum desta casa. – legitimou.
– Não acredito em uma sujeita suja como você. – expressou seu novo – Darei um jeito de provar que você não é merecedora de nada do que recebeu. – avisou – Agora saia. – abanou a mão salientando a ordem.
A moça obedeceu, batendo a porta fortemente ao sair. Apoiou-se na parede do corredor a fim de acalmar sua respiração. Deixou que uma ou das lágrimas escorressem pelo rosto. Eram lágrimas de raiva. Ficou encarando seus tênis brancos e o carpete bege esforçando-se para não pensar em nada. Impossível. Rose não sabia se quem havia decidido era ela ou o ódio, mas estava decidida e determinada a continuar e enfrentar o que viesse no futuro.
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