A Herdeira
7 A Decisão
Notas iniciais
— É a sua decisão final? – Hugo indagou à irmã. Sentia-se apreensivo, pois tinha noção do que aquilo significava. Rose acabara de decidir se meter numa alcateia de lobos dispostos a atacá-la.
— Sim. – respondeu – Draco queria que fosse desta maneira e me sinto na obrigação de cumprir a tarefa que ele incumbiu a mim. – ela suspirou – Além disso, eu quero. Sabe que possuo certas ambições e tomar frente da Construtora Malfoy seria... Uau!
O ruivo sorriu com o entusiasmo da moça. Há menos de uma hora ela estava parada na frente da porta do irmão vermelha de raiva e com lágrimas nos olhos pela mesma razão. Buscava consolo e orientação. Em regra, os primogênitos é que costumam ser o porto seguro dos irmãos mais novos. Os irmãos Weasley, no entanto, eram exceção. A hierarquia não era invertida, mas sim ignorada, dado que o apoio era recíproco.
Até se acostumarem com a nova vida resultante do falecimento dos pais, os dois confiavam apenas neles mesmos, o que transformou a fraternidade num laço ainda mais forte e, mesmo após se habituarem a Scorpius, Draco e seu novo lar, o laço não se desfez. Bastava a mínima conturbação na vida de um ou outro para que se procurassem em busca de apoio. Eram muito diferentes. Rose era calma, porém intensa e Hugo a tranquilidade personificada. Se completavam.
Agora, estavam no quarto do rapaz, típico de um adolescente de sua idade, abraçados sobre a cama como já era costume entre os dois.
— Tenho total confiança em você. Não existe nada que faça que não seja perfeito. – alegou.
— Eu cozinho muito mal. – argumentou a ruiva, sorridente.
— Ok, então quase nada.
Alguns minutos se passaram em silencio, até que a mais velha retomou o assunto.
— Estou com medo. – confessou.
— Sabe, uma vez, numa conversa que tive com Scorpius a respeito de um assunto que não vem ao caso agora, ele disse que a hora certa de agir é quando a vontade for maior que o medo. E você quer muito. Mesmo apavorada, consegui ver um brilho nos seus olhos no dia da leitura do testamento. Você merece e sabe muito bem disso.
— Obrigada. – agradeceu com um sorriso mínimo. Aquietou-se até recordar de algo – Que conversa é essa que teve com o Scorpius?
— Nada. – ele riu um pouco nervoso.
— Hugo! – a irmã exclamou espantada ao se dar conta do que se tratava, mas logo se entregou às risadas também.
No dia seguinte Rose acordou disposta a enfrentar quem quer que a desafiasse. Sua fúria adquirida na noite anterior ainda não havia se extinguido por completo. Não seria um dia fácil, ela tinha consciência disso, porém passaria por cima dele, não deixando que o contrário acontecesse.
Ao aparecer na sala de jantar para o café da manhã, se surpreendeu com a senhora já presente ali, mesmo sendo tão cedo.
— Bom dia, senhora Greengrass. Como passou a noite? – foi cordial.
— Poderia ter sido melhor. – resmungou – Seus lençóis não são de boa qualidade, os travesseiros são duros e as flores têm um cheiro incômodo. Espirrei a noite inteira.
A jovem quase revirou os olhos diante de reclamações tão superficiais. Estava mais do que claro que se tratava de pura implicância. Mesmo sem paciência, Rose respondeu educadamente:
— Bem, quanto às flores pode pedir para que providenciem algum tipo que lhe agrade mais e também gostaria que a senhora entendesse que não são meus lençóis e travesseiros. Não cuido da compra de nenhum destes itens, mas posso garantir que são de ótima qualidade. – esclareceu puxando uma cadeira para se sentar, acomodando-se na mesma e servindo-se logo em seguida. Quando estava tomando para si algumas torradas com geleia enquanto mergulhava o pacotinho de chá na agua quente, ouviu murmúrios vindos da idosa, os quais não conseguiu identificar – Desculpe, o que disse?
— Disse que não me espanta você não saber escolher um enxoval de qualidade e se contentar com qualquer coisa. Uma suburbana se deslumbra facilmente com um pouco de ouro. Felizmente estou imunizada deste mal.
— E eu, felizmente não sou preconceituosa. Deste mal não sofro também. – lançou um sorrisinho cínico ao sentenciar calmamente – Qualquer problema minimamente fundamentado deve ser reportado à Winky. – levantou-se levando consigo a xícara de chá e o prato com as torradas, indo diretamente para a cozinha.
Gostava do local, pois remetia à intimidade, longe da formalidade da sala de jantar. Aliás, era um dos desafios que teve de enfrentar quando se mudou para a mansão. Era habito tomar café da manhã com seus pais e, na correria do dia a dia, às vezes o faziam apressadamente, até mesmo de pé. Entretanto, toda aquela bagunça era calorosa. Naquele momento, sozinha, apoiada na bancada de mármore que adornava a pia da cozinha branca e espaçosa e sem poder contar com a existência de Draco, sentiu ainda mais saudade dos pais e de como situações simples junto deles poderiam tornar seu dia melhor. Lamentou-se, contudo, ao perceber que uma frase venenosa poderia acabar com seu dia. Claro, se ela deixasse. Tinha orgulho de onde viera, nunca esqueceu-se de sua vida suburbana, como a avó de Scorpius havia mencionado e não considerava esta uma característica ruim. A perversidade contida nas palavras da mulher é que a incomodava. Não compreendia a satisfação da outra em diminuir uma semelhante. Sim, semelhante, pois em nada se diferenciavam na percepção da ruiva. Eram duas mulheres que, apesar da diferença de idade, eram seres humanos como qualquer outro e deveriam se tratar como tal, como iguais.
Ao terminar seu chá, Rose depositou a xícara na máquina de lavar louças e saiu da casa pela porta dos fundos ainda ingerindo uma torrada. Caminhou por alguns metros até a saída do condomínio onde se localizava sua moradia. Após andar um pouco mais, apanhou um ônibus que a levaria ao seu destino. Em pouco tempo de viagem conseguiu avistar o grande prédio, sede da Construtora Malfoy. Respirou fundo ao descer do veículo e se ver na entrada da empresa da qual, por direito, agora era proprietária.
Entrou antes que perdesse a coragem. Não sabia ao certo o que deveria fazer, porém, intuitivamente, apertou o botão do último andar no elevador. Era o andar da presidência, conhecia muito bem aquele local, já que visitava Draco em seu ofício com certa frequência. Procurou logo por Annie Morris, a antiga secretária do Malfoy, a qual já conhecia de longa data. Tratava-se de uma mulher de meia idade, não mais que 45 anos. Trabalhava com Draco desde muito antes de Rose conhecê-lo.
– Rose! Quanto tempo não a vejo. – a mulher saudou ao encontrar a jovem – Sinto muito pelo que houve. Não tive como ir ao funeral porque precisava ficar com as crianças em casa, mas sabe do carinho que nutria pelo senhor Malfoy, não é?
A ruiva sabia da situação da outra. Há menos de dois anos havia optado por fazer uma inseminação e ter filhos por produção independente. Era mãe de um casal de gêmeos, que foram recebidos por ela com muito amor e alegria, entretanto, demandavam cuidado extremo, afinal, eram duas crianças saudáveis e espertas.
— Claro. – Rose lançou-lhe um sorriso reconfortante, mas não era exatamente para aquilo que havia ido ali – Annie, eu gostaria de conversar com alguém que possa me esclarecer algumas dúvidas. Não sei bem como funciona... – ela estava mesmo um pouco perdida.
— Já sei do que se trata. – a mulher ficou levemente mais séria – Não se fala em outra coisa aqui dentro. Todos estavam ansiosos para saber qual decisão você tomaria e, pelo visto, resolveu acatar a vontade do senhor Malfoy.
— Sim. Era um desejo dele, afinal. Não podia contrariá-lo.
— Fez bem, querida. – reconfortou-a.
— Senhorita Weasley, confesso que quando anunciaram a sua presença não acreditei e vim conferir com meus próprios olhos, então, aí está você. – a voz de Blásio Zabini soou atrás da garota, que se virou um tanto assustada para encará-lo. Não esperava encontrá-lo e muito menos queria isso.
— Olá, senhor Zabini, como vai? – manteve a educação embora em seu íntimo, gostaria de simplesmente ignorá-lo.
— Estaria melhor se Draco fosse menos idiota em colocar uma garotinha para comandar tudo isso aqui. – comentou com escárnio – Contudo, sua vinda aqui me poupou tempo. Será que poderia me acompanhar até a minha sala?
Rose ponderou por alguns instantes até decidir que iria. Admitia ter um pouco de medo daquele homem. Assim como todo o resto da família, com exceção talvez de Diana, ele não parecia nada legal e, pelo modo como a esposa havia tratado Rose na noite anterior, passar muito tempo a sós com aquele homem não parecia nada seguro. Ao chegar à luxuosa e espaçosa sala de Zabini, ele indicou uma cadeira para que ela se sentasse, fazendo o mesmo em seguida. Estavam frente a frente, separados apenas por uma mesa de madeira escura com tampo de vidro.
— Olha, a sua esposa já conversou comigo ontem e sei que não sou bem-vinda por sua parte. Acontece que nada depende de você aqui e, se não vai me aceitar sinto muito. Só não precisa fazer outro discurso ofensivo porque isso eu já cansei de ouvir. – a jovem esclareceu antes de qualquer outra coisa. Não gostava de ser ofendida.
— Calma, não tenho intenção de prejudicá-la. – sorriu – Acredito que não será preciso. Você mesma vai fazer isso. É imatura, não tem vivência o suficiente para comandar uma empresa deste porte. Se Draco tivesse deixado o encargo para o filho entenderia, mesmo que não concordando. Daria a ele uma chance de mostrar do que é capaz, afinal, algumas qualidades se transmitem pelo sangue, mas você. – olhou Rose de cima a baixo, até onde a mesa permitia, analisando-a – Você não é capaz. Vai acabar gastando tudo para fazer as unhas e comprar roupas. Querida, uma hora vai perceber que administrar uma empresa não é como brincar de casinha. Uma mulher pode colocar tudo a perder. Chegará num ponto que verá o estrago que fez e sairá ou, se for mais burra do que penso que é, acabará sendo expulsa. Mas vamos deixar que brinque por um tempinho.
— Está insinuando que não tenho capacidade de fazer o trabalho para o qual fui designada?
— Acho que não me entendeu bem. Não estou insinuando, estou afirmando. Ocupar o lugar de Draco implica também em ocupar a presidência. Chegará um momento que não saberá lidar com a pressão, com os problemas, não saberá negociar e nem tomar as melhores decisões. Então precisará de um homem de verdade para resolver a situação e eu estarei aqui para fazê-lo. Se fizer um mau trabalho podemos destituí-la e pode ter certeza que fará, porque mesmo que não o faça por conta própria, deve saber que estou disposto a derrubá-la, princesinha. – terminou ameaçando-a, encostando-se na cadeira.
Rose estava mais do que nervosa, estava furiosa. Sabia que suas bochechas e orelhas deveriam estar como a cor de seus cabelos e queria gritar com aquele homem por duvidar dela. Mas não o fez, pois sabia se controlar e este era o primeiro passo para provar seu valor. Não para Blásio Zabini, mas para si mesma.
— É o que veremos, senhor. – anunciou, levantando-se para sair dali.
Não queria mais falar com qualquer outro sócio porque pelo que ouviu de Zabini, nenhum a apoiaria. E ela não precisava deles. Precisava tomar o seu lugar e dar o melhor de si. Se obtivesse sucesso, aí sim despertaria o interesse dos outros. Ao entrar no elevador, olhou-se no espelho. O reflexo revelava uma garota magra, cabelos longos e com um ar de inocência. Era nova e aparentava ter menos idade do que de fato tinha. Sabia que não só Zabini, como também muitos outros homens poderosos que circulavam por lá não confiavam numa mulher no poder. O que dizer, então de uma garota?
Ela pensou em desistir, mas queria fazer aquele homem engolir as próprias palavras. Era mais do que um desejo, uma meta havia sido estabelecida e para se defender dele precisava de ajuda. De preferência, de alguém que o conhecesse bem. Por isso, ao chegar em casa subiu as escadas e antes mesmo de ir para seu quarto, bateu numa porta no fim do corredor.
— Preciso da sua ajuda numa coisa. – anunciou antes mesmo de desejar bom dia.
— Acho que está muito desesperada para vir pedir algo para mim.
— É sobre o seu pai.
— Pode entrar. – Diana deu passagem – Pelo jeito, temos um bom negócio a fazer.
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