A Herdeira

3 Que a injustiça seja feita


Notas iniciais
Vocês não imaginam o quanto eu me matei para conseguir terminar o capítulo ainda hoje. Meio tarde, mas eu finalmente consegui! Não iria desapontá-los em quebrar a promessa de postar capítulos diariamente ^^ De qualquer forma, agradeço a todas as pessoas que estão acompanhando a minha fanfic. Espero que possam aproveitar ao máximo desse capítulo!

Quando me dei conta de que a noite acabou para chegar outro dia, tomei a consciência rapidamente e pulei da cama. Sabia que minha tia não tinha horário marcado para chegar, mas pelo o que meu pai disse, provavelmente ela viria pela manhã. Com isso em mente, me arrumei o mais depressa possível, mas sem deixar um aspecto horrível em mim, claro. Se havia alguém que eu gostaria de impressionar na aparência era a minha tia, pois ela era uma verdadeira conhecedora da moda. Gostaria de ter as mesmas habilidades que ela em saber escolher exatamente qual roupa vestir e quais joias combinavam.

Portanto, tomei a liberdade de encomendar um vestido para a costureira ontem. Fazia todos os meus pedidos de roupas para ela, especificando todos os detalhes e acréscimos enquanto ela desenhava o modelo. Seu resultado final no trabalho sempre saia impecável.

Tomei um belo de um banho e parti para a parte de me arrumar. Dessa vez o vestido que escolhi foi um azul longo que se abria na cintura. Na saia possuía lindos babados, e na parte da blusa tinha as mangas finas caídas, como um tomara-que-caia. Meu pescoço era enfeitado com um colar de pérolas. Prendi meu cabelo em um coque que deixava uma mecha solta do lado de cada orelha e calcei uma sapatilha branca.

Tentei ir para a cozinha o mais devagar possível, mas meus pés teimavam em se moverem depressa.

Não vendo o meu pai na cozinha, tirei logo a conclusão de que ele devia estar a cumprimentar a nossa recém-chegada. Com isso em mente, fui até a entrada de casa e avistei o meu pai de costas a conversar com alguém que eu não conseguia ver, mas já adivinhava quem era.

— Tia Elaine! — Exclamei animada.

Vi uma moça se curvar para o lado e olhar para mim. Nela identifiquei o rosto de minha tia. Ela parou de conversar com o meu pai para vir correndo — Ou quase correndo. — me envolver em um apertado abraço. E eu, é claro, o correspondi com um enorme sorriso no rosto.

— Lucy, minha querida sobrinha! — Ouvir sua voz foi tão bom. — Estava morrendo de saudades. Maldita distância que temos de manter. Mas finalmente eu voltei para ver-te

— Também estava com muita saudade tua, tia — Nos desfizemos daquele abraço, mas eu ainda mantinha o bom humor completamente estampado no rosto.

Ela me observou de cabeça aos pés, cruzando os braços e esboçando um sorriso engraçado.

— Nossa, tu realmente amadureceste muito — Elaine apontou o dedo e o movimentou de cima a baixo para mim.

Coloquei uma mão próxima da boca, tanto pela vergonha como pela vontade de rir da expressão que meu pai fez ao ficar observando toda aquela “festinha maluca” de nós duas.

— Vou me retirar. E peço, por favor, para que sejam menos barulhentas e mais educadas — Meu pai saiu andando para dentro de casa.

Quando ele já estava fora de vista, eu e a minha tia trocamos olhares, soltando gargalhadas.

— Shh... — Elaine colocou o dedo indicador próximo de seus lábios, pedindo silêncio. — É melhor realmente fazermos menos alvoroço ou iremos ter de nos lidarmos com uma hora dos sermões de teu pai.

— Não deixa de ter razão. Mas, mudando de assunto, conte-me todas as tuas novidades. Quero saber também da sua viagem para o exterior, principalmente a viagem para o exterior!

— Irei contar tudo para ti em todos os detalhes, entretanto, planejei um passeio contigo agora. E então, aceitas o meu convite? — Perguntou, cruzando os braços.

Não é atoa que eu disse que essa era a minha tia favorita. Já na sua chegada a felicidade explode dentro de mim e eu não consigo deixar de evitar em mostra-la.

— Será uma honra!

Com isso dito, ela segurou minha mão e me guiou da porta de casa até uma carruagem que apenas nos esperava para começar a viagem.

— Ah, mas tia, eu não comi — Falei ao minha própria barriga me recordar com um ronco que eu não tinha digerido nem mesmo uma migalha antes de sair de casa.

— Detalhes, detalhes. Hoje iremos comer fora! — Ela me olhou. — A propósito, sua beleza hoje está extraordinária.

Agradeci com timidez.

Esperamos o cocheiro aperceber-se de nossa presença e abrir a porta para nós. Entramos na carruagem, levantando o vestido ao subir para que não enganchasse em algo e rasgasse.

Enquanto a carruagem passava por cima da estrada de terra e, algumas vezes, em cima de pequenas pedras que faziam o automóvel se remexer, observava a paisagem afora. Quando então vi uma igreja que já conhecia passando por nós, pedi para que o cocheiro parasse, tendo que falar bem alto para que ele me escutasse claramente.

Obedecendo ao meu pedido, a carruagem parou e eu sai dela. Nem foi preciso eu explicar qualquer coisa para minha tia, ela já sabia dos meus objetivos. Quase sempre que eu saia com ela ou que eu saia sozinha, eu sempre ia visitar a igreja e rezava ajoelhada perante o altar. Normalmente estava vazia, e hoje não era diferente.

Era uma pequena capela que ficava um pouco isolada da área residencial, mas mesmo assim eu insistia em entrar nela. Era uma capela muito bonita e silenciosa, um lugar ideal para que eu pudesse deixar os meus pensamentos claros. Apesar de que hoje eu não estava perturbada com nada, portanto apenas fui lá para agradecer por tudo que eu tenho hoje. Por todas as coisas boas que já me aconteceram, e por um futuro feliz que ainda quero ter.

Permaneci ajoelhada e com os olhos fechados diante do altar durante algum tempo, rezando em silêncio sem pronunciar qualquer palavra. As palavras da oração estavam escritas na minha mente, e mesmo assim eu acreditava que alguém iria me ouvir. Não sei exatamente quem, e talvez nunca saiba, mas a fé era uma das únicas coisas que eu não queria perder.

Levantei-me e desamassei o meu vestido com a mão. Fiquei contemplando a imagem dos santos por alguns segundos e depois sai da capela por outra saída, saindo direto em um pequeno e lindo jardim. Caminhei até um canto dele onde se concentrava flores do tipo tulipa, que eram as minhas favoritas, quando fui surpreendida.

Repentinamente, várias borboletas saíram em conjunto para o alto. Por um momento me perguntei de onde haviam saído tantas, mas logo ignorei esse meu questionamento para admirar o momento. Mal piscava os meus olhos, sentia que se eu piscasse aquela cena iria desaparecer nesse mesmo instante. O mais interessante era que todas elas pertenciam a uma única espécie: A borboleta monarca, cuja coloração era laranja, os cantos das asas delineados de preto e que possuía alguns pontos brancos nas pontas.

Entretanto, uma me chamou a atenção e foi justamente essa que se aproximou de mim, pousando no meu ombro. Suas asas eram transparentes, estranhamente transparentes. Pareciam que eram feitas de um delicado vidro. Era uma borboleta linda. Suas asas me lembravam das gotas d’água que a chuva deixava nas flores. Essas gotas d’água eram refletidas com o brilho da luz do sol do verão.

“Verão...”, essa palavra se repetiu na minha mente.

Meu pensamento foi cortado quando todas as borboletas voaram para longe, inclusive a que estava em meu ombro. E eu fiquei parada, observando-as desaparecerem da minha vista no lindo céu azul.

“Lucy, você sabia que as borboletas representam almas de pessoas? Quando alguma se aproxima de você, pode significar que você estará para conhecer alguém importante, e às vezes esse alguém importante é aquela pessoa que você amará até a eternidade da sua vida.” Relembrei dessa frase que foi ouvida por mim há muito tempo atrás.

Escutei uma voz feminina me chamando, interrompendo tudo o que estava me distraindo naquele momento. Lembrei que minha tia ainda estava me esperando e percebi que estava demorando.

Corri para dentro da igreja novamente, olhando para trás uma última vez e admirando mais uma vez aquele lindo jardim por segundos. Aquela imagem tão encantadora que tive o privilégio de ver... Irei sempre me lembrar dela.

Fui até para a saída, o mesmo lugar por onde entrei e vi minha tia apenas me esperando.

— Desculpe a demora — Disse e entrei na carruagem.

O cocheiro não tardou em guiar-nos mais uma vez pela longa estrada de terra. Não demorou muito para que chegássemos ao nosso destino.

Estávamos agora em uma cidade que era rica em comércio e que muitas poucas vezes eu podia ir. Só mesmo com minha tia para eu poder voltar mais uma vez aqui.

— Tu deves estar faminta — Minha tia falou ao sairmos da carruagem.

— Ah... Nem estava me lembrando da minha fome.

Ela ergueu uma sobrancelha, me encarando um olhar desconfiado.

— Parece-me bastante distraída. Aconteceu algo dentro da capela? Viu algo estranho? — A preocupação dela era vidente para mim.

Neguei com a cabeça e sorri, tentando mostrar que estava bem.

— Não há nada de errado. Só devo estar tão ansiosa para passear contigo que fiquei perdida em pensamentos — Menti.

Bom, era uma meia-verdade, porque de fato estava muito ansiosa por ver ela. Mas esse não era o motivo de minha distração.

Andando por aquele lugar cheio de movimento, esqueci completamente o que estava ocupando os meus pensamentos agora pouco. Concentrei-me nas encantadoras e diferentes roupas que via, nos comerciantes falando alto e nos convidando para comprar algo do estoque deles. E não tinha somente roupas, tinham também diversos tipos de comida, e isso fez com que mais uma vez minha barriga roncasse.

As pessoas pareciam estar surpresas com pessoas como nós ali. Pessoas como nós que pertenciam a uma classe superior que todos dali.

— Gostaria de não ter que chamar tanta atenção assim... — Murmurei discretamente para a minha tia.

— Ah, ser o centro das atenções às vezes é bom! — Ela tentou me animar.

Conforme íamos passeando e comprando algumas coisas, inclusive comprando uma maça verde para que eu não entrasse em jejum, o fim do dia ia chegando. O sol descia pelo céu, deixando as nuvens com uma coloração meio avermelhada. Uma ótima vista.

— Não pare de andar, imprestável! — Ouvi um homem gritar.

Vasculhei com o olho no meio de onde estávamos e foi fácil achar de onde vinha aquela voz, pois o movimento já cessava com a noite próxima. Vi quatro homens que trajavam um uniforme, do qual eu não sabia a qual cargo pertencia. Dois deles estavam na frente, segurando cada um uma corrente que se ligava a algemas. Essas algemas prendiam os braços de um rapaz cuja aparência me deixou desatenta por uma fração de segundos. Ele possuía cabelos totalmente rosados, uma pele morena que, por debaixo da sujeira que a cobria, aparentava ser impecavelmente macia. Entretanto, não pude ver o seu rosto, pois estava de cabeça baixa.

Um dos quatro homens, eu reconheci que era o mesmo que gritou agora pouco, chutou as costas do prisioneiro.

— Oh, estás com fome? — Perguntou com um sorriso de quem estava se divertindo no rosto. — Pois, coma a poeira, seu verme imundo! — Todos que estavam perto ignoravam a cena, como se não fosse nada demais.

Começou a chutar as costas do rapaz repetidas vezes, e conforme ia o machucando, meu rosto deixava nítido cada vez mais horror.

Como alguém era capaz de fazer aquilo? Por quê? O que fez esse rapaz tão jovem merecer isso? Essas perguntas enchiam a minha mente e me fizeram aproximar-me do agressor. Agarrei o braço dele com a força necessária para afastá-lo do rapaz oprimido, que já estava com o nariz sangrando de tantas vezes que foi chutado contra o chão.

— Pare! — Gritei desesperada, deixando todos ali presentes surpresos, incluindo minha tia, o homem que agarrei e o rapaz de cabelereira rosada. — Para com isso! Por que faz isso com ele? Isso... É muito cruel.

O homem ficou me encarando por um tempo, até que uma expressão assustadora tomou o seu rosto. Ele me empurrou e eu acabei perdendo o equilíbrio e caindo sentada no chão.

— “Por que” tu dizes? — Puxou os cabelos do prisioneiro, o forçando a ficar em pé e de rosto erguido. — Simplesmente porque é a minha vontade.

— Mas isso é errado — Falei alto, indignada. — Por favor, solte-o! Ele já está demasiado ferido. Está pálido, não percebes?!

— Rapariga, esse garoto é um escravo — Disse como se isso o desse todo o direito de machucar alguém indefeso. Isso só aumentou mais a minha raiva. — Posso fazer o que quiser com ele, desde que chegue vivo ao leilão. Não é uma garotinha como tu que vai me fazer parar.

O rapaz que tinha seus cabelos cada vez mais puxados com força abriu seus olhos, revelando suas íris totalmente negras. Ele olhou para mim e eu entendi que ele estava a fazer um pedido silencioso para que eu parasse. Tendo a consciência disso, o encarei perplexa, perguntando mentalmente o porquê de ele aceitar aquilo sem nem mesmo resistir.

Com isso, me calei completamente. Estava muito atordoada para conseguir pronunciar qualquer palavra. Minha tia se aproximou de mim e me levantou do chão, perguntando se eu estava bem. Não consegui responder a isso.

— Nunca mais toque na minha sobrinha desse jeito! — Pela primeira vez eu vi minha tia Elaine realmente irritada.

— E com quem eu falo para que vós se dirijais a mim com tamanha ousadia?

— Eu só te dou um aviso, e é melhor tu escutares com bastante atenção e considerar isso para o resto da tua vida — Minha tia já ia avançando no agressor, mas eu segurei pelo braço, impedindo-a. — Nunca tente mexer com um Heartfilia, ou se verás com a fúria de toda a nossa família.

Notas finais
Eu peço desculpas caso houverem muitos erros nesse capítulo, mas eu o revisei as pressas. Depois eu tento reler com mais calma. Até o próximo capítulo!