A Herança das Sombras
3 O setor azul
A primeira coisa que ele sentiu foi que o peso tinha mudado.
Não era mais aquela pressão por todos os lados, entrando pelos ossos, segurando o peito como uma mão gigante.
O corpo ainda estava pesado, mas de outro jeito — como depois de sair do mar muito fundo e pisar em terra firme pela primeira vez.
Ele não soube quanto tempo tinha passado até perceber que estava respirando.
Entrar.
Sair.
Entrar de novo.
Sem dor rasgando por dentro.
Sem fogo nas costelas.
Sem o veneno rastejando pela lateral do corpo.
Só o ar.
Denso, frio, com um gosto metálico que raspava a garganta lá no fundo.
Ryder tentou abrir os olhos.
A pálpebra subiu um pouco, falhou, depois subiu mais. A luz não machucou. Não era aquela claridade branca de hospital, cortando tudo. Era um azul fundo, filtrado, que parecia ter sido pensado para não agredir ninguém que tivesse acabado de voltar de… seja lá de onde ele tinha voltado.
Piscou devagar.
O teto veio primeiro: placas grandes, opacas, encaixadas com precisão, entrecortadas por filetes de luz embutidos. Nada pendurado. Nenhum cabo solto. Nenhum fio à vista.
Era o tipo de design que alguém obcecado por controle teria aprovado.
Ele respirou mais fundo, por instinto.
O ar tinha cheiro de metal limpo, de filtro trocado na hora certa. Só lá no fundo, muito sutil, havia outra coisa — não cheiro, exatamente, mas uma sensação leve de umidade no nariz, como se o ambiente tivesse mais água do que o normal suspensa ali.
Não era beco.
Não era rua.
Não era o tanque.
Ele se deu conta da própria posição: costas apoiadas, cabeça elevada num ângulo mínimo, os ombros firmes contra alguma coisa rígida e acolchoada. Uma maca.
Não daquelas improvisadas de emergência — uma maca de complexos caros, ajustável, com trilhos invisíveis.
Tentou mexer a mão.
Os dedos responderam devagar, como se alguém tivesse desligado o atraso entre comando e resposta, mas ainda restasse um eco. Ele franziu a testa sem perceber que tinha feito isso.
A testa respondeu também.
Bom sinal.
Quando forçou o pescoço para virar a cabeça, o corpo protestou num arco discreto de desconforto. Não era dor. Era cansaço acumulado em camadas — como se todos os músculos tivessem ficado muito tempo segurando mais peso do que deviam.
Ele virou mesmo assim.
À esquerda, uma parede de vidro translúcido ocupava quase todo o comprimento da sala. Do outro lado, não havia corredor movimentado, gente indo e vindo, barulho de plataforma. Havia… nada. Um espaço silencioso, limpo, vazio, iluminado pelo mesmo azul profundo que vinha do teto, como se aquela parte da Aegis tivesse sido construída para não distrair ninguém.
À direita, a parede era contínua, lisa, com painéis discretos embutidos — indicadores silenciosos, sem alarmes, sem bipes. Só pequenas barras de luz correndo em ciclos lentos, exibindo dados que ele ainda não tinha capacidade de ler.
E, um pouco à frente, sentada numa cadeira metálica que não parecia confortável, estava ela.
Serena Draven.
Ela não parecia cansada.
Mas não parecia descansada também.
Parecia… funcional.
O cotovelo apoiado na perna, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, as mãos unidas, os olhos fixos nele como se fosse um problema muito específico a ser resolvido.
Ryder precisou de alguns segundos para encaixar a imagem. A lembrança dela vinha em flashes:
chuva fria, rua inclinada, luz falhando,
a voz dela perto do ouvido,
“Não fecha os olhos, Hale.”
Agora, a mesma voz cortou o silêncio espesso da sala.
— Hale.
Ele virou um pouco mais o rosto, como se isso fosse ajudar a ouvir melhor.
— Abre os olhos por inteiro. — ela disse. — Vamos lá.
Ele só então percebeu que ainda estava meio deitado atrás da própria visão. Fez força.
As pálpebras obedeceram. O mundo estabilizou um pouco.
— …Tô… — a voz falhou, áspera, quase um ruído. Ele tentou de novo, limpando a garganta num gesto leve. — Tô… vivo?
Não conseguiu pensar em nada mais inteligente.
Serena não sorriu. Não fez piada. Só assentiu uma vez.
— Está.
Foi uma resposta simples. Factual. Mas havia peso suficiente naquela palavra para indicar tudo que vinha por trás — o que tinha sido necessário para isso ser verdade, o que quase não fez ser.
Ele fechou os olhos por um instante. Não apagou.
Só precisava sentir o ar entrando e saindo sem ameaça.
Quando abriu de novo, a luz já não incomodava.
— Onde…? — começou, a língua ainda preguiçosa dentro da boca. — Onde eu tô?
Serena descruzou as mãos. Endireitou um pouco a coluna. Era a postura de quem assume oficialmente uma conversa.
— Em uma unidade de isolamento da Aegis. — respondeu. — Recuperação pós-imersão.
Ele agarrou essa informação como alguém que segura um corrimão em escada muito íngreme.
Aegis.
Então não era hospital civil.
Não era base improvisada.
Não era algo pequeno.
A sala, de repente, pareceu maior.
Os detalhes começaram a chegar atrasados: o ruído abafado dos sistemas de filtragem, o padrão ritmado da ventilação, o fato de que não havia janela para fora — apenas para um corredor interno que também parecia isolado. Nenhuma conversa do lado de fora, nenhum passo distante.
Ryder percebeu outra coisa: os bipes.
Não tinha.
Nenhum.
Os monitores funcionavam — ele via a luz deles ativando em ciclos — mas nenhum deles fazia o som clássico de alerta. Tudo era comunicado em silêncio, em barras de cor, em números que escorriam por linhas finas.
Era um lugar construído para que o som não atrapalhasse nada que acontecesse ali dentro.
Ele tentou mexer as pernas.
Elas obedeceram, mas com atraso. Um peso fundo percorreu as coxas até o joelho, como se ele tivesse passado horas dentro de água e agora o corpo estivesse reaprendendo a própria gravidade.
Serena acompanhou o movimento com o olhar, sem intervir.
— Devagar. — recomendou. — O teu corpo saiu de uma cápsula de curadoria profunda. Ainda está ajustando.
Cápsula.
A palavra trouxe de volta o tanque.
Por um instante, Ryder sentiu outra vez o líquido em volta, o peso controlado, a pressão apertando o peito no ponto exato do veneno. Lembrou da sensação de ser segurado por algo que não era exatamente água, mas funcionava como se fosse.
Piscar doeu um pouco menos.
— Quanto… tempo? — ele perguntou.
Serena considerou se respondia ou não. Deu para ver o cálculo rápido passar pelo rosto dela.
— O suficiente para não morrer por envenenamento. — disse, enfim. — Não o bastante para achar que está bem.
Ele soltou um sopro que quase podia ser uma risada, se tivesse força para isso.
— Parece… justo.
Ela não respondeu. Levantou-se.
Quando ficou em pé, Ryder percebeu que ela não carregava nenhum tablet, nenhuma prancheta, nenhum conjunto de arquivos físicos.
Nada que pudesse ser imediatamente reconhecido como “estou aqui para te avaliar”.
Mas, do jeito que ela o observava, ficava claro que era exatamente isso que fazia.
Serena deu dois passos, aproximando-se da lateral da maca. Não tocou em nenhum cabo, não checou monitor, não fingiu ser médica.
Só olhou direto para ele.
— Consegue ficar sentado?
Ele avaliou o próprio corpo. Os braços pareciam lentos, mas presentes. Os músculos do abdômen avisavam que não iam ajudar muito, mas não entrariam em colapso.
— Acho que… sim.
— Então tenta.
Não era incentivo. Era comando.
Ryder colocou as mãos na lateral da maca. Forçou os ombros, chamou a coluna de volta ao trabalho. O tronco subiu alguns centímetros, tremeu, quase desistiu. Uma onda de cansaço quente passou pela nuca.
Por um segundo, tudo pareceu se afastar — teto, paredes, Serena, o próprio corpo.
A mão dela se moveu.
Não rápido.
Não em pânico.
Só o suficiente para ficar perto do ombro dele, pronta para segurar se ele despencasse. O toque não veio. Mas a presença, sim.
Ele insistiu.
Mais alguns centímetros.
Respiração mais forte.
Um ponto de dor surda na região onde o ferrão tinha entrado.
E então estava sentado.
O mundo levou alguns segundos para voltar ao lugar. Quando voltou, Serena recuou a mão um pouco. Não parecia satisfeita.
Parecia confirmar uma hipótese.
— Melhor. — disse.
Ryder apoiou os cotovelos nos joelhos, a cabeça baixa por um instante, sentindo o coração bater num ritmo que já não ameaçava romper nada.
O silêncio do setor pesou de novo.
Nenhuma voz externa.
Nenhum anúncio.
Nenhuma chamada.
Só ele, a comandante e o som controlado da máquina que mantinha o ar como queria.
Ele ergueu o olhar, finalmente.
— Isso… — engoliu seco. — Isso tudo faz parte do protocolo padrão… quando um civil quase morre na frente de vocês?
Serena sustentou o olhar.
Não respondeu de imediato.
Quando respondeu, a voz veio exatamente no tom que ele lembrava da rua:
— Não.
Uma pausa breve.
— Isto não é padrão, Hale.
E o jeito que ela disse aquilo fez a sala parecer um pouco menor.
O silêncio entre eles durou tempo demais para ser confortável, mas não tempo suficiente para ser insuportável.
Ryder manteve-se sentado, apoiando o peso do corpo nos cotovelos, enquanto a respiração tentava encontrar um ritmo que não oscilasse tanto.
Serena não disse nada.
Apenas observava.
Havia um método naquele silêncio.
Não era frieza.
Não era desinteresse.
Era cálculo.
Ryder percebeu quando ela se deslocou um passo para o lado — o suficiente para ele vê-la sem ter que torcer tanto a cabeça. O movimento era preciso, milimétrico, como se ela tivesse medido onde ficar para que ele a enxergasse sem aumentar esforço.
— Hale — começou ela, finalmente.
Era quase uma continuação da frase anterior do capítulo, como se nada tivesse sido interrompido. — O teu corpo pode estar estável, mas a tua mente ainda não está. Precisamos reconstruir o que aconteceu.
Ele assentiu, mais por reflexo do que por entendimento total.
Ela cruzou os braços atrás do corpo — postura de oficial, não de cuidadora.
— Vamos começar do início. — disse.
— O que você lembra antes do ataque?
Ryder franziu a testa, tentando recuperar a linha do dia.
Não veio inteira.
Veio quebrada.
— Eu… — respirou fundo, tentando puxar algo que fizesse sentido. — Eu estava trabalhando. No laboratório.
Serena inclinou levemente o queixo, sinal de que queria mais.
— Num protótipo. — ele continuou. — O… UPSA. Unidade Portátil de Scanner de Assinaturas.
O nome saiu estranho, como se a língua ainda estivesse acostumando com fonemas.
— Certo. — ela disse, neutra. — Segue.
— Recebi um pacote… — ele massageou a ponte do nariz devagar. — Instruções adicionais. Era pra testar o UPSA no ambiente externo. Coisa de rotina, mas… tinha algo diferente naquele conjunto de parâmetros.
O rosto dela não mudou, mas algo no ar mudou com ele citando isso.
Um detalhe, pequeno demais para um civil notar, mas impossível de escapar para os sensores do setor.
Um painel à esquerda acendeu discretamente:
ATUALIZAÇÃO DE LOG — RECEBIDO
Serena viu.
Bloqueou um possível reflexo facial.
E voltou os olhos para Ryder.
— Continua.
Ele engoliu seco.
— Eu saí pra calibrar.
— Entrei numa rua lateral… — a voz vacilou um pouco, como se a lembrança fosse mais sensação do que imagem. — Tinha água no chão. Não sei se choveu antes… ou se foi outra coisa.
— E a luz do poste… — ele fechou os olhos por um momento. — A luz começou a falhar. Piscar. Bem antes de eu perceber a coisa no beco.
Serena não anotava nada.
Mas anotava tudo.
— O que exatamente você viu? — perguntou, sem suavidade.
Ryder abriu os olhos, respirou fundo, apoiou as mãos nas coxas como se precisasse de estabilidade física para puxar a memória.
— Dois pontos.
— Vermelhos.
— Fixos.
— Baixos demais pra serem de qualquer coisa humana.
A garganta dele secou ao lembrar.
— Não piscavam.
— Não tremiam.
— Só… estavam lá. Olhando.
Serena deixou o silêncio preencher o espaço entre a frase e a próxima pergunta. O silêncio do Setor Azul absorvia até a respiração.
— E o UPSA? — ela perguntou. — Estava ativo?
— Lembro do bip. — ele disse. — Subindo. Subindo como se tivesse encontrado alguma coisa grande.
— Mas… eu desliguei o UPSA antes de sair de casa.
— Desliguei manualmente.
Um novo painel piscou à direita:
CORRELAÇÃO AUTOMÁTICA: UPSA_PRT_03 — ATIVIDADE CONFIRMADA
Dessa vez, Serena cortou a tela com um gesto rápido, quase imperceptível.
Ela não queria que Ryder visse.
Não ainda.
— Hale. — a voz dela ancorou de volta a atenção dele. — Fala da criatura.
“Criatura.”
Ele nunca tinha usado essa palavra antes.
Ela veio pesada.
— Era grande. — disse ele, com a voz baixa. — Muito grande. — as mãos se abriram um pouco, como se tentassem medir no ar. — O corpo dela não parecia… sólido.
— Era músculo, mas parecia se mover como… como se tivesse várias partes juntas.
Serena não interrompeu.
— Quando ela avançou… — a respiração dele engasgou. O corpo inteiro reagiu num tremor discreto, involuntário. — Eu tentei erguer o braço.
— Mas foi rápido demais.
Serena se aproximou meio passo.
Era o equivalente tático de colocar-se ao alcance de alguém prestes a desmaiar.
— Hale. — chamou ela. — Respira.
Ele respirou.
Devagar.
— O ferrão… — ele tocou a lateral do próprio tronco, sem perceber que fazia isso. — Entrou fundo. Eu senti na hora.
— Senti o veneno correr.
— Senti a pressão no peito.
— Senti… — ele fechou a mão, apertando o tecido da calça hospitalar.
— Senti que ia morrer.
O silêncio que veio depois não era vazio.
Era reconhecimento.
Serena não negou.
Não suavizou.
Não disse que “não era bem assim”.
Ela sabia.
Porque ela é treinada para reconhecer venenos fatais em segundos.
Ela respirou fundo, como se mudasse mentalmente de página.
— O que aconteceu depois? — perguntou.
Ryder abriu a boca, fechou, abriu de novo.
A lembrança vinha como fragmentos soltos, sem ordem clara.
— A água. — disse ele, finalmente, sem conseguir evitar o tremor na voz. — A água… subiu.
Serena não se moveu.
— Como? — ela perguntou.
— Eu não sei. — Ryder passou a mão pelo próprio cabelo, nervosamente. — Ela simplesmente…
— …se moveu.
— Do chão.
— Das poças.
— Do ar.
— Era como se estivesse sendo puxada pra mim.
Um painel piscou outra vez:
ATIVIDADE SETOR AZUL — CORRELAÇÃO NÃO CLASSIFICADA
Serena ignorou de novo — mas Noah entrou na sala nesse exato momento.
Ele parou a dois passos da porta, avaliando a cena como alguém que já sabia que chegara tarde demais para evitar uma conversa importante.
— Está acordado. — Noah disse, avaliando o estado de Ryder pelo olhar. — Ritmo respiratório está melhor. Pressão regular.
Serena não olhou para ele.
— Continua. — disse para Ryder.
Ele passou a mão na testa.
— Quando eu levantei o braço… — respirou devagar, concentrando-se. — Eu não queria fazer nada.
— Eu não pensei em fazer nada.
— Mas a água… se juntou na minha mão.
— Como se tivesse… ouvido.
Noah desviou o olhar para Serena.
Não era medo.
Era aquela expressão de “isto não é bom”.
Serena manteve o rosto impassível.
— E a criatura? — insistiu.
— Foi atingida. — respondeu Ryder. — Eu acho.
— Não vi direito.
— Só senti o impacto.
— Depois… tudo ficou escuro.
Ele deixou os ombros cair um pouco — em exaustão, não em fraqueza emocional.
Noah deu um passo à frente, avaliando a profundidade da respiração de Ryder.
— Comandante… — começou ele, num tom baixo.
Serena nem precisou olhar para saber o que ele ia dizer.
— Isso é informação demais para deixar sem registo.
Ela finalmente ergueu os olhos para ele.
Um olhar rápido.
Um comando silencioso.
“Depois.”
Noah fechou a boca.
Assentiu.
A tensão entre eles não era emocional.
Era protocolar.
Ryder olhou para os dois, confuso.
— Isso… tudo isso é… grave? — perguntou, a voz arrastada, mas firme.
Serena aproximou-se até ficar a um passo da maca.
O ar mudou entre eles — densidade aumentando.
— Hale. — ela disse, com precisão. — O que aconteceu contigo não é comum.
Ele engoliu.
— É… perigoso?
Ela não piscou.
— É inédito.
A palavra caiu como peso de chumbo.
Não barulhento.
Só inevitável.
Antes que Ryder pudesse responder, Atlas apareceu na porta — pálido, suando, segurando um tablet com os dedos trêmulos.
— Comandante… — a voz dele veio mais fina que o normal. — Nós temos um problema.
Serena virou-se sem hesitação.
— Fala.
Atlas respirou fundo, como alguém que precisa jogar uma bomba no meio da sala.
— A Aegis começou a compilar automaticamente os relatórios do incidente.
— E…
Ele olhou para Ryder.
Depois para os painéis.
Depois para o chão.
— …o sistema está classificando o Hale como variável crítica.
Noah soltou um palavrão baixo.
Ryder empalideceu.
Serena fechou a mão.
E, pela primeira vez naquela noite, o silêncio dentro do Setor Azul ficou tão profundo que parecia ter fundo.
Atlas entrou sem cerimônia — e isso, por si só, já significava algo.
O homem nunca ultrapassava portas fechadas sem anunciar, nunca falava alto sem pedir desculpas, nunca carregava um tablet como se este estivesse prestes a explodir.
Mas agora ele fazia as três coisas ao mesmo tempo.
Os sensores no teto reagiram primeiro à presença dele:
a luz azul pálida escureceu até um tom mais profundo, quase mineral, como se o Setor Azul tivesse percebido a tensão antes mesmo de qualquer palavra.
Serena levantou o olhar exatamente no momento da mudança.
— Atlas. — disse, neutra. — O que aconteceu?
Ele ergueu o tablet com as duas mãos — como alguém oferece más notícias a um superior que respeita demasiado para suavizar a verdade.
— Comandante… o sistema marcou ele.
Ryder piscou, tentando focar, sem entender se estavam falando dele ou de outra coisa na sala.
Serena não se mexeu.
A imobilidade dela tinha peso — um tipo de atenção que parecia cortar o ar ao redor.
— Explica. — disse ela.
Atlas virou o tablet.
A tela estava carregada de códigos, mas havia uma linha que queimava como fogo:
VARIÁVEL CRÍTICA — CLASSIFICAÇÃO NÃO DEFINIDA
MONITORIZAÇÃO AUTOMÁTICA ATIVA
SETOR POLÍTICO — PRIMEIRA TENTATIVA DE ACESSO
Noah inclinou o corpo para ver melhor.
— Variável crítica… — murmurou. — Isso só aparece para entidades… fora de parâmetro.
Atlas completou, sem levantar a voz:
— Entidades de origem.
— Protocolos de Casa.
Serena apertou o maxilar por um instante.
Ryder se ergueu meio centímetro na maca.
— Eu não fiz nada. — disse, a voz embargada. — Juro. Não fiz.
Serena respondeu sem tirar os olhos dos dados:
— Nós sabemos.
— O problema é que o sistema não diferencia intenção de assinatura.
Foi nesse momento que o painel lateral acendeu:
RELATÓRIO PRELIMINAR — ENVIANDO AO CONSELHO
Serena já estava em movimento antes que o aviso completasse a frase.
Ela alcançou o painel numa passada firme e tocou na superfície.
ENVIO CANCELADO
Primeiro bloqueio.
Funcionou.
A Aegis moderna respeitava Serena Draven.
Mas o sistema não parou.
Um novo alerta subiu na tela imediatamente:
SEGUNDA TENTATIVA DE ENVIO
AUTORIDADE DO COMANDANTE: PARCIAL
SETOR AZUL — PROTOCOLO DE CASA ATIVO
Noah ficou tenso.
— Comandante… isso não é política interna.
— Isso é… origem.
Atlas segurou o tablet com mais força.
— O Setor Azul só aciona protocolo de Casa quando reconhece algo da linhagem.
Ryder olhou para eles, confuso e assustado.
— Linhagem… de quê?
Outra notificação piscou:
BLOQUEIO ADICIONAL NECESSÁRIO
CHAVE DE CASA DOS MARES NÃO DETECTADA
Serena respirou devagar — o tipo de respiração que antecede decisão.
— Claro… — disse ela, quase para si mesma. — É um protocolo de Casa.
Noah ergueu o olhar.
— Casa dos Mares?
Atlas confirmou com a cabeça, pálido.
— A cor.
— O tipo de bloqueio.
— A profundidade da leitura.
— Tudo combina.
Ryder engoliu seco.
— Eu não pertenço a… nenhuma Casa.
Nenhum dos três respondeu.
Porque sabiam:
o sistema não errava nesse tipo de leitura.
O painel piscou de novo — agora numa tonalidade azul-escuríssima, quase negra:
TERCEIRA TENTATIVA DE ACESSO POLÍTICO
AUTORIZAÇÃO DE BLOQUEIO NECESSÁRIA — NÍVEL DE CASA
Serena tocou no painel de novo, tentando bloquear.
O sistema recusou.
BLOQUEIO NEGADO
AUTORIDADE DA AEGIS: INSUFICIENTE PARA PROTOCOLO DE CASA
O silêncio que se seguiu não foi de impotência.
Foi de compreensão.
Serena controlava tudo:
Mas o Setor Azul não havia sido construído por chefes.
Tinha sido construído pela Casa dos Mares.
E respondia à linhagem.
Ela virou o rosto para Noah.
— De quanto tempo precisamos?
— Para evitar que o relatório vá sozinho?
Noah respirou fundo.
— Horas. — corrigiu Noah, antes que Serena pudesse dizer qualquer coisa. — Se tivermos sorte… algumas horas.
Atlas passou a mão pelo rosto, pálido.
— Menos, se o Conselho insistir. Eles já fizeram a primeira tentativa.
O painel vibrou antes que alguém respondesse.
Uma nova linha surgiu, diferente das anteriores — mais profunda, mais antiga, como se tivesse vindo de outra camada do sistema.
AJUSTANDO SETOR — SINCRONIZAÇÃO DE ELEMENTO EM PROGRESSO
Atlas engoliu seco.
— Comandante… — começou ele, a voz menor do que o habitual. — O setor está a ajustar parâmetros sozinho.
Isso nunca acontece sem assinatura genética ou…
Noah completou, o olhar fixo nos indicadores que tremulavam como se respirassem:
— …ou instabilidade crítica de um descendente compatível.
Serena fechou os olhos por uma fração de segundo.
Uma decisão inteira passou por ela nesse microgesto.
Quando abriu, a voz já estava no lugar — firme, calculada, sem pânico.
— Isto ultrapassa a competência local.
Precisamos de alguém que entenda este setor melhor do que nós.
Noah ergueu a cabeça.
— Vai chamar quem?
Serena tocou o comunicador no colarinho.
A postura continuava impecável — mas Ryder sentiu que alguma coisa na sala segurou o ar.
— Draven para Operações Externas. Autorização Alfa.
Solicito presença imediata da Agente Ward no Setor Azul.
Prioridade máxima.
Atlas arregalou os olhos.
Noah recuou meio passo.
— A Chefe de Operações? Agora? — perguntou ele.
— Agora. — confirmou Serena.
Mas antes que a transmissão se completasse,
o painel da sala respondeu sozinho..
AUTORIZAÇÃO DE CASA DOS MARES DETETADA
CHAVE DE LINHAGEM REQUERIDA
SUBSTITUINDO SOLICITAÇÃO
E então, como se o setor despertasse uma memória antiga, o nome apareceu:
MAIA WARD — EM TRÂNSITO
ACESSO IRRESTRITO AO SETOR AZUL
Noah empalideceu.
Atlas segurou o tablet com as duas mãos, como se fosse cair.
A cor das luzes se aprofundou — azul, depois quase índigo — um tom que Ryder reconhecia no corpo sem saber por quê.
Serena desligou o comunicador.
Virou-se para Ryder sem qualquer suavidade.
— Hale…
Eu bloqueei o que a Aegis me permite bloquear.
O resto… pertence à Casa dos Mares.
Ryder tentou responder, mas só o ar saiu — um som rouco, preso na garganta.
Noah completou, com a voz baixa e grave:
— A única pessoa viva capaz de impedir esse relatório…
— está vindo.
E o setor respirou como mar puxando correnteza.
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