Notas iniciais
Sara sempre perturbando o Gil.

Quando eu terminei de contar sobre os planos da Sara, imaginei que Cath me aconselharia a contar a verdade a minha mãe, mas qual foi a minha surpresa? Catherine não fez isso! Pasmem! Minha melhor amiga fez foi se empolgar com a idéia descabida daquela criatura hospedada em minha casa e ainda por cima, Cath me pediu pra perguntar a minha indesejável hóspede se teria algum problema em ela ir junto com a gente.

—Você ficou louca, Cath? – Eu estava estupefato com ela.

—Não!

—Eu acho que ficou sim! Como você quer fazer parte de uma maluquice dessas?

—Ai, Gil... Qual é? Vai dizer que não gostaria de entrar num cassino e se divertir naquelas maquinas com o bônus de ganhar uma graninha?

—Não, não gostaria!

Nunca me deu vontade alguma disso. Um lugar aonde as pessoas vão pra jogar dinheiro fora com aquelas maquinas que tem o intuito de apenas viciá-las, não é algo que me faz a cabeça.

—Ok! Você é um sujeito que foge a regra!

—Se sua mãe sonhar que foi a um lugar desses, ela te mata, Cath. Sabe perfeitamente que ela abomina esses lugares.

—Mas a minha mãezinha só vai saber se você contar. Você vai fazer isso?

Eu racionalizei por um momento e concluí que não seria muito legal contar a minha mãe a verdade, pois se Catherine fosse, estaria derrubando a minha melhor amiga e colocando-a numa fria tremenda. Sem contar, que também me colocaria em maus lençóis.

—Não! Até porque se eu fizer, vou estar não só derrubando a Sara, como também a mim e a você se for com a gente.

—Ótimo que pense assim! Então, você, meu amigo querido e amado, vai perguntar a sua hospede adorável se eu posso ir.

—Cath...

—Não! Eu quero ir nessa. E tem mais, vou falar com os garotos e perguntar se eles não querem ir junto.

—Nem pensar! Os seguranças quando nos virem chegando à entrada do cassino, vão cismar e achar que somos uma gangue prestes a assaltar o cassino.

Catherine explodiu em uma gargalhada quando disse isso.

—Gil, você é louco! Somente você e sua mente fértil pra imaginar algo assim.

—É sério, Cath. Não conta pra eles. Vai que aquela maluca da Sara ou a prima dela não gostam da idéia de vocês irem junto com elas.

—Não precisamos necessariamente entrar junto com elas ora bolas! Só preciso que ela consiga as ID’S falsas e tudo beleza!

—Você decididamente quer ir não é?

—Sim!

Bom quando ela bate o pé com algo não adianta tentar dissuadi-la, porque não tem santo que a faça mudar de idéia.

—Ok! Vou falar com Sara e te dou uma resposta depois.

—Feito! Vou mandar uma mensagem para os rapazes contando sobre esses planos.

—Ainda não conta. Deixa primeiro, eu falar com aquela garota, pode ser?

—Tá bom então. Fico no aguardo!

—Agora deixa eu ir, porque senão fica muito tarde.

—Tchau, Gil!

—Tchau!

***

No dia seguinte, assim que minha mãe saiu para trabalhar, eu falei com Sara sobre Catherine. A minha hospede quase surtou por eu ter contado aquilo pra alguém estranho. Retruquei a ela dizendo que Catherine não era nenhuma estranha, pelo menos pra mim, ela não era.

—E se essa garota contar pra mãe dela e isso chegar aos ouvidos da sua mãe ou pior, da minha tia?

—Isso não vai acontecer. Catherine não dirá nada, por que... Ela expressou o desejo de ir com a gente.

Eu definitivamente já havia me incluído nessa diversão ilegal já que algo me dizia seriamente que eu não teria outra alternativa senão embarcar nessa loucura toda.

—Ah, não sei se vai rolar, não. Tenho que falar primeiro com as minhas primas. Além do mais, essa sua amiga, ela não é assim que nem você, né?

—Assim como eu como ô garota?

—Estranho!

—Eu não sou estranho, garota! Você é que é! – Repliquei no ato.

—Negativo, é você!... Não sou eu quem lê uns livros que dá sono e escuta umas músicas sem graça.

—É música clássica!

—Mas é sem graça.

—E, aliás, como sabe que músicas eu escuto? Por acaso andou fuçando o meu celular?

—Não exatamente. Eu vi o aparelho dando bobeira na mesinha da sala ontem e peguei-o pra ver se tinha alguma música legal pra passar para o meu e não achei nada de agradável. Você tem um gosto musical péssimo!

—O gosto é meu e não vou discuti-lo com você, porque é perda de tempo.

—Tá bom, mas eu vou te apresentar o que é musica de verdade. Vou passar umas bem maneiras para o seu celular e aí sim, você pode dizer que tem músicas que prestam e não essas aí as quais são somente acordes e ninguém canta nada.

—Você nem pense em mexer no celular novamente e muito menos, passar para ele as músicas que você escuta. Provavelmente, essas músicas devem ser malucas e estranhas como você.

—As músicas que escuto até podem ser malucas e estranhas, mas elas são mil vezes mais animadas e conhecidas que essas aí as quais você costuma escutar.

—Olha, quer saber? Gosto não se discute! Você tem o seu e eu tenho o meu, e ponto! Agora chega desse papo, não quero estragar mais o começo do meu dia por sua causa. – Retruquei, levantou-me da mesa para lavar minha xícara.

—Como quiser, quatro olhos!

—Quando é que vai parar de me chamar assim? Eu tenho nome, sabia? – Enchia-me a paciência ouvi-la me chamar por aquele apelido tão irritante quanto aquela garota.

—Claro que sei disso. Mas é que eu gosto tanto de te chamar assim e não tenho a menor pretensão de parar de chamá-lo dessa forma.

—Se não parar, eu vou te pôr um apelido também! – Ameacei, virando-me para olhar Sara.
Se ela não queria parar com aquilo, eu então poderia muito bem revidar. Inventaria um apelido para ela e passaria a chamá-la por ele até que ela deixasse de me chamar de quatro olhos.

—Vai em frente então... Quatro olhos!

Percebi pelo seu tom de voz que ela pouco se importou com minha ameaça, talvez estivesse achando que eu não teria coragem de cumprir minha ameaça.

—O que acha de... ‘’Garota Estranha’’?

Ela deu uma gargalhada.

—Eu a Carie? Não!... O estranho aqui é você já disse! Eu sou normal como a maioria dos adolescentes da nossa idade. Já você... Eu não posso dizer o mesmo!

Seu risinho de puro deboche era a pior coisa de se suportar nela. Não! Isso não era a pior coisa, com certeza, a pior era aturá-la na minha casa!

—Insuportável! – Eu a xinguei. E ao chamá-la assim me dei conta de que aquele era o apelido perfeito pra ela. _Esse vai ser o seu apelido. Garota insuportável!

O sorriso que ela ostentava até então, sumiu no exato momento em que me ouviu chamá-la daquele jeito. E sua expressão enquanto me encarava parecia a de uma assassina. Juro que até me deu um pouco de medo dela! Entretanto, dissimulei para que ela não percebesse.

—Você não vai me chamar assim, garoto!

Eu ouvi Sara me dizer pausadamente cada palavra daquela sua frase. Gente será que ela vai me matar? Porque tenho pra mim que consegui irritá-la profundamente com aquele apelido que lhe dei.

‘’Qual é Gil?! Você é homem e tá com medinho dessa fulana?!’’, ouvi em meus pensamentos, uma vozinha chata caçoar de mim. Agora eu estou com medo dela. Admito que a forma como Sara continuava me encarando e o jeito como havia falado comigo, me fez arrepiar do fio de cabelo até o dedão do pé. Só que não ia dar mostras disso a ela. Vestindo a minha carapuça de valente, eu lhe disse:

—Eu vou. – Confirmei confiante e batendo o pé que nem um garoto emburrado._Enquanto você continuar me chamando de quatro olhos, eu vou ficar te chamando de... Ga-ro-ta in-su-por-tá-vel! – Fiz questão de falar silaba por silaba das palavras.

Vi Sara estreitar os olhos em mim, depois se levantar da cadeira dela e vir lentamente se aproximando de mim. Jesus! Ela vai me fazer alguma coisa!

—Pode parar aí, garota! – Disse apontando a colher de pau na direção daquela garota e delimitando assim uma distância razoável entre a gente.

—O que? Tá com medo? – Ela arqueou uma das sobrancelhas.

—Eu? Medo? De quê? – Ri para disfarçar.

—Sei lá... De mim, talvez?

‘’Sim! Realmente estou com medo de você e do que possa está querendo fazer comigo!’’

—Não seja ridícula, garota! Eu com medo de você? Faça-me o favor! – Neguei, colocando a colher no aparador de louça e passando por Sara para arrumar a mesa.

—Pois, eu tive a impressão disso!

—Enganou-se completamente nisso, garota insuportável.

—Você realmente vai ficar me chamando assim, não é?

—Vou! – Confirmei com um sorriso debochado que nem o que ela vivia me dirigindo.

—Ok! Você não perde por esperar!... Continue me chamando assim. Vai ter troco!

Ela me ameaçou antes de sair da cozinha e me deixar com todo o serviço de limpar a mesa. Não gostei nada dessas últimas palavras dela. O que essa peste tem em mente?

...

Péssima idéia a da minha mãe de sugerir antes de ir trabalhar, que eu levasse Sara comigo ao supermercado. Nunca pensei que uma simples ida ao supermercado fosse configurar-se em uma atividade tão estressante e desgastante. A insuportável da garota discordava e questionava cada compra que eu colocava na nossa cesta. Se fosse fazer o gosto dela, eu só colocaria ali verduras e grãos. Não que eu não goste dessas coisas, mas comer somente isso não é algo que me satisfaça. E quando eu peguei três pratos de carne, ela ficou falando um monte de coisas sobre a quantidade de animais que são mortos pra servirem de alimentos para nós. Sobre os pobres filhotes que ficam órfãos de seus pais mortos. E falou mais um monte de coisas que duas senhoras que estavam ao nosso lado escolhendo carnes para levarem, até desistiram de querer levar carne alguma, depois de ouvirem o discurso ativista de Sara.

—Nunca mais você vem comigo! – Resmunguei a ela enquanto vínhamos por um corredor à caminho de um caixa para pagar as compras.

—Por quê?

—Porque você faz de uma simples atividade algo aterrorizante! – Respondi com indignação.

—Até parece! E você não vai mesmo desistir de levar esse tanto de carne?

—Não! Eu gosto de comer carne!

—Você não pensa nos animais que morrem pra satisfazer sua fome.

—Mas antes eles morrem pra me servir de comida do que eu morrer de fome!

—Seu insensível! – Ela me xingou, dando-me um soco no braço.

—Sua insuportável! – Devolvi o xingamento sentindo o braço doer pelo soco recebido.

Seguimos calado até o caixa, mas quando já estávamos pertinho Sara disse que queria ir à sessão biscoitos pra pegar uns para ela. Eu disse que não, pois o corredor dos biscoitos se encontrava a três corredores do que nós estávamos. Ela então retrucou dizendo que eu não precisava ir, que ela iria rápido e eu ficaria na fila esperando sermos atendido. Havia umas cinco pessoas na nossa frente e uma delas tinha um número razoável de compras pra passar, então daria tempo de Sara ir e voltar.

—Vai e não demora garota ou do contrário, você vai voltar sozinha pra casa, porque eu não vou ficar esperando a sua boa vontade de vir. – Resmunguei insatisfeito.

—Você é tão educado comigo!

—Vai logo! – Vociferei pra ela. Agora só tinha quatro pessoas na nossa frente.

—Tô indo! Tô indo!

No que ela se foi, eu bufei e olhei para um sujeito parado na outra fila e que se encontrava há pouca distância de mim. O cara devia ter uns vinte anos e me encarava com uma expressão estranha.

—Aí, cara... Não se fala assim com uma garota bonita como aquela! – O estranho me disse todo marrento. Me diz, onde diabos ele viu boniteza naquela garota?

—Olha,... Ela não é uma garota!... É um carma na minha vida! – Retruquei seriamente ao sujeito que apenas balançou a cabeça reprovadoramente.

‘’Era só o que me faltava, ficar escutando sermão de estranho por causa daquela garota!’’

Virei à cara e olhei para o outro lado pra não ter mais que ficar vendo a fuça do sujeito. No que eu faço isso enxergo quem vindo distraidamente em minha direção? Se você pensou na Sara, errou. Não foi ela! Na verdade quem eu avistei foi Heather, a minha vizinha. Ela segurava uma cesta com algumas compras e ao notar minha presença na fila do caixa, veio em direção a mim. Gelei! Comecei a ficar nervoso. Ela tinha esse poder em mim. Deixa-me completamente nervoso e pior, sem jeito e sem saber o que dizer.

—Oi, Gil! – Ela me cumprimentou assim que parou ao meu lado, na fila ao lado da qual eu me encontrava.

—O-o-oi, He-Heather! – Falei todo gaguejante e vi Heather sorrir.

—Como você está?

—Bem! E vo-cê?

—Também estou bem. Não vi você anteontem no ponto de ônibus.

—É que minhas aulas já se encerram na última sexta. – Enfim consegui dizer uma frase inteira sem gaguejar.

—As minhas encerrarão somente nessa semana.

—Já voltei! Viu como não demorei?! – Ouvi Sara dizer parando entre Heather e eu, e jogando uns quatro pacotes de biscoitos de chocolate. Bem que ela podia ter demorado.

—Tô vendo que não demorou!

Notei Heather ficar encarando Sara e vice-versa. Ia apresentar uma à outra quando Sara foi mais rápida que eu. Só que ela se apresentou dizendo algo que não era verdade e quase tive um infarto nesse momento. Mal sabia eu que esse estava sendo o troco ao qual ela havia me alertado mais cedo.

—Olá! Sou Sara, namorada do Gil. – Ela estendeu a mão a Heather. Minha vizinha me olhou de imediato. Pude notar um misto de curiosidade com desapontamento em seu olhar.

—Sou Heather, a vizinha do seu namorado! – Ela respondeu apertando a mão de Sara.

—Heather, ela não é minha namorada. – Tratei de esclareci e acabar com aquela palhaçada da Sara. _Sara para de invenção. – Olhei severamente para aquela garota. Ela apenas riu. Qual era a graça dela em dizer isso? Eu só saberia momentos depois. _Ela é apenas uma hospede. A tia dela pediu a minha mãe pra deixá-la ficar passando as férias lá em casa, porque na casa dela não tinha espaço pra Sara ficar. Não é isso, Sara?

—É isso sim. Eu estava brincando quando disse que ele era meu namorado. Sabe, o que é Heather, eu gosto de brincar de vez enquando.

—Ah, sim! Quer dizer que vocês não são namorados então?

—Não! – Confirmei categoricamente. Sara e eu, namorados? Acho que nem em outra vida!

A caixa gritou ‘’próximo’’ e Heather se despediu apressadamente de mim antes de ser atendida. Vi minha vizinha cruzar a porta do supermercado alguns segundos depois, mas antes dela ir, deu uma olhada em minha direção e sorriu-me. Será que ela gosta de mim? E será que um dia terei coragem de lhe contar o que sinto por ela?

—Enxuga a babinha que está escorrendo pelo canto da sua boca, quatro olhos!

Volto imediatamente à realidade ao escutar tais palavras de Sara.

—Não ferra, garota.

—Parece um cãozinho babão olhando pra ela.

—Dá um tempo!

—Por que não diz pra ela o que sente? Assim você leva um toco de uma vez e para de se iludir.

—Obrigado pelo seu encorajamento. Ele me conforta muito. Por que foi dizer a Heather que era minha namorada?

—Porque queria te irritar. Além do mais, serviu de troco por me chamar de insuportável.

—Pois nunca mais na sua vida repita que é minha namorada.

—Bem que você gostaria que isso fosse verdade, não é quatro olhos?

—Nem no meu pesadelo!

—Até parece! Uma pessoa como eu, seria a salvação para as suas esquisitices.

—Ahm!... Deus me livre!

—Vocês não são namorados, mas discutem feito uns! Que saco!

Um garoto de doze anos de idade que se encontrava sozinho e parado atrás de Grissom e Sara, resmungou em alto e bom tom isso, fazendo ‘’o casal’’ virar-se para encará-lo.

—Estão olhando o quê? – O garoto desaforado indagou e logo em seguida mostrou a língua para os dois jovens que se entreolharam.

—Mostra a língua de novo e eu arranco-a fora da sua boca, moleque.

Sara murmurou ameaçadoramente ao garoto que arregalou os olhos e de tão assustado não ousou dizer nada em resposta.

Dei graças a Deus que fomos chamados nesse momento pela caixa e torci para nem o pai ou a mãe daquele garoto aparecer e a peste do moleque contar o que Sara disse. Não queria confusão alguma. E quando saímos do supermercado, eu advertir Sara pelo que ela disse.

—Ah, quem manda aquele moleque ser desaforado! Quem fala o que quer, ouvi o que não quer!

Notas finais
Até mais!