A Hóspede Insuportável Que Roubou Meu Coração!
7 Capítulo 6
Era pouco mais das onze, eu estava na cozinha preparando algo para o almoço. Minutos atrás minha mãe havia ligado avisando que não viria mesmo almoçar em casa. Ela teria uma reunião com o artista que exporia na galeria e seu agente, desse modo, teria que me virar com o almoço.
Cozinhar é algo que adoro fazer. Relaxa-me. E sem querer parecer pretensioso demais, eu mando bem na cozinha. Não sou eu quem acha isso que fique bem claro! Minha mãe, Catherine, a mãe dela e até os meus amigos, acham que mando muito bem com as panelas. Eles vivem dizendo que eu daria um ótimo chefe de cozinha, e que devia era optar pelo curso de Gastronomia ao invés do de Biologia como é da minha pretensão fazer no vestibular ao fim do ano letivo. Mas a verdade é que cozinhar é somente um hobby pra mim. Minha paixão mesmo é a Biologia. É nisso que quero me formar!
Enquanto ligo o forno pra colocar para assar à torta de frango com queijo que terminei de fazer, escuto a campainha tocar. Ponho a torta no forno, programa o tempo exato dela ficar ali assando e depois disso, vou à sala pra atender a porta. Não me surpreendo quando abro e vejo Catherine ali.
—Oi!
—Oi, Catherine!
Antes que eu a convidasse pra entrar, Cath já havia feito isso. Ela é de casa mesmo pra quê cerimônia?!
—Está sozinho?
Notei Catherine olhar ao redor, como quem procura alguém. Eu podia imaginar quem fosse. Era obvio que curiosa como ela é, viria até a minha casa somente pra conhecer a hóspede que estava aqui.
—Sim!
—E a sua hóspede?
Não disse! Ela veio aqui somente pra conhecer a garota! Mas eu não estava nem um pouco a fim de ficar falando nessa peste!
—Nem me fale dessa hóspede! – Bufei jogando-me no sofá.
—O que houve? – Catherine me indagou sentando-se ao meu lado no sofá.
—A garota é insuportável e abusada demais. Além disso, ela ainda é chata, irritante, mandona, vive me chamando de quatro olhos,... Tá bom pra você isso? Porque se quiser mais eu te digo, já que a lista de coisas desagradáveis que eu poderia dizer a respeito dela não tem fim.
—Jesus Cristo!... Você não a suporta!
—Não mesmo!
—Olha, mas você não está exagerando um pouco não?
—Não!
Eu relatei a Catherine como foram minhas últimas 24hs, desde o momento em que a minha hóspede pôs os pés aqui em casa até hoje de manha. Contei para a minha amiga, timtim por timtim, de tudo. E ao final, ela me deu razão principalmente, quando falei da camisa.
—Essa garota é uma pentelha então!
—Ah, ela é!
—E o que pretende fazer? Contar a sua mãe essas coisas?
—Não. Isso, eu não vou fazer!
—Mas devia!
— Não quero bancar o ‘’filhinho-da-mamãe’’, Cath. Além do mais, minha mãe se encantou com essa Sara, precisava ver. Ela a trata como se fosse uma filha, sendo que só a conhece há um dia.
—Senti uma ponta de ciúmes nas suas palavras. Por acaso está com ciúmes da sua mãe, Gil?
—Claro que não! Tá louca? Só fiz um comentário!
—Sei!
Catherine pareceu não se convencer muito com o que eu disse. Mas se querem saber mesmo a real, real de verdade? Lá no fundo, eu começava a sentir ciúmes agora. Em 24hrs essa estranha conseguiu ganhar a minha mãe instantaneamente.
Ficamos conversando sobre a minha hóspede por mais algum tempinho até eu escutar o forno apitar na cozinha. A torta estava pronta!
Convidei a Cath pra almoçar comigo e obviamente, ela aceitou sem pestanejar já que adorava minha comida. E durante o nosso almoço o assunto da nossa conversa foi outro, a tal festa que eu iria com a minha amiga no próximo sábado. Cath me avisou que o traje pra ir a festa era especifico: traje passeio.
Ótimo! Eu teria que usar terno e gravata algo que eu adoro, pra não dizer o contrário.
—Catherine não tinha outra festa pra você me levar? Tinha que ser justamente uma na qual tenho que usar terno?
—Ah, você vai ficar tão lindo de terno escuro. E por favor, não vai de óculos. Usa as lentes de contato. Não que eu tenha vergonha de sair com você de óculos, mas a festa é chique e seus óculos não combinarão muito com o vestuário que usará.
—Fala sério! Sabe que não suporto usar lentes.
As lentes que sua mãe havia lhe comprado na semana retrasada, ele usou três vezes e depois não mais, pois não se adaptou com elas.
—É só por uma noite, por favor, Gil! Além do mais, você fica bem mais lindo sem esses óculos. E aposto que se for sem eles, você vai se dá muito bem com alguma garota na festa. Vai por mim!
Eu bufei! Catherine, a conselheira amorosa!
—Tá bem, eu vou com as lentes, mas não porque quero me dar bem com alguma garota, e sim, porque tenho que reconhecer que meus óculos não combinarão mesmo com terno.
—Ótimo!
Terminamos de almoçar e Catherine me ajudou com a louça. Depois, ela ainda ficou me fazendo companhia por mais algum tempinho e então foi embora pra casa dela.
O resto do meu dia foi tão tranqüilo, diferente de ontem. Passei a tarde toda lendo e escutando música clássica no meu celular. E quando dei por mim já era noite e adivinhem quem estava de volta a minha casa? Sim, ela mesma: Sara!
As primas a trouxeram de carro. Ela chegou toda animada. Parecia elétrica diria até eufórica. Fez questão de me contar como foi seu dia e os lugares que conheceu, sendo que eu nem lhe perguntei nada. Não me interessava à mínima, saber como foi o dia dela, mas fui obrigado a isso. Calado, eu ouvia, Sara me relatar que suas primas levaram-na para conhecer o Show das águas do Bellagio, depois elas passearam por toda a Las Vegas The Strip, a principal avenida que tem todos os principais e enormes hotéis cassinos da cidade. Almoçaram no Stratosphere, o qual segundo Sara lhe deixou impressionada por conta da vista de lá de cima e por fim, foram ao complexo The Linq onde andaram na roda gigante.
—Devo confessar que de tudo o que vi, quatro olhos, eu adorei mesmo for ver aqueles cassinos todos. Nossa, ele são muito maneiros por fora.
—São! – Resmunguei sem animação e com a atenção voltada para o jogo no meu celular. Ele era bem mais interessante do que olhar para Sara.
—Semana que vem, vou conhecer um deles por dentro.
—Impossível. Nesses lugares só pode entrar maiores de 18 anos e pelo que eu sei, você só tem 16.
—Leslie, minha prima vai conseguir uma carteira de identidade falsa pra mim e assim entrarei com ela e minha outra prima.
Para tudo!
Eu imediatamente levantei os olhos do celular pra encarar a garota.
—Isso é crime, garota! Se te pegarem, você vai presa.
—Que lindo! Você preocupado comigo, quatro olhos?!
—Eu??
—Sim, você! Mas, ó não fique! Não serei pega. Além do mais, qual é a graça de vir a Las Vegas e não conhecer um cassino por dentro?... Eu vim passar férias aqui justamente pra me divertir e minha diversão inclui conhecer um cassino e jogar naquelas máquinas legais que tem por lá. E a propósito... Qual a sua idade mesmo?
—17. Por quê?
—Então preciso de uma foto sua 3x4.
—Pra quê? – Eu arregalei os olhos pra ela. O que essa maluca tem em mente?
—Pra te arranjarem uma ID falsa. Você vai comigo, quatro olhos!
—Quê?? Ficou louca?? Pode esquecer! Eu não vou com você!
—Vai sim! Qual é o problema?
—O problema, garota, é que podemos ser pegos!
—Ai, meu Deus! Ninguém vai nos pegar.
—Como pode ter tanta certeza?
—Porque tá comigo, tá com Deus, quatro olhos! Sou amiga intima do cara lá de cima e com a gente nada de ruim vai acontecer!
Ela riu e eu não vi graça nenhuma nisso.
—Isso era pra soar engraçado? Porque não soou. E eu não vou com você!
—Ah, por favor! Minhas primas vão acompanhadas e eu não quero ser a única sem companhia da turma. Você tem que ir comigo! É a única pessoa que conheço nessa cidade até agora.
Ela fala como se eu tivesse a obrigação disso! Não tenho coisa alguma. Ela que conheça outra pessoa e a convide pra ir com ela, porque eu não vou.
—Entende uma coisa, Sara... Eu não vou com você nisso!
No que eu termino de dizer isso, a minha mãe entra em casa e ao ouvir minhas últimas palavras, ela imediatamente me indaga:
—Aonde você não vai com a Sara, Gil?
—Acho que ela mesma pode dizer melhor, não é Sara? – Eu olhei cinicamente pra garota.
‘’Chupa essa, insuportável!’’
Queria ver só como ela escaparia dessa! Que mentira ela inventaria, porque a verdade, com certeza, não poderia dizer. Que adolescente em sã consciência contaria a um adulto que estava pretendendo ir a um cassino usando identidade falsa? Nenhum!
Com espanto vi Sara se sair com a maior tranqüilidade da situação em que tentei colocá-la.
—Eu quero que ele me acompanhe ao boliche na próxima semana, talvez na quarta. Minhas primas e eu estamos combinando de nos divertimos indo a um boliche. As meninas irão levar acompanhantes e como o Gil é o único amigo que tenho, gostaria que ele me acompanhasse. Mas, obvio, que só se a senhora deixá-lo ir comigo!
Ela sequer gaguejou ou se embolou pra inventar essa mentira. Parecia até que ela já tinha a mentira formulada na cabeça. Fiquei impressionado com esse raciocínio tão veloz dela.
—Quarta que vem será a exposição na galeria. Esses eventos costumam terminar bem tarde, quase de madrugada. Seria uma boa você acompanhar a Sara, filho. Assim não fica aqui em casa sozinho.
—Mas mãe, eu prefiro ficar em casa mesmo.
—Filho, você precisa sair mais de casa.
—Então, eu vou à exposição com a senhora.
De jeito nenhum eu ia acompanhar aquela maluca naquela barca furada! Se ela gosta de perigo, o problema é dela. Eu tô fora dessa! Porém minha mãe não parecia querer me ajudar nessa.
—Querido, você é jovem tem mais que sair com gente de sua idade pra lugares aonde jovens vão pra se divertir. Uma exposição não é esse lugar. Tenho certeza que irá se divertir bem mais no boliche do que vendo quadros e esculturas!... Sara, ele vai sim com você!
‘’Pirou, mãe?! Eu não posso ir com essa maluca! Ela quer ir a um cassino usando uma identidade falsa!’’
—Mãe...
—Sem contestação, filho! Você vai se divertir como um jovem da sua idade! Eu até prefiro que vá acompanhando a Sara. Agora, vou subir e tomar um banho. Desço em instante pra preparar o jantar.
Minha mãe subiu sem ao menos, me deixar falar mais nada. Se ela soubesse que acabou de me jogar pra uma diversão ilegal, não teria feito o que fez!
Olhei pra Sara e ela ria matreiramente.
—Do que está rindo?
—A sua cara de irritado é engraçada demais.
—E a sua cara-de-pau me dá raiva demais!... Como consegue mentir com tamanha facilidade?
—Anos de experiência. Mas tenho que confessar que essa é a primeira vez a qual me sinto mal por mentir a alguém. Sua mãe é gente muito boa, sabe? Gostei dela de imediato e isso não é de acontecer com muita freqüência. Só que se eu dissesse a verdade, nunca que ela nos deixaria ir, então... Tive que mentir!
—Saiba que eu não vou entrar nessa furada com você!
—Sua mãe já deixou mesmo, então... – Ela deu de ombros. _... Cassinos... Diversão... Aí vamos nós, quatro olhos!
Sara murmurou e socou meu braço.
—Ai! Tá louca, garota? – Reclamei passando a mão onde ela me bateu. Que mão mais pesada ela tinha, caramba!
—Foi mal! Bye!
Ela se levantou e disse que ia tomar um banho. Assim que fiquei sozinho, eu peguei meu celular e mandei um SMS pra Catherine. Eu precisava de um conselho se devia ou não contar a minha mãe a verdade. Não ia fazer parte dessa mentira e depois vai que a minha mãe descobre. Tô fora!
‘’Cath preciso urgentemente falar com você. Tá em casa por acaso? ‘’
Eu enviei o SMS com esses dizeres. Não demorou nem trinta segundos e Cath já me enviava uma resposta.
‘’Tô! O que foi? Quem morreu?’’, ela me mandou.
‘‘Ninguém morreu maluca!...Eu estarei aí em menos de vinte minutos e te conto pessoalmente o que foi. Pode ser?’’, mandei de volta.
‘’Ok! Estarei te esperando! Beijo!’’
Fiquei na sala só esperando a minha mãe descer e quando isso aconteceu, eu inventei a ela que Catherine me ligou pedindo pra ir a casa dela, porque precisava falar urgentemente comigo.
—Tudo bem, eu ir lá agora?
—Sem problema, querido. Pode ir, sim! Só não volte muito tarde, porque fico preocupada.
—Pode deixar que não vou demorar nada, mãe. Tchau! – Dei um beijo na minha mãe e saí rápido pra não correr o risco de Sara aparecer e minha mãe dizer pra eu levá-la comigo.
No tempo exato que disse a Catherine, eu cheguei à casa dela de bicicleta. Se eu fosse a pé levaria mais tempo pra chegar. Catherine morava num conjunto residencial ao qual se localizava há uma distancia razoável da minha casa.
Assim que parei em frente à casa dela, vi que minha amiga já me aguardava sentada no banco que havia ali na varanda da casa.
—E aí, o que você precisa falar de tão urgente comigo?
Ela me indagou tão logo cruzei o pequeno portão de madeira da casa. Encostei a bicicleta num canto e me acomodei ao lado de Catherine no banco.
—Sara!! – Foi a minha resposta a Catherine.
—O que é que tem a sua hóspede?
—Você não imagina o que a ela pretende fazer e ainda por cima, me arrastará junto nisso.
—O quê?
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