A Guerreira de Ferro
1 Capítulo Único -A Guerreira de Ferro
Ela era linda, uma bela princesa de porcelana; seu pai, o rei de cristal, nunca a deixava sair de seu lugar na estante; essa era sua vida, protegida em sua cristaleira por muros reforçados e munidos de canhões e milhares de homens e mulher armados de ferro e chumbo, prontos para darem suas vidas em prol de sua proteção. E assim davam. Todos viviam e morriam por ela; e com o tempo, ela não conseguia chorar mais por suas mortes, afinal, ela poderia se rachar devido ao mar de lágrimas que brotariam de seus olhos.
Sempre que tentava fazer alguma coisa por si mesma, recebia dúzias de motivos de seus pais que a colocavam à cristaleira. Não importava o que acontecia, seu reino podia estar sendo atacado por bárbaros ou invadido por piratas, a princesa sempre teria se manter linda e delicada, como uma boa princesa de porcelana.
Apesar de ser tratada assim por todos, havia um jovem guarda de ferro e chumbo que a tratava com igualdade, os pais dele haviam sido mortos anos atrás para defender a princesa de porcelana, mas mesmo assim; por ela, ele não tinha rancor, não tinha ódio, não havia dever de obediência, mas sim de amizade. Com o guarda de ferro e chumbo ela lia poesia, ria, chorava e até dançava. Nas noites em que as luzes dos inimigos dançavam como uma serpente preparando o bote a porta de sua fortaleza, ela rezava por ele. Nas noites em que a chuva caia do céu, ele rezava por ela, para que as gotas da chuva não a esmagassem ou a quebrassem. A amizade dos dois era o escudo e a espada.
Até que em uma noite, houve um ataque inesperado a seu castelo. Os bárbaros entraram em seu palácio, o pobre rei de Cristal acabou sendo quebrado, a rainha de vidro viu os pedaços de seu esposo espalhados no chão e pela primeira vez, em anos, permitiu que lágrimas rolassem de seus olhos. Ao ver o rosto de sua mão trincar devido às lágrimas, foi então que a delicada princesa de porcelana traçou a rota de seu destino. Ela correu até seu confidente, mas não o encontrou, os bárbaros o haviam levado, assim como parte da frágil corte.
Da sacada de sua estante podia ver a serpente luminosa se afastando, ela sabia o que deveria fazer, mas e se ela se quebrasse no caminho? Já não se importava, tinha que salvar seu amigo.
Para sair de sua estante, ela trincou as pernas e para escalar as muralha, seus braços racharam. A dor a fez andar cambaleante até cair do lado de fora de uma taberna. Ela caiu e rachou a cabeça, quando olhou para o chão, viu sua tiara quebrada e em pedaços, sem ela agora havia se tornado apenas "alguma coisa de porcelana", havia arriscado tanto por seu amigo, e nem estava perto que encontrá-lo, não podia se viver vivendo sem ele, voltar a cristaleira e nunca mais dançar e pular... Seu lamento foi escutado por um arqueiro de madeira velha e soltando farpas, ele saia da taberna quando viu a bela moça de porcelana caída na sarjeta, contendo as lágrimas para não trincar o rosto. Os homens de madeira haviam sido guardas do castelo, alguns anos antes da princesa nascer, haviam sido substituídos pelos homens de ferro e chumbo por que eram magros e soltavam farpas, por causa disso muitos da família real haviam se quebrado.
Ele a levou para dentro, pagou lhe o que comer e o que beber, e lhe deu um lugar onde dormir. A moça de porcelana agradeceu, mas não podia ficar muito tempo ali, tinha que encontrar seu amigo de ferro e chumbo, entretanto, como estava ferida e trincada, não poderia ir muito longe sozinha. Ela o pediu que ajudassem em sua jornada, afinal precisaria de pernas estáveis e braços rijos se quisesse encontrar os bárbaros. O arqueiro de madeira se negou em ajudar ela. Ela pediu uma segunda vez, uma terceira e até uma quarta, até que ela revelou que não poderia, pois tinha higroscopia. “Higroscopia!?”, o que seria aquilo, será que poderia rachá-la?
A garota de porcelana viu que o arqueiro parecia triste, como se houvesse uma farpa em seu coração. Ela teve que vencer seu medo de quebrar e trincar para ir até o arqueiro, e abraçá-lo, mostrando que não importava o seu passado, mas o seu presente e o seu futuro. O que a pobre princesa não sabia era que ela tinha uma irmã, que acabou quebrando por causa do arqueiro de madeira, essa era a farpa que ela estava ajudando a tirando do coração dele. E então depois de descobrir o que causava tanta dor e o que fazia o arqueiro de madeira empenar, a moça de porcelana o perdoou, e novamente o abraçou, pois seu pedido foi aceito. Eles seguiram a trilha dos bárbaros, ela se apoiava no arqueiro de madeira da caminhar e ele se apoiava na bondade dela para continuar. Até que chegaram no acampamento dos bárbaros.
Mas não os encontrou, encontrou o corpo de amigo,mas não havia mais vida nele, foi então que sentiu uma dor forte no peito, seu coração havia se quebrado, mas diferente do que esperava, ela não morreu, pois debaixo das lascas que caíram de seu corpo, havia uma camada de ferro. Ela sabia que não teria mais que se preocupar em rachar ou em quebrar e, também sabia que, nunca mais alguém perderia a vida por sua causa. Ela se armou com a espada e o escudo de seu amigo de ferro e chumbo e junto de arqueiro de madeira, partiram para se vingar da morte de seu amigo.
Fale com o autor