A Guerra dos Dez

4 Deixe o céu cair.


Os finais das batalhas são sempre interessantes. Pode-se ver a destruição, as baixas, os heróis exauridos por tanto defender o que e quem ama, e aqueles que não ajudaram em absolutamente nada. O contraste era nítido. O peito ofegante de alguns contra o olhar de escanário e falsa preocupação de outros.

Após infinitos minutos, Malu conseguira curar Mama, mas o esforço foi tanto que a menina não conseguia aguentar-se em pé, arrumou os óculos e por pouco não caiu.

—Ela vai ficar bem, levem-na para a área coberta, ela precisa descansar. – Disse Malu dirigindo-se para a mesma área onde o grupo de sem poderes sentava-se em roda.

Sabrina notou que André estava com uma das armas mogadorianas na mão, e tentava descobrir como funcionava. A aparência do objeto era como as armas futuristas que apareciam nos filmes, cinza e lisa porém com insígnias no cabo. O gatilho era a parte complexa, ao contrário das armas normais, este era pra dentro e para cima, tornando-a muito sensível ao toque. Ele atirou em uma árvore e um tipo de bola de laser vermelha saiu do cano da arma, e então podia-se ver o buraco atravessando todo o interior da planta. Sabrina olhou para trás e viu que as armas mogadorianas não transformaram-se em cinzas como os corpos dos mesmo e uma ideia lhe ocorreu.

—As armas. – Ela disse aproximando da roda. – Peguem as armas, nos podemos nos defender assim.

Todos foram em direção aonde ocorrera batalha e pegaram as armas com cuidado para que não se machucassem. Todos aqueles que não possuíam poderes de batalha agora poderiam lutar devidamente, inclusive Sabrina. Um fato notaram logo depois era que muitas armas estavam com pouca munição, e como esta não era uma arma convencional, se tornaria descartável após o uso total.

Escolheram então algumas armas e revezaram para aprender a atirar com as mesmas, aqueles que participaram da batalha deitavam um nos outros e descansavam. Dudu veio ao seu encontro e sentou-se.

—Você esta bem? Parece preocupada. – Disse ele.

—Estou com uma sensação ruim, como se não estivesse acabado ainda, e sinto que ficando aqui estamos expostos demais. – O semblante de Eduardo mudou-se ligeiramente, mas foi o bastante para Sabrina notar. – Mas deve ser apenas paranoia.

—Sim, deve ser. – Ele mirou o sol da tarde e franziu o cenho.

—Mas como vão os seus poderes, vi que você não participou da batalha... – Sabrina sorriu.

—Vão bem, só não sei qual a utilidade deles se não posso usa-los em uma batalha. – Sabrina colocou a mão em seu ombro e deu um olhar de solidariedade, até que Julia, Lorenna e Martinato se aproximarem.

—Sabs, eu e a Log andamos pensando. – Jujubs sentou-se. – E achamos que deveríamos fazer um conselho. Esse grupo precisa de liderança ou não vamos conseguir ajudar todos.

—Sim eu concordo. Mas, Jujubs... – O estomago de Sabrina encolheu, era aquela sensação que algo estava errado novamente. – Você está com o seu notebook? Precisamos saber o que está acontecendo.

Julia abriu a mochila e tirou dali o seu computador e modem portátil. Incrivelmente todos os meios de comunicação ainda estavam funcionando. Ela acessou os principais sites de noticia do Brasil e logo as manchetes revelaram a situação.

”Alienigenas tomam as prefeituras de São Paulo e do Rio.”

“Tropas alienigenas ocupam o centro de São Paulo.”

E então a tela do computador ficou branca e uma janela fora aberta automaticamente. Começou então um vídeo. E o auto falante do notebook aumentou para o volume máximo. Todos ao redor do grupo aproximaram-se para ver. No vídeo havia o mesmo homem da aparição em Nova York.

“Atenção seres humanos. Meu nome é Setrakus Ra, seu novo grande líder. Quero que saibam que tentamos uma chegada pacifica à Terra, mas como podemos ver, isso não foi possível. Contudo, se você está assistindo isso, saiba que tomamos as maiores cidades do seu país.

Não considero-me um tirano, se quer saber, apenas um monarca com ideias progressistas que fará da Terra, não apenas minha, como um planeta grandioso. Em apenas um dia, temos em nossas mãos todas as grandes e importantes cidades do mundo. E quem apresentar resistência será rapidamente eliminado. Afinal, não quero uma infestação de ratos e baratas neste lindo planeta.

Também chegou aos meus ouvidos que algumas pessoas ganharam certos... poderes. Quero avisa-los que podem aliar-se a mim e vocês tem o prazo de um dia para fazê-lo. Caso isso não aconteça, nós vamos caça-los e vamos mata-los, lenta e dolorosamente. Assim como a sua família, que geraram um ser imundo o qual não é a favor de melhorias.

Deem uma ultima olhada no planeta de vocês, meu caros terráqueos, pois ele nunca mais será o mesmo. “

A tela tornou-se preta e o medo tomou conta de todos que assistiam ao vídeo.

—Eles vão nos caçar. – Sabrina balbuciou, o medo enchendo seu peito.

—Não importa o que esse monstro disse, não vamos nos render. – Lorenna lançou um olhar desafiador para todos.

—Mas também não podemos voltar para nossas famílias, é muito perigoso. — Disse Lyu.

Aquilo estava errado, eles eram um bando de adolescentes, não podiam simplesmente escolher entre ser caça ou caçador, não podiam simplesmente salvar o mundo. Adolescentes não deveriam tomar decisões tão extremas que podem decidir seu futuro e o futuro de todos.

Sabrina engoliu em seco e disse as palavras que definiriam sua vida.

—Se despeçam de suas famílias e estejam prontos para partir assim que o sol se por. Temos que nos esconder.

Todos obedeceram e Sabrina desceu para o bosque do parque, chegando ao lago pegou o celular e respirou fundo. Discou os números devagar e esperou atenderem, o que foi feito após o segundo toque.

—Alo? Sabrina, é você? —Era o seu pai.

—Sim, sou eu. E estou bem. – Ela conteve as lágrimas.

—Apareceu um anuncio na televisão, você está correndo perigo. Venha para casa minha filha.

—Eu sei, Pai. E é exatamente por isso que não posso ir para casa. Não posso colocar vocês em perigo e.. – Ela engasgou, as lágrimas rolavam pelo seu rosto. – E eu amo vocês tanto. Mas eu não posso voltar.

—Como assim não pode? Nós vamos enfrentar isso juntos. Sei que vamos.

—Eu sou um perigo para vocês, e sinto que se eu voltar, vocês estão mortos, assim como eu. Nosso grupo é forte. Nós enfrentamos uma pequena tropa de alienígenas hoje. Vamos ficar fortes e vamos vencer essa guerra. E eu vou voltar pra cara, e vocês vão estar a salvo.

—Eu te amo e confio em você mais do que tudo, mas não posso permitir isso. Eu vou te buscar...

—E então eu já estarei longe. Não venha atrás de mim, pai. Cuide de todos em casa. Eu vou ficar bem e vou mandar noticias. Posso falar com o Miguel? – Ela recebeu um soluço como resposta e então a voz do seu irmão inundou sua cabeça.

—Alo? Bina? Bina, vem pra casa. – Sabrina chorava como se seu coração tivesse sido arrancado do peito.

— Eu não posso meu amor, não agora. Eu te telefonei, só pra me despedir.

—Por que não?

— Eu sou uma super heroína agora, não sou? Então super heróis tem que ter um esconderijo secreto para fugir dos caras maus.

—Mas, eu não vou mais te ver?

—Claro que vai, meu amor. Mas primeiro eu preciso ganhar dos vilões e então, quando acabar essa guerra. A Bina volta pra casa e contar todas as histórias heroicas que teve, tudo bem?

—Sim! – Ele pulava de alegria por ter uma irmã heroína. E Sabrina tentava manter-se firme mas não aguentava mais.

—Agora eu tenho que desligar, porque o dever me chama. Eu te amo. Diz pra todo mundo ai em casa que amo eles. Tchau.

—Tchau Bina, acaba com eles. Te amo.

Sabrina desligou, deixou o celular cair no chão e voou. Ela desmoronava num precipício invertido. Ela apenas desmoronava, e o céu desmoronava em chuva com ela.

*

Roubar um carro foi ligeiramente fácil e o caminho tranquilo, até chegar em São Paulo e a fila de carros abandonados nas ruas os obrigarem a seguir a pé. Andaram durante duas horas e já se passara do meio dia. Tomi já estava acostumado com caminhadas, mas Mapa e Luke encontravam-se ofegantes e cansados.

—Vamos, faltam só mais alguns quilômetros para chegarmos no parque. – Aquela não foi a melhor coisa a se dizer e com certeza não animou o resto do grupo.

—Deixem de lenga lenga. Eu ando essa distancia para ir à padaria. —Disse Daniela.

Chegando próximo ao centro da cidade eles viram a primeira leva de mogadorianos obstruindo sua passagem. Daniela puxou os três menores para um beco e pensou em como passariam. Tirou algumas facas de cozinha e outros utensílios da mochila e distribuiu da mão das crianças. Ela continuava com a panela, Tomi e Mapa com as facas e Luke com uma bandeja. Eles se preparavam para sair do esconderijo quando o celular de Tomi tocou em alto e bom som, atraindo os mogadorianos para o beco.

*

Sabrina acalmou-se, pegou o celular na beira do lago, deu o seu melhor sorriso e voou de volta para a marquise, onde todos se encontravam. Jogou a mochila nas cosas e foi ao encontro de Martinato.

—Então, está pronto? – Perguntou.

—Sim, como foi com a sua família? – Sabrina ignorou a pergunta e continuou.

—Onde é mesmo aquela metalúrgica que você disse?

—Não é tão longe, mas vamos ter que andar muito. – Ele chamou todo mundo e explicou o caminho, aquele seria um dia longo.

Sabrina foi em direção à Mama, já de pé e sendo paparicada por Isadora e Yokota.

—Ta melhor, loira? – Perguntou Sabrina.

—To , só um pouco preocupada com o Tomi, era pra ele estar aqui... – A menina respondeu.

—Você sabe que o Tomi não é muito de aparecer. – Disse Yokota, com seu cabelo preto e olhos puxados, segurando uma arma mogadoriana com cuidado. – Ainda mais agora com o fim do mundo acontecendo...

—Vou ligar para ele. – E ela discou. Esperou vários minutos mas ninguém atendeu. – Caixa postal, ele sempre atende ao telefone...

—É melhor a gente ir, a metalúrgica não é tão perto daqui.

O grupo saiu por um dos portões do parque e tomou o seu caminho. Vez ou outra Sabrina alçava voo para examinar o perímetro e ver se estavam seguros. Na metade do caminho todos já estavam cansados, tanto fisicamente quanto psicologicamente e por um simples descuido, Sabrina não olhara com atenção todos os ângulos e assim não notara o pequeno grupo de mogadorianos os seguindo a seu encalço.

Notas finais
Let the sky fall, when it crumbles We will stand tall and face it all Together.