A Guerra do Alvorecer
9 Uma ajuda inesperada
Ponto de vista de Thay Freitas:
Já eram mais ou menos sete horas da noite e nós caminhávamos lentamente em direção ao Burguer King. Fazíamos esse caminho quase todo fim de semana pós-evento. Á minha frente havia mais ou menos uns quarenta adolescentes, a maioria com mochilas nas costas e armas de swordplay nas mãos, algumas grandes e outras menores, que variava entre espadas, arcos e flechas, lanças e escudos de variados tamanhos e pesos. Eu particularmente nunca me dei bem com nenhum tipo de arma, talvez seja pela minha altura que é mais ou menos 1,55 e minha grande preguiça de fazer exercícios físicos, mas isso é comum, pelo menos no meu chalé. Pertenço ao chalé 12, filha de Dionísio. Já tentei lutar no caça á bandeira algumas vezes, mas isso foi nos meus primeiros eventos, agora já faz mais de um ano que frequento os eventos de PJO e HDO.
Bem á frente andava a grande maioria do pessoal. E comigo anda a Saraiva, Anna, Giu, Jujubs, Marti e a Gabi que está muito estranha e reclamando de fortes dores na cabeça. Na verdade ela está estranha desde que o Biel deu uma pequena sumida de algumas horas. Coisa que me irrita quando fazem em eventos. E agora ele ficou pra trás com o Dan e o Lelo.
O silêncio pairava no ar, esse é o evento mais estranho que já vim em todo meu longo tempo de eventos. Dos seis que estavam comigo apenas a Giu falava algo e dava sorrisos. De minuto em minuto ela falava:
– Gente, vocês estão sentindo esse cheiro de perfume de flores?
Ou simplesmente parava toda hora pra pegar o espelho e ver se sua maquiagem não estava borrada, e falava:
– Estou tão linda hoje.
E andava como se estivesse desfilando pela rua. Anna já percebeu que eu estava ficando irritada com isso, pois ela me conhece como ninguém. Mas não consigo entender o porquê disso, a Giu nunca foi de fazer e falar esse tipo de coisa. Pelo contrário, sempre foi a filha de Afrodite mais legal e menos exibida do chalé 10 inteiro. E esse é um dos motivos pelo qual ainda não a mandei pra puta que pariu, e o outro motivo é que as coisas estavam ficando cada vez mais estranhas por aqui. Anna vem a um tempo tropeçando, andando torta e enrolando as palavras como se estivesse bêbada. Mas eu sei que ela não está, pois fiquei o tempo todo com ela durante o evento e a vi tomar apenas um gole de vinho no começo do dia. A segurei quando tropeçou na maior pedra dentre as que tinha tropeçado antes. Se eu não estivesse com meus reflexos muito apurados, o que é um pouco estranho também, pois sou lerda a maior parte do tempo, Anna tinha ficado sem os dentes da frente agora. Segurei em seus ombros, ela estava cheirando a vinho, e o cheiro estava muito forte. Seus olhos estavam pequenos e a postura caída. Então perguntei – Vida, está tudo bem? – Ela respondeu lentamente:
– Não sei, vida. Parece que estou bêbada, mas eu tomei apenas um gole de vinho, você viu. Mas não estou enxergando direito mesmo com os óculos, e também não estou me equilibrando direito. Mas sinto um prazer estranho nisso. Aliás, estou a fim de ficar com alguém.
Ela terminou de falar e então virou as costas e foi em direção ao pessoal, onde estava o John Romano, a amizade colorida dela, e o beijou. Não achei estranho por ela ter o beijado, mas sim por tudo que está acontecendo.
Depois de dois minutos de termos passado o casal que estava se beijando, olho pra trás e vejo os dois vindos em nossa direção. Anna estava segurando no braço de John o que a ajudava não tropeçar. Ela levantou uma mão com a palma a aberta pedindo pra esperarmos, então parei e falei pro restante – Gente esperem. Eles estão vindo – E assim fizeram.
Quando nos alcançaram o John foi falando:
– Segura sua amiga ai que ela está meio doidinha – Deu uma risadinha e continuou – Preciso continuar minha conversa com a legião.
Peguei o braço dela e continuamos a andar enquanto John foi à frente e a Giu continuava a se olhar no espelho.
Duas ruas antes de acabar a Av. Brigadeiro, avistei uma lanchonete e resolvi parar pra comprar uma água pra Anna e dar uma descansada, pois a Gabi já estava quase se arrastando. Entramos os seis na lanchonete que estava completamente vazia e nos sentamos em duas mesas. Coloquei a Anna e a Gabi sentadas uma de frente pra outra ao lado da janela. E eu me sentei ao lado da Anna. A Gabi, quieta pra variar pegou seu celular do bolso e ficou girando ele na mesa olhando num ponto fixo. Eu já estava muito preocupada e então perguntei – Gabi, a dor está passando? – Apenas com o movimento dos lábios ela falou:
– Sim.
Resolvi não insistir, apenas torci pra que o Biel chegasse logo. Na mesa do lado estava Marti e Jujubs um do lado do outro e Giu na frente deles. Levantei-me e fui em direção ao balcão. Pedi duas águas, uma gelada e outra sem gelo pra Gabi. O moço que estava sozinho atendendo foi buscar a água sem gelo. Enquanto isso me sentei num banco de balcão do qual tenho certa dificuldade pra subir, mas hoje não tive essa dificuldade. Apoiei meus cotovelos no balcão e fiquei assistindo a uma noticia aleatória que passava na tv. Entrou um homem do qual me chamou a atenção. Ele tinha estatura mediana, aproximadamente 1,70. Ele era de cor parda e tinha olhos castanhos bem claros daqueles que chamam a atenção de longe. Usava um toca grande que cobria seus dreads locks que caiam pelas laterais da toca. Usava uma jaqueta college vermelha com as mangas brancas e uma regata preta do Pearl Jam. E também estava usando muletas dos dois lados do corpo, uma calça jeans bem larga e um tênis de cano alto preto. Ele se sentou numa mesa logo à sua esquerda que era o oposto da mesa onde eu estava.
Ouvi dois estalos de dedos à minha frente. O moço com as duas garrafas d’água. Agora olhando para ele reparei em seu rosto estranho. Aliás, tudo estava estranho hoje, até o atendente da lanchonete. Seu rosto era gordo, careca com alguns fios escrotos que saltava do alto de sua cabeça. Era branco e com barba por fazer. Estava com uma roupa preta e por cima um avental branco que estava todo sujo, não sei exatamente do que. Mas tinha um odor ruim. Fiquei enojada em pensar nas comidas que aquele homem fazia. Mas como vim comprar apenas duas águas e eram engarrafadas e lacradas, relaxei e perguntei — Quanto ficou?
Lentamente ele levantou quatro grandes dedos sujos e gordos. Coloquei a mão no meu bolso de trás e retirei exatamente duas notas de dois reais e coloquei no balcão, não queria encostar naquelas mãos sujas. Levantei-me e fui em direção às mesas onde estavam os outros, e no caminho olhei por cima do ombro e avistei o carinha dos dreads com o cardápio na mão, pensei – Até que é bonitinho – Cheguei e me sentei ordenando — Gabi, pegue seu remédio e beba. Anna beba toda essa garrafa d’água e depois vamos ao banheiro lavar esse rosto – As duas apenas fizeram o que mandei.
Gabi claramente estava melhorando, o que me aliviou um pouco. Mas Anna continuava com aquela expressão de embriaguez. Eu a chamei e fomos ao banheiro. Chegando lá a ajudei a passar um pouco de água na nuca e perguntei – Quer usar ao banheiro? – Ela balançou a cabeça negativamente e perguntei – Consegue voltar sozinha pra mesa ou você quer me esperar aqui? Preciso ir ao banheiro! – Ela respondeu:
– Estou bem melhor, vida. Pode ir tranquila que eu volto pra mesa.
Realmente, sua voz tinha melhorado bastante. Enquanto ela saia do banheiro reparei também que seu andar estava melhor. Quando ela saiu eu entrei no primeiro box e tomei um susto imenso. Na parede à minha frente estava escrito algo com uma espécie de liquido vermelho que tinha cheiro de sangue, mas eu não consegui ler, não era em português e nem inglês. Assustada dei um passo pra trás e pisei em algo esquisito, olhei pra baixo e vi que era uma mão. Uma mão morena de homem. Imediatamente coloquei as duas mãos na boca pra segurar o grito e sai de costas rapidamente. Por baixo da porta do box vizinho escorria um liquido bem escuro que formava uma poça. Passou pela minha cabeça abrir a porta pra ver quem era, e se estava vivo ou morto. Mas balancei a cabeça em negativa e fui em direção á porta para sair do banheiro. Mas algo pior ainda me passou pela cabeça que me obrigou a ir lá ver quem era – Biel – Pedindo á todos os Deuses pra não ser quem me passou pela cabeça que fosse, fui lentamente em direção à porta do box do meio. Aos poucos fui abrindo a porta. A visão que eu tive me fez querer vomitar.
O corpo estava jogado no chão todo torto com a cabeça apoiada no vaso sanitário. Faltava um pedaço de seu pescoço, e pelo buraco jorrava sangue. Sua barriga estava aberta e as tripas saltavam pra fora de dentro dele. O lado direito de seu rosto estava desfigurado, mas pelo lado direito e pelas roupas eu pude reconhecer de quem era o corpo – Lucas de Souza – Ex membro do chalé 3 assim como eu. Ele era um cara chato e que gostava de arrumar brigas, mas já foi meu amigo nos meus primeiros eventos. Não pude segurar o choro. Passei rapidamente na frente do primeiro box e tive a impressão de ter lido algo naquilo que estava escrito com sangue e voltei. Não sei como, mas eu sabia o que aquilo significava “Queda ao acampamento meio-sangue e ascensão dos caídos”. Então fui em direção as mesa onde estava o pessoal, todos se viraram para mim pois eu estava apressada e chorando, até mesmo o homem estranho atrás do balcão. Ao olhar pra ele tive um vislumbre. Um monstro da pele preta, cabeça e dentes grandes e pontiagudos. Corpo extremamente musculoso e asas de libélula. Balancei a cabeça e falei em voz alta – Isso é coisa da sua cabeça, Thay – Logo que falei isso atrás de mim ouvi um barulho alto. Olhei pra trás e vi acima de mim o mesmo monstro em cima do balcão. Ele falou com uma voz metálica:
– Não é coisa da sua cabeça não. Semideusa estupida.
– Do que ele me chamou? – pensei. Eu estava paralisada, mas ouvi uma voz gritar:
– CORRE, THAY. CORRE.
Era a voz do Marti, olhei pra trás e vi que estavam todos fora da lanchonete. E antes que eu pudesse reagir o monstro pulou em minha direção, mas algo fez com que ele caísse de cara no chão. Apareceram duas cordas que prendiam suas pernas e suas asas. Olhei pra fora e vi que a Gabi estava envolvida por uma aura roxa e seus olhos brilhavam – Que loucura é essa? – Pensei.
Sai correndo em encontro aos outros. Chegando lá fora vi que o cara das muletas estava com os outros e disse – Vamos sair daqui, logo – Saímos em disparada, olhei pra trás e vi o cara das muletas em pé e as muletas no chão. Ele estava tirando a calça e sem parar de correr gritei – MAS QUE PORRA É ESSA? – Numa hora dessas eu me permito falar palavrão, porém eu não acho bom e evito. Todos olharam pra trás e foram diminuindo a velocidade e eu também. Já tínhamos uma boa distância da lanchonete. Parei e vi um par de pernas de bode correndo em nossa direção com uma espada prata que brilhava, então pensei – Não pode ser verdade – Quando ele nos alcançou eu fui perguntando – Mas que diabos é você? Só falta me dizer que é um sátiro – Dei uma risada sarcástica e ele levantou as mãos e falou:
– EPA EPA EPA. Diabo não em. Eu sou um sátiro, enviado pelo senhor Dionísio pra resgatar vocês. Me chamo Matias, prazer em conhece-los.
E pela primeira vez na noite a Gabi falou algo construtivo, ou não:
– Não temos tempo pra apresentações, gente. Minha magia só funciona enquanto eu estiver próximo. Daqui a pouco aquela coisa vai se soltar.
Sem entender nada tive que concordar – O.K. Vamos logo – Continuamos a correr e antes de virar a esquina à nossa esquerda ouvi um barulho e todos olharam pra trás. A coisa tinha acabado de arrombar a porta da lanchonete e saiu voando e não pude mais avistá-la, era realmente rápida como uma libélula.
Viramos a esquina ainda correndo e sem avistar o monstro, fomos para trás de uma guarita de guarda de rua. Respirei fundo e tentei falar – Agora…– Fui interrompida:
– SHIIIIIU – Matias me mandou ficar quieta.
Devagar ele colocou a cabeça pra fora da guarita e voltou rapidamente:
– Nada dele, por enquanto.
Meu coração gelou com esse “por enquanto”. Todos estavam com caras amedrontadas, inclusive eu. Pude me ver no reflexo do vidro da guarita, eu estava acabada. Encostei-me na guarita quando senti que algo fofo bateu nela seguido por um barulho de algo derretendo. Olhamos para cima ao mesmo tempo e vimos que a não existia mais teto na guarita, tinha acabado de ser derretida por uma gosma verde. Já sem o teto pude ver aquela coisa parada flutuando sobre nós com o peito estufado e a cabeça pra trás como se fosse cuspir algo. Foi então que Matias gritou:
– PULEM!
E assim fizemos. Nós sete demos um pulo e rolamos por cima do ombro. Como fizemos isso? Não sei, mas se não tivéssemos conseguido neste momento nós seríamos uma pasta de sangue e gosma verde. Eu pensei que todos estavam bem quando ouvi um grito, era da Jujubs. Ela estava com uma mão no braço jogada no chão e rolando de dor. Marti estava ao lado dela, mas não sabia o que fazer eu então gritei:
– MATIAAAAAAS! A Jujubs foi atingida!
Mas ele não podia fazer nada, ele e a Gabi lutavam contra o monstro. Gabi de longe atrapalhava seu vôo enquanto Matias atacava e desviava dos poderosos golpes do monstro. Mas pude ver que ele tinha dificuldade, aquela coisa era incrivelmente rápida e forte. Matias pulava em direção ao monstro com a espada em cima da cabeça pegando impulso pra cortá-lo ao meio, e aquela coisa preta desviava rapidamente chutando e socando o sátiro que conseguia defender mas se desequilibrava com a força dos golpes.
O Marti estava desesperado com os gritos da Jujubs e Anna chorava ao ver sua melhor amiga sofrer. Foi quando uma aura dourada começou a sair dele. Então Marti colocou a mão sobre a parte do braço da Jujubs que estava na carne viva. Depois de alguns segundos Jujubs começou a parar de gritar e se contorcer. A dor tinha passado e o machucado começou a se fechar. Ele ficou meio atordoado, mas logo arrancou a manga da sua camisa laranja do acampamento meio-sangue e enrolou no braço da menina.
Em mais uma tentativa de acerta o monstro, Matias abriu sua guarda. Rapidamente seu adversário foi para as costas dele e mordeu seu braço, mas por pouco não mordeu seu pescoço. E antes que o monstro o prendesse, Matias pulou e deu um coice em seu rosto. E o vampiro libélula caiu atordoado no chão.
Marti levantou, sua aura era forte e contagiante. Ele se virou pra Gabi e disse:
– Você consegue transformar meu arco e minhas flechas em bronze celestial?
A reação dela não foi tão boa. Mas ela falou:
– Vou tentar.
A coisa foi se levantando tomando a consciência. Ele estufou seu peito preparando mais um cuspe ácido enquanto Gabi tomava as flechas e o arco na mão e se concentrava. Matias estava no chão se contorcendo de dor, mas quando viu que o monstro ia atacar, pegou suas últimas forças tomou sua espada na mão e cortou o calcanhar da libélula a fazendo cair sem conseguir lançar seu ácido. Era a chance do Marti. Das mãos da Gabi saia uma fumaça escura e um brilho de tom alaranjado tomava conta das flechas e do arco. Depois de alguns segundos o arco que antes era de cano preto e as flechas eram de madeira e espuma na ponta, agora era de bronze celestial.
Marti correu pra pegar suas armas enquanto Gabi deitava no chão exausta. Ele colocou duas flechas no arco mirou e lançou. Enquanto o monstro tentava se levantar dois jatos atravessava sua cabeça e seu coração, e imediatamente virou pó. Marti largou as flechas e o arco no chão e foi correndo até Matias agachou-se ao seu lado colocando as mãos sobre o braço mordido do sátiro. A luz dourada novamente tomou conta das suas mãos fechando a ferida no braço de Matias, então depois de um tempo, Marti arrancou a outra manga de sua camisa e enrolou no braço do ser metade homem e metade bode. Então Matias se levantou rapidamente e falou:
– Precisamos ir, estou sentindo cheiro de outros monstros e semideuses juntos aqui perto.
Matias pegou sua espada e veio lado a lado com Marti em nossa direção. Eu estava com a Gabi que estava se recuperando e Anna, Jujubs e Giu estavam ao meu lado. Quando chegaram perto – Matias, agora nos conte tudo que está acontecendo. Agora! – Falei. E ele respondeu:
– Agora não dá. Precisamos seguir esse cheiro que estou sentindo de monstro e semideus.
Tive vontade de manda-lo se sentar e me explicar tudo. Mas ele falou “semideus”. Deve ser algum amigo meu, então precisamos salvá-los. Então respondi – O.K. – Fomos seguindo Matias. Marti estava com seu arco e flechas e Matias com sua espada, as pessoas passavam do nosso lado, mas não aparentavam estar assustadas por ver armas nas mãos de sete adolescentes. Aliás, as pessoas nem reparavam em nós. Mais uma coisa da qual eu preciso de explicação.
Depois de andar alguns quarteirões, Matias parou numa esquina e pediu que ficássemos atrás dele em silêncio. E apontou com o dedo. Foi o suficiente pra que entendêssemos. Ouvi rugidos, barulho de água e barulho de madeira se estilhaçando. Marti tomou a frente colocando uma flecha no arco e mirou, foi quando eu ouvi um grito, era a voz do Dan. Logo em seguida Marti soltou a flecha e Matias correu virando a esquina com sua espada na mão e ao mesmo tempo Marti colocou outra flecha no arco, mirou e lançou. Segundos depois ele falou:
– Venham. Vocês vão se surpreender com quem está aqui.
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