A Guerra do Alvorecer

16 Primeiro contato com o novo mundo


A primeira lembrança do acampamento que ficará na minha memória não será uma visão, pois estava com os olhos embaçados, não será um som, pois meus ouvidos estavam tampados devido à pressão da troca de dimensões, e sim uma sensação prazerosa que me revigorou. O sol esquentava minha pele e um leve vento batia em meu rosto. Eu podia sentir o cheiro de grama molhada e frutas frescas. Enchi meus pulmões com o melhor oxigênio que já respirei na vida.

Agora meus sentidos estavam normais e pude ver todos formando um circulo, porém não estávamos mais de mãos dadas. Percebi que todos assim como eu se sentiam enjoados e cansados, menos Jazy, Joseph e Matias que já partiam correndo por um morro de grama em direção a uma entrada de madeira onde pude ver duas silhuetas paradas com lanças em mãos. Olhei ao meu redor e percebi que já estavam todos relativamente bens, o clima do acampamento deu uma ajudinha no enjoo. Logo seguimos subindo o morro em ritmo lento, os três sátiros esperavam por nós na entrada ao lado dos dois semideuses que agora pude ver que ambos estavam com armadura completa e capacete – Na parte de cima do capacete do semideus da direita tinha uma listra de pelos azuis, e no da esquerda pelos vermelhos -. Chegando ao fim da colina onde estavam os sátiros e os dois semideuses pude ler na grande placa de mármore preto ‘Acampamento Meio-Sangue’ em grego. Aos lados da construção de madeira que sustenta a placa de mármore, uma cerca de madeira ia além da minha visão sumindo entre as montanhas, e em todo seu comprimento tochas se projetavam da cerca. Atrás da cerca árvores impediam minha visão para além da entrada do acampamento.

– Gente, estes são Cristopher Benwood filho de Hefesto – Falou Joseph fazendo referência com a cabeça para o semideus que tinha acabado de tirar o elmo com a listra vermelha – E este é Nicholas Ocean, filho de Poseidon – Esse também acabara de tirar o elmo com a listra azul.

Tomei a frente num impulso por estar frente a frente com mais um meio irmão – Ops, mais um não. O primeiro meio irmão por parte de Poseidon, pois Dan e Leo são meus irmãos de alma mesmo antes de toda essa história de deuses e tudo mais – Me corrigi.

Prazer, NicholasEstendi a mão para um comprimentoMe chamo Gabriel Rezende, seu meio irmão Ele apertou minha mão com firmeza. Abri um sorriso divertido e olhei em seus olhos.

Se tem algo que faz parte da minha personalidade é a mania de olhar dentro dos olhos das pessoas enquanto conversamos e principalmente quando acabo de vê-las pela primeira vez. E para mim isso me permite captar rapidamente quando alguém está mentindo, além de conseguir ler os sentimentos de pessoas que eu conheço há algum tempo. No rosto de Nicholas se projetava um sorriso que eu poderia ter a certeza que é maldoso se eu o conhecesse. Ele é um cara alguns centímetros mais alto que eu – Creio que da altura de Dan – Branco, cabelos negros que cintilavam com os raios do sol, maiores em cima, penteados para trás e olhos castanhos escuros.

– Prazer em conhecê-lo também Gabriel – Falou o outro filho de Poseidon.

Logo que soltei a mão dele Dan veio em seguida cumprimentá-lo ao seu jeito.

– E ai, brother – Dan estendeu a mão e puxou nosso meio irmão para um abraço. Deram dois tapas um nas costas do outro quase que automaticamente e se afastaram – Me chamo Danilo Pinheiro, mas me chame apenas de Dan – Dentre nós Dan só não é mais simpático do que Pietro, mas é bem mais animado que a maioria.

Cumprimentei o filho de Hefesto e me afastei dando espaço para que os outros se apresentassem também. Aquele sorriso de Nicholas não saia de minha cabeça, deve ter algo de estranho com esse cara – Ei Gabriel, deixa de loucura – balancei a cabeça me repreendendo. Realmente, eu nem conheci o cara e já estou implicando com ele.

– O que se passa nessa cabeça ai em? – Não percebi Dan chegar ao meu lado.

Nada não, manoFiz força pra esquecer o pressentimento com meu meio irmãoSó o cansaço que está pegando agoraNão era só isso, claro. Mas agora que falei lembrei que eu estava exausto.

– Hum, sei – Ele sabia que não era só isso, mas como sempre ele sabia quando tinha algo de errado comigo. Mas sabia que logo eu iria contar pra ele o que quer que fosse que estivesse me perturbando, então nem insistiu – É cara... Eu tinha esperança que teríamos um chalé só nosso como o Percy tinha um só pra ele e pro Tyson. – Lamentou-se Dan.

Sabe que eu também tinha essa esperança!? – Demos uma risada rápida e logo Matias nos chamou e adentramos o acampamento.

A trilha é bem larga, mas não o suficiente para que andássemos lado-a-lado. Enquanto galgávamos a trilha, fui observando as enormes árvores dos dois lados. Minhas pernas tremiam exaustas e os músculos do meu corpo inteiro pareciam ter vida própria, pois eles tremiam dentro de minha pele. Eu estava com uma sede animal. Minha boca seca estava ficando com gosto de dipirona.

A minha frente Jujubs caiu de repente. E no reflexo tentei me lançar em direção à ela para segurá-la, mas meus músculos não responderam aos meus comandos. Foi quando Anna que estava ao lado da garota agarrou-a no último momento impedindo que sua amiga caísse de cara no chão. Fui à direção da menina caída no colo de sua

amiga. Todos haviam parado.

– Julia, Julia. Acorda. – Falou Anna dando leve tapas no rosto de Jujubs.

Imediatamente a menina abriu os olhos lentamente um tanto atordoada.

– Estou bem. Estou bem. – Respondeu Jujubs praticamente sussurrando e levando a mão ao rosto.

Venha. Se apoie em mim. – Fiz força para levantar a menina que devia pesar no máximo 60 kilos. Estou realmente acabado.

– Obrigado, Biel. – Falou ela com a voz muito fraca.

Relaxa, pode se apoiar, acho que ainda aguento. – Dei uma rápida risada. – Está tudo o.k, pessoal. Vamos continuar. – Falei tranquilizando os outros que se amontoavam apreensivos ao nosso redor.

O acampamento já era visível. Um frio tomou conta do meu estômago. Respirei fundo e falei – É... pessoal. O sonho está se tornando realidade. – Olhei para os lados. Dan estava à minha direita e Leo à esquerda. Ambos com cara de criança assistindo à queima de fogos de fim de ano. Imagino que eu também devo estar com essa expressão.

Há poucos metros do fim da trilha eu podia ver claramente os chalés. De frente pra mim estavam as três maiores construções; Zeus, Poseidon e Hades, e ao redor deles um bocado de outros chalés. No centro queimava uma grande fogueira (só não entendi o porquê de ela estar acesa já que era dia). Ao longe pude ouvir um barulho de cascos de cavalo batendo no chão. À minha direita avistei uma silhueta de um cavalo trotando em nossa direção, mas no lugar do seu pescoço se projetava um homem da cintura pra cima. Seus pelos eram marrons brilhantes. Seu peitoral e seus antebraços estavam protegidos por uma armadura prateada. A cor de sua pele era um marrom claro bronzeado. Em todo seu rosto e pescoço havia uma barba quase rala, preta com alguns fios brancos. Seus cabelos pretos grisalhos e levemente enrolados quase chegavam ao seu ombro. Em seu peito um arco se prendia e em baixo de seu braço esquerdo havia um elmo com uma listra preta e na sua cintura pendia uma espada na bainha.

Quando ele parou em nossa frente, fez uma cara de espanto, e eu pude perceber que essa reação provinha da presença dos três sátiros.

– Matia... Joseph... Jazy... – Falou o centauro quase que sussurrando – Pelo o Olimpo. – Agora um grande sorriso tomava conta de seu rosto. – Vocês conseguiram! – Falou o ser híbrido praticamente gritando de alegria agora.

O centauro se curvou e abraçou empolgadamente os três sátiros.

– Por Hermes... Eu orei tanto para o deus dos viajantes que olhasse por vocês enquanto estivessem presos foram do acampamento. – Falou o centauro empolgadamente.

– Obrigado, senhor. – Falou Joseph – E suas preces foram ouvidas senhor. – O sátiro suspirou em alívio.

O sátiro se virou para nós e um frio subiu pela minha espinha.

– Ora ora ora... Então esses são os novos campistas. – Ele se curvou em nossa direção olhando atentamente para cada rosto. – Me chamo Quíron, diretor do Acampamento Meio-Sangue. – Ele se curvou fazendo uma reverência em nossa direção.

No momento que eu ia pensar em algo para dizer, Matias me interrompeu:

– Senhor, estes são os semideuses fãs daquela tal saga que Riordan escreveu. – Falou Matias – Com eles está a pedra perdida de Hécate – Logo acrescentou.

Imediatamente uma expressão de espanto tomou conta do rosto de Quíron e ele se aproximou mais ainda de nós.

– Não posso acreditar. – Falou o centauro boquiaberto – Então quer dizer que finalmente encontraram essa pedra.

Sim, senhor Quíron. – Falei dando um passo á frente – Me chamo Gabriel Rezende, filho de Poseidon. E a pedra foi me dada por uma mulher muito estranha em frente ao parque Ibirapuera. – Falei como se eu tivesse programado pra isso.

– Santo Zeus... Então você é o garoto da profecia!? – Falou Quíron olhando em meus olhos.

– Ai eu já não sei, senhor. – Profecia? Mas que profecia?

– O filho das ondas encontrará

A enviada dos deuses que cumpre sua demanda

A serva da rainha fiel o entregará

Com mais intensidade nas mãos da escolhida a chave brilhará

As portas da esperança se abrem

E mais um dia alvorecerá – Recitou Quíron. – Esta é a profecia que estamos esperando se cumprir desde que a deusa Hécate foi sequestrada.

Então eu sou o filho das ondas, e a escolhida só pode ser... Você. Jujubs! – Falei olhando pra Julia que ainda estava ao meu lado apoiada em ombro.

– É... Sou eu. – Jujubs falou com a voz fraca.

– Qual é seu nome filha? – O centauro se inclinou na direção da menina.

– Me chamo Julia Guglielmo, e... Sim, eu sou a escolhida para usar os poderes de acálicis. – Falou Jujubs de cabeça baixa e tremendo.

– Vejo que estão todos cansados e fracos, mas antes preciso saber se além de Gabriel, mais alguém já sabe quem são seus devidos pai ou mãe olimpiano. – Falou Quíron.

Quase que de imediato Dan e Leo levantaram os braços.

– Poseidon – Disse Dan.

– Hades – Disse Leo.

– Quem são vocês? – Perguntou Quíron.

– Leonardo Veronezi – Disse Leo.

– Danilo Pinheiro – Disse Dan.

Então Gabi, Marti, Anna, Giu, Agatha, Denis, Duh e Aria levantaram a mão.

– Gabrielli Souza, filha de Hécate – Disse Gabi.

– Vinicius Martinato, filho de Apolo – Disse Marti.

– Anna Englert, filha de Dionísio – Disse Anna.

– Giuliana Reis, filha de Afrodite – Disse Giu.

– Agatha Hurba, filha de Atena – Disse Agatha.

– Denis Monteiro, filho de Hades – Disse Denis.

– Eduardo Viana, filho de Ares – Disse Duh.

– Ariel Endo, filha de Zeus – Disse Aria.

O centauro estava visivelmente espantado.

– Ótima quantidade. Ótima mesmo! – Falou Quíron. – E o restante, creio que dessa noite não passa. Vocês também saberão de quem são filhos. Me aguardem aqui, vou atrás dos conselheiros de vocês, com exceção do conselheiro de Poseidon que já se encontra aqui, Nicholas, leve seus dois meios irmãos para o chalé de vocês e os acomodem lá.

– Sim senhor – Falou Nicholas quase batendo continência para Quíron – Vamos lá, irmãos? – Ele já foi se virando e indo em direção aos chalés.

O caminho até o chalé de Poseidon é longo e eu fui observando os outros chalés. Todos estavam vazios, logo imaginei que os semideuses devem estar em atividades. O chalé de Poseidon é imenso. Sua faixada e colunas são cravejadas de conchas, pérolas e outras pedras do oceano. Na parte de cima do chalé tem um tridente e o número três em cima. Logo que a porta foi aberta vi uma estátua de Poseidon em cima de um chafariz. Dentro do chalé havia 5 beliches e 3 grandes guarda-roupas.

– Fiquem a vontade para escolherem onde querem ficar, afinal só uma cama está em uso. – Nicholas deu uma risadinha – Ali fica o banheiro – Ele apontou para uma porta dupla do outro lado do chalé.

– Valeu cara, vamos nos arrumar aqui – Disse Dan.

– O.K, vou voltar pra vigia, hoje é o meu dia. – Nicholas deu um sorriso de canto e se retirou do chalé.

Logo que ele bateu a porta olhei pro Dan e fui falando:

– Dan... – Ele me interrompeu.

– Sim Re, eu também o achei estranho – Dan falou com um tom preocupado.

– Saia da minha cabeça seu negro – Brinquei.

Dan riu e se jogou numa cama e eu fiz o mesmo.

Segundos se passaram e eu já estava sonhando.