A Guerra do Alvorecer
13 A surpresa que a porta guardava
Fui dormir com apenas um medo; sonhar. Mas graças à Hipnos dormi perfeitamente bem. E pra minha infelicidade ou da pessoa que gritou no meu ouvido eu dei um pulo da cama alto o suficiente para que eu chutasse a cama de cima e caísse no chão. A raiva me possuiu nessa hora. Vi que Dan estava olhando para a cena: eu caído no chão, Jazy do outro lado na cama rindo e Duh na cama de cima com uma cara que aposto que estava mais assustadora que a minha.
Me levantei devagar olhando fixamente para Jazy que dava gargalhadas altíssimas enquanto todos assistiam a cena. Será que ele não percebeu que ninguém estava rindo? Não, ele não percebeu. De repente eu pude sentir onde passava água dentro de todo aquele ambiente. Canos explodiram no chão e nas paredes, barulhos de coisas explodindo e em seguida barulho de água saia do banheiro. As torneiras da cozinha chiaram e se abriram sozinhas. E toda essa água veio ao meu encontro. Pairava acima da minha cabeça uma gigante bolha de água que se agitava. Eu senti que a água me obedecia, e a minha vontade no momento era dar uma surra naquele sátiro. Então sem que eu ordenasse conscientemente, a bola d’água voou na direção do sátiro. Quando me dei conta que aquilo poderia machucar e quem sabe mata-lo tentei segurá-la sem sucesso. Os segundos que a bola voava em direção à Jazy se passaram em câmera lenta. Todos ao meu redor estavam com expressões assustadas em seus rostos. Então por algum milagre a bola parou poucos centímetros do sátiro que se encolhia e estava com os braços em seu rosto numa tentativa de defesa que diante da velocidade e do tamanho da bola d’água era completamente inútil.
Olhei ao meu redor, todos estavam com uma expressão de alívio misturada com surpresa. Mas eu não sabia como aquela bola foi parada no ar. Olhei para o meu lado esquerdo e vi Dan do outro lado do muro que separa o quarto da cozinha com o braço esquerdo estendido em direção à bola d’água. Seu rosto estava enrugado numa expressão de esforço extremo e seu braço estendido tremia. Até que então ele não aguentou mais, abaixou o braço e á minha frente a bola caiu inundando todo o esconderijo. Todos olhavam de boca aberta de mim para Dan e para o sátiro.O primeiro a falar algo foi Jazy. Ele estava tremendo e gaguejava:
– Cara… Foi mal, sério!
Minha raiva já havia passado dando lugar ao medo de ter matado o sátiro, então falei – Me desculpe também, sério! Eu não queria fazer isso, foi meio que automático. – Eu fui sincero no que disse. Eu realmente não tive controle do que fiz. – A água obedeceu meu desejo de um jeito bem exagerado. – Completei.
Joseph se pôs entre nós dois, se virou em direção à Jazy e falou com um tom muito irritado:
– Isso foi bom pra que você aprenda a não fazer mais brincadeiras idiotas, Jazy.
O sátiro abaixou a cabeça sem o que falar e veio em minha direção:
– Sério Biel. Não pensei que fosse acabar nisso, não fiz por mal. – Ele estendeu a mão pra mim.
A culpa de quase ter matado o sátiro era grande, então peguei sua mão e o puxei pra um abraço – Me desculpe também cara. Mas nunca faça isso de novo. Eu odeio ser acordado desse jeito. – Gabrielli e Marti que estavam em camas logo à frente falaram em uníssono:
– Eu que o diga.
Olhei para os dois e comecei a rir, e todos ao meu redor também. Jazy agora menos sem graça falou:
– Relaxa, não farei de novo!
Depois de toda a tensão ter sumido olhei no relógio, eram dez horas da manhã. O dia havia chegado. Eu estava com uma vontade de abrir a janela e poder respirar fundo deixando o sol bater em meu rosto e ser energizado pelo astro rei, mas o esconderijo é subterrâneo, não havia nenhum modo de satisfazer minha vontade.
Muitos já estavam acordados e tomavam um farto café da manhã na gigantesca mesa. Dentre eles estava Dan, Léo, Aria, Gabi, Jujubs, Matias, Joseph e Jazy. Dan estava contando uma de suas piadas e fazendo as caretas mais horrendas e engraçadas que só ele sabe fazer. Todos riam demais e faziam piadas também. Apenas Léo estava sentando na ponta da mesa apoiado com os dois braços e com uma caneca de café nas mãos. Ele olhava para um ponto cego aos meus olhos, ou melhor, ele olhava para lugar nenhum. Ele ficou mais calado e misterioso depois de ontem quando ele descobriu que era filho de Hades, e acho que isso explica o porquê de ele ter ficado assim.
[…]
Sai do banheiro e vi que mais alguns haviam acordado e agora restavam só Marti, Pichu, Bieringuer e Duh ainda dormindo. Fui em direção à Pichu, soprei devagar em seu ouvido, ela se virou pro outro lado tentando acertar um tapa em mim que passou direto, pois desviei. Então soprei de novo, ela resmungou e bateu os pés na cama – Segurei a risada. – Então tive uma ideia genial.
– Julia Fabro, a tia Érica está te ligando. – Falei com o tom de voz firme, porém sem falar alto.
Ela imediatamente abriu os olhos e se virou para o lado para levantar, mas o cobertor estava preso entre suas pernas, então ela caiu de cara no chão. Ao mesmo tempo em que soltei uma gargalhada eu ouvi outra á minha frente. Anna estava parada na divisão da cozinha e do quarto com uma mão na boca e a outra apontando pra menina caída no chão. A filha do deus do vinho ria muito alto. Então ouvi um grito vindo da cozinha:
– ANNA VAGABUNDA, PARECE UMA FEIRANTE RINDO! – Era Léo, só ele falava isso pra Anna, e do jeito mais engraçado que alguém poderia falar.
Ainda chorando de rir vire-me para ir acordar os outros, mas já estavam todos sentados na cama rindo de toda a palhaçada. Pichu parou de se debater no chão tentando se livrar dos cobertores quando percebeu que todos riam dela. Ela olhou para mim com uma expressão demoníaca e gritou:
– É MELHOR VOCÊ CORRER, GABRIEL REZENDE!
Em vez de correr, cai na cama que ela estava deitada. Eu não conseguia parar de rir, pois a Pichu nervosa é a coisa mais engraçada e fofa que existe. Ela voou em cima de mim me dando tapas e gritava pausadamente:
– EU VOU TE MA-TAR – Ela bateu até se cansar e cair ao meu lado rindo também.
Ainda um pouco ofegante me levantei falando para o resto do pessoal irem tomar banho e tomar café, e assim fizeram.
[…]
Agora finalmente estávamos todos ao redor da mesa. Já tínhamos terminado de tomar café e esperávamos apenas Joseph começar falar como seria nosso plano pra chegar até o acampamento. Estávamos todos preocupados, pois sabíamos que com certeza seriamos atacados no meio do caminho ainda por cima desarmados, então obviamente que todos também estavam ansiosos para saber o plano que o sátiro mais experiente tinha em mente para chegarmos em segurança ao acampamento.
Joseph finalmente se levantou e olhava todos os rostos atenciosamente. A tensão se instalou sobre todos que estavam na mesa. O silêncio ficou ensurdecedor para os meus ouvidos então falei – Fale logo sátiro, pelo amor de Deus. – Ele me olhou e falou sem mudar sua expressão:
– Se acalme rapaz.
Todos bufaram. Aquilo já estava ficando insuportável e eu senti que Dan já estava perdendo sua paciência, o que era praticamente impossível de acontecer. Quando finalmente Joseph se pronunciou:
– Então temos 19 semideuses, todos desarmados e apenas 8 sabem usar alguns de seus poderes.
O silêncio tomou conta novamente por alguns segundos e as expressões nos rostos de todos se entristeceram.
– Infelizmente teremos que nos separar em grupos. – Falou Joseph com dificuldade.
Apenas essa frase foi o suficiente para que o alvoroço começasse. Se separar? Nessa ocasião sem dúvidas é a última coisa que queremos. Então um grito alto e grave tomou conta do ambiente e imediatamente todos se calaram e voltaram sua atenção pra Duh. O garoto moreno, quase 1,65 de altura, cabeça raspada e corpulento estava com suas duas mãos apoiadas na mesa:
– Vamos deixar Joseph terminar. Eu quero ouvir o plano dele para a luta.
Estávamos todos um pouco surpreso por essa atitude de Duh. Ele era calmo e dificilmente levanta sua voz. Mas não me surpreendi tanto quanto os outros, pois Duh sempre manteve a ordem de seu chalé nos eventos muito bem, e para isso era preciso uma voz de comando. Joseph agradeceu Duh com um aceno de cabeça o conselheiro do chalé 13 sentou-se. Mas antes que Joseph pudesse retornar para seu plano, Agatha, a recém-reclamada filha de Atena levantou-se. Com um jeito meigo, porém firme ela pediu licença para o sátiro que aguardava sua oportunidade de falar:
– É seguinte pessoal… Joseph está completamente certo! Estamos em 22 pessoas. Como vamos sair daqui todos juntos e chegar lá sem que uma legião de centenas de monstros venha atrás do nosso cheiro? Definitivamente não tem como. Fazer isso seria pedir para morrer. Teremos que nos dividir em 4 grupos; 2 grupos com 5 pessoas e 2 com 6 pessoas. […]
Agatha falava como se estivesse dando uma palestra muito bem ensaiada. Era como se funcionasse um computador em sua mente. Todos ouviam com extrema atenção. No rosto de Joseph se formava uma expressão de surpresa.
[…]
– Em cada grupo deve ter pelo menos um semideus que saiba usar seus poderes em combate, ou seja, matar monstros. Então o time 1 ficará assim:
Biel
Marti
Joseph
Jhon
Pichu
– O time do Biel tem que ser o primeiro a chegar lá, pois é ele quem está com a pedra e só ele pode usá-la. Joseph como o mais velho deve estar ao lado de Biel o protegendo. – Eu a cortei apenas para ressaltar uma coisa – E outra, proteger o que tem o poder cura é essencial por motivos óbvios. – Todos viraram suas atenções pra mim, então terminei me sentando – Aprendi em Naruto pessoal. – Dei sinal com a mão pra que Agatha continuasse. Olhei pra Marti e nos cumprimentamos mentalmente. Nós dois temos bastante coisa em comum e ele foi o primeiro amigo que fiz nos eventos, então lutar juntos não seria algo novo para nós dois, podemos tirar de letra.
– Agora o time dois. – Agatha continuou – Esse time também não terá muita diferença. Estou me baseando na lógica de ter em cada time uma pessoa que tenha poderes e uma com experiência e mente lógica para batalhas:
Dan
Eu
Duh
Ayumi
Bieringuer
– Dan que já sabe usar alguns de seus poderes e eu, reclamada filha da deusa da sabedoria e táticas em guerra. Assim temos no time uma pessoa que lute mais e outra que pense mais.
Eu estava simplesmente paralisado com as estratégias da filha de Atena. Ela nunca se mostrou uma menina que tivesse uma inteligência acima do normal, sempre foi calma, e calma até demais. Motivo de ela sofrer bullying nos eventos.
Não tinha onde interferir nas estratégias dela, e percebo que nem os sátiros também. Tudo fazia um sentido absurdo, ela estava montando tudo em tempo real. Então ela continuou seu plano:
– Time três. Já esse terá seis pessoas:
Léo
Mathias
Anna
Pietro
Thay
Aria
– Neste time nada muda. Agora o quarto e último time:
Gabi
Jazy
Giu
Denis
Saraiva
Jujubs
– Primeira coisa que vou deixar bem claro. Nesse time temos o mais jovem e brincalhão dos sátiros e a mais jovem, teimosa e inconsequente semideusa. Sem brincadeiras os dois, saindo da proteção desse lugar os dois tem que ser mais cuidadosos e cautelosos possíveis. Denis, você terá a responsabilidade de supervisionar os dois, e temo que tenha que usar seu poder de viajar pelas sombras. E eu acho que é só por enquanto.
Agatha logo sentou-se na cadeira com as mãos na cabeça como se tivesse feito um grande esforço. Mas logo se levantou a espera de alguém dizer algo. Estávamos todos boquiabertos, não tinha o que dizer, mas então me pronunciei – Valeu Agatha. Está tudo perfeito em minha opinião. – Ela deu um sorriso de canto de boca e olhou para a mesa e eu percebi que ela estava envergonhada – E ai pessoal, o que acharam? – Perguntei. Todos concordaram com palmas, gritos de parabéns e agradecimentos no estilo semideus.
Joseph se levantou e falou:
– É isso ai pessoal. Agora vamos todos arrumar nossas mochilas com roupas e alguns poucos mantimentos caso algo de errado. Não quero ver nenhuma mochila grande, até porque devemos estar no acampamento até antes do fim do dia, e se os deuses ajudarem conseguiremos. Agora vão.
Eram 11:00 horas de uma manhã de segunda feira, dia vinte e sete de abril de 2014. Minha vida e dos meus amigos não é mais como era antes. Podemos estar todos mortos até o fim do dia ou lutar e chegar ao acampamento que sempre sonhamos.
Todos já tinham ido arrumar suas coisas ficando apenas eu, Dan e Léo arrumando a mesa. Paramos nós três no balcão que divide os dois cômodos. Dentre risadas, palavrões, briguinhas e bagunças percebi o quanto aqueles doidos me faziam feliz, e como eles tinham se tornado a minha segunda família. Olhei os dois ao meu lado, os dois irmãos de alma que encontrei depois de 17 anos de vida e percebi que eu estava realmente disposto a lutar até a morte por todos que estavam ali, pois eu sabia que eles fariam o mesmo por mim. Então percebi que aquela frase “eu mato e morro por você” nada mais é que uma demonstração de obsessão e não amor. Pra mim o amor de verdade se baseia na liberdade e no companheirismo até de frente a morte.
E sem dizer nada fomos os três arrumar nossas coisas também.
[…]
O momento de sair da nossa zona de conforto estava chegando. Fora desse lugar teremos que lutar como nunca em nossas vidas. Todos reunidos no quarto esperando apenas as últimas instruções.
De repente me veio um estalo na memória e então eu falei – A porta. – Matias e Marti que estavam ao meu lado perguntaram em uníssono:
– Que porta? Está doido, Biel?
– Não, não estou. Precisamos ver o que tem lá dentro. – Respondi – Vamos, me ajudem! – Falei pegando os dois pelo braço e indo em direção a triliche que estava na frente da porta.
– Dan, vem aqui. – Chamei o que estava mais perto pra ajudar a tirar a mover aquele treco que eu tinha certeza que era bastante pesado.
Cada um pegou numa ponta. Eu e Dan empurramos, Marti e Matias puxaram. Era mais pesado que eu imaginava, mas logo pudemos avistar a porta de ferro.
Todos olhavam curiosos para a porta, então Joseph saiu do meio dos outros e veio em minha direção:
– O que é isso Gabriel? – Perguntou o sátiro
– Não está vendo? – Falei ironicamente e ele continuou com a cara de surpresa.
– O que eu quero é saber o que tem atrás dela, e tem algo martelando em minha cabeça que temos que abri-la de qualquer jeito. – Falei olhando a porta de cima a baixo em busca de algo que permitisse abri-la, mas não encontrei nada, nem sequer um botão.
– Matias, Joseph e Jazy. Nenhum de vocês sabe algum comando para abrir essa porta?
Matias pensou por alguns segundos e então deu um passo à frente encheu o peito e disse em voz alta um comando parecido com os outros que ele usou antes, porém nada aconteceu. Ele tentou outros, e quando já estávamos sem esperança, o último comando resultou em algo. Uma voz surgiu no ambiente dizendo:
– Recinto dedicado à Ares e suas proles. Filho de Ares, dê um passo à frente com sua aura em visão e se apresente.
Olhávamos um pro outro sem dizer nada por alguns segundos. Quando comecei a sentir um calor no ambiente. Atrás de todos os outros vi uma aura vermelha se expandir, e então todos olharam para trás também. Um espaço foi se abrindo entre os semideuses e lá de trás saiu Duh envolto pela aura quente e vermelha. Mas tinha algo de errado, não era o Duh de antes. Ele aparentava mais alto e estava visivelmente mais magro. Seu rosto estava quadrado, e nele se formava um sorriso um tanto maníaco. Ele parou alguns metros de distância da porta e disse com uma voz mais grossa do que antes:
– Me chamo Eduardo Viana, filho do deus da guerra, Ares.
O espanto se instaurou nos rostos de todos que estavam no lugar. A voz voltou dizendo:
– Seja bem-vindo senhor Viana. Leve o que quiser deste lugar.
Atrás de mim a porta ruiu e se abriu. Me pus de frente à entrada sem tomar a visão de Duh que continuava menor que eu por mais que tivesse crescido um pouco. A sala estava escura, mas aos poucos foi acendendo-se luzes do lado esquerdo e direito e iluminando uma comprida sala retangular. Porém, não havia nada no espaço. Olhei pra trás, Duh continuava com sua aura quente e vermelha saindo de seu corpo. Sua expressão facial nem se quer mudou com o fato da sala estar vazia, então falei- Acho que você deve ser o primeiro, Duh. – Dei passagem para que ele entrasse na sala.
Andando com a posição ereta como se fosse um soldado militar ele deu três largos passos em direção à sala. E quando ele colocou seu pé direito para dentro da fronteira da porta pude ouvir ruídos e estalos. Fui logo atrás e vi as paredes rodando em várias seções revelando então prateleiras de armas que tomavam conta das duas paredes até o fim da sala de cima à baixo.
Atrás de mim ouvi Joseph falar:
– Santo Ares.
Eu estava encantado com aquela quantidade de armas e com o brilho do que eu logo identifiquei, era bronze celestial para todo lado. Vagarosamente eu andei até o fim da sala apreciando cada detalhe de cada arma. Era como um self-service de guerra. Espadas de diversos tamanhos e larguras, escudos de várias formas e tamanhos, adagas retas e curvadas, arcos grandes e pequenos, centenas de flechas com suas pontas diferentes, machados, lanças, porretes, martelos gigantes e mais uma dezena de armas diferentes.
Duh com dois machados de duas lâminas idênticas nas mãos disse apreciando suas armas:
– Escolham seus brinquedinhos, pessoal. – E soltou um sorriso sanguinário.
Continuei a observar cada arma e todos faziam o mesmo. Dan escolheu uma lança da sua altura com a ponta dupla e um escudo que cobria de sua cabeça até depois da sua cintura. O escudo tem a forma oval, mas nos seus dois lados tem um corte redondo como se fossem aberturas para a lança passar. Léo escolheu uma espada longa que eu imaginei que tivesse noventa centímetros e um escudo redondo que era o suficiente para cobrir seu pescoço, peitoral e abdômen.
Marti também não me surpreendeu na sua escolha. No seu peito passava a corda de um arco, e nos seus ombros as alças de uma aljava de flechas. No lado direito da sua cintura pendia uma bainha e na sua mão uma espada curta que eu imaginei que tivesse uns cinquenta centímetros. Gabi escolheu duas adagas curvadas que tinham um toque místico.
Todos os outros escolheram armas comuns mas a maioria estava com espada e escudo, o jeito tradicional de guerrear. Percebi que também que todos levavam uma adaga ao lado de seu corpo.
Até agora eu não tinha encontrado nada que me agradasse. Foi então que avistei na parte mais alta da prateleira da parede direita algo que me chamou a atenção, uma pedra azul marinho brilhava na parte que separava a empunhadura da lâmina de uma espada que eu imaginei que tivesse uns noventa centímetros e não sei por que isso despertou minha aura.
– Rezende, porque você está expandindo sua aura? – Perguntou Jhon.
Eu continuava a olhar aquela pedra fixamente e apenas respondi – Não sei cara.
Eu precisava pegar aquela espada de qualquer jeito. Olhei para o chão e não tinha nada que eu pudesse subir para alcançar a parte alta da prateleira. Então improvisei. Coloquei a ponta do pé na prateleira mais baixa, me segurei e estiquei meu corpo até alcançar a empunhadura da espada, agarrei-a e desci da estante num pulo para trás. Cerrei meu punho direito na empunhadura daquela arma maravilhosa e a pedra brilhou mais intensamente. A espada brilhava em sua cor de bronze. Dos dois lados da espada, o que separa a empunhadura da lâmina eram duas pontas do tridente de Poseidon. Era exatamente do jeito que vi quando conversei com meu pai olimpiano por meditação. Olhei ao meu redor e todos me observavam. Aposto que eu estava quase babando em cima da espada. Antes que eu parasse de apreciar a espada vi algo escrito acima da pedra, mas não consegui ler rapidamente. Me concentrei um pouco e consegui ler “Tempestade” em grego, esse era o nome dela. Levantei a cabeça, empunhei a espada com as duas mãos e falei olhando para o pessoal – Gente, essa é a Storm. – Joseph já estava impaciente então apenas falou:
– Prazer Storm, eu sou Joseph. Gabriel, você vai pegar mais alguma coisa? Se não for vamos embora logo. – Todos riram da piada que eu não achei graça nenhuma. Me virei para a prateleira falando – Seu sem graça. Espera um pouco que vou escolher um escudo. – O escudo não foi muito difícil pra escolher. Depois de um minuto olhando avistei um escudo redondo, dourado com gravuras gregas. Empunhei o escudo que cobria todo o meu dorso e falei – Agora… Só temos que desejar sorte ao que vier nos atacar. Ou não. – Todos apreciavam suas armas com um olhar empolgado. Mas eu queria saber como iriamos sair na rua com esse bando de armas sem que chamássemos a atenção de todos. – Esperem… Como vamos sair na rua desse jeito sem que os outros não vejam? – Percebi que essa dúvida pairava na mente de todos, então Matias começou falar:
– Ué, vocês não leram os livros?! A névoa gente, óbivo. Ela está em todo lugar para limitar a visão dos mortais. – Eu ainda não tinha me acostumado que tudo aquilo existia realmente. — Mas também existem as armas mágicas que se transformam em objetos comuns, diminuem para serem guardadas em bolsos, mochilas e etc. Mas creio que nenhuma arma dessas seja mágica porque geralmente essas armas semideuses, sátiros e ninfas ganham dos deuses por algum ato heroico de grande dimensão.
A dúvida de todos se extinguiu. Mas eu ainda estava curioso sobre storm. Tenho certeza que foi ela quem despertou minha aura. E aquela pedra definitivamente não tinha um brilho comum. Além de eu sentir que ela fazia parte do meu corpo, como se fôssemos um só.
Todos foram nas prateleiras pegar suporte para suas armas e eu fiz o mesmo. Prendi uma bainha no lado direito do meu corpo e embainhei storm que não pesou nada. Do lado esquerdo do meu corpo coloquei uma adaga para emergências. Peguei um suporte de escudo e o coloquei nas minhas costas, o que me fez sentir-me uma tartaruga ninja, e essa sensação foi legal, as tartarugas ninjas eram fodas. Imaginei que todas essas armas fossem se passar por objetos comuns e as espadas embainhadas fossem simplesmente ser apagadas da visão dos mortais, como dizia nos livros.
Saímos da sala, as luzes se apagaram e porta fechou atrás de mim que fui o último a sair. Agora era hora de organizar as saídas de cada grupo. Ficamos todos juntos no quarto, então Joseph virou-se de frente para nós e começou falar:
– E com uma benção de Ares e Dédalo, estamos todos armados e nossas chances de chegarmos todos vivos no acampamento aumentaram. – A esperança se acendeu nos olhares de todos. – É o seguinte… – Ayumi o interrompeu:
– Espera… Nós não sabemos nem onde estamos e não tem nenhum sátiro no meu grupo pra nos guiar.
– Boa observação garota. Mas eu já expliquei o trajeto pra Agatha que é a líder do seu grupo e ela sabe exatamente o como ir. E também não estamos longe do Ibirapuera.
– Durante uma conversa minha com Agatha decidimos que cada grupo deve sair com dez minutos de intervalo entre um e outro. Os líderes dos grupos serão: Eu, Agatha, Mathias e Jazy respectivamente. Os líderes estarão com telefones celulares para avisar caso algum imprevisto ocorra. Se o líder de vocês morrer em batalha, a liderança passa para aquele que tem a voz de comando melhor entre vocês. E caso alguém se fira, e essa pessoa não tiver condições de continuar o trajeto por si só... – Ele deu uma pausa e meu coração pareceu parar junto por causa do que eu acho que ele vai falar em seguida. – Vocês devem larga-lo e se salvarem. – Terminou o sátiro com um tom de pesar na voz.
Uma raiva incontrolável tomou conta de mim e eu não me segurei – VOCÊ ESTÁ LOUCO SEU SÁTIRO PROBLEMÁTICO?! VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FALANDO COM QUEM? COLEGAS? VOCÊ ESTÁ ENGANADO! SOMOS MAIS QUE ISSO. SOMOS MAIS QUE SEMIDEUSES, SOMOS MAIS QUE GUERREIROS E SOMOS MAIS QUE AMIGOS! SOMOS UMA FAMÍLIA! – Me virei pro pessoal que me olhavam espantados – Olhem aqui, não escutem esse velho! Se algum de seu time se machucar, por mais grave que for vocês devem colocá-lo nas costas, correr e lutar com ele nas costas se for preciso. Vocês sabem disso e eu confio em cada um de vocês. E outra, nós vamos chegar todos vivos naquele acampamento, morrer não é uma opção e desistir muito menos. – Dan saiu do meio de todos e veio ao meu encontro e me abraçou. Logo em seguida veio Léo, Saraiva, Gabi, Anna e quando me dei conta estávamos num abraço grupal. Dan gritou o mais alto que pode:
– VAMOS CONSEGUIR PORRA!
E logo todos fizeram o mesmo. Aquele grito em uníssono me arrepiou inteiro. Hoje não estávamos separados gritando e torcendo cada um pelo seu chalé. Hoje estávamos gritando e torcendo juntos como uma verdadeira família. Eu vou lutar por essa família e eles vão lutar por mim. Estávamos prontos para a guerra.
Depois do abraço vi Joseph, Mathias e Jazy um do lado do outro. Mathias e Jazy sorriam empolgados com a nossa união. Já Joseph estava encostado na parede de cabeça baixa com uma cara de quem está envergonhado. Fui até ele, coloquei a mão em seu ombro e disse – Cara, por mais que você tenha coragem de me deixar pra trás caso algo me vença, eu não tenho coragem de fazer o mesmo contigo e repito, eu te coloco nas costas e luto com você grudado em mim. – As minhas palavras tiveram efeito de um tapa. Ele não teve reação nenhuma. Nem sequer olhou em meus olhos. – E grave um negócio na sua mente. Aqueles que não se importam com seus companheiros são piores que lixo. Então mude esse seu jeito de pensar. – Ele apenas virou as costas e foi em direção à porta.
Já estávamos eu, Marti, Joseph, Jhon e Pichu prontos pra sairmos. A porta se abriu e subimos as escadas. Cada passo que eu dava em direção à rua, os pelos do meu corpo se eriçavam e eu sentia a adrenalina invadir minhas veias. Agora era matar ou morrer.
Fale com o autor