A Guerra das Chamas
2 O Sonho
Hanna PoV
A caverna era úmida, parecia ser extensa pelo alto som de eco que era ouvido. A pouca luz que o lugar possuía se dava pelo reflexo da nascente que havia por ali no teto da caverna, o que fazia o céu da caverna se assimilar as noites no Alasca, com uma forte aurora boreal se instalando por todos os lados.
Eu não tinha ideia de como parara ali, em um momento estava em meu quarto deitada na cama, e no outro estava parada em uma caverna escura e assustadora. Pensei se tratar de um de seus malditos sonhos semideuses, principalmente por ainda estar usando meu pijama de poodle, mas ao contrario da maioria de todos os meus outros sonhos, aquele parecia mais real, e aquela era a primeira vez que eu me via incapaz de acordar, e mais, conseguia me movimentar livremente, geralmente meus movimentos eram involuntários, e não entendia porque aquilo era diferente naquele momento.
Sentia-me nervosa, minhas mãos tremiam, meus pés eram como dois pedaços de bambus e meu coração lutava bravamente para sair do peito, sentia a caverna transpirando vibrações ruins por todos os lugares. Chacoalhei os pés me livrando das pantufas de coelho, o chão da caverna estava molhado, e as pantufas poderiam fazer barulho e chamar atenção, o que eu definitivamente não queria, me embrenhei por entre algumas estalactites e estalagmites, onde eu provavelmente ficaria mais bem escondida.
Naquele momento de adrenalina minha atenção era meu ponto forte, um dos únicos momentos em que o meu TDAH me ajudava, e agradecia por tê-lo ao meu favor. Continuei na ponta dos pés, qualquer mísero barulho naquele lugar poderia significar a morte, já que o eco faria o som faria dez vezes mais alto.
Parei por um momento, preguei o ouvido na parede e ouvi suspiros cansados, lógico que eu não era a única pessoa naquele local, seria muita sorte para um semideus, tinha mais alguém dentro da caverna, e cá entre nós, uma pessoa que pensa estar sozinha em uma caverna escura não deve ser lá muito receptível ou sociável.
Senti vontade de dar meia volta e ir embora, porem meu corpo gritava de curiosidade, gritava por adrenalina, meu lado divino e humano discutiram por alguns milésimos de segundos, mas seu lado divino nunca tardava a ganhar suas batalhas. Xingando meu lado divino, avancei por entre as sombras me arrastando de modo que as rochas cobrisse meu corpo, a deixando escondidas. E a dez passos dali consegui vê-lo, um homem com certeza, ele estava de costas para a margem da nascente, parecia meditar, naquela pose típica de monges. Mas as semelhanças paravam por ai.
Assustei-me com a sua aparência anoréxica. Ele parecia não comer a dias, suas costelas se destacavam por causa de sua pele puxada para dentro, o que era bizarro. Ele usava uma calça azul escura, sem camiseta, seu cabelo bagunçado era disforme, algumas mechas iam até o fim do pescoço enquanto outras não chegavam nem a um centímetro.
Quem diabos é esse cara? – Perguntei-me mentalmente, tentando chegar mais perto e ver o rosto do homem, suas respirações eram profundas. Queria ver a cara do sujeito, porem não poderia fazê-lo sem sair de meu seguro esconderijo de rochas, e foi neste momento que eu, talvez pela primeira vez na vida, não segui as ordens do meu lado grego. Estava tão concentrada com a decisão de ir ou não ao encontro do homem suspeito que só percebi que alguém se aproximava quando vi um vulto vindo pelo mesmo caminho que eu tinha traçado minutos antes, outro homem, o rosto estava escondido por entre as sombras, mas ele parecia ser jovem.
— Senhor – O recém-chegado se ajoelhou para falar com o homem que meditava, agora a luz deixava-o um pouco mais nítido, tinha cabelos escuros e era bem musculoso, estreitei os olhos na tentativa de ter um vislumbre do rosto.– Trago informações.
Se o homem magro ouviu, não deu indícios, pois continuou na mesma posição de monge...
— Mestre? – O jovem falou novamente.
— Shhhiiiiiiii!!!! – Ele levantou o dedo no pedido de silêncio. – Não se atrapalha um homem quando ele conversa com o fogo...
O moreno suspirou.
— Sinto muito mestre, mas...
— O fogo não aceita desculpas, você tem sorte por ele não poder chegar até aqui. – Ele se virou e começou a gesticular, olhei para o homem que acabara de se virar e, mesmo involuntariamente, arqueei uma sobrancelha. Ele parecia estar mais drogado do que tudo, os olhos fundos se mexiam de um lado para o outro, ele parecia um típico paciente de um manicômio. Ele gesticulou com a mão se dirigindo ao Jovem – ...Então peça a bênção da poderosa agua... É ela que nos salva...
Tive que morder os lábios para não rir, talvez ele estivesse mesmo drogado, o jovem moreno deu outro suspiro longo antes de continuar.
— Vou fazer uma prece para ela antes de dormir... – Ele finalmente se levantou – Mas antes disso, vamos cuidar dos negócios... Acho que encontrei a localização de mais dois semideuses em Chicago, eles são jovens e serão presas fáceis.
Ótimo, estou presa dentro de uma caverna habitada por dois homens que além de malucos são sequestradores de criancinhas.
— Eu preciso de muitos, o fogo não perdoa ninguém, jovem menino, não pense que ele terá piedade de você se houver falhas. – O homem parecia traduzir tudo que falava em linguagem de sinais, pois todas as suas palavras eram acompanhadas por gestos com as mãos.
— Você terá tudo que precisa, é só uma questão de tempo mestre...
— O fogo, as chamas, elas nunca esperam, elas sempre estragam tudo, elas só podem estragar o que eu mandar...
— Não se preocupe tudo vai sair como o planejado. Pois nossas forças estão quase prontas para partirmos nessa manhã. Eu usarei sua bênção e farei minha parceria com o fogo, não deixarei testemunhas. – Nesse momento ele chegou muito perto da estalagmite onde estou escondida, dou um passo para trás e algumas pedras rolaram, por conta do eco o som foi ensurdecedor. O jovem moreno sacou uma adaga alarmado, a faca que cintilava um azul brilhante no escuro, e isso fez o meu coração palpitar ainda mais rápido, o silencio se fazia na sala.
“Ótima maneira de morrer, dentro de um maldito sonho, vestida com pijama de Poodle.” pensei enquanto tentava achar alguma forma de sair dali, o meu cérebro trabalhava a mil por hora.
Mas o jovem moreno avistou-me, ele sorriu de um jeito cínico e começou a se aproximar. Eu queria correr mas não existia uma forma, a cúpula de pedras que antes me protegia servindo de esconderijo, agora estava conspirando contra mim, fazendo com que todas as possibilidades de fuga fossem excluídas.
— Parece que existem semideuses que buscam a morte mais do que outros... – Recuei até uma parede e o jovem me prendeu pelo pescoço. – Que presente maravilhoso – senti a mão dele sobre seu pescoço, o que só poderia significar que aquilo não era simplesmente um sonho.
— NÃO IMPORTA QUANTOS SEJAM TODOS ELES VÃO MORRER!!! – O grito veio do monge magrelo, o jovem aproximou a lâmina da adaga do seu pescoço,com um sorriso satisfeito pelo seu trabalho bem feito perto dos olhos do chefe. Fechei os olhos, esperando o encontro do objeto cortante com o meu pescoço, mas a dor não veio, quando abriu meus olhos de novo estava em minha cama, e a única coisa que via era seu teto branco e sem graça. E deuses, como ela estava feliz de ver aquele teto branco e sem graça...
Esfreguei os olhos, minha cama parecia uma piscina de suor. Olhei para o relógio que estava em cima da escrivaninha ao meu lado, ele marcava as 8:45. Apoiado nele tinha uma carta branca, com um selo vermelho onde se via estampada a mesma imagem que a camiseta do acampamento meio sangue possuia, um centauro apontando uma flecha para cima, pelo jeito as coisas entranhas não acabavam por aqui. Peguei a carta nas mãos sabendo muito bem de onde aquilo tinha vindo, abri envelope e tirou de lá de dentro uma carta minúscula que dizia:
“Caros semideuses:”
“Vocês estão convocados para voltarem ao acampamento o mais rápido possível. Vocês estão em perigo, e suas vidas dependem da proteção de nossas barreiras.”
“Quanto menos souberem melhor, tudo será explicado amanhã, quando esperamos, pelo bem da humanidade, que vocês estejam aqui a salvo.”
“Ass. Quíron coordenador de atividade do acampamento meio sangue.”
O dia já começou bem... – Pense ironicamente. Na maioria das vezes, eu não me importava com as ameaças de morte nem com a lábia de “você está correndo perigo”, talvez porque eram essas coisas que deixavam minha vida bem mais interessante, mas eu tinha acabado de acordar de um sonho macabro, e todo aquele papo de semideuses, mortes e homens drogados estavam acabando com minha sanidade, eu teria que tomar cuidado se não quisesse ficar igual ao cara do meu sonho.
Levantei e fui para a cozinha, precisava falar com minha mãe sobre a mensagem que havia recebido. Ao chegar à cozinha encontre-a bebendo café e assistindo o jornal da manhã como era de costume.
“Hoje, há pouco tempo atrás, aqui em Chicago, um prédio ao lado do Oak Park pegou fogo, os bombeiros apareceram há aproximadamente trinta minutos, e o fogo já foi contido.”
A voz do jornalista prendeu a minha atenção na noticia.
“As autoridades supõem que o incêndio começou no terceiro andar, o lugar que foi mais destruído pelas chamas, Cyntia Cristina Rodriguez morava no apartamento com seus dois filhos gêmeos, Michel e Louise, de quatro anos. Cyntia foi encontrada morta no local, e as duas crianças com quem morava estão desaparecidas”
Quase caí da cadeira da cozinha com os olhos arregalados,meu cérebro começou a organizar as coisas, "Chicago", "duas crianças", "fogo", "presas fáceis", "essa manhã". Para mim aquele era um comprovante de que meu sonho tinha realmente acontecido. Minha mãe tentava pela milionésima vez me desejar bom dia enquanto eu parecia um zumbi olhando para a TV, onde imagens em tempo real do local eram mostradas.
— Hanna, você está me ouvindo? Qual o seu problema?
Pisquei os olhos tentando voltar à realidade, eu realmente quase morrera há alguns segundos atrás, tudo tinha sido verdade.
— Nenhum – Respondi ainda olhando para a TV... – Só estava desatenta.
— Você está muito estranha...
A voz da TV então falou:
“As autoridades entraram em contato com familiares dos Rodrigues e todos confirmaram que as duas crianças estavam dentro do apartamento nesta noite, o que abre a possibilidade de que o fogo tenha sido causado propositalmente e as crianças raptadas...”
Quíron teria muito o que explicar.
Fale com o autor