Era noite de 1914. Estava frio e nublado. Os únicos sons eram bombas explodindo e uma batalha sendo travada. Eu estava refugiada em uma caverna com um pouco de água, ambrosia, néctar e barras de cereais. Não me lembro da última vez que vi a luz do sol, mas pelo menos não fui atacada por nenhum monstro.

Para um semideus é normal lutar todos os dias contra monstros. Lutávamos e treinávamos em nosso acampamento, que nos mantinha protegidos de monstros e mortais, eu nunca havia ido a uma missão, muito menos a uma guerra de proporções mundiais.

Todos os piores monstros, titãs e seres mais antigos e malignos que eles estavam lá fora, tentando capturar e matar qualquer um que estivesse em seu caminho. Eles não tinham piedade, apenas queriam dominar o mundo e transformar os olimpianos em escravos.

De tempos em tempos eu subia à superfície, para buscar algum suprimento que pudesse encontrar nas roupas dos semideuses mortos. Normalmente só encontrava um pouco de comida velha e pisoteada, mas qualquer coisa que me mantivesse viva era o suficiente.

Um dia encontrei um semideus jogado, provavelmente morto, bem na entrada de minha caverna. Ele ainda segurava sua espada e um escudo e em seu cinto pendia um punhal. Arranquei tudo e voltei o mais rápido que pude para minha caverna.

Pendurei a espada na parede onde emitia uma luz fraca. Era o suficiente para enxergar, mas não o bastante para que pudesse ser vista de fora.

Eu havia conseguido um pedaço de pergaminho e tinta que estavam jogados no chão da última vez que fui buscar comida, mas não sei de quem são. Não tem nada escrito.

Hoje, sentei-me no chão e comecei a bolar uma rota segura para que eu pudesse passar longe da guerra, mas suficientemente perto para achar alguém morto. Eu esperava que fosse uma menina dessa vez, pois precisava de roupas. Eu sei que pode parecer horrível torcer pela morte de outro semideus, mas o desespero e a falta de esperança nos levam a ter pensamentos como este.

Terminei a rota e adormeci no canto mais claro da caverna. Deixei o punhal ao meu lado e o escudo servia como travesseiro. Fechei os olhos e sonhei.

Eu seguia uma fila de monstros, eu estava acorrentada, eles percebiam minha presença, pois me davam chicotadas. Não me mataram, mas chegaram perto disso algumas vezes. Atrás de mim estava Nix, a Noite. Ela emanava escuridão e seus filhos a seguiam. Uma onda de trevas passou por mim e fez minha pele formigar, mas quando chegamos a um castelo os filhos de Nix ficaram agitados e lançaram mais trevas na minha direção. Eu desmaiei com o impacto das trevas e caí.

Quando eu acordei, alguém estava segurando meu pulso.

***

***

Acordei com um ciclope agarrando meu pulso. Ele me arrastou para fora da minha caverna, passando entre a guerra sem nem se incomodar com semideuses que poderiam tentar matá-lo. Quando um se aproximava, ele chutava-o para o lado e continuava andando em direção a um palácio enorme, todo cinza e preto, com o rosto da Medusa desenhado em todas as bandeiras.

Em cima de cada entrada estava esculpida a cabeça de um titã diferente. Campe, — um monstro cuja parte superior do corpo é igual à de uma mulher comum, mas a parte debaixo é um dragão de pelo menos seis metros de comprimento, preto e escamoso com garras e cauda farpada. Ao redor de suas pernas enroscavam-se cobras e seu cabelo também era formado por serpentes. Em sua cintura apareciam diversas cabeças de animais, como lobos, ursos e outros — guardava a entrada principal, e outras dezenas de monstros protegiam as entradas laterais. Jogaram-me na frente de um trono negro, provavelmente de ferro estígio, onde estava sentado um senhor de meia idade. Ele usava um manto negro pontilhado de estrelas, que lembrava o céu noturno. Tinha cabelos negros e olhos azuis-tempestade, um sorriso psicótico e um olhar assassino.Provavelmente era Urano.

—Senhor, achamos essa semideusa numa caverna hoje pela manhã.

—Ótimo, apresente-se semideusa.— Urano disse, com frieza.

—Clary Mason. — Eu estava com muito medo, mas mantive a voz firme.

—Hum... — Ele hesitou por um momento — Filha de quem?

—Atena. — Respondi olhando pro chão.

—Ótimo. — Ele parecia quase alegre, divertido talvez. — Jure lealdade e talvez morra de forma menos dolorosa.

Eu tinha que pensar em um plano. Poderia recusar e morrer de forma horrível e dolorosa ou poderia aceitar e trair meus amigos que estavam mortos.

—Vou me juntar a vocês...

—Jure! — Gritou-me ele.

—Eu juro pelo Rio Estige me juntar a vocês. — Disse com convicção, agora olhando naqueles gélidos olhos azuis.

—Guardas! Levem-na para um quarto e lhe deem uma armadura. Amanhã ela vai para a guerra.

Um outro semideus me levou até o andar de cima, e paramos em frente a um quarto. Ele virou-se para mim, me encarando e cruzou os braços.

—Você vai mesmo se juntar a eles?

—Vou.

Tentei parecer convincente. Talvez aquele semideus fosse bom, mas na situação em que eu me encontrava não poderia confiar em ninguém.

Entrei em meu quarto e me joguei na cama, era macia e confortável, o quarto era grande e tinha um banheiro só pra mim. Tomei um banho e dormi o melhor que pude. Só acordei no dia seguinte, quando a Medusa entrou em meu quarto. Ela tinha cabelos de cobra e corpo humano, mas usava óculos escuros, provavelmente para não me petrificar. Ela me entregou uma roupa limpa, minha armadura, uma espada e um punhal.

—Procure Aracne. Ela vai lhe treinar antes da guerra. — Disse-me com um sorriso divertido no rosto.

—Aracne é aquela mulher-aranha? — Nenhuma resposta. Apenas o medo e a hesitação pairando na atmosfera do quarto.

Eu morria de medo de aranhas. É uma característica comum para filhas de Atena. Ter que conviver com a pior inimiga de minha mãe era algo que eu realmente não tinha vontade de fazer. Talvez fosse uma provação, para terem certeza de que eu realmente estava disposta a renegar os deuses. E eu faria, custe o que custar.

***

Cheguei a um espaço ao ar livre, onde alguns monstros e semideuses treinavam. Alguns deles estavam duelando entre si, outros praticavam tiro ao alvo ou escalavam uma das paredes do castelo. Havia uma fila na entrada principal do castelo, onde semideuses e monstros saíam em direção à guerra.

Aracne estava parada em um canto me observando. Só de olhar para ela eu já tinha arrepios. Obriguei-me a seguir em frente. Quando cheguei à área de treinamento ela me lançou um olhar desafiador e deu um passo a frente.

—Está atrasada. Acha que temos tempo para esperar por você?

—Desculpe.

—Desculpas não vão te salvar em uma guerra, menina. Vamos lá, estou aqui para treiná-la. Lute comigo.

Dei um passo à frente e começamos a duelar. Ela atacava de lado e eu defendia, ela recuava e eu atacava. Seguimos assim por algum tempo, até que eu tropecei e acidentalmente caí para trás. Ela apontou a espada para a minha garganta, lançando-me um olhar reprovador. Peguei o punhal em minha cintura e finquei-o em sua armadura. Teria matado-a ali, mas não com todos aqueles monstros à minha volta. Simplesmente me levantei.

—Acha que sou assim tão burra? — Perguntei-a.

—Garanto-lhe que não terá a mesma sorte na guerra. Ninguém terá piedade de uma traidora.

Ela virou-se e foi embora. Cronos surgiu à minha frente.

—Parabéns, jovem. Para uma filha de Atena até que você é bem corajosa quanto a aranhas. Agora vá treinar, não podemos perder tempo.

Retirei-me dali e fui treinar arco e flecha. Nunca fui muito boa com tiro ao alvo, mas achei uma boa oportunidade para melhorar. Peguei uma aljava de flechas mortais, para não acabar matando alguém acidentalmente. Já pra começar eu errei e acertei a orelha de alguém que passava atrás do alvo. Depois foi um olho, um braço, até que Hiperíon veio ao meu encontro e colocou meu alvo encostado em uma parede, de modo que eu não pudesse acertar ninguém. Eu sabia que era Hiperíon pelo crachá que ele tinha pendurado na armadura. Além dele havia também Jápeto, Oceano, Crios, e alguns outros titãs e monstros.

Eu não havia recebido um crachá, talvez por ser semideusa, ou talvez por ainda não ter provado completamente minha devoção aos titãs. Fiquei feliz com isso, pelo menos ninguém lembraria o meu nome depois que eu traísse os titãs. Afinal, isso não é exatamente uma coisa pela qual você gostaria de ser lembrado.

Afastei esse pensamento e me concentrei no tiro ao alvo. Errei algumas, mas como eu sou muito persistente, fiquei horas treinando, até que acertei uma flecha bem no meio do rosto do boneco-alvo. Treinei mais um pouco, mas percebi que todos já haviam ido embora. Como só faltava a parede de escalada do castelo para treinar, subi para o meu quarto por ali mesmo.

A parede era escorregadia e coberta por uma pequena camada de limo, que dificultava ainda mais a escalada. Caí algumas vezes, por sorte de alturas pequenas. O máximo que consegui com as quedas foram arranhões. Tentei várias vezes, até que consegui subir até a metade. Pisei em uma pedra saliente, mas ela estava coberta de musgo e eu acidentalmente tropecei. Antes de cair, consegui me segurar na beira de uma janela. Fiquei pendurada, me segurando com apenas uma mão.

A janela abriu e um semideus, aquele que havia me escoltado até o meu quarto no dia anterior, abriu a janela. Pelo olhar dele, eu iria ser jogada dali para a morte, mas ele simplesmente segurou minha mão e puxou-me para dentro.