A Guerra Não Escolhe Lados
1 Único
Notas iniciais
— Por favor, salvem-na! — A voz de Amelia pôde finalmente alcançá-los; eles, cujas armas haviam matado tantos inocentes em tão pouco tempo. Eles arrastaram o olhar para ela, mas não fizeram nada além de encarar a criança próxima da morte que jazia em seus braços. Ela não podia esperar, tampouco podia a criança, então não havia outra alternativa além de continuar tentando. — Estão me ouvindo? Por favor, eu estou implorando! Essa menina está morrendo! Vocês... vocês têm que ajudá-la...!
Ela fez uma pausa, procurando palavras e ar para respirar. Não sabia mais o que dizer. Não sabia o que dizer para fazê-los entender. Como encontrar palavras para fazer soldados assassinos entenderem que um membro do povo inimigo – se é que podia ser chamado assim – precisava de sua ajuda para sobreviver? Como convencer almas tão corrompidas pela guerra que não importava mais – a honra, a necessidade de seguir suas ordens, o ódio pelos adversários –, nada daquilo importava mais quando uma criança inocente estava à beira da morte?
Bom, fora a morte de uma criança inocente que acendera a primeira faísca daquela guerra horrorosa.
— Esqueçam disso tudo, pelo amor de Deus... a guerra acabou, mas a dor continua aqui! Pessoas estão precisando de ajuda, e eu não posso fazer nada sozinha! —Amelia continuou, a garganta ardendo do tanto de esforço que fazia para simplesmente falar. Nenhum deles pareceu reagir à qualquer de suas justificativas, ou fosse lá o que aquilo fosse. Mas ela não podia mais perder tempo. — VOCÊS ESTÃO SEQUER ME OUVINDO?! ESSA CRIANÇA ESTÁ A UM PASSO DA MORTE, VOCÊS NÃO PODEM DEIXÁ-LA...
De repente, ela parou. Amelia fechou seus olhos por um tempo, deixando as lágrimas caírem no rosto da criança.
Mas ela não havia terminado ainda.
— VOCÊS CAUSARAM ESSA MATANÇA, PARA INÍCIO DE CONVERSA! É TÃO DIFÍCIL ASSIM AJUDAR ALGUÉM?!
Finalmente, eles reagiram. As palavras dela os machucaram, mas na verdade os soldados não fizeram nada. Eles encararam as garotas, exatamente como haviam estado fazendo antes.
— Tá tudo bem, pequena amestrina — Sussurrou uma outra voz, cortando o silêncio. A atenção de todos foi movida para a pequena menina confinada nos braços de Amelia, de olhos semi-abertos e claramente se esforçando além da conta para ser ouvida. — Você deu o seu melhor pra ajudar a minha família e a mim... eu não me arrependo de ter dito... que você é uma boa pessoa... e eu estou feliz... por ter te conhecido...
E foi isso. Os últimos segundos daquela criança, suas últimas palavras, seus últimos sentimentos. Os olhos vermelhos choraram mais duas lágrimas e continuaram encarando os olhos azuis da amestrina que não conseguia emitir nenhum som – não enquanto olhava para a imagem da criança morta logo à sua frente. De repente, ela começou a gritar... não, não era isso. O som era diferente. A voz de alguém que tentara de tudo para ajudar os outros, mas que no final não pôde salvar uma pequena menina. Era o choro de uma alma frustrada.
Amelia não soube quanto tempo se passou, mas ouviu passos pisando na areia atrás de si. Alguém mais viera da cidade e parara logo atrás dela. Quando notou a presença, virou-se e sentiu-se o que restara de seu coração doer como o inferno ao ter a visão da família que havia perdido uma filha e irmã mais nova. A família que confiara nela para ajudá-los, e a quem ela dececionara indescritivelmente.
— Sinto muito, eu... — A garota amestrina balbuciou, ao devolver a criança aos braços da mãe. Todos choravam, então ela não soube dizer de quem eram o soluços que ouvia – se eram seus próprios, se eram do irmão mais velho ou dos pais. Era muito possível que fosse de todos eles. — Eu não pude salvá-la... perdoem-me, eu sinto muito mesmo...
Uma mão encontrou o caminho para seu ombro e a fez parar de falar, movendo seus olhos para a família. O homem mais velho, o pai da criança, encarou-a com um sorriso no rosto.
— Não se desculpe, pequena amestrina. Ninguém iria sequer tentar ajudar a nossa preciosa criança... nós somos eternamente gratos a você — Consolou-a, as lágrimas manchando seu rosto já podre de poeira e sangue. Então, a mãe e o irmão da menina olharam para ela, também sorrindo por entre o choro. Amelia encontrou, naquele conjunto de olhos vermelhos, o conforto para o peso no coração que vinha sentindo por tanto tempo. Mas ela sabia que a dor daquela família não tinha fim, e isso apertou seu coração de um jeito que quase a despedaçou.
Como um estalo, tudo aconteceu em um segundo. Gritos foram ouvidos, alertando pessoas cujos nomes ela não conhecia – os outros soldados os haviam encontrado.
— Ishvalinos!
A menina viu alguém tentando parar seus companheiros, mas logo em seguida o som de um tiro pôde ser ouvido por todos. Foi quase em câmera lenta que Amelia observou a imagem do homem mais velho perto de si pulando na frente dos outros três, dando sua vida para protegê-los. Sua mão tocou a dela quando estatelou-se no chão, já sem vida. Mal os choros e gritos haviam chegado quando outro tiro foi ouvido, tirando a vida da mãe.
Aquilo já era demais.
Amelia se levantou, engolindo o choro e colocando-se entre o adolescente ishvalino e as armas que para ele apontavam – o último membro da família que ela tentara tanto proteger. Os soldados pararam, provavelmente surpresos que uma menina amestrina – que nem deveria estar ali, para início de conversa – estivesse protegendo pessoas de Ishval.
Mas não foi o que tornou o momento mais tenso.
Amelia ouviu o som logo atrás dela, e virou-se rapidamente. Uma arma havia surgido, tremendo loucamente nas mãos do garoto.
— Ele vai matá-la!
— Matem-no antes!
— Esperem — A mão de alguém foi levantada à frente das armas dos soldados. — Vamos apenas ver o que acontece.
Ela sabia que eles estavam errados, a arma não apontava para ela. Por mais próximo que fosse de seu rosto, seu alvo eram os verdadeiros culpados.
— Não vou dizer que vai ficar tudo bem — Amelia tentou, erguendo as palmas das mãos. — Não vou dizer que está errado em sentir-se assim. Você quer vingá-los, eu entendo. Mas isso só o tornará igual a quem você quer matar.
O garoto pareceu reagir. Suas palavras o atingiram, mas a arma continuava em suas mãos.
— Sim, a culpa é deles — Ela apontou para os soldados, sem mover o olhar. — Eles começaram tudo isso, e você tem todos os motivos no mundo para querer matá-los. Mas ódio só trará mais ódio, vingança só trará mais vingança, assassinato só trará mais assassinato. Se você puxar o gatilho, só será mais um assassino, assim como eles. Ninguém que morre pode voltar, não importa o quão dolorosa seja sua morte. Tenho certeza de que seus pais não iriam querer que você se tornasse apenas mais um ceifador de vidas. Sua irmã não ficaria feliz com isso, ficaria? — O menino fechou os olhos com força, e ela quase pôde sentir sua alma em pedaços, como se a estivesse segurando nas mãos. — E eu sei que você não quer fazer isso. A arma que está segurando pode ter matado muitos homens, mulheres e até crianças ishvalinos — O garoto olhou para suas próprias mãos por um tempo. — Não ceda a isso.
Ele a olhou novamente. Derrotado, seus joelhos falharam e ele caiu no chão, chorando como uma criança, desesperado. Amelia aproximou-se, tirando a arma de suas mãos com cuidado, ou melhor, sem realmente querer tocá-la. Enojada, virou-se para os soldados e jogou a arma para perto deles.
— Eu não quero mais isso... — A voz do adolescente ishvalino a fez voltar o olhar para ele. — Não quero mais mortes, não quero mais sofrimento para nossa gente... — De repente, ele a olhou. — Não quero sofrimento para mais ninguém! Você nos ajudou, mesmo sendo uma amestrina, e seus pais... — Ele voltou a encarar o chão, no que Amelia engoliu o choro e ajoelhou-se à frente dele. Tomou cuidado para que os soldados às suas costas não ouvissem; não sabia o que fariam se descobrissem aquilo.
— Deve honrar o sacrifício deles, protegendo sua vida e a daqueles que ainda restaram. Leve seu povo para um lugar seguro, onde não sejam incomodados nem encontrados. Senão, sua família, meus pais e todos aqueles que se sacrificaram nessa guerra terão morrido em vão — Sua mão avançou ao encontro da dele, chamando sua atenção. — E se você chorar, aqueles que o amam sofrerão também. Então lembre-se de sempre sorrir, tá?
O garoto não aguentou ver aquele sorriso sincero no rosto da pequena amestrina, ainda mais porque também via as lágrimas que caíam de seus olhos e conhecia sua dor. Os dois ainda choraram juntos por um tempo, abraçados como se pudessem apagar a dor que o outro sentia. Como se, com seus corações tão próximos, pudessem unir os cacos em que haviam sido deixados para que fossem curados. As lágrimas caíram juntas, os soluços fizeram sintonia e o mundo presenciou, naqueles instantes agonizantes e intermináveis, o quão abandonados aqueles dois adolescentes se sentiam.
Depois de não se sabe quanto tempo, o menino voltou para a cidade, à procura de seus poucos companheiros restantes. Amelia não sabia para onde ir. Não havia trazido nada além das roupas que usava; não pôde pensar em outra coisa na hora em que saiu de casa. Quando percebeu, estava sentada em um dos acampamentos dos soldados, com a manta branca de um deles sobre suas costas.
— O que vai fazer agora? — O soldado de cabelos e olhos negros que se apresentara como Mustang perguntou, do jeito mais cuidadoso que pôde. Uma mulher loira e um outro soldado de óculos engraçados estavam lá também, nenhum deles aparentando saber como lidar com aquela situação. Amelia os olhou, sem expressão. Seus olhos percorreram os semblantes perdidos e desolados dos tão jovens membros do exército, e de repente pareceu a ela que não era certo, não era humano depositar seu ódio em pessoas tão destruídas.
E então lembrou-se da guerra. Do sangue. Da morte.
Suspirando, olhou para o nada, uma visão menos confusa e dolorosa.
— Vou para casa — Respondeu, simplesmente.
— Por que veio, para início de conversa? — Uma voz alta e grave surgiu da entrada da tenda, e ela virou o rosto para ver um dos soldados de maior patente apareceu, surpreendendo os outros. Para eles poderia ser alguém importante, mas para ela não passava de um ninguém. — Não fez nada a não ser nos atrapalhar...
— Fui informada de que meus pais haviam morrido aqui — Amelia aumentou o tom de voz levemente para ser ouvida, cortando ao meio a frase do homem. Aquilo calou todo e qualquer ruído que pudesse estar sendo emitido naquele momento. — Médicos. Rockbell. Não devem se lembrar.
O homem alto e de bigode pareceu não saber o que dizer, mas logo voltou ao seu habitual tom de desprezo.
— Mesmo que houvesse recebido essa notícia, não poderia fazer nada vindo para cá.
— A única coisa na qual eu conseguia pensar era que meus pais estavam mortos. Tudo que vinha à minha cabeça era que as duas pessoas que me criaram, que criaram minha irmã e que nos ensinaram basicamente tudo que conhecíamos, nunca mais voltariam. E que, agora, seria eu a ter que continuar cuidando da minha caçula, pois ela depende totalmente de mim — Amelia parou para respirar, percebendo que falara tudo aquilo tão rápido que ficara sem fôlego. Seu coração batia acelerado ao pensar em Winry, sozinha e longe dela, provavelmente apavorada. — Acha que pude considerar qualquer detalhe a mais? Quando notei, estava no meio de um tiroteio. Sinto muito se interrompi o seu massacre.
Ele bufou, aparentemente sem paciência, e concluiu, saindo.
— Uma tropa está partindo agora. Se quiser ir logo, essa é sua chance.
Não foram ditas muitas palavras até que só restaram a Primeira Tenente e a garota deslocada na tenda.
— Por que está indo embora agora? — Indagou a mulher – que Amelia descobrira ser chamada de Hawkeye pelos companheiros – o mais cautelosamente possível. — Quer dizer, você veio até aqui mesmo sabendo da guerra, e ainda ajudou feridos... só pensei que fosse querer continuar fazendo isso.
— Esse lugar é perigoso. Mesmo com o fim da guerra, ainda há muitos riscos. Alguma construção pode desabar, posso cair em uma armadilha de algum ishvalino que não saiba de que lado estou, há inúmeras possibilidades. Eu tenho pessoas esperando por mim, e elas não me perdoariam se eu não voltasse para casa em segurança. É por isso que não posso morrer aqui — Amelia levantou-se. — Mesmo que queira continuar ajudando, não posso deixar de lado o sofrimento que eu causaria a eles se morresse. Minha vida não pertence apenas a mim. Meus amigos, minha avó, minha irmã... todos eles estão me esperando. Todos eles chorariam se eu me fosse. Por isso, por causa deles, eu sei o valor da minha vida, e nunca a sacrificaria tendo isso em mente. Meus pais morreram ajudando pessoas, mas eu tenho certeza de que não queriam ver o choro de sua família. Tenho de honrar o nome que carrego, o nome dos meus pais... — Lágrimas caíram de seus olhos, enquanto voltava os mesmos para a outra mulher. — Tenente, por que entrou para o exército?
Hawkeye pareceu surpresa com a pergunta repentina, mas logo voltou a ficar cabisbaixa.
— Vou ficar devendo uma resposta para essa pergunta.
— Do jeito que você fala, parece que vamos nos encontrar de novo.
— E eu espero que isso aconteça, Amelia Rockbell.
Saíram da tenda, e caminharam junto da horda de soldados, a maioria coberta de curativos e panos, em direção às estradas. Alguns comemoravam o tão esperado dia de retorno, outros choravam, outros fumavam tranquilamente como se nada estivesse acontecendo. Como se não estivessem caminhando para fora de um campo de batalha.
Amelia olhou para trás – de onde estavam, era possível ver Ishval de um ângulo privilegiado, uma vista da cidade que antes pudera ter sido bonita, mas que agora se reduzia a ruínas, fumaça e morte. A menina pensou em ir até lá novamente para procurar o grupo de seu amigo e despedir-se, mas sabia que a última coisa de que aquele povo precisava naquele momento era a presença de uma amestrina. Então simplesmente deu meia-volta e direcionou seus passos para o caminhão que lhe aguardava.
— Pequena amestrina! — O som da voz a fez parar no lugar, virando-se para olhar um certo ishvalino conhecido em cima de uma rocha, acenando sorridente. — Faça uma boa viagem, e muito obrigada!
Aquilo a surpreendeu, mas Amelia ergueu a mão em um aceno e lançou-lhe um sorriso, manchado de lágrimas de alegria – tão raras naquele campo de batalha criador de sofrimento.
***
Ela lembrava-se muito bem da última vez que havia ouvido aquelas vozes. A lembrança não a agradava nem um pouco, mas a curiosidade para saber o motivo da visita deles era um sentimento maior. Ed ainda estava muito machucado, precisando de descanso. Aquela companhia não era a ideal no momento, mas Amelia permaneceu calada e deixou que sua avó cuidasse de tudo, como sabia que ela fazia muito bem. Al não sairia do lado do irmão de jeito nenhum, então Amelia e Winry ficaram encarregadas de servir os visitantes inesperados algo para comer.
A Tenente sentara-se ao lado de sua irmã, quando ela a serviu uma xícara de chá. Ninguém estava exatamente confortável, nem naquela sala nem na outra, a menina sabia. Lembrava-se da sensação que sentia quando estava perto de soldados; não era a mais agradável do mundo. E sabia que era a mesma coisa para Winry.
— Por que entrou para o exército, Tenente? — Ela ouviu a pergunta da irmã, em sua voz baixa e abafada pelas lágrimas de não tanto tempo atrás. Sentiu a surpresa que Hawkeye mostrou ao virar o rosto para responder aquela mesma pergunta, vinda de uma menina Rockbell.
Como na primeira vez.
Seria mentira negar que ficara bastante curiosa para descobrir a resposta para a pergunta que ela havia feito tantos anos antes, mas não obtivera resposta. Amelia parou onde estava, de costas para elas, com a bandeja de comida na mesa à frente.
— Porque tenho pessoas para proteger.
Aquilo fez Amelia congelar. Podia ter pensado em qualquer outra opção, mas aquela nunca passaria por sua cabeça. Claro, ela entendia o quão difícil era para pessoas justas e boas como Riza Hawkeye participar de uma guerra sem sentido, tendo que carregar para o resto de suas vidas o fardo das vidas inocentes que ceifaram. Mas ainda assim não entendeu aquela resposta.
Virou-se para elas, e se surpreendeu ao ver que as duas se entreolhavam, sorrindo. E, de repente, tudo clareou – sua visão foi tomada pela imagem da irmãzinha caçula, com seus longos cabelos loiros presos num rabo de cavalo feito às pressas e grandes olhos azuis. E a resposta de Hawkeye fez sentido.
Amelia sabia que não havia nada naquele mundo ou em outro que a impedissem de fazer o que fosse preciso para proteger aquela criaturinha dos terrores do mundo. Não importava se tinha de se tornar um soldado ou o que fosse, ela o faria de bom grado de fosse necessário para proteger Winry, ou vovó, ou Al, ou Ed. Ninguém podia duvidar das coisas que faria para proteger sua família.
E, unindo-se às duas à sua frente, sorriu.
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