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\"\"mpunhava uma faca. Era só assim que Monterys conseguia manter-se são ao mar. Não era ali que pertencia a raposa. Monterys pertencia às florestas, à Driftmark, suas terras, ou ao mesmo à sua própria cama, em completa inércia. Mas estava ali, descascando uma batata com uma faca cega e enferrujada. Cruzava o caminho do mar, não a Estrada do Rei. Os motivos não foram ditos, mas servia a uma Casa amiga. Servia aos Darkwood, não por juramentos. Os Velaryon nunca prestaram vassalagem que não fosse aos Targaryen. Estava ali para transportar Thyrim Darkwood, o herdeiro de Árvore da Lua, as maiores terras das Terras da Coroa.

Atrás de si aproximava-se o rapaz. Thyrim usava trapos entregues pela própria tripulação de Monterys. Eram somente panos segurados por um cinto. Panos vermelhos e negros, a cor dos estandartes da Casa Velaryon, uma raposa num fundo quadriculado rubro-negro. Monterys percebeu que o rapaz se esforçava para não se enjoar com o movimento do mar e do navio. Agora ele também se esforçava. Thyrim apertou as mãos no casco do navio, suspirou e olhou um pouco ao mar antes de dirigir a palavra à Monterys.

— Uma manhã muito bonita — ele sacudiu a cabeça, olhando para Monterys. — O mar parece estar abençoado ao nosso favor.

— Às vezes os deuses nos abençoam pela manhã e nos amaldiçoam pela tarde. À noite costumamos estar mortos.

Thyrim suspirou. As suas feições relaxadas agora estavam preocupadas, e Monterys percebeu. Mas percebeu por um olhar de relance, nada mais que um jogado olhar sobre seus cabelos cacheados esvoaçando ao vento. Os cabelos de Monterys também esvoaçavam, mas estavam penteados para trás, unidos por um pedaço de corda. Mas foi então que Thyrim lhe perguntou, com um tom arrependido, hesitante e que Monterys sabia não poder trazer boas notícias.

— Lorde Velaryon, nossas Casas são irmãs. Estaria disposto a servir a Casa Darkwood, mesmo em tempos sombrios? Protegeria-nos contra qualquer inimigo? Fossem mesmo os Baratheon?

Monterys somente virou a cabeça e não respondeu. Por um momento ficou estudando as feições de Thyrim Darkwood com um sorriso amigável. Os devaneios lhe vieram à mente de quando seu pai ainda era vivo e mantinha uma relação de aliança com Mikelyn Darkwood. Monterys costumava caçar com Thyrim Darkwood, e eles haviam construído uma amizade forte, mas após a Rebelião de Robert, pouco se falaram. Todas as pessoas em Westeros pouco se falaram depois disso.

— Se me lembro bem, a última vez que falou assim comigo, você tinha dez anos de idade e tinha acabado de atirar no cavalo de seu pai. Continuava dizendo-me que pretendia acertar um corvo, mas não existiam corvos naquelas florestas — a expressão de Monterys transformou-se de zombeteira para severa e fechada. A risada que Thyrim estava começando a preparar se desmanchou. — O que você fez agora?

Thyrim pensou se deveria mesmo dizer aquilo à Monterys Velaryon. Mas Mikelyn também apoiara os Targaryen durante a Rebelião, e não havia mais ninguém à quem confiar. O pessoal de sua casa eram carniceiros. Podia confiar neles como podia confiar num gambá que finge a morte. Abriu a boca para falar, mas as palavras pareciam hesitar em sair. Se esconderam em algum lugar de sua garganta, mas logo saíram. Uma hora ou outra teriam de sair, e era melhor que fosse antes de enfurecer Monterys.

— Eu preciso te mostrar uma coisa.

Monterys o olhou e franziu ainda mais o cenho. Thyrim avançou alguns passos para trás, abrindo o convés ajoelhado. A tripulação virou-se a olhar. Monterys fez um sinal para que todos voltassem às suas respectivas atividades e seguiu Thyrim. O pobre herdeiro de Mikelyn mal conseguia descer as escadas. Suas pernas magras estavam trêmulas, mas Monterys o auxiliou e o acompanhou durante sua descida. Quando virou a cabeça, Thyrim já estava parado, o olhando apreensivo. Ao lado de Thyrim, entre as negras sombras do convés, uma pessoa de pernas finas sentava-se, com um largo capuz cobrindo a cabeça. Thyrim lhe estendeu a mão, e levantou-a. A mão também trêmula logo se separou da de Thyrim para levantar o capuz. A luz do sol entrava devagar pelo convés. Parecia ter medo de revelar aquele rosto, mas revelou. Tessa Fairchild, a esposa de Artos Black, estava ali, olhando para Monterys com tanto medo quanto Thyrim. O coração de Monterys pareceu parar por um instante. O de Thyrim também. Monterys não levou mais de dois segundos para escalar aquelas escadas novamente, pulando três degraus. Thyrim foi atrás dele, tentando segurar-lhe o braço forte.

— Maz Trant, dê meia volta — berrou Monterys ao homem de cabelos loiros que manuseava o leme do navio. — Estamos voltando para Poleiro do Corvo.

Maz Trant gritou para que toda a tripulação voltasse ao trabalho e voltasse todas as forças contra o caminho que estavam seguindo naquele momento. Virou o leme com toda a sua força. Maz Trant era a espada juramentada mais poderosa de Monterys Velaryon. Unira-se a ele pouco depois que assumira as terras de Driftmark, e desde então lhe servira em tudo o que podia. Era o comandante da Guarda da Raposa, tendo de obedecer somente à Monterys e a Sor Hugo, o mestre de armas dos Velaryon. Thyrim vinha atrás de Monterys, e ainda que soubesse que ele estava certo, gaguejou um pouco.

— Espere, espere, espere... — Thyrim tocou os braços de Monterys, num apelo.

— Seu tolo! — sua voz explodia em fúria e raiva. Dava algumas pausas brutas e afiadas, e seus olhos estavam vermelhos. — Você sabe o que você fez?! — empurrou Thyrim pelo peito, e isso o assustou, fazendo-o erguer as sobrancelhas. — Você sabe durante quantos anos os Velaryon apoiaram os Darkwood e os Black pela paz contra os Manderly? O trabalho de meu pai! Meu falecido pai!

— Eu a amo! — Thyrim disse, revirando a cabeça. Monterys resmungou alguma coisa e olhou para o lado.

— Pra você é tudo um jogo, não é? Você viaja de cidade à cidade comendo as filhas de seus aliados, suas primas, as empregadas de seu pai, até as malditas tecelãs de sua Casa, e agora você acha que sabe alguma coisa sobre o amor? O que você me diz sobre o seu pai? Você cuspiu nele e no meu quando você colocou essa puta no meu navio! E o amor pelas suas terras, pela sua vida, filho da puta?! Você não o tem?! Vai deixar Árvore da Lua queimar por essa mulher?! — Monterys parou para respirar, enfurecido. Apoiou as mãos na borda do navio e olhou ao mar, praguejando. — Não vou deixar você começar uma guerra por ela. Não vou!

— Deixe-me falar, Monterys! — Thyrim implorou, ofegante. — O que você diz é verdade. Eu falhei com você. Eu falhei com nossos pais. Se você quer levar Tessa de volta para Poleiro do Corvo, que leve. Mas eu vou com ela.

— Para Poleiro do Corvo? Eles já sabem, seu tolo! O primeiro peixeiro que ver a sua cabeça por lá vai arrancá-la como arranca as vísceras de um peixe por uma boa quantia de ouro! Talvez títulos!

— Então eu morrerei lutando — disse Thyrim, estufando o peito com orgulho.

Monterys o olhou como se ele houvesse enlouquecido. Retirou suas mãos da borda e ficou de frente para Thyrim. Nunca Mikelyn fizera isso com ele. Nunca um homem assustara tanto o pequeno Darkwood. Não se sentia um lorde naquele momento. Se sentia uma filha de um aliado qualquer de seu pai, sendo abusada por ele mesmo.

— E isso é uma honra para você, não é mesmo? Morrer lutando? Me diga, meu amigo... Você já matou um homem? Já viu um homem morrer em combate? — e continuou, enquanto Thyrim negava com a cabeça. — Eu já matei homens. E eu os ouvi e vi morrendo, e não tem nada de honroso nisso. Nada de poético. Você diz que quer morrer por amor, mas não sabe nada sobre morrer, e sabe muito menos sobre amor!

Thyrim não tinha mais nada e dizer, portanto repetiu o que já havia dito.

— Eu já disse. Eu vou com ela. Eu não vou pedir para você lutar a minha guerra.

Monterys parecia mais calmo para Thyrim, mas não estava calmo. Estava aceitando o terrível e fatal destino que Thyrim havia acabado de designar para ambos. Olhou para ele e posicionou firmemente a mão em seus ombros.

— Você já o fez.

Virou-se para Maz Trant, sem ao menos olhar aos seus olhos, e olhou muito menos aos olhos de Thyrim ou de qualquer tripulante. A capa da armadura que vestia arrastava-se pelo grande navio. Em seu peito estava detalhada a raposa da Casa Velaryon. Diziam que o vermelho do fundo fora pintado com sangue. E a única coisa em que a raposa conseguia pensar naquele momento era sangue. Regressou alguns passos e olhou para Maz Trant com os olhos flamejando em fúria. Olhou para Thyrim e berrou para que toda a tripulação e o navio escutassem:

— Para Driftmark. Virem o navio! Voltamos ao nosso curso principal. Agora, Trant.