A Guerra Do Amor
25 Para dar boa sorte
Notas iniciais
Capítulo 25 – Para dar boa sorte
Essa manhã Dimitri tinha ido embora e por isso eu estava completamente de mal humor.
O plano de ontem a noite funcionou. Meu pai comprou seus cavalos, fiel de que aquele era o melhor horário para escolhê-los. E quando ele voltou para seu lugar na mesa, Dimitri já o esperava com um sorriso brilhante, e apesar dos lábios inchados ninguém pareceu notar nada.
Amanhã todos estavam voltando para o acampamento e algo que eu não esperava aconteceu. Meu pai queria que eu ficasse no castelo dos Ivashkov, onde segundo ele seria mais seguro. E como eu deveria me mudar para lá em oito dias de qualquer forma, seria mais fácil ir agora que eu tinha escolta.
Eu estava no quarto arrumando a maioria dos meus pertences com a ajuda de Jillian e Mia, que estariam me acompanhando.
– Senhorita Rose, esses vestidos estão indo também? – Jill apontou para alguns vestidos mais simples que estavam no fundo do armário.
– Eu gostaria de levar alguns deles, mesmo que muito provavelmente Daniela os deteste. – Jill acenou e pegou três deles.
– Eu soube que a corte de Menfis é um pouco diferente dos nossos costumes. – Mia comentou. Ela era daqui e estava um pouco temorosa em se mudar para longe da sua família.
– Há algumas diferenças. As mulheres de Menfis têm um pouco mais de regras de etiqueta e as tradições são mais conservadoras, mas não se preocupe, eu serei rainha de Teremur também e não quero mudar meus costumes. – eu tentei acalmá-la, apesar de que isso era inteiramente verdade. Eu era de Teremur e não Menfis, e seguiria os meus costumes.
Elas se deram por satisfeitas por enquanto e continuaram com a embalagem. Quando eu parei para tomar um chá de ervas com alguns pães quentes, minhas criadas mudaram totalmente o assunto.
– As cozinheiras estavam falando que a príncipe Belikov estava encantado com a senhorita. – Mia disse e eu me esqueci de soprar o chá e acabei queimando a língua. Eu odiava as fofocas que circulavam no castelo.
– Por que dizem isso? Ele foi apenas gentil e queria provar que não é nosso inimigo. – expliquei com cuidado.
– Bem, a senhorita foi vista passeando com ele em Norton e pareciam muito íntimos. – ela continuou sua explicação.
– Dizem até que ele queria a confirmação do rei Mazur para cortejá-la. – eu olhei horrorizada para Jill. Como elas sabiam que eu estava em Norton? E que história é essa dele querer me cortejar?
– Ele não pediu confirmação para nada, até porque eu já estou noiva e isso não faria sentido. E como vocês sabem sobre Norton?
– Um comerciante de Norton chegou essa manhã dizendo que viu a senhorita no mercado local, acompanhada do príncipe. – Mia se explicou com um encolher de ombros. Eu definitivamente odiava as fofocas do castelo.
– Ele só estava me mostrando a aldeia, já que eu nunca tinha visto uma. – eu estava tão indignada que minha fala saiu mais convincente do que eu esperava.
– São só fofocas princesa, não dê ouvidos para o que todos falam. – eu concordei um pouco relutante. Realmente todo cuidado era pouco.
Depois que eu fiz a minha parte nas embalagens eu segui até os aposentos que pertenciam a Lissa. Assim que bati na porta sua criada a abriu e parecia um pouco assustada.
Lissa estava cercada por vestidos e seus cabelos loiros estavam despenteados de fora do coque que durante a manhã pendia perfeitamente em sua cabeça.
– Parece que uma ventania passou aqui. O que aconteceu? – perguntei para a minha amiga enquanto me esquivava dos tecidos finos no chão.
– Eu não estou conseguindo colocar todos os meus vestidos nas bagagens que eu trouxe. Parece que eles triplicaram. – ele gemeu em frustração me fazendo rir.
– Liss, eu posso dar um jeito nisso, tenho bagagens sobrando porque não estou levando tudo de uma vez. – ela pulou e me abraçou.
– Rose, você é a minha salvação. Eu já estava ficando louca porque em breve tenho que me encontrar com Christian e não fiz nem a metade. – ela percebeu o que falou e ficou vermelha.
– Agora eu entendo porque você estava tão desesperada. – eu pedi que a criada dela procurasse Mia e pedisse algumas das minhas bagagens. E aproveitando nosso tempo sozinhas nos sentamos na grande cama de dossel e lençóis brancos.
– Você e Christian parecem estar se dando muito bem. – eu disse com um sorriso. Eu estava feliz que meu amigo tenha finalmente encontrado alguém, porque eu não me lembro de vê-lo com uma mulher antes. A proteção do castelo sempre tomou muito do seu tempo.
– Sim, ele é tão incrível Rose. Ele até falou que uma vez que a guerra termina quer pedir permissão para se casar comigo. – ela sorria de orelha a orelha e seus olhos brilhavam de excitação.
– Eu não achei que fosse viver para ver esse dia. – Christian nunca foi o tipo romântico e estava realmente me surpreendendo.
– Eu sei, ele está sendo tão carinhoso e atencioso. – suas bochechas se tingiram de um vermelho profundo. – E ontem a noite durante a festa ele me beijou. – ela suspirou sonhadora. Ela ia abrir a boca para falar mais quando eu a cortei.
– Não, por favor! Eu não quero saber os detalhes. – eu não queria imaginar meus dois melhores amigos aos beijos.
– E como vai com o russo? – ela perguntou distraída.
– Ele quer tentar convencer Nathan de que um casamento é desnecessário. — contei
– Eu não queria te desanimar Rose, mas meu tio tem outros interesses por trás. Como as terras de Teremur por exemplo. – eu já sabia disso, mas precisava me manter confiante.
– Eu sei, mas eu não quero me afastar do Dimitri ainda, mudei minha mente ontem. Principalmente porque ele disse que me amava depois que nós...- eu me cortei antes que falasse demais, mas é claro que foi tarde.
– Que vocês o quê Rose? Não vai me dizer que... – ela colocou as mãos na boca em surpresa, mas não parecia com raiva ou desapontada.
– Durante uma tempestade de neve nós paramos em uma cabana abandonada, a gente se declarou e depois, bem... você sabe o resto. Envolve muito suor e gemidos.
– Na verdade eu não sei. – ela disse com um sorrisinho. – Agora você vai ter que me contar. – ela se acomodou melhor na esperança de eu contar os detalhes.
– Quando eu disse que não queria ouvir detalhes seus isso incluía que eu não quero contar os meus.
– Rose! – ela murmurou em protesto. Eu decidi contar o que eu achei necessário, ela não precisava de todos os detalhes como, por exemplo, como Dimitri me fez chegar ao meu primeiro clímax. Mas eu disse como Dimitri era simplesmente um deus na cama e podia me fazer louca em questão de segundos.
– Ele realmente faz você feliz não é? – ela perguntou quando eu cheguei à parte em que dissemos que nos amávamos.
– Sim. – eu disse com um sorriso. – Eu o amo, e por enquanto isso importa.
– Eu acho que eu posso estar apaixonada pelo Christian também. – ela admitiu já ficando vermelha.
– E por que você não diz isso para ele. Tenho certeza que de ele sente o mesmo. – eu a encorajei.
– Eu pretendo dizer daqui a pouco. Ele vai ter que ficar aqui no castelo e eu não sei quando o verei novamente. Tenho medo de que ele possa encontrar outra mulher se eu não for totalmente aberta com ele.
– Liss, isso está fora de questão. Ele nunca trocaria você, mas de qualquer forma eu acho que você deve dizer como se sente.
– Então é melhor eu ir logo. Obrigada Rose. – ela me deu um beijo na bochecha e saiu tropeçando entre as peças no chão.
...
Na manhã seguinte tudo estava uma confusão. Homens tentando encontrar seus respectivos cavalos, bagagens sendo colocados nas carruagens, muitos familiares dos soldados dando seu adeus e eu estava perdida no meio disso tudo tentando encontrar o meu pai.
Finalmente eu o avistei tendo uma conversa com Christian.
– Pai eu queria te pedir uma coisa. – eu me aproximei tendo a sua atenção.
– Qualquer coisa minha filha. – ele não deveria dizer isso até ouvir o que eu tinha a dizer.
– Eu estava pensando ontem noite, já que vamos estar próximos do acampamento eu poderia dar uma passada por lá. As antigas tradições dizem que dá sorte ter uma mulher da realeza se despedindo dos soldados. – eu tentei argumentar. Eu fiquei a noite toda pensando em uma forma de poder ficar longe da corte de Menfis, e essa era a melhor que eu encontrei.
– Filha, isso não seria seguro. Você já viu do que os russos são capazes. – Christian me olhava desconfiado.
– Por isso mesmo pai, precisamos de toda a sorte ao nosso lado. – mordi os lábios inconscientemente esperando por uma resposta. Diga sim, diga sim.
– Tudo bem. – eu dei um grito em comemoração. – Mas preste atenção filha, eu conheço você e quero que siga as minhas ordens à risca, e eu quero dizer isso. Entendido? – eu concordei com entusiasmo. – E será apenas por alguns dias, não houve mais nenhuma ameaça de guerra aberta por isso não vejo problema. Mas você precisa da confirmação do seu noivo de qualquer maneira. – eu gemi e concordei.
Uma vez que a ordem foi restaurada já estávamos prontos para partir. Lissa e eu seguíamos em uma das carruagens, enquanto as demais eram para as bagagens e criados. Todos os homens estavam montados em seus cavalos e vestidos com suas malhas metálicas e elmos elaborados.
O adeus entre Lissa e Christian me deu um aperto no coração, enquanto eu via lágrimas caindo dos olhos dela.
– Cuide dela para mim Rose. – Christian disse no meu ouvido enquanto nos abraçávamos. – Eu confio em você para cuidar de si mesma e dela.
– Não vou deixar nada acontecer a ela, eu prometo. – eu disse, e quis dizer cada palavra. Lissa já era como uma irmã que eu nunca tive. E sabendo que meu melhor amigo a amava fez minha promessa ser ainda mais séria.
– E diga ao russo que se ele machuca-la eu mesmo o queimarei vivo. – eu arregalei os olhos o fazendo rir.
– Onde descobriu? – apertei meus olhos.
– Acha mesmo que Lissa não me contaria. – Lissa e sua boca grande. — De qualquer forma, Dimitri já havia me dito quando eu o questionei. Ele não conseguiu esconder muito bem seus sentimentos enquanto nós a procurávamos. Eu tive que acalmar meus homens desconfiados.
– Você não vai dizer ao meu pai não é?
– Se eu quisesse falar já teria o feito. Eu não vou dizer, fique tranquila. Mas é melhor vocês resolverem isso logo, esse relacionamento pode trazer graves consequências se descoberto.
– Estou ciente. – murmurei.
– Boa viagem Rose e tome cuidado. – ele me abraçou novamente.
– Você também.
A viagem de quase um dia foi tediosa como qualquer outra viagem. Lissa me contou sobre todos os seus encontros com Christian, falou sobre o desespero que sentiu quando eu estava desaparecida e ainda teve tempo de me provocar sobre Dimitri.
Chegamos ao castelo dos Ivashkov ao entardecer e só iriamos deixar Lissa e as carruagens para seguirmos até o acampamento.
– Rosemarie, querida. Eu estive tão preocupada. – Daniela apareceu no hall do castelo me abraçando de forma sufocante. Era tudo encenação para os nobres que assistiam a trás.
– Estou bem agora, foi apenas um susto. – disse com um falso sorriso.
– Um susto e tanto, o que seria do meu filho se a sua noiva não aparece para o casamento. – é claro que sua maior preocupação era com a reputação da sua família.
– Eu nem posso imaginar. – resmunguei revirando os olhos.
– Olá Rosemarie. Vejo que as notícias são verdadeira, você voltou sem um arranhão se quer. – Nathan disse me avaliando. – Afinal o russo inimigo fez um bom trabalho. – eu estreitei os olhos, respirando fundo para me acalmar. Como ele ousa falar assim do Dimitri?
– O russo inimigo. – eu cuspi as palavras. – Salvou a minha vida e garantiu nossa possível vitória tirando o trunfo da mão do verdadeiro inimigo. Ao menos deveria estar agradecido, porque se não fosse isso seria uma questão de tempo até que suas terras fossem tomadas. – eu disse o encarando para enfatizar bem minhas palavras.
– Vejo que sua língua afiada continua a mesma. – ele tentou disfarçar seu constrangimento. – A mesma Rosemarie de sempre, eu deveria desejar boa sorte ao meu filho. – ele disse se virando e saindo de vista.
– Então querida. – Daniela parecia um pouco sem jeito. – Seu quarto já está esperando, deixe para lidar com toda essa gente mais tarde. Eu tenho tantas pessoas para apresenta-la amanhã...
– Eu não vou ficar, estou indo para o acampamento. – eu a cortei.
– Acampamento? No meio de todos aqueles homens? – ela parecia ofendida e soltou uma risada sem graça quando algumas das senhoras nobres nos olhou com olhos arregalados. – Você é muito engraçada minha querida, agora eu sei por que Adrian fala tanto do seu senso de humor.
– Acontece que eu estou falando sério. A proposito eu devo subir para me trocar, calças são muito mais confortáveis que esse monte de tecido me apertando. – eu disse com um sorriso e me afastei deixando Daniela com a boca aberta correndo horrorizada de encontro com meu noivo.
Uma vez que eu estava com trajes apropriados para montar e a capa para me aquecer eu me despedi de Lissa e das minhas criadas, prometendo voltar em cinco dias. Eu nem me dei ao trabalho de procurar Daniela ou qualquer outra pessoa desse castelo.
Depois eu segui até o pátio onde os homens se preparavam para partir. Eu encontrei uma cabeleira ruiva e a segui.
– Mason, tudo pronto? – ele me olhou por longo tempo e sua boca se abriu quando viu minhas roupas que marcavam muito mais do que os vestidos que eu estava acostumada.
– Si...Sim. – ela gaguejou retomando sua postura. – Eu trouxe seu cavalo e já o preparei com celas confortáveis. Sua pouca bagagem separada foi colocada em um dos burros de carga.
– Obrigada Mason. – eu sorri passando as mãos no pescoço branco do Snow. Fazia tanto tempo que eu o não o montava, a ultima tinha sido quando eu conheci Dimitri.
Antes que qualquer um viesse dizer que eu era incapaz de montar um cavalo daquele tamanho sozinha, eu mesma coloquei os pés do estribo e com um impulso me acomodei na cela.
– Você realmente está indo? – Adrian perguntou surpreso quando se aproximou.
– Não sei por que a surpresa, você deveria saber que eu faria algo assim. – eu ainda estava um pouco brava com ele por tentar passar ciúmes em Dimitri. Mas se ele concordasse com a minha viagem eu poderia esquecer facilmente.
– Eu deveria saber. Minha mãe está enlouquecendo. – ele me olhou relutante. – Tem certeza de que quer fazer isso? Eu não vou tentar impedi-la, mas seu lugar não é em um acampamento de guerra, pequena princesa.
– Na verdade meu lugar não é no meio de todas essas senhoras excêntricas da corte. Eu é que ficaria louca sozinha com elas.
– Eu deveria conhecer melhor a mulher com quem vou me casar. – ele disse com um sorriso. – Vamos, você deve vir na frente conosco.
Eu peguei as rédeas do cavalo e o segui. Quando todos já estavam prontos as trombetas anunciaram a nossa partida. Eu segui na frente, ao meu lado direito estava o meu pai e Nathan e do meu esquerdo Adrian e Mason, respectivamente.
Nós avançamos rápidos pelos campos de neve e chegamos ao acampamento quando a lua estava subindo o céu. E assim como quando estive no acampamento russo eu me surpreendi. Eu não podia ver o fim das tendas, que desta vez eram em tons de vermelho e amarelo para Teremur e preta e branca para Menfis.
Acampamentos de guerra eram realmente muito semelhantes, tanto pelos homens quanto pelas instalações. E como já era noite a movimentação estava em torno das fogueiras em que se assava a refeição.
Paramos no estábulo e deixamos nossos cavalos com alguns servos.
– Estamos em um acampamento onde a maioria avassaladora são homens, e eu agradeceria se minha noiva me acompanhasse como tal. – Adrian disse estendendo o braço. Eu o peguei, mas não sem antes revirar os olhos.
Conforme íamos andando até as tendas reais, que ficavam no coração do acampamento, os homens paravam para cumprimentar seus reis e claro a sua princesa que veio desejar boa sorte. Eles pareciam agraciados com a minha presença.
– Seus aposentos estão na antessala da minha tenda minha filha. – meu pai disse abrindo a lona vermelha que dava para o interior do enorme recinto.
Uma mesa com mapas e pergaminhos estava em um canto, uma mesa de ferro com quatro cadeiras do lado oposto e assim como algumas armas e armaduras colocadas ordenadamente. Tapetes de couro já desgastados forravam o chão e lamparinas estavam espalhadas pelo lugar. E o cheiro de incenso de canela e cravos que meu pai tanto gostava pairava no ar.
– Eu mostro o restante para você amanhã minha filha, é melhor você se retirar e descansar. Eu não a quero andando no acampamento há essa hora. – eu concordei lhe dando um beijo de boa noite.
Meu plano de ficar longe daquelas malucas da corte tinha funcionado, eu suspirei agradecida. E tudo o que eu realmente queria fazer agora era dormir, pois todos os meus músculos estavam doloridos da longa cavalgada. Não havia nada melhor para fazer agora, mas claro se meu russo estivesse aqui eu nunca diria isso.
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