A Guerra Do Amor
17 Na toca do inimigo
Notas iniciais
Capitulo 17 — Na toca do inimigo
Eu acordei quando panos foram jogamos no meu rosto. O peso de um cinto caindo exatamente na minha testa me assustou.
– Ai! – resmunguei abrindo os olhos e encontrando Mikhail enrolando alguns cobertores. – Sua mãe não te ensinou a ser gentil com as pessoas? – eu estava cansada da sua bipolaridade.
– Fui gentil o suficiente para trazer suas roupas de volta. – olhando para os tecidos em cima de mim, reconheci minha túnica de lã azul, calças de couro e capa. Enfim eu poderia tirar esse maldito vestido transparente.
– Nesse caso, obrigada Mikhail. – sorri agradecida, jogando os cobertores de cima de mim e levantando.
– Eu não deixaria você congelar por ai com esse vestido. Como eu me explicaria para o rei?
– Pelo menos alguma coisa eu te ensinei. – eu poderia jurar que vi um sorriso de canto, mas eu com certeza estava apenas imaginando. – Será que você conseguiria me arrumar um pouco de água para me lavar? -Eu tinha cheiro de fumaça e cerveja.
– Vou ver o que eu consigo. – então ele saiu me deixando sozinha na tenda.
Em cima da mesa improvisada havia o mesmo prato com pão e mel. E ao lado uma chaleira com chá quente, um pouco de mordomia afinal. Eu estava com fome, e provavelmente era para mim. Larguei minhas roupas de lado, coloquei as botas e devorei toda a comida.
– Eu consegui essa pequena bacia, mas deve servir para o propósito. – Mikhail apareceu carregando uma pequena bacia com água e um pano, tentando equilibrar a água balançando. – Também aqueci a água. – ele colocou os objetos num canto.
– Isso está ótimo. Obrigada mais uma vez. Eu não sei por que você está fazendo tudo isso por mim, mas é muito gentil. Retiro o que eu disse. – sorri agradecida. Eu realmente não entendia por que ele vinha me ajudando desde o momento em que me encontraram, mesmo sendo mal humorado o tempo todo.
– Esteja pronta para partir em breve. – com um aceno ele me deixou sozinha novamente, e lá se foi toda a gentileza.
Eu espiei o lado de fora da tenda e vi que todos os homens estavam ocupados carregando os cavalos. Ótimo. Eu conseguiria me limpar sem que ninguém visse.
Examinando a bacia percebi que ao lado havia uma barra de sabão e um pequeno frasco de vidro. Eu retirei a rolha e cheirei. Rosas e cravo. Era um óleo de banho perfumado. Por que Mikhail tinha isso com ele? Dando de ombros eu aproveitei sua bondade momentânea e joguei o líquido na água. Usando o pano eu tentei me limpar o máximo possível.
Não era o banho descente que eu desejava, mas ao menos eu me sentia mais limpa e o cheiro de fumaça foi substituído pelo doce aroma do óleo. Depois de me vestir com minhas próprias roupas, saí da tenda e aproveitando o fim das chamas da fogueira joguei o vestido branco, que pouco a pouco foi se tornando enegrecido pela brasa. Maldito vestido.
–Era um belo vestido. Uma pena que tenha esse trágico fim. – Sir Vanig estava ao meu lado, olhando as chamas consumindo o vestindo lentamente.
– Até mesmo coisas belas chegam ao fim um dia. – eu lhe lancei um olhar significativo.
– Está me dizendo que sou bonito, princesa? – ele ergueu as sobrancelhas. – Posso dizer que está deliciosamente perfumada essa manhã. Devo agradecer ao Mikhail?
– Não capitão, estou dizendo que seu fim está próximo. – o olhei bem nos olhos para tornar minha ameaça o mais real possível, ignorando a parte sobre eu estar perfumada.
– Eu achei que depois de ontem à noite você estaria mais obediente. Mas não tem problema, eu gosto de desafios.
– Eu não sou um dos seus garanhões que pode ser domado. – resmunguei virando as costas e me dirigindo até onde os homens já montavam seus cavalos. Esse homem me tirava toda a paciência.
Mikhail já tinha partido. Como batedor, ele tinha que estar atento aos arredores. Russell estava montado em um cavalo carregado de coisas, desde panelas até os tapetes do seu senhor, sobrando pouco espaço para ele próprio. Uma vez com as mãos amarradas fui erguida na cela por um dos soldados para seguir viagem. Agradecida por não ter a venda apertando meus lábios desta vez.
...
Estávamos muito próximos do acampamento do rei agora. Depois de finalmente sairmos da floresta, descemos um rio volumoso e com perigosas corredeiras e pedras. Suas águas não estavam congeladas, mas deveria estar muito gelada. Nem mesmo os insetos se atreviam a pousar sobre elas. Deus, essa viagem estava me transformando em uma amante pela natureza.
Sem as árvores para bloquear o sol, o frio aqui era menos rigoroso há essa hora. Os próprios cavalos pareciam mais dispostos.
Depois de dois dias fora de casa, eu me perguntava onde estavam os soldados do meu pai. Eu achei que até agora já teriam nos encontrado, mesmo sabendo que perseguir alguém na enorme floresta de Fall River não era tarefa simples. Mas quanto mais nos aproximávamos do destino, mais um frio tomava minha espinha, e não era por conta de toda a neve.
E Dimitri. Será que ele sabia? Eu preferia que ele ficasse alheio ao que estava acontecendo. Ele já estava preocupado demais com sua família, e eu não queria atormentar ainda mais sua mente.
Meu pai com certeza já sabia. Os mensageiros de Teremur eram conhecidos por sua agilidade, e tínhamos pombos que faziam um ótimo trabalho também. Sim, com certeza ele estava ciente da minha situação, mas será que ele sabia que eu tinha sido raptada? Eu tinha medo de ele pensar que eu fugi por espontânea vontade. Mais uma pessoa para ter a cabeça perturbada por minha causa de qualquer forma. De repente senti um nó sendo dado no meu coração e o calor deixar meu corpo. Haverá uma batalha ao pôr do sol. Sir Vanig havia dito.
Já passava do meio dia, o que significada que uma batalha havia acontecido não muito longe de mim. Agora eu era quem estava tomada de preocupação. Meu pai havia sobrevivido? E quanto a Adrian? E todos os cavaleiros que sempre foram gentis e educados comigo? Eles tinham família os esperando em casa.
– Senhor, você sabe alguma coisa sobre a batalha que aconteceria hoje? – perguntei ao guarda mais próximo de mim. Eu não esperava minha voz soar tão desesperada.
– Desculpe princesa. Estou fora por um mês, não saberia lhe responder a essa pergunta. – seu sotaque era muito carregado e eu quase não entendia o final das palavras. Mas eu podia jurar que ele estava nervoso com o assunto.
– O capitão não mentiu? Haveria mesmo uma batalha? – insisti.
– Temo que sim princesa. A batalha dos campos de Alsydeon. Ouvi dizer que o rei Mazur tentaria impedir a marcha do rei Victor ali. Mas é tudo o que eu sei. – eu acenei, ele não estava me contando tudo.
Eu pensei em perguntar ao capitão. Mas ele era esperto e poderia usar minhas emoções contra mim novamente. Agora que sabia que ele não estava mentindo, eu não sabia como reagiria.
Um pouco mais tarde finalmente chegamos ao acampamento do rei. Eu esperava que fosse menor. Meus olhos não alcançavam seu final. Muitas tendas, todos da mesma cor verde musgo, semelhantes as das bandeiras. Cavalos e homens disputavam pelo pouco espaço entre as instalações.
Tudo cheirava a fumaça, ferro fundido e couro. Era como uma pequena cidade. Eu me vi olhando para um ferreiro, onde homens afiavam suas espadas e lanças. Uma cozinha montada ao ar livre, com homens e mulheres preparando a refeição em enormes caldeirões. Um campo de treinamento, onde homens pareciam estar em algum tipo de competição. Até mesmo salas de curas haviam sido montadas.
Enquanto atravessávamos por entre as muitas tendas, os homens lançavam olhares curiosos na minha direção. Suas perguntas em russo eram respondidas pela mesma língua, me deixando as cegas. Eu observei que havia muitos homens aqui. Não deveria eles estar na guerra? Ou talvez eles tenham saído vitoriosos facilmente. Espantei esses pensamentos rapidamente.
Na parte mais alta da planície coberta por neve e o mar verde de tendas era onde o rei ficava, eu ponderei. Uma enorme tenda muito mais luxuosa estava localizada ali. Assim como muitos guardas a postos e atentos aos arredores. E era para lá que Sir Vanig estava me levando depois de dispensar seus homens.
– Vejo que finalmente chegou com meu pequeno prêmio, marechal. – o rei Victor saiu de sua tenda limpando a mão vermelha em um pano, um vermelho semelhante ao do sangue. Ele usava uma simples túnica cinza. Eu tinha me esquecido de como seus olhos verdes eram ameaçadores e frios. Nada parecido com Dimitri, que deve ter herdado suas belas características da parte materna da família. E com certeza o gênio também.
– Tivemos que seguir caminhos isolados vossa majestade, e isso nos atrasamos. Rurik, meu batedor, disse que avistou homens de Teremur procurando pela princesa. Não podíamos arriscar. – Vanig desceu do cavalo se curvando para o seu rei educadamente.
– Eu sabia que faria a coisa certa Marechal Vanig. – então Victor me encarou pela primeira vez desde que cheguei ali.
– Parece que nos encontramos novamente princesa. É um prazer ter sua presença aqui.
– O prazer é todo seu. – o rei abriu um sorriso divertido e fez sinal para o marechal me livrar das cordas e do cavalo.
Uma vez no chão, Victor se aproximou me analisando minuciosamente.
– Eu tinha me esquecido com você é ácida como um limão. Assim como sua falecida mãe foi um dia, mas o que seria uma bela rosa sem seus espinhos. – a menção da minha mãe me fez recuar por alguns instantes e estreitar os olhos em sua direção.
– Agora que você me tem aqui como seu prêmio pessoal, me responda o que diabos você quer comigo afinal? – cruzei os braços sem tirar os olhos do homem na minha frente.
– Tenha paciência princesa. Por que não entramos para nos aquecer? – ele apontou para sua tenda atrás de nós.
Vendo que eu não me movi um centímetro, o marechal me arrastou pelo cotovelo, seguindo o próprio rei. Eu poderia estar sem opções, mas não quer dizer que eu facilitaria as coisas para nenhum deles.
O interior da tenda era completamente luxuoso, se passaria por uma suíte real facilmente, a cor verde e prata dominavam a visão. Nada aqui era improvisado como o acampamento do marechal. Mesa com muitas bandejas de alimento e cadeiras de ferro faziam parte da decoração. Até mesmo uma lamparina para aquecimento estava localizada no centro. Tapetes cobriam todo o recinto e em uma grande mesa de madeira havia um animal sendo esfolado para proveito do couro, o provável motivo do sangue nas mãos do rei. Uma lona solta indicava que havia uma antessala ao lado, onde deveriam estar localizada a cama e objetos pessoas do rei.
– Muito aconchegante, não acha? – Victor adivinhou meus pensamentos.
– Eu ainda prefiro o estábulo onde eu me privo da sua companhia. – respondi com um sorriso sínico e me sentei em uma das cadeiras confortavelmente. Victor seguia meus movimentos com os olhos.
– Princesa, me corta o coração ouvi-la falar assim. Dispus dos meus melhores homens apenas para ter a sua adorável companhia.
– Não deveria ter perdido seu tempo, eu não vou fazer parte dos seus jogos idiotas e mesquinhos. Enquanto eu estiver aqui farei tudo ao meu alcance para prejudicá-lo de qualquer forma. – eu me lembrei de Dimitri me contando de como Victor havia batido em sua mãe, e se possível meu ódio por ele só aumentou.
– Eu não teria tanta certeza. – seus olhos se tornaram ainda mais ameaçadores. Mas antes que mais alguma coisa fosse dita, uma criada entrou trazendo uma bandeja de prata.
– Vossa majestade. – ela se curvou de cabeça baixa. – Aqui está a refeição que vossa graça pediu. Algo mais?
– Não preciso de mais nada, agora saia daqui logo. – a pobre mulher saiu quase correndo.
Sir Vanig apenas prestava atenção aos arredores, ele só falava quando o rei lhe dirigia a palavra.
– Espero que a viagem tenha sido sem problemas marechal, e que a princesa tenha se comportado.
– Meus homens mantiveram guarda constante sobre ela vossa majestade, não houve nenhum imprevisto. Eu tive tudo sobre controle. – Vanig me olhava divertido. O bastardo deveria estar se lembrando do vestido que me fez usar enquanto me controlava com aquela maldita corda.
– Quero atualizações detalhadas de tudo, mas não aqui. – ele se voltou para mim novamente. — Devo dizer princesa que apesar de ser minha prisioneira quero que receba um tratamento digno da realeza. – ele apontou para a bandeja contendo frutas frescas, castanhas e pães doces. – São para você. Deve estar faminta, aproveite. – ele pegou uma uva a jogando na boca, depois saiu com o marechal dizendo para irem até a tenda ao lado fazer uma reunião.
Depois de esperar um instante eu tentei sair da tenda, mas assim que meus pés pousaram sobre a neve de fora, guardas apareceram com lanças ameaçadoras apontadas direto na minha cabeça.
– Princesa, temos ordens para amarrá-la caso tente passar pela guarda. – um enorme soldado disse com um toque de aviso na sua voz.
Bufando de raiva voltei para a tenda, eu não queria ter cordas marcando os meus pulsos outra vez. Inspecionei a antessala, que como eu previa tinha uma enorme cama de casal, uma banheira de madeira e baús contendo roupas e alguns livros em russo. Procurei por algo que eu poderia usar como arma, o melhor que achei ali foi uma garrafa de vidro que estava vazia.
Depois de procurar por todos os cantos eu desisti, por agora. Decidi comer o que me foi dado. O pão doce de canela estava delicioso e eu acabei comendo pelo menos uns quatro deles. De repente um cansaço me bateu e eu só queria dormir. Essa viagem tinha sido muito cansativa e eu precisava repor minhas forças para bolar um plano de fuga. Deitando-me na grande cama macia, eu apaguei.
...
Eu acordei com uma movimentação na sala principal da tenda. Ainda meio grogue saí cambaleando na direção dos sons.
– Primeiro eu quero ser atualizado dos acontecimentos desta manhã lorde Badica. – Victor esbravejou.
– Vossa majestade, nossos poucos homens foram massacrados como foi previsto. Os reis do oeste atacaram com força total. Cerca de oito mil homens muito bem preparados e armados contra mil dos nossos.
– Eu não sacrifiquei tantos homens atoa. Quero saber quais são as táticas usadas, o ponto fraco deles, artilharia usada, eu quero todos os detalhes porque da próxima vez o ataque será calculado e fatal. – Eles estavam falando sobre a batalha dos campos de Alsydeon. Permaneci espiando atrás da tenda que ligava as salas.
– Todos os homens vieram montados a cavalo. Na frente da marcha lanceiros muito bem treinados aniquilaram nossos homens. Arqueiros foram posicionados estrategicamente e todos possuíam espadas e escudos. Estão mais bem preparados do que prevíamos meu senhor rei. – Victor remexia seu cabelo escuro mostrando que estava impaciente.
– Eu preciso de detalhes internos. Algo que nos coloque na frente. – Victor gritou de frustação.
– Meu senhor, eu observei que os homens apresentam um grande respeito por seus reis, que lutaram na frente como incentivo, sem eles estariam totalmente desestruturados. – o lorde estava tendo dificuldades em falar, como se tivesse algo pressionando seu peito.
Puxando um pouco a tenda de lado eu me vi olhando para um homem de cerca de 50 anos ainda trajando as roupas de batalha toda ensanguentada, principalmente na região abaixo do braço. Seus cabelos castanhos estavam suados e caindo sobre seu rosto que tinha muitos cortes e hematomas. Ele parecia que ia cair a qualquer momento.
– Temos que desestruturar seus reis para desestruturar o exército. – Victor voltou a falar, mas ainda estava pensativo.
Se eu estava entendendo certo Victor mandou mil homens para a morte apenas para obter informações privilegiadas para o próximo ataque. Ele queria conhecer a forma de lutar do inimigo e atacar estrategicamente. Meu estomago se embrulhou com a crueldade que ele tratava seu próprio povo. E pela forma como o lorde falava meu pai estava vivo, eu suspirei aliviada mesmo com um forte sentimento de desconforto.
– Creio que este é o melhor caminho vossa majestade. Não foi como prevíamos, apenas alguns homens voltaram vivos comigo e não conseguimos algo concreto que nos dê a vitória. Tantas mortes em vão. – o lorde parecia perturbado. Eu também estaria assim se visse meus companheiros sendo mortos de forma tão fria e cruel.
– Eram homens despreparados escolhidos apenas como peões do meu tabuleiro. Às vezes para chegar à vitória, sacrifícios são necessários. – Victor não tinha uma gota de remorso na sua voz, ele faria tudo de novo se fosse preciso. Eu admito que foi uma tática inteligente. Além de cansar os soldados do oeste, ele teria informações privilegiadas antecipadamente. Mas isso não a tornava menos desumana.
– Como quiser vossa majestade. – o lorde precisava de cuidados, eu decidi quando vi sangue pingando e manchando o tapete no chão.
Saindo do meu esconderijo, Victor sorriu e me apresentou.
– Vejo que finalmente acordou. Lorde Badica, essa é a princesa Rosemarie, nossa arma que nos levará à vitória.
Com um aceno educado o lorde se curvou, mesmo fazendo uma careta de dor.
– Uma honra conhecê-la princesa.
Eu acenei e me voltei com olhos furiosos para rei.
– Você é um filho da mãe. – o lorde parecia surpreso, mas eu estava acostumada com as pessoas tendo essa reação. Eu não era o tipo de pessoa que pensa e depois fala.
– Eu achei que você estivesse familiarizada com as consequências da guerra princesa, afinal não é por isso que você tem um noivo? – para minha raiva ele sorria. – Eu soube que você não foi adepta a ideia. Deveria estar me agradecendo por mantê-la aqui.
– Agradecê-lo por começar uma guerra que matará milhares de inocentes?
– Não fui eu quem começou, se quer culpar alguém culpe ao seu futuro sogro princesa. Você não sabe nem metade do que está acontecendo. – isso me fez parar.
– O que o rei Nathan tem a ver? – eu franzi o cenho. — Você está mentindo, é tudo por conta da sua ambição desesperada em busca de poder.
– É isso que todos dizem para você? Você realmente deve me agradecer por tirá-la daquele ninho de mentirosos, princesa. Tudo o que fizeram foi colocar na sua cabeça que a guerra era sua culpa e que um casamento os salvaria. Ledo engano.
Eu fiquei sem palavras pela primeira vez. Não podia ser verdade. Lissa tinha me dito que haviam motivos passados para uma guerra de tamanha magnitude, como a morte de sua família, poderia mesmo ser verdade? Eles me deixariam se sentir culpada, mesmo sabendo a verdade?
– Então por quê? – perguntei já sem paciência.
– Eu não sou inocente Rosemarie, mas ao menos eu não uso de mentiras para atingir meus objetos. Eu quero sim poder, mas acima de tudo o que eu mais quero é vingança.
– O que aconteceu? Isso tem algo a ver com a morte dos Dragomir? – ficar sem respostas estava me frustrando. Eu precisava saber a verdade. E apesar de não confiar em Victor, eu via que ele dizia a verdade sobre a vingança quando seus olhos brilharam.
– No seu tempo você saberá Rosemarie. – ele se voltou para o lorde que estava pálido e se apoiando sobre o encosto da cadeira. – Agora eu preciso vencer uma guerra. O que mais tem a me dizer lorde Badica?
– Vossa majestade, eu disse tudo o que precisava ser dito. – a voz do homem estava fraca, mal passava de um sussurro.
– Ele precisa de um curandeiro. – eu estava com medo dele cair morto na nossa frente. Nesse momento eu esqueci completamente sobre a minha frustração por respostas, eu conseguiria isso depois.
– Se ele não me foi útil agora, não me será no futuro. Eu não preciso dos seus serviços agora senhor lorde. – o homem escolheu esse instante para desabar no chão levando a mão ao peito. Eu corri para o seu lado apoiando sua cabeça no meu colo.
– Deixe-me levá-lo até a casa de cura. Ele vai morrer se não receber tratamento. – Victor não expressava nenhuma emoção.
– Faça o que achar melhor doce Rosemarie. – com isso ele virou as costas e deixou a tenda dando ordens aos guardas da porta.
Dois soldados entraram as pressas olhando para o homem caído e respirando com dificuldades.
– Eu preciso levá-lo daqui, me ajudem. – os dois carregaram o lorde até as casas de curas comigo seguindo logo atrás.
Uma vez lá eu me vi no inferno. Tudo estava um caus. Cheiro de sangue e carne tomou conta do meu olfato. Homens mutilados estavam sendo tratados em qualquer pequeno espaço disponível. Gritos agonizantes eram ouvidos, assim como o som de choro em desespero.
– Coloquem o lorde aqui. – eu apontei para um canto que estava relativamente vazio. Assim que eles o depositaram no chão ele retomou a consciência, se sentando contra a tenda esticada. Os soldados então se colocaram próximos o suficiente para me vigiarem, como se eu fosse fugir e deixar o pobre cavaleiro morrer.
– Lorde Badica, você pode me entender? – me ajoelhei na sua frente.
Ele apenas acenou em concordância.
– Eu vou buscar ajuda, vai ficar tudo bem. – eu me dirigi até onde uma senhora bem de idade estava tratando um homem com uma flecha atravessada em sua coxa direita. Ela tentava tirar a madeira, enquanto o homem gritava em desespero. Não era um bom momento.
Observando os arredores eu vi cada um dos curandeiros ocupados em seu próprio paciente ensanguentado. Sem falar na quantidade de homens ainda esperando por atendimento. Eu entrei em desespero nesse momento. Eram mais consequências da guerra, esses eram os poucos sobreviventes que o lorde havia mencionado.
– Senhorita, está ferida? – um menino se aproximou com uma voz gentil. Na sua mão havia um rolo de um tecido fino que servia para curativo.
– Não sou eu. Eu preciso de ajuda com um homem que está a beira da morte. – seus olhos se arregalaram.
– Senhorita, eu não sou curandeiro. Sou um ajudante e estou apenas encarregado de entregar os itens necessários. – ele era muito jovem para um curandeiro e eu já sabia disso. E seus olhos castanhos me lembravam de alguém que eu não queria pensar agora.
– Eu preciso de um curandeiro, você consegue isso pra mim?
– Consigo. – eu respirei aliviada, mas por pouco tempo. – Mas ele vai ter que esperar. Estamos apenas com quatro e todos estão ocupados. – seus olhos deveriam mostrar a inocência de uma criança, mas só havia tristeza.
Eu precisava fazer isso. Alberta havia me dado algumas aulas sobre curas e curativos. Eu tinha a teoria, mas a prática era outra história. Se ao menos Lissa estivesse aqui. Mas todas essas pessoas precisam de mim agora, mesmo não sendo meu povo e estando em uma guerra contra eles, esses eram tempos de solidariedade.
– Tudo bem, você pode me conseguir algumas coisas?
– Isso eu posso fazer. Você sabe curar?
– Eu vou ver o que eu posso fazer. Preste atenção, quero que me traga uma bacia com água morna e panos para começar, pode fazer isso? – sorrindo ele acenou e saindo correndo por entre as pessoas.
Voltei até o canto onde o lorde me esperava.
– Lorde Badica, eu vou ajudá-lo da melhor forma que eu puder.
Ele me deu um aceno fraco e eu comecei tirando sua armadura e cota de malha. Sua camisa de linho bege estava ensopada de sangue, se agarrando ao seu corpo. O mais gentilmente possível eu tirei as peças, mas ainda sim eu ouvia seus assovios de dor.
Respirando fundo para tentar me acalmar eu verifiquei o que havia de errado com ele. Um corte liso e profundo saia da sua clavícula até debaixo das axilas, onde a armadura tinha uma brecha. E um pedaço de flecha quebrada saia do lado do seu peito. Era pior do que eu imaginava.
– Senhorita, eu consegui o que você pediu. – o menino voltou e se sentou ao meu lado olhando horrorizado para o lorde.
– Obrigada. – eu sorri. – Você não precisa ficar e ver isso. É apenas uma criança.
– Meu avô me mandou vir, ele diz que eu preciso ver a crueldade dos homens desde pequeno. – eu gostaria de encontrar com seu avô um dia. Que tipo de criação era essa?
– Você pode me ajudar então, pode ser? – eu nunca me dei muito bem com crianças e não sabia o que fazer, quando ele acenou eu voltei ao trabalho.
Comecei por limpar as feridas com a ajuda do pano. Tirando todo o sangue seco e as deixando bem a mostra.
– Eu preciso de agulha e linha para os pontos e bandagem para os curativos. Tem algum chá para aliviar a dor? – o lorde já estava agonizando antes de eu começar.
– Eu encontrei nos estoques chá de casca de salgueiro e leite de papoula. Também têm algumas pomadas que os curandeiros fizeram com ervas.
– Trago tudo. – o menino novamente saiu correndo.
Aproveitando que ele não estava eu me preparei para puxar a flecha, eu não queria ele para assistir.
– Senhor lorde, eu preciso tirar isso.
– Vá em frente. – ele sussurrou.
Posicionando-me da melhor forma possível eu puxei a ponta da madeira em um movimento firme, mas o lorde deu um grito agonizante que perturbaria meus sonhos por muito tempo.
Depois que o pequeno voltou com as mãos carregadas eu terminei meu serviço. Eu dei o leite de papoula para o homem e depois dei os pontos no corte da clavícula. Eu me dizia o tempo todo que estava apenas costurando um pedaço de pano, mas pano não tinha sangue ou cheiro de carne. Passei a pomada e fiz os curativos, imobilizando a braço prejudicado.
Eu havia feito isso. O homem estava desacordado, mas ao menos vivo e sem perigo agora. Eu fiz uma cama improvisada com lençóis brancos e o deitei, agora ele só precisava de descanso.
Durante o restante da noite eu continuei cuidando dos feridos. Alguns braços quebrados com fraturas expostas tiveram que esperar por um curandeiro de verdade. Mas com pontos e curativos eu estava me saindo muito bem. Com o passar da noite os choros e gritos foram diminuindo dando lugar ao silêncio e ao crepitar da fogueira.
– Sua perna ficará boa, só não se movimente muito para não arrebentar os pontos. – eu disse em aviso para um soldado que deixava o orgulho masculino falar mais alto, ele queria sair para beber com os amigos sem fazer o devido repouso. Ele era o último a ser atendido e eu fiz questão de ajudá-lo.
– Obrigada pequena flor. – depois que eu falei que meu nome era Rose o apelido pegou entre os feridos. Eu o odiava, mas seria covardia ameaça-los nesse estado. Eu omiti os títulos, desnecessários no momento. Para todos ali eu era uma simples camponesa estrangeira.
– Obrigado por nos ajudar Rose, sem você aqui muitos homens teriam sequelas irremediáveis. Fez um trabalho excelente. – o chefe dos curandeiros, Gregori, me parabenizou.
– Eu também ajudei a Rose. – o pequeno garoto disse. Ele tinha me ajudado durante toda a noite, e no começo eu não tinha percebido que ele tinha um cachorro que o seguia onde quer que ele fosse.
– É claro que ajudou, sem você aqui eu teria demorado décadas para cumprir minhas tarefas. – ele sorriu orgulhoso e me olhou com admiração. Os outros curandeiros estavam exaustos, mas não negaram um sorriso de satisfação para o garoto. – Agora eu gostaria de saber o nome do meu salvador.
– Me chamo Paul. – ele disse tímido.
– Muito obrigada por me ajudar Paul. – eu me abaixei na sua altura e lhe dei um beijo na bochecha. Quando ele ficou vermelho os outros riram.
– É melhor eu levá-lo de volta Paul, seu avô deve estar se perguntando por que tanta demora. – A velha senhora de mais cedo agarrou a mão do menino o puxando para ir embora.
– Eu vou ver você amanhã Rose? – ele perguntou relutante em seguir a mulher.
– Eu adoraria Paul. – ele sorria satisfeito e foi embora, seguido pelo cachorro. Isso me deixava com o senhor curandeiro e os guardas ainda me vigiando discretamente.
Ouvimos um farfalhar de tecido e nos viramos para encarar o lorde Badica, agora de pé e parecendo outro homem.
– Princesa Rose. – ele se curvou. – meus agradecimentos. Eu lhe devo a minha vida e espero poder pagar essa dívida um dia.
O senhor ao meu lado me encarou espantado.
– Princesa? – ele franziu ainda mais suas rugas e sua mente pareceu clarear. -Você é a princesa refém. A princesa do oeste. Por que ajudou seus inimigos? – lá se vai meu disfarce.
– Qualquer um teria feito a mesma coisa. – dei de ombros.
– Eu não conheço ninguém que faria algo parecido princesa. Você tem muita bondade no seu coração.
– Você não merece ser tratada feito um objeto de troca como o meu rei está fazendo. – o lorde disse me surpreendendo. Questionar as ordens do rei tinha como punição as masmorras.
– Eu só fiz o que eu achei correto naquele momento, vamos pular essa a parte em que todos se abraçam e vivem felizes para sempre, isso não faz o meu tipo e já disse que não foi nada demais. – eu reforcei querendo pôr um fim a esse assunto. Eu gostava muito mais quando era chamada de irresponsável e imprudente, mas eu tinha que admitir que quando se tratava de outras pessoas eu as colocava em primeiro lugar. Enquanto ninguém soubesse disso eu manteria minha postura de durona. E eu também me forçava a afastar a melancolia do ambiente.
– Princesa, o rei mandou levá-la de volta imediatamente. – um dos guarda nos interrompeu.
– Por que ele próprio não vem me buscar? – eu gemi.
– o rei nos dá ordem e nós...
– Tudo bem, eu já entendi. – o cortei antes que ele visse com mais bajulação. – Bem senhores, essa é a minha deixa. Foi um prazer ajuda-los essa noite.
– Se você se sentir entediada pode ver me visitar, sempre temos trabalho aqui nas casas de cura. E o menino Paul realmente gostou de você. – o velho curandeiro disse com voz gentil e amável.
– Eu adoraria senhor Gregori. — sorri agradecida. Ele tinha sido educado e paciente comigo a noite toda, se dispondo muitas vezes para me ensinar algum truque prático.
– Eu a acompanho até a tenda real princesa. – O lorde Badica se ofereceu e veio se arrastando até estar ao meu lado.
– Eu me ofenderia se o tirasse do seu descanso que é mais do que necessário e realmente não é preciso, eu estou bem.
Eu tive que dizer mais algumas palavras para finalmente convencer o teimoso lorde de que ficar em repouso nas casas de cura era o mais sensato a se fazer.
Assim que cheguei à tenda do rei, o encontrei terminando seu jantar. Em seu colo havia uma loira alta sorrindo enquanto colocava frutas direto na boca do seu senhor. Eu enruguei o nariz para a cena.
Os guardas que deveriam estar acostumados com a situação nem se deram ao trabalho de colocar os olhos no interior aconchegante da tenda.
– Rosemarie, finalmente veio nos agraciar com sua bela presença. – a loira me lançou um olhar de ódio, como se eu fosse uma concorrente de peso. Coitada.
– Pois é, seus guardas bajuladores não perdem tempo em cumprir suas ordens. – ele gargalhou e observei que seus olhos estavam vermelhos e sonolentos, sinal de que estava bêbado de toda àquela vodca em sua mesa.
– Você me diverte Rosemarie. Eu gosto do seu humor sarcástico, a melhor coisa que eu fiz nos últimos dias foi tê-la trazido para cá.
– Gaste suas palavras com sua convidada e não perca seu tempo comigo. – a loira sorriu tentando chamar a atenção do rei com seus lábios famintos. Eu revirei os olhos.
– Irina aqui é uma mulher inteligente Rosemarie, ela sabe escolher um lado. – as mãos dele passeavam por debaixo do vestido verde da loira, me causando enjoo.
–Que bom para Irina. Cada um tem o melhor que pode conseguir.
– Vou ignorar o comentário e convidá-la para um jantar. O que me diz? – ele tentou afastar a loira do seu pescoço tentando focar sua atenção em mim, eu podia jurar que ela rosnou na minha direção.
– Eu prefiro morrer ao dividir minha refeição com você. – eu cuspi as palavras. – E se me der licença eu gostaria de descansar, assim você pode aproveitar sua vadia acompanhante da forma mais suja que preferir.
Os dois me olhavam chocados. Primeiro: eu recusei um pedido do rei. Segundo: o insultei. E terceiro: chamei sua amante de vadia. Uma frase de efeito, afinal. Antes que eu pudesse me virar e sair de cena com um queixo erguido a tenda se abriu bruscamente revelando a ultima pessoa que eu esperava ver aqui. E ele não parecia nenhum pouco feliz.
– Meu filho! Que surpresa agradável vê-lo aqui.
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