A Guerra Do Amor
29 Encontro entre reis
Notas iniciais
Capítulo 29 – Encontro entre reis
– Isso não pode ser verdade, minha senhora. – Russell, ou devo dizer Robert, estava completamente pasmo com a história. Depois que o resgatamos, voltamos ao acampamento. Agora nós estávamos todos na tenda do meu pai, eu tinha acabado de contar toda a história.
– Eu não tenho dúvidas de que você é o verdadeiro herdeiro do trono russo. Você não se lembra do que aconteceu, e como Dimitri mesmo confirmou, não tinha como você saber da estrela de Damião. Sem falar nos olhos idênticos. – ele ainda não parecia convencido, mas ao menos estava menos chocado que o restante.
– Victor não vai acreditar, vai dizer que isso é algum tipo de armação. – Abe ponderei, coçando sua barba. – E de qualquer forma, não temos como provar que não foi Nathan quem deu um sumiço nele. – ele tinha razão nesse ponto.
– Eu não tenho nada a ver com isso, se Robert pudesse lembrar-se veria bárbaros nos atacando. – Nathan parecia ofendido, mas agora nós sabíamos que ele falava a verdade.
– Sua palavra não adianta de nada. – Dimitri avisou em tom sério. – De qualquer forma, eu acho que meu pai reconheceria seu irmão. Agora eu posso ver uma real semelhança entre eles. O problema vai ser convencê-lo de que houve um acidente. – ele estava fazendo de tudo para achar uma solução, mesmo quando sua perna ainda deveria estar latejando de dor. O único curativo era o pedaço da minha túnica que eu tinha colocado.
– Belikov tem razão. – meu pai disse. – Eu vou mandar o mensageiro até o acampamento russo, e então nos resta esperar pela sua resposta. Podemos decidir o que fazer depois.
Os marechais concordaram e saíram da tenda, procurando pelo mensageiro.
– Eu não sei se eu grito com você por essa loucura ou se a agradeço Rosemarie. – meu pai me repreendeu se voltando para mim quando tudo se acalmou. Seu olhar não era amigável.
– Eu prefiro a segunda opção. – dei de ombros.
– Isso não é brincadeira Rose, você não pode se arriscar dessa forma . Eu quero que me prometa que não fará algo assim novamente, nós te apoiaríamos se tivesse nos contado a verdade. – eu bufei.
– Vocês teriam acreditado em mim? – perguntei. Meu pai, Nathan, Adrian e até mesmo Dimitri me olharam com dúvida. Eles não teriam acreditado.
– Filha, sua segurança vem em primeiro lugar agora. Eu não a quero envolvida nessa guerra. – eu ia protestar mais Adrian me cortou.
– Ouça seu pai ao menos uma vez Rose, você teve sorte nas duas últimas vezes. Não posso deixar que aconteça uma terceira. – seus olhos eram carinhosos.
– Adrian tem razão princesa, sua parte já foi feita. – Dimitri me deu um sorriso caloroso. Adrian parecia surpreso em ver o russo concordando com algo que ele disse.
– O casamento será em cinco dias, você não tem esse tempo Rosemarie. – Nathan disse com sua voz arrogante, eu simplesmente o ignorei.
– Eu quero ficar até saber qual será o futuro do Russell, depois disso eu volto para o castelo. Definitivamente dessa vez.
– Rose... – meu pai ia protestar mais eu interrompi.
– É isso ou eu juro que fujo na primeira oportunidade. – disse cruzando os braços. Dimitri ria discretamente, ele já estava acostumado com a minha insistência.
– Tudo bem minha filha, provavelmente teremos notícias do rei da Rússia amanhã, e então você estará voltando. – eu sorri agradecida. – E o que dizer da sua irmã Belikov? – meu pai se virou para Dimitri.
– Eu prefiro que ela viaje na companhia da princesa, por isso ela também irá esperar.
– Muito bem, agora acho melhor você cuidar desse seu ferimento. Ele não me parece bom de olhar.
– Ibrahim tem razão, nós precisaremos de você inteiro para os próximos dias. – Nathan completou.
– Vou fazer isso agora mesmo. – ele disse se virando.
– Espere príncipe Belikov. – eu chamei, o fazendo se virar. Adrian apenas me olhava. – Eu vou acompanha-lo, quero ver como Mason está.
– Por favor. – ele disse me dando o braço.
Deixamos a tenda e o silencio se seguiu até a metade do caminho. Eu ajudava Dimitri a se apoiar, ele estava com bastantes dificuldades para andar, mesmo não querendo demostrar isso.
– Você está vindo para cuidar de mim? – Dimitri perguntou com um leve toque de diversão.
– Eu já disse que estou indo para ver como Mason está. – respondi mal humorada, ele precisava sofrer um pouco mais por ter mentido.
– Eu não vou ganhar nem um pouco da sua atenção? – ele continuou.
– Eu poderia mentir como você fez, dizendo que sim.
– O que eu tenho que fazer para você me perdoar? – a diversão tinha ido.
– Da para parar de fazer perguntas, isso está me cansando. – Nesse ponto alcançamos as tendas de cura e a conversa se encerrou.
Eu avistei Mason dormindo em uma cama, mas ele parecia bem melhor e até mesmo a cor rosada das suas bochechas tinham voltado. O único curandeiro que estava ali se aproximou.
– Princesa Rosemarie e príncipe Belikov. – ele nos reverenciou. – Veio saber notícias do seu guardião princesa?
– Por favor. – eu pedi.
– Ele tinha algumas lacerações que já foram devidamente fechadas e desinfetadas e está dormindo agora porque demos o leite de papoula para diminuir a dor. Mas ele ficará bem, eu garanto.
Eu passei a mão suavemente pelo seu rosto relaxado, Mason tinha sido muito valente essa noite.
– Obrigada por cuidar dele.
– É o meu trabalho vossa alteza. Agora vamos dar uma olhada nessa sua perna senhor Belikov.
– Eu cuido disso. – eu me apressei em dizer. – Aproveite para descansar, senhor.
Ele ficou em dúvida se deveria mesmo ir, mas o cansaço o venceu e ele cedeu. Dimitri me olhava com curiosidade.
– Vai me deixar sangrar até a morte? – ele perguntou com as sobrancelhas erguidas.
– Sente-se aqui e fique quieto. – eu apontei para uma pequena cama.
Rasgando sua calça eu limpei todo o sangue seco com um pano molhado, gentilmente. Dimitri seguia meus movimentos com os olhos escuros. Não havia ninguém aqui, e o único som eram os dos grilos e outros insetos.
Eu não achei que precisaria de pontos, então depois de jogar aguardente para desinfetar, passei uma pomada de ervas para cicatrizar e amarrei uma faixa em volta da sua coxa.
– Evite andar demais para que a ferida possa se fechar mais rápido, e fique deitado pelo resto da noite. – eu disse me levantando do seu lado e lavando a mão em uma bacia com água.
De repente eu senti uma respiração no meu pescoço.
– Obrigada Roza. – ele sussurrou com o sotaque carregado, fazendo todos os meus pelos se eriçarem. Uma nuvem pesada se instalou a minha volta.
– Eu disse para não se movimentar, seu idiota. – eu o repreendi me virando para encará-lo. Isso foi um erro porque no segundo seguinte minha nuca foi puxada e meus lábios se moviam lentamente em sincronia com os seus. Eu me deleitei com a sensação do seu corpo quente se colando ao meu.
Nos separamos colando nossas testas, meus olhos permaneciam fechados, sentindo sua respiração quente bater no meu rosto.
– Eu sinto muito Roza, eu não vou mentir para você nunca mais. Eu prometo. – ele sussurrou sem se afastar um centímetro.
– O que mais dói é saber que eu confiava em você, para no final você fazer o que todos os outros faziam. – disse com sinceridade. Eu já não estava brava ou com raiva, eu estava chateada.
– Eu sou um idiota por ter mentido, e principalmente um covarde. Mas eu vou reconquistar sua confiança novamente Roza, nem que seja a última coisa que eu faça. – eu acenei buscando seus lábios mais uma vez. Não havia pressa ou aquele fogo acumulado que sempre estava presente nos nossos beijos, era apenas uma forma de demostrar conforto e amor.
...
Durante à tarde do outro dia enquanto eu trocava o curativo do Dimitri, Ivan entrou correndo na tenda.
– O mensageiro voltou. – eu acabei de amarrar a bandagem e me virei para Ivan com expectativa.
– Que mensagem ele trouxe? – Dimitri perguntou se sentando.
– Nenhuma mensagem. – dois pares de olhos confusos o encararam. – Ele não trouxe mensagem, o próprio Victor está aqui para dar a mensagem.
– Ele está aqui no acampamento? – me levantei as pressas arrumando o vestido.
– Ele está a algumas poucas milhas de distancia com alguns guardas e pediu por uma reunião com os reis.
– Eu também estou indo. – disse decidida.
Meu pai como sempre tentou questionar que era melhor eu ficar em segurança no acampamento, mas eu o convenci do contrario facilmente. Ivan ajudou Dimitri a chegar até seu próprio cavalo e depois de reunirmos uma pequena guarda partimos ao encontro do rei da Rússia levando Russell conosco.
O local escolhido foi um campo aberto, para evitar qualquer armadilha. Victor era esperto.
Trombetas anunciaram nossa chegada quando paramos frente a frente, a uma distância de uns 15 metros. Victor estava acompanhado de pelo menos cinquenta homens, entre eles Sir Vanig.
– Nathan e Ibrahim, é sempre bom reencontrar velhos amigos. – Victor disse enquanto seus olhos verdes atentos vagavam entre nossa comitiva. Seus olhos brilharam ao parar em mim.
– Vamos resolver isso logo. – Abe disse com a voz firme, fazendo Victor voltar o olhar para ele. – Creio que já saiba por que o comunicamos.
– Sim, eu sei. E precisei vir ver com meus próprios olhos.
– Robert. – Nathan chamou. O homem avançou com seu cavalo se fazendo a mostra. Victor arregalou os olhos.
– Isso é algo que eu não esperei ver um dia. – Victor disse, olhando minuciosamente o irmão.
– Ele é o tio Robert, não há como negar. Isso prova que o rei Nathan não o matou, não há tentativa de roubar a sua coroa. – Dimitri disse com sua voz grossa retumbando pelo campo.
– Você me decepciona meu filho. – Victor disse. – Seu tio não morreu, mas por sorte. A tentativa apenas falhou.
– Eu nunca tentei mata-lo. – Nathan gritou. As coisas não estavam seguindo um bom caminho.
– Robert, meu irmão, esclareça-nos. – o pobre Russell parecia perdido em meio a tantos cavaleiros.
– Ele não se lembra de nada do seu passado. – eu falei. Eu tinha prometido não falar nada como condição para vir. Mas minha boca não pensa junto ao meu cérebro. – você não vê, Victor, que os reis do oeste querem a paz. Não há tentativa nenhuma de roubar a sua coroa. Até mesmo porque seu irmão Robert é o verdadeiro herdeiro.
– Rosemarie, eu vejo que descobriu a verdade finalmente. Quem foi o responsável por tirá-la dessa teia de mentirosos? – meu pai me lançou um olhar culpado, enquanto Nathan parecia com raiva por eu ter aberto minha boca.
– Esse não é o foco da conversa Victor. – Dimitri o interrompeu, reestabelecendo a ordem.
– Vocês querem um acordo de paz? – Victor riu. – Eu devo admitir que esse tal Russell que me apresentam é mesmo meu irmão Robert, eu o reconheço melhor que qualquer um de vocês. Mas não há provas concretas de que não houve um atentado e eu sei que Nathan incentiva um casamento apenas para tomar posse das terras de Teremur, as próximas serão as minhas, e isso eu não vou permitir.
– Rei Victor, acabe com essa guerra. – Russell pediu, nunca perdendo sua humildade. Mal tinha noção de que era ele quem deveria reinar e não devia respeito a ninguém.
– Meu irmão, estou apenas vingando a honra da nossa família. Não é mais uma questão que envolve a sua falsa morte. Eu quero poder e quero ver todos se ajoelharam diante de mim. Ajude-me a restaurar a nossa honra. – todos ficaram em silêncio esperando pela resposta do senhor vestindo trajes simples.
– Me disseram que eu sou o herdeiro, eu quero assumir meu lugar como rei. – alguns homens inalaram a respiração. – Mas apenas para por um fim a essa guerra, vingança e ambição não nos levará a nada meu irmão. – Russell fez um discurso digno do rei que era. Victor enrugou o nariz.
– Leve seu irmão e vamos acabar com isso agora. – Dimitri disse já perdendo a paciência com o pai.
– Eu sugiro, meu filho, que não deixe seu coração te guiar para Teremur, essa mulher será sua ruína. – Ele sabia sobre nós, é claro que com tantos espiões ele deveria saber. Eu arregalei meus olhos me sentindo doente enquanto Dimitri segurou com força suas rédeas, nunca desviando os olhos do seu pai.
– Você não sabe nada sobre isso. – Dimitri rosnou.
– Eu sei que eu não quero meu único herdeiro morto, mas se você insistir em ficar contra mim...Eu vou passar por cima de qualquer um. – então ele olhou para Russell. – Eu já superei sua morte meu irmão, e faço isso apenas pelo bem da nossa família. Não posso deixar você estragar meus planos.
Tudo aconteceu em um piscar de olhos. Victor virou o cavalo dando por fim a discussão, com um sinal vindo dele o arqueiro acertou Russell com uma flecha bem no peito, ele caiu do cavalo gemendo de dor.
Todos congelaram com a reação inesperada. Eu tinha subestimado a maldade do rei da Rússia. E meu coração dizia que essa era apenas uma das poucas tragédias que estavam por vir.
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