A Guerra Bestial
2 O Excelente Guardião
Notas iniciais
Eu via claramente. Gajeel estava andando por uma trilha de terra entre as montanhas onde se cultiva arroz. Lily não o acompanhava como de costume. Ainda tinha no corpo a armadura antiácido, mas o peso gigantesco não parecia incomodá-lo. Alguns camponeses o olharam de soslaio enquanto trabalhavam na colheita.
De repente, da água, eles surgem. São inúmeros e o atacam. Ninguém mais parece conseguir vê-los. Todos são muito azuis e têm os dentes serrilhados, horrendos, loucos para pegar um pedaço de carne. Têm uma letra F estampada na testa, em vermelho. Estão o atacando, e o mordendo, e ele tenta afastá-los, transforma seu corpo em ferro sólido, mas tudo não passava de uma distração. Um mago corre de trás do pequeno bosque, e consegue jogá-lo no chão, tem algo nas mãos, algo que consegue machucar Gajeel, não tenho certeza do que é, mas ele grita, ele grita tanto.
– Levy!
Desperto do devaneio, com todos aqueles magos me encarando, esperando a resposta de uma pergunta que nem sequer ouvi.
– Sim? – pergunto, virando a cabeça de um lado para outro, confusa.
– Sabemos que está preocupada com o paradeiro de Gajeel, mas precisamos saber se ele lhe forneceu alguma dica de para onde ia e porque ia.
Makarov está com todo o seu ar pomposo de mestre, de quem sabe muito e sabe que sabe. Não posso negar, ele é bom em ser mestre, principalmente agora, com a guerra. Antecede os passos do inimigo muitas vezes, bolando estratégias magnificamente funcionais. Além de tudo, ele é como o pai de todos nós, que estamos na Fairy Tail desde crianças.
– Mestre, insisto em dizer que eu não sei de absolutamente nada! – Faço grande esforço para soar convincente, e não como alguém que furtou uma lácrima de comunicação da sala principal. – Como eu poderia fazer qualquer contato com ele sendo que estava isolada no porão? – levanto as sobrancelhas para enfatizar o quanto aquilo parece improvável.
Ele sabe que eu roubei a lácrima. E ele sabe que eu sei que ele sabe que eu roubei a lácrima. Todavia, ele acena com a cabeça e prossegue em seu discurso.
– Sei disso, Levy. – E como sabe. — No entanto, ele pode ter dado alguma informação antes de ir para A Cidade das Bestas. Pense. – Makarov dizia tudo enquanto brincava com alguns palitos de dente, empilhando-os cuidadosamente sobre o balcão do bar. – Até mesmo o menor dos detalhes pode ser útil.
Estou prestes a responder, mas Bixlow me interrompe.
– Não é óbvio para onde ele está indo?
Qualquer pessoa no perímetro que nos circula vira a cabeça em sua direção. O Mestre faz uma pergunta muda, com os olhos. Os outros observam atentamente. Bixlow joga os braços para o alto, como não acreditando na falta de raciocínio de todos.
– Ele está voltando para cá! – Ele percebe a troca de olhares confusos entre nós, e esclarece mais um pouco. – Para Levy!
Sinto o sangue esquentando minha face.
– Não seja tolo – digo, tentando disfarçar o constrangimento -, ele obviamente deve ter outro motivo.
Não posso ver os olhos de Bixlow através de seu elmo, mas sua aura é tão acusadora que sinto vontade de me enterrar no chão.
– Faz sentido. – diz o Mestre – Ele deve saber que estamos escolhendo um protetor para você, quer se candidatar.
Imediatamente penso que estou num daqueles países do norte, onde as filhas dos grandes proprietários valem tesouros milionários e há toda sorte de pretendentes a seu dispor. Fico com raiva. Eu não sou, afinal, nenhuma porcariazinha de camponesa filhinha de papai. Aí penso em Lucy, e sinto certa culpa.
– Bom — começa Makarov –, não existe nada que possamos fazer por ele. Mandar alguém a seu encontro está fora de questão. Chegar aqui ileso vai ser uma grande prova de que ele é capaz de cuidar de Levy, no mínimo.
Agora eu estou com raiva do mestre. De todos que pensam o mesmo, aliás. É claro, tudo gira em torno de mim e da minha culpa nisso e blá blá blá. Mas não conseguem ver? Apesar no meu egoísmo inconsciente Gajeel está tentando salvar a todos! Ele não se importa só comigo. Ele sabe que se for me proteger, a atenção estará focada nele, em nós, e não em nossos companheiros, na guilda, nos aliados. Por trás da máscara carrancuda e orgulhosa, Gajeel só quer ajudar.
– Já que resolveram o assunto, estou voltando para a minha cripta. – digo e levanto-me da cadeira, pegando uma bandeja de batatas assadas com queijo e um copo de água do balcão. – Se precisarem de alguém para pagamento de sequestro, estou aqui. – viro-me e faço um biquinho com os lábios, completando – Beijinhos aos senhores.
Mirajane ri graciosamente. Os outros não.
Bom, eu não podia esperar mais. Meu recente adquirido sarcasmo não vinha sendo bem recebido pelas pessoas. Á meu ver, todas hipócritas, a verdade é que queriam me matar e pronto, a guerra teria fim. Sem mim, os magos negros não tem como reviver Zeref. Simples, simples.
Caminho até o porão, descendo as tortuosas escadas, sendo fechada pelas paredes úmidas de pedra, sentindo o ar ficar mais pesado. Abro a porta do meu pequeno cômodo e menos de três segundos depois de fechá-la, alguém está a trancando. Coloco a comida sobre a mesa de canto e me dirijo a cama. Observo-a com todo o carinho de uma mãe, e me jogo.
Há algo de maravilhoso em se jogar numa cama, esticar os braços, sentir os lençóis frios, contrapor o rosto com o travesseiro, o próprio cheiro lhe envolvendo o corpo, a coluna se ajustando ao alívio de deitar. Algumas vezes imagino se não posso ficar assim para sempre, nesse estado de pré-sono, entre dormir e acordar, apenas sentindo. Hoje é um bom dia para testar essa possibilidade. Nunca vou conseguir dormir sabendo que Gajeel foi burro o bastante para sair no meio da noite, embebedando Elfman na vigília e não levando Lily consigo. O que se passava na cabeça daquele idiota?
Penso na Cidade das Bestas, onde a guerra está acontecendo. Antes era um lugar muito charmoso, tinha algumas lojas de suvenires de Fiore, vasos feitos a mão, muitos campos floridos e sua população era ou de agricultores ou artesãos, pouquíssimos magos. A cidade tinha até mesmo outro nome, algo como Viareggio. Havia lá uma pequena guilda, Unicorn Blood. Seus magos foram extremamente amigos, muitos nos ajudaram a matar as bestas no início, muitos morreram no início também.
Tudo começou em outubro. Chegou uma mensagem na Fairy Tail, pedindo um trabalho coletivo nas imediações da cidade e o time de Natsu foi o escolhido. Quando voltaram Lucy estava em coma induzido e Natsu parecia prestes a matar alguém. Lembro-me de cada explicação inicial sobre as bestas, sua feiura e feitos, de como eram imensas e cruéis e se recompunham mesmo quando queimadas. Em pouco tempo a cidade não tinha mais campos floridos nem agricultores alegres. Só terra queimada, barricadas e valas coletivas. Acontece.
Adentrando o espaço da tortura psicológica, começo a imaginar como estaríamos se eu não tivesse aberto aquele livro, se eu não tivesse queimado ele, se eu não tivesse dado meu nome ao vendedor. Será que eu estaria na piscina com as meninas? Num trabalho ao lado de Gajeel? Lendo com Lucy? Estaríamos planejando viagens de Natal? Mas meus olhos começam a pesar, e minha cabeça a doer, então me desligo de tudo.
–
– Mas por que exatamente isso tem que ser feito do telhado?
– Polyursca disse que precisa ser feito em espaço aberto, então faremos em espaço aberto. Você pergunta coisas de mais, caramba!
Estou no centro de um círculo feito de rosas negras e brancas, e um líquido vermelho aparentando ser sangue – espero que animal. Ainda penso na questão do telhado. Estavam lutando tanto para me protegerem e agora me colocam na parte mais exposta da guilda.
– Qual a finalidade do ritual mesmo? Só para saber. – digo, e Polyursca se levanta abruptamente do canto onde estava arrumando o círculo de rosas. Rodeando-me sombriamente, vislumbro em sua mão um anel branco translúcido.
– Sua proteção. E logo, a de seu guardião. Este anel – Ela ergue a joia para mostrar – lhe dará uma habilidade especial enquanto usá-lo. Contudo, ele é extremamente frágil e seu encantamento dura apenas o ciclo de uma lua, praticamente um mês. Temos até seis de dezembro para descobrir um novo modo de disfarce, mas por enquanto isso deve bastar.
Impressionada, arregalo um pouco os olhos. Os companheiros a minha volta discutem calorosamente como eu ficaria linda de cabelo vermelho, roxo, com pele azul de bolinhas amarelas. Enfim, era a Fairy Tail, não havia grandes expectativas de comportamento adequado.
– O ritual está quase pronto, só preciso terminar de escrever os cânticos na pedra – disse Polyursca, enquanto transcrevia numa bela caligrafia as palavras de um livro dourado.
De tirando um cochilo na cama para virando um transmorfo em menos de uma hora. As coisas estão acontecendo rápido demais para o meu gosto, mas quais são os meus direitos em reclamar?
– Pronto, McGarden. Sente-se aí mesmo.
Obedeci a ordem, observando ao mesmo tempo os movimentos de Polyursca. Primeiramente ela derramou, de um minúsculo frasco, um líquido lindo, brilhante e dourado. Depois, Mirajane se aproximou, realizou o takeover e fez uma pequena perfuração no dedo, e derramou seu sangue sobre o círculo. Agora, ambas se ajoelham perante mim, Mira em silêncio, Polyursca recitando algo em samsames. Tenho certeza de estar nervosa, pois o gelo em minha barriga aumenta a cada segundo.
De repente, chamas se erguem das rosas, assusto-me. Makarov, um pouco distante da roda, faz um gesto para eu me acalmar. Novamente, obedeço. As coisas começam a ficar estranhas, meu corpo fica mais e mais frio, há luzes de todas as cores piscando em meus olhos, são pequenos pontinhos, vermelhos, amarelos, verdes, estou cegada por eles. Não consigo mover meu braço. Não consigo mover nada. Okay, talvez seja uma boa hora para entrar em pânico. Mas sei eu não posso colocar tudo a perder num momento tão crítico. Respire, Levy, respire. O zumbido que surge, incomoda meus ouvidos. Então sinto minhas entranhas começarem a queimar e grito.
SILÊNCIO.
O que foi isso? Alguém...Alguém gritou dentro da minha cabeça?
É a pior sensação do mundo, estão arrancando minhas tripas para fora, ou pelo menos é o que sinto. E todas essas luzes? Desjo me mover.
– Polyursca...
SILÊNCIO.
Deus, que voz é essa na minha cabeça? É tão pesada. Tremo. Vou desmaiar, isso queima demais. O céu está girando? Mas o que é que está...
Caio para trás. As chamas cessam imediatamente, e sinto meu corpo tremer de forma incontrolável. Tento de todas as maneiras manter os dentes cerrados para não morder a língua. Polyursca se aproxima, ela coloca algo em minha mão, é gelado.
– Levy, abra os olhos. – Só então me dou conta de que estes estão fechados – Abra, agora.
Abro e vejo rostos assustados. Há alguma coisa errada comigo, com meu corpo.
Parei de tremer, meus olhos voltaram ao normal, e a minha temperatura também. Passo a mão pelos cabelos e o percebo comprido, há algo de estranho na forma da minha boca e no modo como minhas sobrancelhas não se arqueiam muito. Olho para baixo e vejo um par gigante de seios.
– Mirajane? – indaga Macao, impressionado. Mira, a minha frente, parece estática.
– Ótimo, o anel está funcionando. –comenta Polyursca, enquanto estou ocupada demais ficando assustada. Onde está a porcaria do meu corpo? – É natural que a primeira transformação seja uma das pessoas que deu sangue no ritual.
Encaro-a perplexa.
–Natural? – meu tom de voz começa a se elevar – Onde está o natural nisso aqui? Cadê meu corpo?
Levanto-me, enraivecida. Polyursca, no entanto, parece indiferente, como se a situação fosse cotidiana. Bem, talvez a ela.
– Pense nele, e o terá de volta.
Paro e pisco os olhos. O quê?
– É só pensar nele. Vamos, concentre-se. – ela repete.
Olho de soslaio para Polyursca e depois encaro o Mestre. Inspiro. Penso, então, no meu corpo: os seios pequenos, a estatura pequena, os cabelos curtos e azulados, os olhos amendoados, a boca menor. Aos poucos, vou sentindo uma queimação incômoda no estômago, mas não tão intensa como a que senti durante o ritual. Vejo minhas mãos mudarem, diminuírem, adquirirem um tom de pele mais forte. Logo, meu corpo está normal novamente e solto o ar, aliviada.
Macao solta uma exclamação.
– Isso é incrível!
Concordo em silêncio e acabo rindo um pouco, já que, sabe, eu não morri.
O chão sob mim está quente e percebo como o sol está lindo, prestes a se pôr, as nuvens rosadas e lilases junto do laranja. Quero ficar mais um pouco, mesmo sendo perigoso, há algo naquela paisagem que atrai meu olhar e a quentura na minha pele é reconfortante.
Aproximo-me do Mestre e lhe pergunto do jeito mais infantil possível, enrolando o cabelo num dedo e mexendo um pé de lá para cá.
– Mestre, posso ficar só mais um pouquinho aqui em cima?
Ele me analisa de cima a baixo.
– Levy...
E sei o que ele vai dizer: Não, não pode. Já corremos riscos demais por hoje e etc. Então sinto minha face relaxar na expressão neutra de sempre e me viro, porque não sei se realmente quero ouvir tudo aquilo.
– Pode sim.
Ouvi direito? Viro imediatamente, surpresa.
– Está falando sério?
– Cinco minutos. Mira vai ficar com você, ela precisa de uma folga do trabalho.
Makarov sai em seus passinhos curtos pelo alçapão, não consigo conter meu sorriso. Mira nem mesmo espera gratidão de minha parte, o que é bom, pois eu me esqueço de qualquer boa maneira e a deixo num canto, indo direto para o parapeito e me debruçando para ver as montanhas engolindo o Sol, a cidade acendendo suas luzes de natal.
Meus cotovelos vão ficar doloridos de estarem apoiados na pedra, e comprimo tanto meu peito contra o apoio que vou acabar ficando sem ar, mas eu não ligo. Posso ter cinco minutos ao sol, cinco minutos de paz.
Vejo Mira, no canto oposto, olhando a estrada Del Leste, onde as macieiras carregadas enfeitam a paisagem. Todavia, acho que a paz nunca acompanha quem está em guerra, ou quem tem culpa. E eu estou em guerra, e sinto culpa. Claro que começo, logo, a cutucar as feridas do passado mais recente, minha mente se embaralha.
Mas num lapso, percebendo que em alguns segundos o sol desaparecerá, olho diretamente para o chão, e vejo, não sei como, Lily. Preto e com a cicatriz, voando na sua forma em miniatura na multidão. Devido a feira local, há centenas de pessoas na rua, no entanto meus olhos já sabem o que procurar. Debruço-me mais e mais no parapeito, até que o avisto.
Meu Deus, ele é tão lindo. Está com o cabelo negro ainda mais comprido, os olhos aguçados, atento e com o passo firme de um guerreiro. A mochila pesada nas costas nem parece incomodá-lo. Mal raciocinando, faço nosso sinal de sempre, quando ele está a minha procura. É algo extremamente besta, e se ele não estiver especificamente esperando por isso, não vai nem prestar atenção, entretanto eu preciso fazer. Sussurro seu nome. Gajeel.
Num milésimo de segundo ele está olhando diretamente para mim. Seus ombros caem um pouco. Há tanto dentro dele, naqueles olhos, nos seus gestos.
Escrevo “wings” rapidamente com a solid script, colocando as palavras grudadas as minhas costas e me atiro do telhado. Mirajane, desapercebida, grita, mas já é tarde. Estou voando os 54,7 metros que nos separam e quando pouso, assustando as pessoas a nossa volta, ele está olhando perplexo para mim.
– Você é burra?
Rio, desacreditada de ele ter me ouvido. Ele estava me procurando.
Pulo sobre ele, agarrando seu pescoço, ficando com os pés no ar. Gajeel rapidamente me segura pela cintura e afunda seu rosto nos meus cabelos, dizendo baixinho:
– Porra Levy, eu me borrei aqui.
– Poupe seu linguajar, idiota. – digo, a voz embargada, enquanto afago seus cabelos.
Estou tão feliz em vê-lo inteiro. Lembro quando estávamos lutando, aqui nessa mesma rua, contra magos enviados por Fagus, e o vi caído na escada de uma loja, ninguém prestando atenção a ele. Eu estava tão assustada, todos ao me verem queriam batalhar diretamente comigo, e eu o vi, e pensei “Está morto”, e foi quando atravessei o peito de alguém com a palavra “stake” e corri. Gajeel estava inconsciente, e eu gritei por Wendy, mas ela já estava ocupada com a perna de Bisca. Foi horrível. Posteriormente Wendy chegou, e eu já havia conseguido acordá-lo, mas ele estava cuspindo sangue. Tinham-no envenenado.
– Tampinha, você está me estrangulando.
– Ah, — falo, percebendo o quão forte meus braços o agarram. – desculpe. – Solto-me dele, envergonhada.
– Nem parece que há dois meses você me acertou com um martelo. – Gajeel sorria, sarcástico, mas feliz. Suas mãos bagunçaram meu cabelo, e eu nem reclamei.
– Não se acostume com a simpatia. – digo, e viro de costas para ele, apenas no intuito de ver os cinco membros da Fairy Tail com caras supersimpáticas e de contentamento absoluto correndo na nossa direção. Rimos muito, eu apanhei. Não, calma, eles não podem me bater. Podem?
Olho de soslaio para Gajeel e seu rosto parece um pouco pálido. Acho que ele não estava com muitos créditos com o pessoal, também.
– Muito bem. Parece que o maldito finalmente chegou. Vamos para a guilda. Agora. – O Mestre não tinha um rosto exatamente feliz e seu tom de voz indicava claramente uma ordem.
Andamos em passos largos para o aústero prédio, passamos pelos portões e sentamos na mesa mais afastada das janelas, eu no canto encostado na parede, e de alguma forma, mesmo sendo o último, Gajeel sentou-se ao meu lado. Trocamos olhares cumplices rapidamente e aguardamos a bronca.
Mirajane, com os cabelos brancos um pouco desarrumados, tem as bochechas coradas e está um pouco ofegante, fita-me com o que eu considero um tiquinho de raiva misturada com preocupação e o amor, que ela sempre, sempre exala.
Bixlow, ao lado dela, não parece nem um pouco surpreso e tem um sorriso do tipo “eu avisei” no rosto. Makarov, sentado sobre a mesa, o semblante sério, nos fita de cima. Macao parece aflito e Cana tem um copo de cerveja na mão. Freed preferiu ficar encostado na parede e está com os olhos fechados.
Esperamos pacientemente as repreensões.
– Escutem, — e começou – eu não vou dar bronca, nem punir ninguém. – Espera aí, o quê? – Vou poupar minha saliva e confiar que nenhum dos dois vai repetir as besteiras que já cometeram até aqui. – Seus olhos vão de mim a Gajeel, firmes e apreensivos. – Ninguém vai sair correndo do campo de batalha como uma galinha covarde, nem pular de um prédio para encontrar o namoradinho, nem ler um livro com o título “Zeref, O Poder Negro Despertado”. – Gajeel abre a boca para se defender, claramente odiando ser chamado de galinha, mas a postura do Mestre o cala de imediato. Quanto a mim, permaneço quieta, fingindo absorver os incríveis conselhos e sem nem ficar vermelha ou me opor a palavra pejorativa “namoradinho”.
– Em minha opinião deveria haver uma punição sim – diz Freed, desencostando da parede e caminhando ao redor da mesa – que tal dar um problema de matemática para o Gajeel resolver? Um bem difícil, como: “Quanto é dois mais dois?”.
– Está me chamando de burro? – Gajeel levanta abruptamente e encara o mago de runas.
– Está perguntando porque ficou muito difícil de interpretar? – rebate Freed.
Bixlow dá uma risadinha e o Mestre se irrita, dando um soco na mesa, a qual por pouco não quebra.
– Calem a boca! Gajeel, sente-se. – A ordem é obedecida. – Escutem, é nas horas mais difíceis que precisamos nos unir. É quando nossos amigos erram que precisamos enaltecer seus acertos. É quando estamos no quarto escuro que precisamos nos ater a lembrança do sol. Parem de brigar, somos todos amigos aqui, irmãos, companheiros. Não precisamos dessa ladainha estúpida.
Os garotos ficam envergonhados, olhando para o chão, assentindo para as palavras. Makarov solta um longo suspiro.
– Bem, agora que estamos entendidos, vamos começar nossa pequena reunião. Gajeel, por que veio para cá sem aviso prévio, sem companhia e sem proteção alguma?
Sinto de onde estou que Bixlow revira os olhos.
– Eu ouvir algo sobre Levy ter um protetor e eu quero ser a pessoa para o serviço. Eu também não estava lidando muito bem com as Bestas. – Ele aparenta estar envergonhado por isso.
– Pleo jeito ninguém está. – diz o Mestre, respirando forte e passando a mão pelo rosto num claro sinal de cansaço. – Mas diga, o que te faz pensar ser melhor do que todos? Os outros escalados para guardião tem poderes bem superiores aos seus, Gajeel.
– É por isso mesmo.
Todos se entreolham, intrigados, inclusive eu. Achei que ele apenas iria falar por que todos os outros não prestavam para o serviço.
– Veja, atualmente as forças do inimigo estão focadas em nos reduzir em número, por isso mandam batalhões inteiros para a Cidade das Bestas, mas apenas periodicamente mandam alguém atrás de Levy. Se colocarem alguém como Erza para cuidar de Levy, estarão dando justamente o que inimigo quer: uma frente enfraquecida. Agora, eu também não sou tão fraco assim, desde que ingeri a sombra de Rogue eu venho ficando mais forte, e consegui provar isso muitas vezes, Mestre. Além disso, vocês estão tratando Levy como uma garotinha indefesa, sendo que ela já foi escolhida para prestar o exame de Classe S, no qual, aliás, eu fui sua dupla. Estão esquecendo o quanto ela é poderosa. As duas vezes em que foi capturada, imobilizaram suas mãos e dedos rápidos demais, mas ela está trabalhando numa magia que vai desvalorizar esse tipo de prisão. – Ele dá uma pausa para me olhar e depois foca-se diretamente em Makarov, pronto para a fala final. – Sabemos trabalhar em equipe, somos amigos, somos fortes juntos.
Por um instante o silêncio reina. Não me lembro de Gajeel ter falado tanto em qualquer ocasião que fosse.
– Convenceu.
Esse velho está bondoso demais para o meu gosto. Os outros parecem ter percebido também, mas ficaram quietos. Makarov se levanta e salta da mesa para o chão, indo em direção ao seu escritório.
– É só isso? – indaga Gajeel.
– É. – responde o Mestre, ríspido. – Agora vou falar com Polyursca, você tem que ganhar seu anel também.
– Meu anel?
–
Quando adiaram o ritual de Gajeel para o dia seguinte, eu não podia ter ficado mais feliz. Eu teria tempo de dar umas boas broncas nele, e de fazê-lo arrumar as malas, e tudo o mais. Bem, não estamos exatamente fazendo isso, mas estamos quase lá, a próxima etapa com certeza será produtiva.
– Mais. Não tanto. Aí, aí. Para. Para! – Gajeel me olha de canto. – O que foi? Se colocar tanto chocolate o bolo vai virar um brownie!
– Mulher, você não controla minha cozinha, saia daqui.
– Sair daqui para onde? Não se você percebeu mas não tem muito espaço na sua casa.
– Se não gostou vá buscar abrigo no puteiro do Dragneel.
– Gajeel!
– Ah, verdade. Você é amiga da Lucy. Quer saber? – ele pergunta, apontando a colher cheia de chocolate na minha direção. – Foda-se. Ela me irrita.
Bufo, irritada. É a décima vez que Gajeel xinga alguém desde que eu entrei na cozinha dele. Esse cara tem sérios problemas com culinária.
Estou encostada no balcão, com o rosto sujo de farinha, segurando uma caixa de parafusos, que Gajeel queria colocar no bolo, até lembra-lo de que não como ferro. A casa de Gajeel é pequena. Na verdade, minúscula. Ele mal cabe aqui dentro com Lily, imagine eu. É bem simples, mas também aconchegante.
Há um sofá vermelho na sala, com uma bancada na frente, onde está um projetor e uma série de discos finos e prateados, que ficam coloridos dependendo da luz. Não faço ideia do que sejam, mas são bem bonitos. A parede à frente do sofá é branca, e um pouco ao lado está uma estante de ferro repleta de pequenas caixas e um grande baú na parte de baixo, algumas das caixas com peças de metal e outras com alguns discos gigantes e pretos. Em cima há uma máquina estranha, com a parte de cima de uma trompa e a parte inferior de uma caixa vermelha.
Na parede da esquerda existem uma janela e uma cama, e na atrás de mim, está a cozinha e mais ao canto há uma pequena porta que dá para o banheiro. Na parede direta apenas a porta e mais uma janela, embaixo dela está um pequeno móvel com a foto de Gajeel e Lily nas montanhas e as chaves da casa, com um pequeno lembrete para comprar mais peixe.
Podia ser pequena, todavia era muito aconchegante.
Ouço Gajeel respirar alto e viro-me para ele. Ao constatar a cara toda suja com chocolate, rio. Ele passa o bíceps definido pelo rosto, numa tentativa de não sujar ainda mais a cara com as mãos e se apoia na bancada.
– Acabaram os ovos.
– Deixe que eu termine isso. Vá tomar banho. – Digo, empurrando com os quadris.
– Tá. Só não queime minha casa.
Reviro os olhos e o observo por um instante abrindo o baú sob a estante e escolhendo algumas roupas, então percebo a porcaria que é a vida.
– Gajeel...
– Sim?
– Por acaso – Era uma pergunta estúpida, mas uma pergunta necessária. – você tem roupas femininas aí nesse seu baú? – sorrio amarelo para ele.
– Tenho cara de travesti ou o quê? – ele questiona, incrédulo.
– Desde o incêndio eu não tenho roupas, estou usando as da Wendy e me esqueci de pegar mais.
Vejo a cara que ele faz, a direção de seu olhar diretamente no meu busto, sua risada escrachada lutando para sair, ele colocando a mão na frente da boca e tentando parecer sério.
– Claro. Vou ver – pausa para limpar a garganta, ou seja, disfarçar o riso – o que posso fazer.
– O que é tão engraçado? – Ele apenas me encara, com as mãos na frente na boca. – Fala logo!
– Seus... Seus peitos.
Minha cabeça está imediatamente virada para baixo, checando se eles estavam onde deveriam estar, se a blusa era transparente, se eles tinham magicamente saltado para fora. Mas tudo parecia estar certo.
– O que tem? – pergunto alarmada, tampando o busto com as mãos.
– Cabem nas roupas da Wendy. – Então ele ri abertamente, sentando no chão ao lado do baú.
Começo a ficar vermelha, e não é de vergonha. Solto um belo palavrão sujo em sua direção e vou até lá chutá-lo.
– Espancar alguém não vai fazer seus peitos crescerem. – diz Gajeel, rindo.
– Cale a boca, tarado. Vá tomar banho!
– Eu só seria tarado se eu estivesse encarando os seus seios, mas eles claramente não estão aí.
Faço uma prece a Deus que cale a boca dele e volto para a cozinha. Gajeel vai até o banheiro ainda rindo. Quando ele fecha a porta, sinto-me em paz.
Eu nunca tinha vindo a casa de Gajeel, é bem interessante. Eu vou dormir no sofá (Gajeel foi bem claro na parte de : “ A cama é minha e quem dorme nela sou eu. A casa é minha e quem manda nela sou eu. Sacou, tampinha?”), e provavelmente terei de me contentar em dormir com uma blusa gigante e um short maior ainda de Gajeel, também provavelmente comerei bolo de chocolate queimado hoje e amanhã, porque é o que dava pra fazer com os suprimentos do armário. E o leite acabou, para piorar a situação.
Continuo calmamente preparando o bolo e marco no relógio o tempo de forno. Deito no sofá para esperar que ele asse, fico apenas encarando o teto, os discos prateados, a estante e pensando na vista lá fora, da praia, pois estou com preguiça demais para levantar e dar uma olhada por mim mesma.
Passaram-se quinze minutos. O bolo ainda não estava pronto e nem Gajeel tinha saído do banho. Será que ele passava xampu duas vezes para manter o cabelo sedoso e macio? Aposto que sim, o cabelo dele é mais bonito do que de todas as meninas na guilda. Devo pedir uns conselhos para ele depois.
Mais dez minutos se passaram e nada de Gajeel nem de bolo. Estou deitada de ponta cabeça no sofá, observando as coisas de um ângulo diferente até que ele surge de trás.
– E aí, tampinha, o bolo está pronto?
Olho na direção da voz, mas não consigo vê-lo.
– Não, não está. Por que é que você demorou tanto no banho, em? – Passando cremes para o corpo, será?
– Nem te conto.
– Seu comportamento anda muito homossexual, Gajeel. – Sinto seus olhos me perfurando mesmo não conseguindo vê-lo. Ele sussurra algo sobre me mostrar quem é homossexual e com certeza um insulto relativo à minha altura. Levanto-me, sentando no apoio do sofá e o observo só de cueca, secando o cabelo com a toalha. Francamente, eu estava despreparada para tal visão e fiquei meio atônita. No segundo seguinte ele percebe que estou o observando e dá seu típico sorriso de “achei uma situação em que posso tirar sarro da cara dela”.
– Pode olhar mais de perto, eu deixo.
– Ah, claro. Como se houvesse algo digno de ser olhado aí. – digo cética, mas não desviando o rosto de imediato. Foco na última cicatriz de Gajeel, próxima ao pescoço, não é muito grande, mas se tivesse acertado a carótida ele estaria morto. Ao lado dela, no entanto, próxima as costas, há outra cicatriz menor, esquisita. Ela está mais para uma queimadura do que qualquer outra coisa.
Eu ouvi alguma coisa sobre as bestas soltarem ácido, mas não imaginei que fosse ácido que pudesse corroer ferro. Imagino se ele não se importa com esse tipo de coisa, eu particularmente odeio a única cicatriz que tenho, bem na ponta do queixo, tão na linha do rosto que não é possível vê-la de um ângulo normal.
– É, eu devo ser muito feio mesmo. – Quando me dou conta Gajeel está a quatro centímetros e nove milímetros de distância, encarando-me inexpressivo, sem sorriso ou sobrancelhas franzidas, apenas encarando. Não consigo evitar prender a respiração, sei que ele vai senti-la se eu expirar agora.
Não sei exatamente o que fazer, olho para o outro lado, mas quando retorno ele continua encarando, então apenas fecho a boca, retesando-a numa linha fina e o encaro de volta.
– Você não vai tomar banho? – ele pergunta.
Demoro um pouco para processar a pergunta, mas assinto e saio do sofá, dando as costas para ele.
– Preciso de roupas. – digo, um pouco baixo, colocando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.
Gajeel vai até o baú e revira suas roupas, pegando duas coisas lá no fundo, uma ele joga para mim e logo reconheço como uma camiseta. Algo está escrito, parece ser “Lord Zappelin” mas não me atenho aos detalhes. Ele examina a outra peça e parece confuso. É uma calça e ele a estende na minha direção, provavelmente imaginando se serve em mim, e eu sei dizer de longe que não, ela é grande e comprida cujo tecido aparenta maciez. Gajeel também percebe que esse não é meu tamanho, a dobra descuidadamente e a devolve ao baú, procurando por outra coisa. Volta com um short bem menor e vermelho, ele joga a peça para mim e a agarro no ar. Estranho o tamanho da peça e lhe questiono:
– O que um micro short como esse faz na sua casa Gajeel? – Tenho um sorriso malicioso no rosto. Ele me olha, estupefato e ri.
– Isso não é short, anã burra.
– O que é então? – digo, estendendo a roupa em sua direção.
– Minha cueca.
Cogito jogar a peça em sua cabeça. Cogito a possibilidade novamente.
– Aliás, é a minha favorita, cuide bem dela.
Estou com a minha cara de inconformação absoluta.
– O que você tem na cabeça – eu começo, a voz bem alta – para me dar essa porcaria suja pra vestir?
Ele abana as mãos no ar para me repreender.
– Ou, ou. Suja? Eu sou bem limpo, obrigada. E pode ficar agradecida, porque é isso ou pode dormir pelada. Eu não tenho culpa se seu apartamento pegou fogo.
– Claro que vou dormir pelada! Também vamos transar no sofá com um vibrador. O que mais você quer, seu depravado?
– O vibrador é desnecessário, eu dou conta do trabalho.
Gajeel deveria estar com seu sorriso de escárnio, mas ele na verdade está raivoso, o cenho franzido, o tom de voz mais grave. Estou tão irritada que nem me dou o trabalho de rir forçado, apenas grito com ele:
– Por que é que você tem falar tanta besteira? Caramba!
– Besteira? – Gajeel também está gritando – Foi você quem começou com a história do vibrador!
Trinco os dentes e fecho as mãos em punho. A irritação preenche meu rosto com sangue. Tenho raiva não só porque Gajeel me deu uma cueca para vestir ou me mandou dormir nua, mas porque ele está certo: eu comecei as besteiras. E o meu maior defeito é odiar estar errada.
Mordo o lábio inferior com força antes de dizer:
– Tá.
E adentro o banheiro, batendo a porta com força.
– Não quebre a porta, porra! – grita Gajeel. Respiro fundo uma vez e ajeito o cabelo.
Está tudo bem, eu digo a mim mesma. E é a mais pura verdade. Gajeel e eu vivemos brigando, meia hora depois está tudo certo. Temos gênios bem diferentes, mas continuamos sendo inseparáveis. Vai entender.
O banheiro de Gajeel é bem grande comparado ao tamanho da casa, tem uma banheira com chuveiro, a pia, e um vaso sanitário. Sob a pia há um armário e sobre ela está um espelho. Tem uma toalha sobre o vaso, dobrada. Pego-a e inspeciono, vendo se está suja ou não e percebo que Gajeel a deixou ali para mim. Começo a ver as roupas. Vou usar a mesma calcinha e sutiã, com a camisa e o “short” que ele me deu. Sei que minha noite vai ser horrível quando vejo que meu sutiã tem uma armação de arame e este está saindo do tecido.
É isso o que dá gastar o dinheiro das roupas com livros, Levy.
Deixo as roupas limpas sobre o vaso e jogo as sujas no chão. Ligo o chuveiro sem problemas e me preparo para entrar. Acho que vou me dar ao luxo do banho de quinze minutos, como Gajeel, meu corpo está exaurido.
Dez minutos depois eu começo a sentir um cheiro estranho. Penso um pouco e quase caio no banho: o bolo! Ainda não terminei de enxaguar o cabelo e tenho de gritar por Gajeel algumas vezes, mas ele não escuta. Mando ele desligar o forno, todavia não ouço nenhuma resposta. Não vendo outra alternativa, amarro a toalha no corpo e abro uma fresta da porta.
A criatura de quase dois metros que por acaso é meu guardião simplesmente dormiu, e pior: no sofá. Chamo por ele e, no entanto, continua dormindo. Abro mais a porta. Se ele não acordou ainda, não será agora. Ando sorrateiramente até o fogão, com medo de acordar Gajeel e dar a ele uma visão minha de toalha. Desligo o aparelho, de onde já estava saindo fumaça e me dou conta de que ficarei sem comer até amanhã, graças ao nosso desastre culinário.
Volto ao banho rapidamente, termino de me enxaguar, e visto a nova roupa. Dou uma olhada do espelho. A cueca acabou sendo coberta pela blusa gigante. Ambas são extremamente confortáveis, para meu desgostoso orgulho. Pego minhas roupas do chão e desembaraço os cabelos com os dedos.
Na sala, Gajeel ainda dorme no sofá, sorrio levemente com a visão. Excelente guardião esse aí. Dobro cuidadosamente meus trajes e os deixo sobre a mesa de centro da sala, no único e pequeno espaço não coberto por discos prateados.
Abro a boca num enorme bocejo. Se não há comida o que nos resta é dormir.
– Gajeel. – Tento novamente chamá-lo. – Vamos Gajeel, acorde. – Nem perto disso. – Você disse que eu ia dormir no sofá, saia daí. – Ele se move um pouco. – Gajeel, vá para sua cama. – Ouço um gemido vindo dele. – Como vai me proteger dormindo?
Com a cara enfiada numa almofada, ele murmura:
– Como vou te proteger cansado?
Inspiro. Devo me render a esse argumento?
– Okay. Mas vá para sua cama logo ou sou eu quem vai dormir lá.
– Pode ir.
– Sério? – pergunto.
– Sim. Só pare de encher o saco. – ele diz, e dá um chute de leve na minha perna.
– Como desejar, amabilíssimo Senhor. – digo, e solto um risinho.
Antes de me deitar fecho as janelas, verifico se a porta está trancada e ligo o ventilador no teto, apagando as luzes. Sento na cama, que é um pouco maior que uma de solteiro, mas menor que uma de casal, e observo o corpo de Gajeel no escuro, movendo-se lentamente devido a respiração. Sorrio. Sinto–me um pouco alegre, um milagre, levando em conta os últimos tempos. Se é para entrar numa guerra, ou no caso fugir de uma, prefiro que seja com Gajeel. Já fui meio apaixonada por ele, afinal.
Deito na confortável cama e me cubro. Contudo, apesar de todo o conforto, o arame em meu sutiã incomoda. Resolvo tirá-lo, por fim. Pelo jeito eu vou acordar antes de Gajeel. Lembro que meu guardião está dormindo e com a solid script escrevo “alarm”, se qualquer pessoa se aproximar da casa, um barulho infernal vai acordar nós dois.
Em paz, finalmente, fecho os olhos. Durmo pacificamente. Pelo menos, naquele momento.
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