A Gueixa de Moisés

1 A Gueixa de Moisés


Notas iniciais
Eu não tenho a intenção de ofender ninguém com a história. Se eu falei alguma besteira, por favor me avisem, não foi de propósito.

Ela era uma mancha negra no jardim. Tinha uma voz de porcelana, sempre quis cantar, Matheus revelava. Mas não podia, era incapaz, o médico proibira. Falava pouco, muito pouco.

Como se chama, Moisés quis saber. Todos a chamam de Gueixa, eu acho que combina, respondeu e sorriu. Depois o profeta imaginou a garota pálida vestida num quimono florido, uma coroa de sakura na cabeça. Linda, resmungou. Matheus surpreendeu-se: Como soube? Ela odeia esse nome.

Então, descobriu. A menina inteira de preto chamava-se Linda, parecia uma assombração, muda e introspectiva, os olhos baixos.

Trabalhava num escritório, estudava ainda. E falava pouco, o silêncio mudo intrigou Moisés. Nenhuma outra garota mais o interessava, mesmo que fosse mais bonita, mais gentil, mesmo as que a mãe ou o pastor apresentavam. Meninas de família, de Deus, garotas corretas. E lhe chamava a atenção a garota de negro, da cruz invertida, do quase voto de silêncio.

Ela tinha um irmão, o Matheus, que paciente e por muito pouco ensinava música ao profeta. Aliás, ele já gostara desse apelido, até pensou em deixar cabelo e barba crescerem. Profeta. Mas a família não aprovaria preferiu continuar cortando.

Aproximou-se da Gueixa. E ela realmente parecia uma gueixa, repondia-lhe baixo e polidamente, apenas o que ele perguntava. Linda, quase chamou, mas preferiu dizer só Gueixa.

Matheus não demorou a perceber o interesse do amigo pela irmã. E o ajudou. Se ela também o quisesse, seria bom que ficassem juntos, gostava do Profeta. E Moisés deixava de ir ao Sinai para encontrar a sua amada. Estava apaixonado.

Nunca soube se a Gueixa também o amava, mas ela mudou. Parecia mais amável e aceitou o pedido de namoro. E o Profeta sentia-se o eleito de Deus, coroado com o mais belo e suave dos anjos, mesmo sendo um anjo de saúde delicada, pequeno e frágil.

Foi num sábado. O pastor o chamou. Onde esteve no último mês? As meninas do grupo de jovens sentiram a sua falta. Moisés não era bonito mas poucas garotas não o quereriam.

Contou-lhe. Namorava a Gueixa, não a deixaria por nada. E no domingo a mãe dele quis conhecer a menina. E ela foi. Bateu de leve na porta, demoraram a ouvi-la. A vizinhança comentava da aparência satânica do anjo do Profeta. Mas Moisés não se incomodava. Também era raro para ele ver o pai sóbrio, conversando normalmente com todo o mundo, sendo gentil com a visita. A mãe e os irmãos estranharam muito o contraste entre o perfeito comportamento da moça e as roupas escuras. Mas era só uma questão de tempo. Almoçaram. Gueixa até sorriu. Era bom. O Profeta encontrara a felicidade. O inverno todo ele aproveitou a bênção de Deus, às vezes o pai sumia, mas só voltava sujo — nunca bêbado. Num domingo de outubro, chamou a moça para a casa dele. Iria pedir-lhe a mão, e seria um bom pai, um bom marido. Estavam todos empolgadíssimos, só o pai que não estava em casa. Matheus concordara previamente, mas na sexta foi obrigado a viajar, a Gueixa não quis acompanhá-lo: preferiu ficar com Moisés. À tarde, a caçula Sarinha desmaiou. Moisés saiu com a mãe para levá-la ao hospital. A mais velha ficou de olho nos outros três. Já era noite. O Profeta retornou com as duas do médico. Num canto da sala, os quatro irmãos abraçados chorando. No meio da sala, o pai com os olhos injetados da bebida, debruçado sobre e dentro do corpo imóvel da Gueixa, como um vampiro. Correu pra ela, empurrando o nosferatu para longe. Mas a sua Linda já estava morta. Sempre se achara capaz de matar ou morrer por ela. Mas, fitando a mãe e os irmãozinhos chorosos, não teve coragem de vingá-la ou unir-se a ela.
Notas finais
Vale review?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!