A Guardian's Diary 2 - The rise of Jack Nightmare
11 Capítulo 10 - Calmaria
Notas iniciais
O mundo era dourado e bonito, mas aos poucos o brilho mudou assim como as cores ao seu redor. Jack piscou uma ou duas vezes, aos poucos processando o que estava à sua frente. Ele se sentia quente e havia um peso confortável em cima de sua mão direita.
Ele tentou virar a cabeça para ver melhor, mas seu pescoço estava duro e dolorido, então ele deixou seus olhos fazerem o trabalho. E ele sorriu. O que pesava sobre sua mão era uma pata cinza-azulada e o calor ao seu lado vinha do Pooka descansando a cabeça na cama em que ele estava deitado.
Jack tomou o momento para repassar o que tinha acontecendo ele não sabia há quanto tempo atrás. Ele se lembrava de lutar contra Jack Nightmare e depois disso tudo o que lembrava era de alguns flashes. Ele tinha lutado contra os Guardiões, havia atacado eles e congelado Baby Tooth. Não, não Baby Tooth, Emma, sua irmãzinha. E então ele acordou totalmente, se sentindo incapaz de respirar com aquela mulher o segurando pelo pescoço.
A última coisa que Jack se lembrava era de envolver a mulher em gelo, então escuridão e finalmente cores. E aqui estava ele, são e salvo.
Ele tentou se mover, mas parou com um sibilo de dor, só para se lembrar dos cortes em sua barriga, que ele não podia ver no momento, já que estava com a coberta erguida até seu peito.
Os dedos em volta de sua mão se apertaram levemente e Jack voltou os olhos para o Pooka. Coelhão se moveu, suas orelhas tremendo e seu nariz se contorcendo levemente. Jack sorriu, observando enquanto seu namorado voltava para o mundo acordado, sentindo-se momentaneamente sem ar ao encarar aqueles olhos grandes e verdes.
“Jack...” Coelhão murmurou, a voz grave por falta de uso.
“Ei.” Jack disse, suavemente, como que se falar mais alto fosse errado. Ele sorriu torto para o Pooka. “Era pra você estar cuidando de mim? Porque eu acho que você acabou dormindo no meio do trabalho.”
Coelhão retribuiu o sorriso, balançando a cabeça, mas seus olhos continuaram sérios; não, não sérios, preocupados.
“Como está se sentindo?” Ele perguntou, se ajeitando ao lado da cama e do rapaz. Ele ergueu sua pata livre, afastando os cabelos brancos que caiam na testa de Jack.
“Um pouco dolorido... Mas eu estou bem...” Jack disse honestamente, se inclinando contra o toque da pata. Ele examinou o outro com os olhos, procurando qualquer ferimento no corpo felpudo do outro. “E você? Os outros Guardiões?” Seus olhos brilharam quando ele se lembrou de outra pessoa que ele tinha machucado. “Emma...?”
Coelhão sorriu, apontando para a mesinha ao lado da cama. Jack desviou os olhos o máximo que conseguia sem precisar virar a cabeça e sorriu com o que viu. Deitada em um travesseiro, estava a pequena fadinha, dormindo silenciosamente. Jack sentiu lágrimas ousando cair de seus olhos, mas não ligou para elas, feliz em ver sua irmã em segurança.
“Sua irmã, não é?” Coelhão perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
“Sim.” Jack assentiu. “Eu...” Ele respirou fundo, sua voz quebrando com o choro que ousava subir por sua garganta. “Eu sempre senti que tinha alguma coisa sobra a Baby Tooth, mas não sabia o que era. Quando penso de quando os Pesadelos atacaram o palácio da Denti, entre todas as fadinhas, foi ela que eu salvei...” Ele afastou as lágrimas de seus olhos antes que elas caíssem. “Pensar que eu congelei ela depois de--”
“Jack, não. Não foi você. Foi aquele demônio que fez essas coisas.” Coelhão disse rapidamente, apertando seus dedos em volta dos de Jack. “Ela que raptou as crianças e tentou machucar a fadinha.”
“As crianças?” Jack perguntou, se lembrando do que Sheila havia dito, sobre o que ela pretendia fazer com as pobres crianças.
“Nós retornamos as crianças para suas casas, está tudo bem. Sophie e Jamie entenderam quando explicamos o que tinha acontecido com você.” Coelhão assentiu e Jack suspirou, aliviado.
“Eu me sinto ou lixo por tudo isso...” A memória era meio embaçada, uma vez que ele não estava sob controle de si mesmo, mas ele ainda se lembrava da expressão de Jamie.
Coelhão balançou a cabeça, erguendo a pata para o rosto do rapaz e o forçando a encará-lo nos olhos.
“Ei, eu já disse, não foi você! Agora pare de se culpar, moleque, ou eu vou te forçar.” Ele adicionou de modo forte, sorrindo ao ouvir Jack rir levemente, se inclinando contra seu toque.
“Falando nisso, o que aconteceu com ela?” Jack perguntou. “Eu... Eu acho que apaguei...”
“Sim, mas você e Sandy nos deram tempo para salvar as crianças e sair daquele lugar.” O outro explicou e dava para sentir um pouco de raiva controlada borbulhando por trás de suas palavras. “Nós selamos aquela entrada. Eu pessoalmente saí com Sandy para inspecionar as outras entradas do Quinto dos Infernos e ter certeza de que estão todas fechados. Sheila não vai aparecer mais, não se ela tiver juízo.” Ele disse de modo decisivo.
“Quinto dos Infernos? Era lá que a gente estava?” O rapaz ergueu as sobrancelhas, incapaz de segurar uma risada ao ouvir aquelas palavras. “Eu nem sabia que inferno existia.”
“É mais complicado do que isso...” Coelhão balançou a cabeça, mostrando que aquilo não importava. “O que importa é que está tudo bem agora, Jack.” Ele disse, afagando o rosto pálido de seu namorado.
Jack inclinou a cabeça contra o toque de Coelhão, que sorriu para ele. Ele encarou aqueles olhos verdes, se perdendo neles. Ele pensou em tudo que tinha acontecido antes, das últimas vezes que ele tinha encarado os olhos de seu namorado, e da preocupação e do medo que os envolvia. Agora eles brilhavam de modo calmo, relaxado, embora Jack soubesse que, lá no fundo, a preocupação permanecia.
Ele se lembrou das coisas que Sheila tinha feito quando tinha controle dele, do modo como ela brincou com Coelhão... E como Coelhão viu através de sua atuação e continuou tentando encontrar um modo de trazer Jack de volta, não importa o que o demônio dizia ou fazia.
Jack sentiu suas bochechas esquentarem, um calor confortável envolvendo seu peito. Pela lua, ele amava tanto aquele coelho. E Coelhão claramente o amava também, depois de tudo que precisou fazer para ter certeza de que ele estava a salvo.
Amor...
Jack se lembrou das palavras de Sheila e da razão por trás das coisas que estava fazendo, de todo o seu plano. Ele sentiu sua barriga doer assim que o pensamento passou por sua cabeça e ele gemeu baixinho.
“Jack? Está tudo bem? Está sentindo dor?” Coelhão rapidamente perguntou e Jack notou quando aqueles olhos esverdeados desceram para seu meio. Ele se lembrava dos cortes e sabia que Coelhão sabia deles também.
Mas Jack não queria pensar naquilo, talvez se ignorasse os machucados ele iria sentir ainda menos dor – de qualquer modo, ele sabia que iria curar rápido, era uma das coisas boas de ser um espírito.
“Não, eu tô bem. Só estava pensando...” Ele disse com um suspiro. “Sheila me disse que ela estava fazendo tudo aquilo pelo Breu. Ela me disse que ‘ia mostrar o que era amor de verdade’ ou coisa assim...”
“Huh, amor...” Coelhão bufou alto, revirando os olhos. “O que um demônio sabe sobre amor?”
“É, era nisso que eu estava pensando.” Jack assentiu, agora curioso. “Sobre se seria possível alguém como Breu, ou como Sheila, amar alguém ou alguma coisa de verdade.”
Houve uma pausa. Ele ergueu os olhos para Coelhão mais uma vez, encontrando o Pooka olhando para longe, suas orelhas estavam levemente abaixadas e seu focinho tremeu algumas vezes, o que queria dizer que ele estava pensando.
“Bem...” Disse, parecendo não ter certeza. Ele deu de ombros. “Tudo é possível...”
Jack não esperava aquela resposta, mas honestamente ele não esperava resposta alguma.
Talvez amor fosse algo tão poderoso, que até mesmo demônios podiam sentir e interpretar, mesmo que de seu próprio modo doentio. Jack se sentiria mal por ter estragado aquela demonstração de amor, caso ela não tivesse a ver com matar crianças ou os Guardiões.
Pela lua... Jack não tinha nem pensado direito no que poderia ter acontecido se a demônio tivesse vencido.
“Eu fiquei com medo.” Jack se ouviu dizendo, sem perceber, e aqueles olhos cor da natureza se voltaram para ele. “De perder você, de perder todo mundo.” Jack descansou sua mão livre sobre a pata de Coelhão, vendo como ela era grande perto de suas mãos pálidas. O toque era tão quente, tão confortável. “De perder a Emma de novo...” Ele desviou os olhos para Emma, ainda dormindo em seu travesseirinho.
“Eu também tive medo.” Coelhão admitiu, seu olhar baixo.
Os dois ficaram em silêncio depois daquilo.
Jack sabia que, se havia alguém naquele mundo que entendia o que era estar sozinho, era Coelhão. O único Pooka, o último de sua espécie. Ele tinha encontrado sua família e amigos com os Guardiões e com Jack. Coelhão podia se portar todo poderoso e confiante, mas Jack sabia o que havia em baixo da superfície, porque era o mesmo que havia em baixo de sua fachada alegre de Guardião da Diversão.
Mas, novamente, os dois haviam saído por cima. Os dois ainda estavam ali. E juntos dessa vez.
Jack ergueu sua mão, deixando-a mergulhar no pelo felpudo do rosto de seu namorado. Coelhão apertou o rosto contra a mão pálida com um suspiro e um tremer de seu nariz.
O som de um tilintar chamou a atenção dos dois.
Jack se virou para o lado, só para acabar com uma pequena fadinha em seu rosto. O garoto riu, sentindo as penas fazendo cócegas em suas pálpebras e seu nariz, mesmo assim ele deixou que a fada o abraçasse. Era uma pena que ela era pequena para um abraço de verdade, mas...
“Eu estou bem, estou bem!” Jack disse, erguendo as mãos e dando para Emma um lugar para se sentar. Ela piscou os olhinhos coloridos, sorrindo para seu irmão e os olhos de Jack se focaram nas três pintinhas em baixo do olho direito. “Nem dá pra acreditar que é você...”
O sorriso de Emma se tornou mais doce, gentil, e ela se ajeitou de pé na palma da mão de Jack, permitindo que ela apertasse a testa no espaço entre as sobrancelhas do garoto. Ela trinou baixinho.
“Você está bem?” Ele rapidamente perguntou quando os dois se afastaram. “Eu lembro que eu congelei você e depois você não podia voar...” Emma fez sinal para que ele se acalmasse e bateu as asas, assentindo com determinação. “Que bom...” Jack suspirou, sentindo um pequeno gole de culpa descer por sua garganta. “Me desculpa, Emma...”
A fadinha fez sinal de novo para que ele não falasse aquilo. Ela deu leves tapinhas na ponta do nariz do garoto e depois trouxe suas mãos para o seu peito, trinando. Ainda era um pouco entender o que ela queria dizer, mas por algum motivo Jack sentiu que ele entendia.
“É, e você vai ter que me contar como...” Ele disse, apontando com os dedos. “Sabe, como você acabou aqui e assim.”
Emma fez um gesto com a mão, revirando os olhos, mostrando que era uma longa história. Jack riu, se lembrando de como sua irmã costumava fazer aqueles mesmos movimentos, o revirar de olhos era tão conhecido quanto o sorriso de Emma.
“Talvez a Denti possa explicar.” Coelhão disse e Emma inclinou a cabeça para o lado, oferecendo um olhar para Jack que não parecia ser favorável para Coelhão.
Jack riu baixinho, erguendo um dedo e afagando as penas na cabeça da irmã. Emma reclamou, se afastando, mas rindo também. O garoto sempre tinha adorado mexer com a irmã, era seu dever como irmão mais velho fazer tal coisa; saber que ele podia voltar a fazer isso era simplesmente inacreditável.
“Jack?” A voz de Coelhão e um trinado de Emma tiraram Jack de seus pensamentos e ele notou que estava chorando.
“Eu estou bem...” Ele disse tentando afastar as lágrimas com os ombros, mas sem sucesso por causa da dor em seu corpo. Emma se aproximou e fez o trabalho para ele. “Aliás, pergunta: a partir de hoje você prefere que eu te chame de Emma ou de Baby Tooth?”
Emma piscou uma ou duas vezes. Ela abaixou o olhar e então olhou de Coelhão para Jack, como que se estivesse procurando por ajuda em sua escolha. Mas então ela sorriu e trinou e Jack conseguiu ler a palavra em seus lábios.
“Tudo bem, Emma.” Jack assentiu, se sentindo levemente sem ar.
Emma sorriu para o irmão.
Eles ouviram o som da maçaneta girando e a porta foi aberta só uma fresta. Através da fresta, um olho azul deu uma espiadela, se arregalando por um segundo, antes que a porta fosse aberta com força e Norte entrasse no quarto, exuberante como sempre.
“Jack!” Ele exclamou, se aproximado da cama com passos largos.
Jack e Emma trocaram um olhar e riram enquanto Coelhão forçava Norte a se afastar, dizendo que o rapaz ainda não estava totalmente recuperado para receber um dos abraços de urso do velho cossaco.
Com os cuidados dos yetis e a supervisão de Coelhão e Emma, Jack se recuperou. As marcas em sua barriga deixando para trás cicatrizes pálidas, mas nada mais. Em pouco tempo ele estava de volta à Toca, assistindo de um dos Ovos Sentinelas o trabalho de seu companheiro.
Era incrível o quão rápido as coisas tinham voltado ao normal. Era como se nada tivesse acontecido, a possessão, o demônio, o rapto das crianças... Nada. O cheiro de enxofre que Coelhão havia sentido em Jack havia sumido assim como qualquer vestígio de cabelos negros e olhos vermelhos, tudo o que havia ficado para trás era o que Coelhão descrevia como cheiro de menta e baunilha e a aparência conhecida de Jack Frost. E o garoto se sentia perfeitamente como ele mesmo.
Tudo o que tinha sobrado eram as cicatrizes.
Tudo estava bem.
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