A Guardian's Diary 1
5 Capítulo 4 - Feliz Páscoa canguru
Notas iniciais
Alguns dias depois...
“Fico grato por me ajudar a trazer o vento do norte, Jack.” O garoto de cabelo laranja disse com seu sotaque francês forte, se equilibrando no galho de árvore em que estava ao lado do espírito do inverno. “O pessoal daqui precisava mesmo de um dia mais fresco”
“Sem problemas, Amber.” Jack deu de ombros com um sorriso. “Só não entendo como você e o Breeze não se entendem mesmo depois de tanto tempo...”
“É... Creio que ser o espírito do outono quer dizer ter muito trabalho... Principalmente quando um de seus deveres é controlar o vento que muitas vezes não quer ser controlado.” Amber riu, fazendo um movimento com o cajado, o que fez com que as folhas espinhosas do pinheiro ganhassem um tom marrom. “Mas, pelo menos por aqui a coloração e o cair das folhas não é tão pronunciado como no norte.”
Jack virou o olhar para baixo com um sorriso e viu um grupo de crianças brincando na grande sacada de uma casa, todos com suas jaquetas, mas mesmo assim correndo para todo o lado, brincando de pega-pega.
“Sabe...” O espírito do outono chamou a atenção do outro. “Você bem que poderia trazer mais um dia de neve para eles, não acha?”
“Eu fiz isso nessa cidade em julho há quatro anos!” Jack falou rapidamente.
“Sim, eu sei.” Amber riu. “Mas já faz mais de trinta anos desde o dia em que você decidiu deixar a cidade coberta de branco.”
O espírito do inverno sorriu, se lembrando daquele dia.
“Se pelo menos o clima daqui fosse mais estável.” Ele deu de ombros, voltando a atenção para as crianças mais uma vez. Outra garota havia se juntado aos outros, parecia ser mais velha (possivelmente com onze ou dose anos) e carregava nos braços pequenas cestas coloridas. “O que estão fazendo?”
“Ah, Karol vem trabalhando nesse projeto já faz um ano.” O espírito francês disse com um sorriso. “Disse que queria fazer como os ‘americanos’. Então comprou as cestas, comprou os ovos e fez sua caça aos ovos.”
Jack quase caiu do galho de árvore ao ouvir aquilo.
“C-caça aos ovos?” Perguntou. “Já é Páscoa?!”
“Oui. É amanhã na verdade.” Amber ergueu uma sobrancelha. “Como conseguiu esquecer--?”
“Não posso falar agora! Até mais, Amber!” Jack alçou voo do galho da araucária, se deixando levar pelo vento em direção de um lugar longe dali.
—G–
“Coelhão! Ei, Coelhão!”
O Pooka suspirou exasperado e se voltou para um guardião da diversão sorridente.
“O que foi, moleque?”
“Ah, eu cheguei a tempo?” Jack deu uma olhada atrás do coelho e viu uma enorme fileira de ovos caminhando para longe. “É, cheguei! Ah, bem, eu queria perguntar uma coisa, canguru.”
“O que?” Coelhão perguntou cruzando os braços, desgostoso como sempre depois de ouvir o "apelido".
Jack não conseguiu deixar de sorrir, ele gostava quando o outro ficava sério daquele jeito, por isso era divertido brincar com ele. Mas ele se segurou, a última coisa que precisava fazer agora era antagonizar o outro.
“Bom..." Ele pigarreou, ficando sério e sorrindo genuinamente. "Eu te ajudei com os ovos então queria saber se posso ajudar a escondê-los também.”
O Guardião da Esperança ficou calado, processando as palavras do menor. Jack queria ajudá-lo a esconder os ovos... Não era a primeira vez que ele oferecia ajudar em alguma coisa, já fazia alguns dias que Jack visitava a Toca, sentando silenciosamente ao lado de Coelhão e ajudando a pintar vários dos ovos. A presença do espírito do inverno havia se tornado algo quase normal, esperado e até... Bem vindo. Muito para a surpresa de Coelhão. Era ainda estranho pensar no quanto ele apreciava a presença do rapaz, até mesmo das conversas bobas que esse começava de vez em quando...
Mas Coelhão ainda estava se mordendo de curiosidade. Porque Jack estava fazendo aquilo? O que ele tinha em mente? Era algum plano elaborado para algum tipo de brincadeira? Ou ele só estava... Sendo gentil...? Coelhão se perguntava como Jack poderia querer ser tão gentil com ele depois de tudo que ele tinha dito sobre o garoto.
As orelhas de Coelhão se abaixaram enquanto pensava em como responder. Tudo o que menos queria era soar rude porque, embora honestamente a ajuda de Jack não tenha sido muito importante frente a necessidade de pintar milhões de ovos, ela ainda foi bem apreciada, mas...
“Ah... Olha, Frostbite, eu agradeço a ajuda nesses últimos dias, mas...” Coelhão suspirou, decidindo falar de vez. “Mas eu não preciso de mais ajuda para a Páscoa.” Ele se sentiu mal ao ver o sorriso de Jack sumir, sendo trocada por uma expressão estranha. E era como se sua língua tivesse tomado toda a sua boca. “D-desculpe... Eu tenho que ir.”
“Tudo bem.” Jack levantou o olhar, sorrindo novamente, embora não do mesmo modo que tinha sorrido antes. “Vá levar a Páscoa para o mundo, canguru!”
Coelhão lhe ofereceu um sorriso pequeno em resposta e balançou a cabeça ao processar o apelido, antes de se afastar com alguns pulos.
Jack suspirou, observando enquanto o símbolo da Páscoa sumia junto com seus ovinhos e Ovos Guardiões, antes de flutuar até a beira do córrego de tinta. Não dava para mentir, ele estava desapontado por ter sido rejeitado daquele modo, mas no momento ele não sabia se sentia mais desapontado ou incomodado. Porque Coelhão tinha dito não? Ele tinha ajudado o Pooka tantas vezes nesses últimos dias. Talvez ele não tivesse sido de boa ajuda, afinal ele não era um bom pintor, ou talvez... Talvez o coelho só tinha detestado o tempo que os dois passaram juntos...
Antes que ele pudesse se perder naqueles pensamentos, o som de folhas chamou sua atenção. Ele se virou, procurando a origem do som, sorrindo ao ver o que estava o causando. Um pequeno ovo, de cor azul escura, caia e rolava entre as tulipas musicais, claramente tendo dificuldade em ficar de pé. Jack se aproximou, retirando o ovinho de lá e o segurando com cuidado nas mãos.
“Pobre ovinho, foi esquecido pelo coelho da Páscoa.” O sorriso do espírito do inverno cresceu enquanto processava aquela situação. “É uma boa desculpa para ir atrás dele.” Mas antes que pudesse colocar a ideia em prática, ele parou. "Mas talvez ele fique irritado, e fale alguma coisa..." Ele suspirou, voltando a se sentar, com o ovo ainda em suas mãos.
Jack brincou com o ovo com cuidado, o virando em seus dedos, lembrando dos desenhos que tinha feito nos últimos dias. Até que uma ideia o atingiu e ele voltou a sorrir.
—G–
Coelhão suspirou, feliz em estar de volta em sua querida Toca depois de um dia cheio, viajando de túnel a túnel para todos os cantos do mundo. Ele se sentia tão cansado, que quase nem notou que havia alguém na Toca além dos Ovos Guardiões. Ele seguiu ao lado do córrego colorido, encontrando Jack Frost, sentado entre um grupo de tulipas musicas.
Coelhão parou por um momento, observando o rapaz enquanto esse tentava criar uma melodia, sem parecer ter muito sucesso. Ele se lembrou da conversa mais cedo, e de tudo que Jack já tinha feito nesses últimos dias. Coelhão sabia que ele implicava com o garoto, afinal, eles tinham uma história, por assim dizer, mas ele sabia que o espírito do inverno era uma pessoa boa; brincalhona e irritante, sim, mas ainda assim uma pessoa boa. E ele estaria mentindo se dissesse que realmente odiava tê-lo por perto.
“Jack?”
O guardião mais novo quase pulou ao ouvir seu nome.
“Ah, Coelhão! Bem vindo de volta!” Jack sorriu, seu rosto azul novamente, o que fez Coelhão se perguntar mais uma vez se isso era normal para espíritos invernais; ele já tinha visto as bochechas do rapaz ficarem azuis algumas vezes naqueles últimos dias.
“O que ainda está fazendo aqui?” Coelhão perguntou, demorando para notar que o cansaço em sua voz podia soar como irritação.
Jack fez uma careta com a pergunta.
“Na verdade eu não planejava ficar aqui, mas então...” Ele se levantou e andou até o Pooka. “Eu me perguntei... Você é o coelho da Páscoa, você leva ovos de Páscoa para todas as crianças. Mas será que já recebeu algum ovo de Páscoa?”
“O que?” Coelhão ergueu uma sobrancelha, cansado demais para processar aquilo.
“Bem, eu acredito que não.” Jack deu de ombros, com as mãos nos bolsos da blusa. “Você é quem prepara os ovos, só ganharia um se desse um para si mesmo...”
“Pode ir direto ao ponto, Frostbite?”
Jack parou por um instante, mas então sorriu, tirando as mãos dos bolsos e as estendendo na direção do Pooka. O Guardião da Esperança piscou uma, ou duas vezes. Nas mãos pálidas do garoto do inverno estava um ovo de Páscoa azul escuro, pintado com algumas marcas em um azul mais claro que, quando Coelhão olhou a fundo, notou serem vários pequenos flocos de neve, com detalhes em branco.
“Jack... Você...”
“Você esqueceu esse entre as tulipas.” Uma vez que Coelhão não tinha se movido, Jack pegou uma de suas patas e colocou o ovo com cuidado nela. “E como você já tinha ido embora eu pensei em fazer algo com ele.” E deu seu característico sorriso torto. “Diz aí, eu melhorei muito na pintura, né?”
Coelhão examinou o ovo com atenção, o cansaço parecia ter sumido tanto de seu porte quanto de seus olhos, enquanto virava o ovo como que para ver cada detalhe, como o jurado de uma competição. E Jack se sentiu um tanto nervoso em baixo de todo aquele exame minucioso.
“Está... Realmente muito bonito, moleque.” O coelho deu um sorriso e estendeu o ovo de volta para o rapaz. “Eu admito, você me surpreendeu. Ótimo trabalho.”
Por um momento era como se a mente de Jack tivesse se desconectado de seu corpo ao ouvir aquelas palavras. Era tão difícil surpreender Coelhão, já que ele tinha aquelas orelhas poderosas e o focinho potente; Jack já sabia bem disso, já que estava sempre tentando surpreendê-lo. Receber um elogio do Pooka era ainda mais difícil; Jack tinha quase certeza que a única pessoa que ele tinha visto receber um elogio como aquele de Coelhão tinha sido a pequena Sophie. E, ouvir um seguido do outro era simplesmente... Incrível.
Jack quase nem notou que tinha se movido, até que se encontrou envolvendo o Guardião maior com seus braços. Uau, ele era tão quente e aconchegante...
“Ah! D-desculpa!” Ele se afastou rapidamente, o rosto quase todo azul agora, mas mantendo o olhar abaixado para não encarar o outro. Ele notou que Coelhão ainda tinha pata estendida e simplesmente a empurrou de volta para ele. “É seu...” E sorriu, ainda desviando os olhos. “Feliz Páscoa, canguru.”
Jack se virou, pegando o cajado que estava entre as tulipas e se afastando com passos largos.
“Feliz Páscoa, Jack.”
O garoto corou ao ouvir aquilo e, com um sorriso, voou para fora da Toca.
—G–
“Uuuugh...!” Jack grunhiu para si mesmo, o rosto gelado escondido nas mãos. “Eu não acredito que eu fiz isso...”
Com um suspiro o garoto continuou andando no topo do telhado de uma casa. Sim, ele ainda estava embaraçado pelo que fez, mas ele sabia que não ia esquecer como foi abraçar Coelhão. Ele era tão quente, como uma fornalha comparado com o calor do espírito. Ele tinha certeza que, se tivesse ficado ali por mais um segundo, ele ainda estaria sentindo o quão felpudo o outro era...
“Ah, qual é, Sandman?” A voz tirou Jack de seus pensamentos. Ele se virou, vendo, não muito longe da casa em que estava, Sandman em sua usual nuvem de areia do sono, flutuando ao lado de um espírito Jack já tinha visto uma vez ou outra: Cupido, que não parecia muito contente com a conversa. “Essa é a primeira vez que te peço isso desde o século passado! Por favor!” Mas Sandman apenas balançou a cabeça, com os braços cruzados e uma cara irritada. “Bah, que seja então!”
O anjo do amor se afastou rapidamente, mas parou ao notar o outro espírito.
“Ora, ora! Jack Frost!” E, em um instante, estava cara a cara com o guardião da diversão. “Como vai, querido?”
“Ah, oi, Cupido...” Jack murmurou, dando alguns passos desconfortáveis para trás. A última coisa que ele queria era estar perto dela, principalmente naquele momento. “Tô bem... E você? Flutuando por aí, quebrando corações?”
“Ohoho, é, coisas do trabalho...” Ela riu, antes de ficar seria mais uma vez.
"O que foi? Problemas quebrando corações?" Jack brincou, só para ter certeza de que ela não ia falar sobre o que ele pensava que ela ia falar.
"Oh, não, não no momento." Com um bufado, Cupido colocou as mãos na cintura e perfurou Sandman com os olhos. “Estava na verdade tentando convencer Sandman a me permitir usar seus sonhos para disseminar um pouco de amor pelo mundo.” Sandy fez uma careta, mostrando imagens de pessoas, corações e problemas — um sinal já conhecido de Jack. O espírito do inverno não pôde segurar uma risada, já tinha visto algumas das confusões que Cupido gostava de criar, algo que Sandman não aprovava muito. “E, falando em amor... Como vai seu coração, Jackie?”
Jack fez uma careta com o apelido.
“Vai bem.” Disse com um sorriso sarcástico. “Batendo. Como sempre.”
Cupido franziu o cenho.
“Falo sério, Jackie.” Disse. “Já contou ou não que gosta do Coelhão?”
Jack sentiu seu rosto simplesmente congelar ao ouvir aquilo, que ficou ainda mais frio quando ele se lembrou que o guardião dos sonhos estava ali também.
“Heh, do que cê tá falando?” Ele deu de ombros com uma risada nervosa. “Eu não gosto daquele canguru...”
“Não adianta mentir para mim, Jackson Overland.” Jack se surpreendeu ao ouvir seu nome humano, ele não sabia como Cupido tinha descoberto seu nome verdade, mas parte dele não queria. “Sabe que estou do seu lado, não é? Quem você acha que jogou a flecha em você, huh?” Cupido riu levemente e se aproximou do garoto. “Quer saber se também lancei uma flecha no Pooka bonitão?”
Jack hesitou, se sentindo nervoso com as opções. Cupido, de fato, cuidava do amor e unia pessoas, seja em relações românticas ou platônicas, ele sabia que ela era a única que podia dizer para ele com toda a certeza se Coelhão sentia qualquer coisa pelo rapaz. Mas Jack já tinha aprendido — por observação, é claro! — que era melhor não se envolver muito com o anjo do amor. Embora parte dele quisesse muito perguntar...
“Ah, tudo bem, Sandy!” Cupido reclamou, mostrando a língua para o homenzinho dourado que tentava, de um modo educado, enxotá-la de lá. Jack sentiu o anjo do amor colocar algo no bolso de sua jaqueta, o que o tirou de seus pensamentos. “Tchauzinho Jackie, desejo-lhe sorte.” E, após dar um beijinho na bochecha pálida do garoto, ela se afastou, lançando uma flecha no céu e agarrando a calda dessa para voar em grande velocidade para longe.
Jack levantou o olhar para o guardião ao seu lado que o fitava com olhos brilhantes e com um sorriso enorme.
“Heh, ela é meio maluca, não é?” Jack falou em tom de brincadeira. “Eu? Apaixonado pelo Coelhão? Até parece!” Mas Sandman apenas cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha. Jack suspirou, sabendo que olhar era aquele, e parou com a encenação. “Sim, Sandy... Eu gosto dele...” Jack virou os olhos, mas pode ver quando o guardião dos sonhos fez uma cara doce de deboche, abanando a mão. Demorou alguns segundos para o rapa processar aquilo. “Você já sabia? Como?!”
Sandman apenas tocou sua testa e fez um movimento com o dedo para cima.
“Ah... Meus sonhos...” O espírito do inverno corou ao pensar nos vários sonhos que já tivera com o Pooka. “E... Você tá de boa com isso?” Sandman sorriu abertamente, erguendo ambos os polegares para o mais jovem, que retribuiu o sorriso, se sentindo um pouco mais calmo e até... Contente. “Obrigado, Sandman.”
Fale com o autor