A Guardian's Diary 1

2 Capítulo 1 - Cinco anos se passaram...


Notas iniciais
Bloom me pertence.

Cinco anos haviam se passado desde que os Guardiões derrotaram Breu mais uma vez, e tudo havia voltado à calmaria de sempre.

Graças a sua recém derrota, o Rei dos Pesadelos não podia disseminar o medo pelo mundo e, naquele momento, tudo o que existia eram bons sonhos, distribuídos pelo mundo pela areia mágica de Sandman; Norte voltou a se encarregar de seus brinquedos e da lista de bonzinhos e malvados; Dentiana continuava a coletar dentes pelo mundo com a ajuda de suas fadas, decidindo que era hora de voltar a participar ativamente das caçadas, mesmo que só para quebrar a monotonia de passar todos os dias no palácio; Coelhão continuava a se focar em seus ovinhos de Páscoa, pintando, enfeitando e os deixando o mais bonito possível para as próximas Páscoas.

E quanto ao mais novo membro dos Guardiões, Jack Frost? Ah, o jovem espírito do inverno continuou com suas brincadeiras, congelando lagos e levando a neve e diversão pelo mundo, como fazia desde que tinha acordado naquele lago congelado. Mas agora, o rapaz carregava consigo a alegria de saber que aquele era o seu chamado, o seu cerne.

E não havia nada que ele gostasse mais, que distribuir sua alegria na vila que ele tinha se acostumado a chamar de lar.

— Ah! — O garoto caiu de cara na neve, cobrindo seu cabelo marrom quase totalmente em branco, e, mesmo sem precisar ver, ele já tinha uma boa ideia de quem tinha o atingido com uma bola de neve. — Jack!

— Pensa rápido, Jamie! — O rapaz pálido riu antes de atirar mais uma bola de neve.

Jamie tentou desviar do ataque, mas não conseguiu, afinal, ele já era um alvo bem maior do que era apenas alguns anos antes, e Jack Frost era conhecido por ter uma mira incrível. Jamie fez uma bola de neve própria e a atirou com uma risada, sem se importar com a possibilidade de alguém andando pela rua o ver brincando com “ninguém.”

Eles entraram em uma guerra de neve animada, mas breve, acabando com os dois caídos no chão, cobertos de neve e rindo alto.

— Ha, sou eu ou você está ficando cada vez mais forte, moleque? — Jack riu, se sentando ao lado do jovem Bennett e desarrumando seus cabelos cobertos de flocos de neve.

— O que você acha, Jack? — Jamie riu, empurrando o outro de leve. — Eu tô crescendo, né?

O sorriso de Jack diminuiu levemente ao ouvir aquilo. Jamie tinha razão, naquele ano ele iria completar treze anos de idade; e, embora ainda fosse uma criança, Jamie já não era mais o menino pequeno e inocente de antes, só mais alguns anos e ele alcançaria a idade física do espírito do inverno. Jack Frost nem tinha notado como o garoto tinha crescido. O tempo passava tão rápido quando se tinha todo o tempo do mundo...

— É, tem razão... — disse e quando Jamie pareceu notar o tom melancólico de sua voz, ele deu um sorriso. — Só tenta não crescer tão rápido, hein?

— Jamie! — Uma voz interrompeu a risada dos dois e eles se viraram para ver quem tinha chamado o mais novo. Uma garota, de bochechas redondas e rechonchudas, e com um rabo de cabalo sorriu para eles, fazendo os aparelhos em seus dentes brilharem. — Ah, oi Jack! — Jack acenou, sem realmente reconhecê-la, mas notando algo familiar em seu rosto. — Jamie, eu acabei de passar na frente da sua casa e a sua mãe disse pra eu te avisar que o almoço está pronto!

— Ah, tudo bem! Eu já vou! Valeu! — Jamie sorriu em resposta e Jack notou o modo como as bochechas do garoto ficaram mais coradas. Com mais um aceno e um sorriso para os dois, a garota se afastou. Jamie deu um suspiro baixo e pareceu finalmente se lembrar que não estava sozinho; ele se virou para o rapaz pálido, notando como esse sorria de modo sabido. — O que?

O sorriso de Jack se alargou ainda mais.

— Eu vi o que aconteceu aqui. — Ele se colocou de pé e cruzou os braços com uma sobrancelha erguida. — Quem é a garota?

— Quem? Jack, é a Cupcake. — Jamie também se levantou, limpando o resto de neve da calça. Os olhos de Jack se arregalaram com a revelação. — Só que a gente não chama mais ela assim...

— Uau... ela está bem... diferente... — Jack Frost riu baixo, tentando ignorar o desconforto ao perceber que a garota tinha mudado tanto em apenas cinco anos, que ele mal pôde a reconhecer. Jack tentou afastar aquele pensamento, se focando de novo no fato de que Jamie ainda estava corado, e não por causa do frio. — Hã… Eu não esperava que fosse ela...

— O que? — Jamie demorou um pouco para entender do que o outro falava, e quando entendeu, seu rosto ficou ainda mais vermelho. — Do que está falando? — murmurou, pegando a touca que tinha caído durante a guerra de neve e a limpando, claramente tentando não encarar o Guardião da Diversão nos olhos.

— Não tente esconder nada de mim, James Bennett! — Jack balançou o dedo com um ar de desaprovação recebendo um revirar de olhos do garoto. — Eu já vivi tempo o bastante para saber quando alguém está fazendo isso!

Jamie apenas se balançou em seus calcanhares, fitando os pés e sem vontade de falar nada.

— Jamie~ — cantarolou Jack Frost, ficando de ponta cabeça no ar e tentando fazer o outro virar a atenção para ele. — Você gosta dela?

Jamie corou ainda mais – se é que aquilo era possível – e balançou a cabeça levemente, mas não dava para saber se era em um movimento positivo ou negativo.

— Ah, qual é, Jamie! Você pode me contar! — O espírito do inverno se apressou em dizer, oferecendo ao menor um sorriso genuíno dessa vez. — Eu juro que não conto a ninguém.”

O garoto suspirou profundamente, mas pelo modo como seus ombros caíram, Jack podia ver que ele tinha derrubado seus muros.

— Sim, eu gosto dela...

— Eu sabia! — Jack deu uma cambalhota no ar e desceu para o solo rapidamente, colocando um braço em volta dos ombros do outro. Mesmo com apenas treze anos, Jamie já era quase do mesmo tamanho de Jack, tendo espichado apenas alguns meses após completar os onze anos. — Já faz quanto tempo, hum?

— Um tempinho... eu acho... — murmurou Jamie, sem saber o que dizer, ainda tentando esconder o rosto com a touca e a gola alta da jaqueta.

— E já contou para ela?

— É-é claro que não! — exclamou Jamie, encabulado. — É tão estranho, sabe? Eu morria de medo dela, mesmo depois que ela virou nossa amiga. Mas depois de um tempo eu... sei lá, as coisas ficaram diferentes, sabe? — O garoto murmurou mais alguma coisa que Jack não conseguiu entender e suspirou, escondendo o rosto quente nas mãos enluvadas. — Eu não sei explicar...

— Não precisa, eu entendo.

— Sério? — Jamie ergueu o olhar para o amigo que só então notou o que tinha dito.

Um leve azul desabrochou nas bochechas pálidas de Jack Frost e Jamie não conseguiu segurar uma risada ao ver aquilo. Era estranho e diferente, mas ele já sabia agora que aquele era o modo como o espírito do inverno parecia corar, ficando azul em vez de rosado.

— Ah... sim... — Jack pigarreou levemente e era a sua vez de desviar o olhar.

— E já contou para ela? — Jamie sorria como Jack tinha sorrido antes.

Jack parou por um segundo ao ouvir aquela palavra. Ela. Ha!

— Não... — murmurou baixinho, sorrindo sem humor. E talvez nunca vou contar..., pensou inquieto.

Ainda assim, Jamie notou a mudança no outro.

A conversa não continuou muito a partir dali, com os dois terminando o encontro de um modo estranho e um tanto sem jeito; logo eles se despediram e Jack observou Jamie enquanto o garoto se apressava para não perder o almoço.

Jack alçou voo, retornando para seu lago como se guiado pelo instinto mais do que intenção. Ele ficou lá, perdido em pensamentos e andando em círculos por cima do gelo fino, que estava começando a descongelar, aos poucos, graças à chegada da primavera. Quando ele chegou perto da margem do rio, onde o gelo era ainda mais fino, e começou a rachar em baixo da leve pressão de seus pés, ele flutuou até o galho de uma árvore.

Ele tinha sido honesto com Jamie, ele sabia bem o que era gostar de alguém e não poder contar para a pessoa, ou não querer contar, ele nem tinha mais certeza…, mas não era nenhuma “ela”, era um “ele” que ele gostava. Depois de viver tantos anos, ele nem sequer estava surpreso em saber que gostava tanto de homens quanto de mulheres. O problema era que esse “ele”, Jack sabia, não retribuía nem um pingo do que ele sentia.

Jack suspirou, se inclinando contra o tronco da árvore, quando uma onda de água morna o atingiu na cabeça.

— Ah! — Surpreso, garoto perdeu o equilíbrio, caindo na neve amontoada aos pés da árvore. Uma risada alta acima dele revelou quem tinha feito a neve que acumulava no galho acima, se tornar água. — Bloom! Qual é?

— É melhor ficar mais atento, Jack. O gelo já está derretendo. — Sentada na árvore com um sorriso largo e brincalhão, estava uma garota de olhos cor-de-rosa e cabelos crespos que brilhavam em um afro com todas as cores do arco-íris. Ela riu da cara emburrada do espírito pálido. — O meu momento está chegando e espero que você não o arruíne.

Jack bufou em resposta ao espírito da primavera, balançando para longe a água que já tinha começado a se transformar em gelo em seu cabelo.

— Não vou arruinar nada esse ano, Bloom — disse simplesmente, retornando para seu lago congelado.

Surpresa tanto com as palavras quanto com o tom de voz do outro, Bloom agarrou o cajado que tinha deixado encostado contra a árvore, e flutuou gentilmente até o chão. A fina camada de neve que cobria a área em baixo de seus pés derreteu completamente quando ela tocou o chão.

Ela se aproximou da margem do lago, encarando Jack, que a encarou de volta.

— Oi? Eu ouvi direito? — perguntou Bloom, seu sotaque britânico parecendo se intensificar a cada palavra. — Você, Jack Frost, não vai fazer nada? Nadinha? Nem... Jogar um pouco de neve em uns arbustos de rosas?

Jack revirou os olhos e, mesmo incomodado com as perguntas, ele ofereceu à garota um sorriso torto e brincalhão, sua marca registrada. Com um rolar de ombros, ele deu as costas para a garota, deslizando os pés sobre a superfície congelada do lago como se estivesse usando patins.

Ele ainda conseguia sentir os olhos de Bloom o observando da margem da lagoa, mas a ignorou, até que a ouviu rindo baixinho. A risada se aproximou e, quanto ele notou, ela estava flutuando ao seu lado, mantendo uma boa distância para não derreter o gelo sem querer.

— Ah, já sei o que está acontecendo. — Ela sorria, os dentes brancos, brilhantes, fazendo um belo contraste com sua pele escura e os cabelos coloridos. — Você não quer estragar o momento de glória de alguém, não é?

Jack ofereceu ao espírito da primavera mais um sorriso pequeno e um rolar de ombros.

— Aceite como em elogio...?

— Não! Não é por mim e eu sei disso! — Bloom balançou a cabeça, o sorriso agora tão grande e literalmente luminoso, que Jack teve de fechar os olhos um pouco. — É por outra pessoa!

As bochechas brancas do espírito do inverno se tornaram azuis novamente e ele não respondeu, o que só serviu de confirmação para a outra. Mas havia algo em seus olhos azuis que interrompeu a risada de Bloom antes mesmo dela começar.

— Jack… — Ela parou no ar e Jack a imitou, parado no meio do lago, bem onde ele um dia tinha se afogado. Bloom o olhava de modo gentil, seu sorriso muito mais doce e genuíno dessa vez. — Sabe, a minha estação é chamada de “estação do amor” por um bom motivo. E eu meio que tenho uma boa amizade com uma certa Cupido...

A simples menção à fada do amor tirou Jack de seu transe silencioso.

— Não! Eu não preciso da sua ajuda e muito menos da ajuda dela! — exclamou rapidamente, seu rosto ficando ainda mais frio que antes.

Sem esperar quaisquer respostas à sua reação, ele deu as costas para o espírito da primavera, girando o cajado e conjurando o vento frio para lança-lo no ar.

— Tudo bem! Tudo bem! — A voz de Bloom foi carregada pelo vento. — Mas, uma ajudazinha até que viria a calhar, já que você não pretende dizer ao Coelhão que está apaixonado por ele sozinho.

Jack Frost suspirou e girou o cajado mais uma vez, voando mais rápido e deixando a outra e seu lago congelado para trás.