A Guardiã do Sol
8 Vila dos Estrangeiros
Notas iniciais
A manhã estava bonita, mas não tão bela quanto de costume. Era como se entre aquele sol quente e as nuvens esbranquiçadas algo faltasse. Talvez fosse o vento sul que sempre trazia um agradável cheiro de orvalho da manhã, ou as pessoas da vila levantando cedo para iniciar sua jornada de trabalho. Ou, quem sabe, fosse seu pai que não o acordara mais um dia.
Tales tirou o lençol de suas pernas e coçou os olhos. Seu pai partira para a Capital fazia semanas, para poder alistar-se no exército a mando do Grande Rei, e até então não mandara notícias. Sequer uma carta. Estava preocupado, temia que o Celeste tivesse tirado de si a única família que tinha. Já não bastasse minha mãe, pensou, enquanto ia para a forja.
Ajeitou as ferramentas de sua forja, acendeu o forno e abriu as janelas, deparando-se com um uma rua vazia e um incômodo barulho distante de um cavalgar. Mais um viajante. Aquela era uma pequena vila conhecida como Vila dos Estrangeiros, por um simples motivo de que as pessoas que lá viviam eram todas viajantes, não se mantendo lá por mais do que um curto período de tempo. Os outros eram apenas donos de estabelecimentos. Algo normal, julgando que naquela região a maior parte das pessoas vivia trabalhando no campo. Tales não ligava muito para isso, gostava de viver à beira de estrada.
Tirou uma peça de metal que não havia terminado na noite anterior, uma longa liga metálica que viraria uma espada. Uma espada de um cavaleiro, refletiu o rapaz, um cavaleiro como nunca serei.
O som dos cascos do cavalo batendo no solo ia se aproximando cada vez mais, mais rápido do que um cavalo normal seria capaz de galopar. Tales arqueou as sobrancelhas. Quando menor fora cavalariço, e por isso tinha um leve conhecimento de cavalos. Aquele som que se aproximava estava longe de ser normal, vinha com uma marcha acelerada. Largou a peça de metal em cima da bigorna e dirigiu-se para fora da forja.
— Cuidado! — Gritou uma voz feminina, enquanto puxava as rédeas do corcel.
Tales caiu no chão, assustado, e o grande cavalo de guerra pulou por cima do mesmo, parando não muito distante. O jovem ferreiro virou-se para trás, com os olhos arregalados. Aquele dia, desde quando amanhecera, demonstrava-se anormal. Aquela que montava o cavalo encarou-o com súplica e desespero.
— Garoto, venha aqui, por favor. — Deveria ser três anos mais velha que ele, com longos e ondulados cabelos castanhos, olhos assustadoramente cansados e a face suja de terra e sangue. Tinha uma gigantesca espada nas costas. — Este é um cavalo de guerra, deve valer mais do que trezentas moedas. Pode ficar com ele se quiser, mas me arranje um médico e um lugar para ficar, rápido!
A mulher desmontou do cavalo, segurando outra no colo. A que estava desmaiada era uma mulher incrivelmente bela, a coisa mais linda que Tales já havia visto, e ao mesmo tempo muito frágil e ferida. O rapaz estava assustado com a cena, e incrivelmente extasiado pelo o que via.
— Sei que pode parecer confuso, mas preciso que você aja! A vida dela depende disto, por favor, garoto. — Pediu novamente a de cabelos castanhos.
Tales olhou para ambas, com determinação. Poderia não ser um cavaleiro, mas esta era a chance de agir como um. Tomou as rédeas do cavalo de guerra e assentiu com a cabeça.
— Há um quarto nos fundos desta forja, logo após a bigorna. Irei buscar um médico!
XxX
Sange colocou o corpo de Cyana em cima da cama lentamente, enquanto rogava ao sol que a mantivesse viva. Suava frio, e a filha do inverno ficava cada vez pior. Tivera sorte de encontrar aquele rapaz, tão disposto a ajudar duas desconhecidas. O ferimento de sua coxa estava ardendo, mas não doía mais que o medo de ver a Guardiã da Lua morrer na sua frente. Era a única amiga que lhe restava, e não saberia como prosseguir se a perdesse. Ainda tinham muito o que fazer; Voltar a Capital, tirar satisfação com Joan, guerrear contra Ventobravo... Uma lágrima escorreu por sua face.
— Por favor, Cy. — Pediu, enquanto escondia o rosto com ambas as mãos. — Não morra...
Cada segundo era mais angustiante que o anterior. Passou tanto tempo ali, implorando a todo o Celeste pela vida de Cyana, que nem notara quando as lágrimas pararam de escorrer por sua face, e muito menos quando o rapaz adentrara o cômodo junto de um velho senhor.
O rapaz tinha seus dezesseis anos, com um corpo digno de um aprendiz de ferreiro, pele morena e cabelos pretos como tinta. Os olhos eram corajosos, porém caídos e de íris igualmente escura. O velho senhor era careca, vestia-se com muitos tecidos e trazia consigo muitos instrumentos. Tinha a pele queimada pelo sol e olhos verdes.
— Qual seu nome? — Indagou o médico.
— Sange. — Respondeu, quase sussurrando, quando finalmente os reparou ali.
— Me ajude a tirar as faixas dela. — Ordenou. — Preciso ver o ferimento de perto. Tales! — Chamou o aprendiz de ferreiro. — Vá buscar água.
— H-hai! — Disse Tales, utilizando-se de uma gíria do interior, enquanto saia do quarto as pressas. O médico entregou a Sange uma adaga.
— Use isto. Facilitará muito, acredite. — Aconselhou. — E tenha cuidado para não cortá-la.
Sange pegou a adaga e, com grande destreza, começou a cortar as faixas que escondiam os ferimentos da Guardiã da Lua. O médico enrolou o rosto com um pano, como uma maneira de protegê-lo de qualquer doença que Cyana pudesse emitir. Ele tinha um olhar analítico.
— Você tem sorte que eu realmente precisava de um cavalo, e Tales não hesitou em me dar o dele. Sem cobrar nada. Ele é um bom rapaz, sabe? Todos na vila o amam.
Sange estava atenta demais no que fazia para responder e reparar no ato de caridade que o jovem fizera. Tirando as faixas do corpo de Cyana, reparou em um gigantesco e profundo corte que partia de seu ombro e seguia em todo o seu tronco até terminar na cintura. Era um ferimento gravíssimo, que teria matado qualquer ser humano normal. A Guardiã do Sol engoliu em seco. O corte estava sujo e com pus. O médico tomou a dianteira, claramente assustado com a gravidade da situação.
— Porra. — Exclamou o médico. — Como ela conseguiu isto?!
— Não importa agora, tem como salvá-la?
— Sim... Eu acho... — Respondeu o médico, pegando uma adaga esterilizada, álcool e algumas ervas. — Amasse-as em algum lugar até se tornarem pastas, depois me devolva.
— Aqui está a água. — Diz Tales, aproximando-se com cautela enquanto carregava um balde. O rapaz, ao ver Cyana deitada e com um gigantesco ferimento aberto, cora. — E-ela está bem?
Apesar do leve susto de ver tamanho machucado, Tales culpava-se por só conseguir pensar em uma única coisa. Peitos. Foi Sange quem o tirara de devaneios.
— Obrigada... Tales, certo?
— Uh, ah! S-sim. Eu mesmo.
— Estou te devendo esta. — E forçou um sorriso triste. Tales corou ainda mais. — Mas, por favor, pare de olhar para ela desse jeito, é assediador.
Constrangido, o aprendiz de ferreiro retirou-se do cômodo em silêncio. O médico pegou um pano, molhou na água e limpou a nojeira cheia de terra, sangue e pus que havia ao longo do corpo de Cyana. Em seguida, jogou álcool, e a filha do inverno teve um espasmo de dor. Sange preocupou-se, quase indo ampará-la, mas o médico lançou-a um olhar reprovador que a manteve parada amassando as ervas. Depois, começou a passar a adaga esterilizada no ferimento, cortando superficialmente mas tirando aquilo que deveria estar prejudicando a infecção. Aquilo devia estar doendo muito, mas sabia que era para o bem da Guardiã da Lua. Foram longos minutos de tensão e gemidos supridos. Por fim, o médico pegou a pasta e a utilizou no ferimento, com cautela. Usou o pano que tampava seu o rosto para enxugar a testa suada.
— Ela está fora de uma situação de risco. — Admitiu, e Sange o abraçou apertado.
— Muito obrigada!
— Não me agradeça, senhorita. — O médico não retribuiu o abraço. Estava em sua pose de dever. — Mas se ela não acordar em uma semana, você deve me procurar novamente. Deixe-a repousar e não abafe esse corte. Deixarei alguns remédios para que controle a febre e alguns chás para que diminua a dor da mesma. Entendido?
Sange assentiu com a cabeça e o médico retirou-se do local. Quando finalmente estava sozinha, molhou o pano mais uma vez no balde, o torceu e colocou sobre a testa de Cyana. Ela tinha um semblante mais relaxado agora, transmitindo calma, mesmo que ainda estivesse um pouco febril. Sentou-se ao seu lado e ficou olhando-a dormir, em silêncio.
XxX
Tales estava sentado debaixo de uma árvore quando viu o médico sair da forja, retornando para sua casa encontrar seu mais novo cavalo de guerra. O rapaz sabia que aquele médico amava mais o dinheiro do que a profissão, então fora fácil conseguir seus serviços. Na verdade, qualquer um se disponibilizaria para ajudar por um animal de valor tão alto, afirmou mentalmente Tales, enquanto se levantava. Haviam se passado bons minutos desde que ele saíra da forja para que pudessem trabalhar, e agora tudo deveria estar bem mais calmo. Tirou a poeira da calça surrada e começou a ir em direção à sua casa, mas travou seus passos ao ver que a mulher da espada de duas mãos saia logo atrás. Ela procurava por alguém. Tales se aproximou, e quando seus olhares se encontraram, ele viu em sua expressão o quanto estava profundamente agradecida.
— Tales, certo? — Aproximou-se a mulher, com um semblante cansado, mas uma expressão alegre. Olhando-a agora, parecia até estar com os ombros mais erguidos, como se tivesse deixado de carregar o céu em suas costas.
— Sim... E eu ainda não sei seu nome. — Respondeu Tales, com um sorriso gentil. Era um garoto cheio de sonhos, mas limitado.
— Sange, muito prazer. — E estendeu a mão para ele, formalmente. Quando Tales segurou sua mão, ela o puxou para um abraço apertado. — Obrigada pelo o que fez por nós. Você a salvou.
Estou abraçando uma mulher com uma espada!, refletiu Tales enquanto permitia envolver-se por seus braços. Seu corpo era quente e acolhedor, e mesmo que fosse um abraço de pleno agradecimento e empatia, o rapaz não conseguia desviar seus pensamentos. Uma espada sem estar no lugar errado!
— P-por nada... Q-que isso... — Estou colado em uma mulher! — P-pode sempre contar comigo.
Sange afastou-se, sorrindo. O aprendiz de ferreiro voltou ao seu estado normal.
— Estou em dívida eterna com você. — Afirmou Sange, fazendo um leve meneio com a cabeça.
Tales estreitou o olhar. Ela carregava uma gigantesca espada nas costas, tinha ferimentos de batalha e uma amiga muito bonita. Será que ela era uma valquíria, como diziam as histórias? Se fosse o caso, poderia ensiná-lo a ser um cavaleiro! O coração de Tales acelerou, e teve de se segurar para não saltitar de alegria. Meu pai ficaria tão orgulhoso!
— Bem... Há algo que você pode fazer por mim. — Disse, e teve como resposta um olhar duvidoso. Ela reparara em seu comportamento pervertido, e por isso não deveria ter bons pensamentos a respeito do rapaz. — M-mas eu juro q-que não é nada de e-errado.
— Pode dizer. Se estiver em meu alcance...
— Quero que você me ensine a ser um cavaleiro!
Um pequeno silêncio pairou no local. Tales por um momento achou ter falado alguma língua élfica, pois a mulher encarava-o com estranheza.
— Eu sequer sou Sir para lhe ensinar isso. — Respondeu Sange, cruzando os braços. — Mulheres não podem nem se tornarem cavaleiros, para início de conversa.
— Mas... Você parece lutar tão bem quanto um. — Comentou, apontando para a espada da mulher. — E você ofereceu tudo o que tinha para salvar aquela outra, mesmo que fosse para um desconhecido. Se isso não é ser um cavaleiro, não sei o que é.
Sange deu um suspiro e levou ambas as mãos para o punho da espada, desembainhando-a. O sol deslizou pela lâmina, tão rápido quanto um trovão, e Tales teve de fechar os olhos quando a forte luz foi em seus olhos. Quando voltou a abri-los, estava admirado. Ela parecia tão poderosa quanto os heróis das histórias, porém muito mais real. Seus olhares se cruzaram e Tales soube que ela fazia parte de algo muito maior do que o palpável. Era como se o Celeste refletisse nela.
— Estou disposta a te ensinar algo muito maior, Tales. — Disse Sange, em um tom sério que até então não demonstrara. — Mas para isso precisaremos de tempo e dedicação. Você quer isso?
E ali estava. O dia que iniciara-se incompleto, faltando um peça indispensável mas que Tales não conseguia saber qual, finalmente havia aparecido, e seu dia, por fim, tornou-se completo. O moreno abriu um sorriso.
— É o que eu mais quero!
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O dia seguiu-se longo, mas ao contrário do que Tales esperava, ele não tocara em arma alguma. Pelo contrário, sua mestra o manteve longe de espadas e fez com que ficasse se equilibrando em uma única perna, alternando de hora em hora. Apesar de não compreender o motivo daquele tipo de atividade, não reclamou. Ambos treinavam fora da vila, próximos a uma floresta. Enquanto Tales treinava, Sange limpava sua espada com um pano úmido.
— Tem nome...? Digo, a espada? — Indagou Tales, quebrando o silêncio e trocando de perna. Quase tropeçou.
— Alvorada. — Respondera Sange, terminando de limpar. Guardou-a na bainha. — Quer segurá-la?
O aprendiz assentiu com a cabeça, e Sange entregou Alvorada para Tales, que ao tentar segurá-la acabou desequilibrando-se e caindo. Era muito mais pesada do que poderia imaginar, e teve dificuldades para se levantar.
— Vale mesmo a pena lutar com algo tão grande assim, mestra?! — Questionou o rapaz.
— Já disse para me chamar de Sange. E... — Sorriu. — Acredite, vale. Meus inimigos tremem as bases ao vê-la. Eu mesma tremi a primeira vez que vi.
Tales sorriu com o comentário e devolveu Alvorada. Voltou a equilibrar-se.
— Eu queria ter uma espada com nome. Como os grandes cavaleiros.
— Um dia você terá. — Profetizou Sange, enquanto olhava-o voltando para a mesma posição que antes e gesticulou, impaciente. — Pode parar com isto, você está nesse mesmo exercício por horas. Vamos tentar outra coisa.
— Opa! — Disse, saindo da posição e sentando-se. — O que será desta vez, mestra?
— Não me chame de... Ah, que seja. — Sange suspirou. — Vá até a forja e busque alguma espada. Começaremos o verdadeiro treinamento agora.
Tales abriu o maior sorriso que era capaz. Estava entusiasmado, não podia ver a hora de finalmente empunhar uma espada. Imaginou-se, por um momento, viajando pelo mundo e realizando missões para os necessitados, ganhando fama e muito dinheiro. Seu nome seria lembrado por gerações, e seus feitos memorados em canções. Quando passou por Sange, virou-se para trás.
— Mestra, posso lhe fazer uma pergunta? — Indagou, com uma feição de dúvida. Havia algo sobre ela que o intrigava.
— Sim? — Egueu uma sobrancelha.
— O que você é da... — Não sabia o nome dela, mas esperava que sua mestra soubesse de quem se referia. Sange ergueu uma sobrancelha.
— Cyana, você quer dizer?
— Ela mesma. Digo, você tem se demonstrado muito próxima dela... Ou melhor, bem preocupada. O que vocês são uma da outra?
Sange ficou pensativa por um instante.
— Nós somos... — Guardiãs. Irmãs no Celeste, quis dizer, mas sabia que não era correto espalhar este tipo de informação para os quatro cantos. Poderia dizer que eram amigas, mas esta também não seria a melhor definição para ambas. — Lados opostos da mesma moeda.
XxX
Quando estava retornando para a forja, avistou dois guardas da Capital em frente sua porta, conversando descontraidamente. Ainda não era tempo de cobrarem impostos, então por que estariam ali? O coração de Tales acelerou. Quem sabe seu pai finalmente mandara uma carta e eles seriam os encarregados de trazer. Quem sabe seu pai enviara a ele algum dinheiro, e com isto poderia comprar mais metal e fazer uma nova espada. Aproximou-se dos Artrorianos.
— Bom dia, guardas. — Cumprimentou Tales, sorridente. Os guardas se viraram para ele, assumindo uma expressão mais rígida. — O que os trazem ao meu bom e velho estabelecimento?
— Você é Tales Edmew? — Perguntou o mais alto deles.
— Eu mesmo, senhor! — Respondeu, alegre, aguardando pela provável carta de seu pai.
— Meus pêsames. — Disse o segundo, entregando a ele um envelope com a insígnia do exército. — Seu pai lutou bravamente, garoto. A Capital agradece.
O coração de Tales falhou por um momento, ou achara que falhara. Um medo percorreu-lhe a espinha lentamente. Os guardas ainda o olhavam, com olhares penosos. Como assim pêsames? Meu pai não está morto... Não... Ele não pode ter morrido... Sentiu suas mãos ficarem trêmulas, e as sobrancelhas arquearam. Os guardas permaneceram ali, como se estivessem aguardando outra reação. O sorriso caíra de sua face. Havia ali apenas medo. Ele está vivo, eu sei que está... Dirigiu o olhar lentamente para o envelope pousado em mãos. O símbolo da Capital estava ali, intocado e vermelho.
— Meu pai está vivo, não está...? — Perguntou, amedrontado em abrir o envelope. Os guardas se entreolharam por um instante. — Digam que meu pai está vivo.
— Tenha um bom dia, Edmew. — Respondeu o primeiro, desviando o assunto. O segundo fez um pequeno gesto de saudação e retirou-se junto do outro. Tales encarou suas armaduras enquanto iam embora, lentamente, não deixando outra opção para o rapaz além de abrir o envelope.
Ele não queria abrir. Temia abrir. Por que? Perguntava-se, enquanto os olhos começavam a ficar marejados. Minha mãe, agora meu pai? Quebrou o selo, abriu o envelope. Haviam três cartas. Antes que pudesse pegar a primeira, uma mão segurou seu pulso. Ergueu o olhar. Era sua mestra.
— Você não precisa lidar com isto sozinho.
Tales não conseguiu responder. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e seu coração vazio. Mágoas cobriam-o por completo, e tudo no que conseguia pensar era em seu pai. Lembrou-se de como ele sempre o incentivava, de como o fazia sorrir, de suas boas e velhas piadas. Lembrou-se da briga que tiveram no dia anterior a sua partida. Lembrou-se que o culpava pela morte de sua mãe. Era a segunda vez que perdia alguém importante em sua vida, e agora encontrava-se sozinho. Caiu de joelhos, deixando as cartas se espalharem pelo chão. As duas primeiras estavam na ortografia de seu pai. Pegou-a para ler.
Filho, sei que está bravo pela minha partida. Sei também que não gosta de trabalhar na forja. Quando eu tinha a sua idade, também não gostava de muita coisa. Tipo sua mãe. Nos odiávamos, sabia? Éramos inimigos declarados, e todos na vila sabiam disto. Mas o que começou com ódio aflorou em amor. Lembro-me que ao invés de dizer "sim", ela me deu um tapa quando a pedi em casamento. É, um tapa. Mas o que quero dizer com isto? Apenas uma coisa, meu menino: Você tem de crescer. Crescer e aprender que devemos aprender a amar o que temos. Tente amar a forja, foi ela que sempre nos deu sustento e alimento. Mas não ame a bebida como eu o fiz. Enfim, isto não é história para essa carta, logo marcharemos contra o exército inimigo. Não sei se depois estarei vivo para lhe enviar esta carta pessoalmente, mas... Saiba que lutarei pensando em você.
Tales começou a soluçar.
Desculpe-me... Pai...
Desculpe-me...
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