A Guardiã do Sol

11 Castelo de abutres — Parte Final


Notas iniciais
Este capítulo está fraco, eu sei. Está fraco por diversos motivos que não vou citar agora, mas a culpa é principalmente do emocional. Eu preciso finalizar este projeto - e por sorte finalizou-se exatamente na data/modo que eu queria. Espero que vocês, mesmo assim, aproveitem muito a leitura e mais uma vez mergulhem na história e vivam a pele dos personagens. Obrigada por tudo, galera! ♥ ~Enjoy

Era uma profunda noite onde as estrelas governavam o céu e a lua escondia-se entre as nuvens. A Capital dividia-se entre dois polos: Aqueles que festejavam a coroação do novo rei e aqueles que estavam de luto pelo falecimento do antigo. Em todo o caso, os cidadãos encontravam-se muito distraídos com suas próprias comemorações e lutos, dando chance para Sange e Cyana pegarem o caminho para o castelo do rei sem mais delongas. Ambas sabiam que este era um caminho só de ida: Ao se encontrarem com Joan com certeza haveria um embate. E seria uma luta definitiva pelo bem ou mal da Capital. Passaram todo o trajeto em silêncio, em meio aos seus próprios devaneios e rancores. Cyana, em especial, estava ansiosa; Fazia anos que desejava fazer Joan engolir cada sorriso que lhe dera — sendo a maioria deles envolto de malícias. — e arrepender-se de ter tramado contra seu reino. Sange, por um outro lado, via aquilo como mais uma de suas missões como Guardiã. A honestidade e a justiça eram os principais trabalhos de um Guardião, e tal como, ela deveria defender a Capital de mentirosos como ele.

O castelo se erguia em pedras cinzentas, pelo menos algumas torres maior que o Santuário, praticamente um dragão em pedregulho. Porém, dragões eram definitivamente mais assustadores, e um pouco mais belos, já que o castelo do rei não usufruía da mesma arquitetura que o Santuário ou as igrejas da Capital. E mesmo assim, tinha algo de especial ali, como se houvesse um segredo dentro daquela construção que ninguém além do primeiro rei saberia. Cyana arrepiou ao pensar nisto.

— Acha que vão nos deixar entrar? — Questionou Sange, quando já estavam próximas ao gigantesco portão de madeira, avistando quatro guardas que vigiavam as portas. — Joan pode ter proibido-os. E de qualquer forma, não estamos nem um pouco semelhantes ao que éramos.

— Se não deixarem, ainda assim entraremos. — Respondeu, com aquele tom superior e insensível que sempre tivera. Sange achou cômico.

— Fácil falar. — Debochou.

— Você me verá fazer. — Afirmou, assumindo uma expressão determinada.

Estarei esperando por isto, pensou Sange, sorrindo de lado.

XxX

Joan sentia-se indiferente, apesar da conquista. Agora deveria preocupar-se com alguns passos a sua frente: Lidar com a guerra ou deixar que a Capital se destrua com ela. Óbvio que seu plano inicial consistia apenas na destruição da metrópole, mas agora que tinha tamanho poder em mãos começou a reconsiderar alguns fatos. Talvez aproveitaria de seu controle do Mercado Negro para poder roubar todo o dinheiro da coroa e fundaria um pequeno país das terras inabitadas, ou então construiria uma facção e viveria em meios mercenários. A última opção pareceu alegrá-lo mais. Coroas e cetros nunca foram seu forte.

Adentrou o longo salão do trono em passos lentos, encarando fixamente o assento de ferro. Quantos ali já se assentaram? Por suas contas, dois grandes reis. E agora ele seria o terceiro, e também o último.

XxX

— Quem são vocês? — Perguntou um guarda, interceptando-as quando as mesmas saíram da escuridão das ruas e se aproximaram das fracas fogueiras que iluminavam as laterais do portão do castelo. Sob a meia-luz, as Guardiãs olharam em volta.

Haviam quatro guardas. Todos usavam a armadura pretoriana e estavam armados com lanças e escudos. Seus elmos e a escuridão da noite não permitia que suas faces fossem vistas com exatidão. Sange abriu a boca para falar e responder o primeiro guarda, mas a imponente Cyana fora mais rápida.

— Sou Cyana, Guardiã da Lua. Esta é Sange, Guardiã do Sol. — Esclareceu Cyana, encarando-o com suas gélidas orbes azuis, que naquela noite pareciam mais escuros e assombrosos que o comum.

Ele as olhou com um semblante de dúvida, erguendo uma sobrancelha. Estava prestes a perguntar, quando um outro guarda próximo resolveu questionar.

— Isto é impossível. Ambas estão na guerra... E o rei não quer receber visitas. Temos ordens e impedir qualquer suspeito de entrar no castelo.

— Sange. — Cyana disse, em um tom de ordem. A Guardiã do Sol compreendera o chamado, desembainhando Alvorada da bainha de suas costas. A espada de duas mãos rugiu em fogo ao sair da bainha, iluminando o portão como uma grande tocha. Os traços faciais dos guardas causavam grandes sombras em seus rostos, mas não impedira-as de enxergar seu susto quando ela desembainhara. Os guardas estavam em posição de batalha.

Cyana também desembainhou a espada bastarda. A lâmina era tão escura que parecia invisível.

— E-espere. — Pediu um deles, com um nó na garganta. Aquelas espadas só poderiam ter sido forjadas na Capital, e as armas dos Guardiões eram conhecidas por serem de material único com propriedades singulares. — Vocês provam ser quem são... Podem ir.

— Acha certo deixá-las passarem?! — Indagou o mais baixo entre os guardas, mas o mais corajoso. — As ordens foram...

— As ordens não importam. — Disse outro, cortando-o. — Elas são as Guardiãs. Devemos respeito a elas, tanto quanto devemos ao rei.

Saíram da posição de batalha. Sange e Cyana embainharam suas armas e os guardas abriram caminho para elas, permitindo que adentrassem o castelo.

XxX

Demorou menos tempo do que Joan tinha calculado. Já estava começando a ficar entediado quando seu atendente adentrou a sala do trono as pressas, suado e desesperado. Parecia ter visto um dragão ou demônio, todavia, o falso Guardião sabia do que se tratava antes mesmo de ser informado sobre; Pois ele havia as visto, e sorrido para elas. Finalmente sairia um pouco do tédio.

— Meu Rei! Meu Rei! — Gritou o atendente, ajoelhando-se alguns degraus abaixo do trono. Joan gesticulou para que se levantasse. — Trago boas notícias.

— Quais? — Fingiu alegria, mas seus olhos refletiam imparcialidade.

— As Guardiãs retornaram! Vivas! E estão aqui no castelo. — O atendente estava realmente feliz por isto. Pobre homem. — Devo trazê-las à Vossa Majestade?

Joan deu de ombros, escorando-se no trono. Apoiou um cotovelo no apoio, e encostou a face no punho. Ficou algum tempo em silêncio, como se estivesse refletindo, mas na verdade apenas aguardava que o atendente ficasse impaciente e fosse embora. Por seu azar, ele não o fez.

— Rei Joan? Eu devo? — Voltou a perguntar.

— Não. — Respondeu em seco. Ao perceber sua própria rigidez, abriu um sorriso gentil, como se estivesse desculpando-se. — Não, obrigado, não há esta necessidade. Elas chegarão aqui em breve, então as esperarei. Será um reencontro amistoso.

— Como queira. Devo me retirar? — Levantou-se do chão lentamente.

— Pode ir. — Permitiu Joan, ajeitando-se no trono por uma segunda vez. Ele sabia que elas não morreriam com facilidade, mas também foi uma surpresa ao vê-las em sua coroação, distantes na praça, quase as últimas. E no estado em que ambas se encontravam só poderia dizer uma coisa: A Capital havia perdido a guerra.

Suspirou. Precisava arranjar uma espada; Arco e flecha nunca fora seu forte.

XxX

O castelo estava um tanto quanto vazio. Os grandes corredores decorados com tapeçarias, que antes eram infestados de guardas, agora encontravam-se silenciosos, com apenas o som do crepitar das pequenas tochas presas nas paredes. O fogo iluminava as Guardiãs que caminhavam atentas pelas escadas, corredores e caminhos secretos, prontas para qualquer tipo de ataque surpresa.

— Onde você acha que estão os guardas? — Indagou Sange.

— Honestamente? — Cyana pensou um pouco. — Parte deles estão nas cidades, cuidando para que os cidadãos não enlouqueçam em suas comemorações ou tristezas. A outra está com Joan no trono, em formação de ataque.

Sange cerrou os punhos. O maldito falso Guardião sempre pensava em tudo. E se sabiam que ele já planejava as coisas, por que não tentar um plano de contra-ataque? A Guardiã do Sol tocou no ombro de Cyana, fazendo-a parar de andar. Trocaram olhares por longos segundos.

— Eu acho que tenho um plano. — Afirmou Sange, sorrindo confiante. — Não é o melhor do mundo, mas já é um começo para conseguirmos passar pelos exércitos dele.

— Como pensou em um plano tão rápido? — Questionou a Guardiã da Lua, e Sange deu de ombros. Ela tinha alguns truques que a Filha do Inverno desconhecia; Um deles era pensar rápido.

— Isto não importa agora, certo? Você vai me ouvir?

Cyana assentiu com a cabeça.

XxX

As portas se abriram com um estrondo aterrorizante, e os guardas apontaram suas lanças em direção àquele que entrava, formando um semicírculo de pretorianos. Joan ainda estava sentado no alto de seu trono, observando todos os movimentos de uma distância saudável. Cyana surgiu caminhando em passos lentos e provocantes, com sua espada bastarda na mão esquerda e os olhos azuis gelo fixos no olhar de Joan. Parecia ser a mesma dama do gelo que Joan se lembrava, mas agora algo nela soava mudado. Não saberia dizer se fora algum amadurecimento ou simplesmente alguns traumas, mas ela parecia muito mais confiante. E a incrível quantidade de guardas apontando suas armas para ela não causava-lhe medo algum.

— Joan! — Bradou. — Desça deste trono e venha enfrentar-me!

— Não teme que eu balance a mão e meus guardas cortem sua cabeça? — Rebateu. — Eles são quinze, você apenas uma.

Cyana olhou para cada um deles. Poderia ordená-los que abaixassem suas armas, mas sabia que aqueles guardas eram especiais e Joan os escolheu a dedo. Não eram um grupo de guardas do reino, era um grupo de guardas de Joan. Voltou a encarar o “rei”.

— Você sabe que se eu quisesse já os teria matado. Podem ser totalmente submissos a você, porém, são tão fracos quanto. — Seus olhos queimaram em fogo azul. — Então desça deste trono que não é seu e venha enfrentar-me!

A voz de Cyana ecoou por toda a sala do trono, e então se fez silêncio. Quinze lanças apontadas para seu corpo, um falso Guardião e o alto da madrugada. Se ela fosse uma pessoa normal, se consideraria em um verdadeiro cenário sem saída, onde sua única escolha seria entregar-se e desistir de seu plano, que aos olhos dos guardas e dos cidadãos poderia soar como golpe de Estado. Contudo, se fosse uma pessoa normal, não teria ascendido como Guardiã. E não estaria ali. Joan sorriu, em deboche.

— Você está me subestimando, Cy. — Disse, cortando o silêncio local e começando a bater palmas. Levantou-se do trono. — Eu pensei em pegar uma espada para enfrentar-lhe, mas você não vale a pena. Com você eu ainda posso bancar o “Guardião”.

Joan abaixou-se e pegou o arco rúnico que recebera no dia em que se tornara Guardião. Pegou uma única flecha e colocou no arco. Sorria. Era como caçar um pequeno animalzinho selvagem.

— Guardas, garantam que ela não vá se mover. — Ordenou, enquanto preparava-se para lançar a flecha. Os guardas começaram a se aproximar, empurrando-a para trás. As portas foram fechadas, e suas costas se encontraram com a maciça madeira que dividia os corredores da sala do trono.

Daquela distância e com aquela pressão ele acertaria facilmente, refletiu Cyana, e ainda não era tempo de utilizar-se de suas habilidades para que o plano funcionasse. Tudo o que podia fazer agora era enrolá-lo, ou simplesmente aceitar e torcer para que Sange conseguisse a tempo. Os guardas pararam um pouco antes de todos apontarem suas lanças para seu pescoço, e Joan estava com a seta mirando sua cabeça.

— Por que nossa amável Guardiã do Sol não veio com você? — Indagou Joan, prestes a atirar.

— Você realmente acha que ela não veio? — Sorriu, em vitória.

— O que você quer dizer com... — Antes que pudesse terminar de demonstrar sua confusão, um dos vidros da sala do trono quebraram em uma explosão de combustão e fumaça, e dentre as chamas Sange surgiu, rolando no chão e avançando contra Joan. O rei tivera que desviar sua atenção de Cyana para Sange, atirando a flecha contra a Guardiã do Sol.

Sange usou sua espada flamejante de escudo, quebrando a seta ao meio quando a mesma impactou sua lâmina. Joan dera dois passos para trás e pegou uma espada, rápido o bastante para conseguir aparar o golpe de Alvorada antes que Sange o atingisse na cabeça. Mediram forças.

— Guardas! Matem a Guardiã da Lua!

O guardas avançaram contra Cyana, mas a mesma ergueu sua espada bastarda e toda a gravidade ao redor jogou os guardas prensados contra o chão. Merda, pensou Joan, enquanto ainda dirigia sua atenção para a Guardiã do Sol. Como ela entrou pela janela a quase dez metros do chão?

A gravidade estava tão pesada ao redor da Guardiã da Lua que nem a mesma era capaz de se mover. Apesar de controlar com perfeição e maestria suas habilidades, elas não deixavam de afetá-la, e por isto era complicado manter-se de pé. Os quinze guardas estavam caídos no chão, alguns com umas costelas quebradas, outros em posições desconfortáveis. Mas o importante era que Cyana conseguira neutralizar grande parte, e agora deveria deixar o resto com Sange.

Joan desviou a espada de Sange para o lado e avançou contra a mesma, tentando um golpe contra seu ombro. Sange girou o corpo, e com ela o fogo amarelado de Alvorada, defendendo o ataque. Ambos estavam lutando com convicção e fúria, as armas dançando em movimentos ofensivos e cantando a música do choque de lâminas. A espada de Joan era especial, reparou a Guardiã do Sol, talvez alguma espada de um outro falecido ou antigo Guardião. Enquanto trocavam golpes, passeando por todo o salão do trono, Sangue pediu ao sol que a desse auxílio e permitisse que vencesse esta batalha. Se vencesse, faria qualquer coisa que o sol quisesse. Era sua promessa.

Joan estava tendo dificuldade contra a Guardiã, mas sua experiência em batalha era definitivamente muito maior. Sua dificuldade era devido aos olhos convictos de Sange, que encaravam-no e refletiam em sua imensidão acobreada a alma de uma guerreira, uma alma semelhante a que Joan possuía anos antes de se corromper. Anos longínquos. Anos passados.

Sua distração o fez abrir a guarda, e Sange o golpeou na barriga, trazendo-o para a realidade. O golpe fez com que se inclinasse para frente e levasse a mão direita à barriga. Sange ergueu a espada, mirando o pescoço exposto de Joan.

Cyana estava ofegante, não aguentando mais manter tantos homens no chão. Sua habilidade estava perdendo a força, e sua mão suava. Fechara ambos os olhos e sussurrara uma prece. Quando os reabriu, a gravidade havia voltado ao normal, e pelo menos sete homens se levantaram do chão; O resto encontrava-se desmaiado ou com ossos quebrados demais para efetuarem o ato. Pegou a espada bastarda e girou duas vezes, fingindo não estar exausta.

— Não queremos matá-la, Guardiã da Lua. — Afirmou um deles. — Então apenas se entregue.

A lua surgiu por entre as nuvens, voltando a dominar o céu. Cyana sorriu.

— Não quero matá-los. — Repetiu. — Então apenas se entregem.

E em um pulo golpeou a lança de um dos guardas, esquivando-se de outra ponta e investindo novamente em outro que aproximava-se pouco a pouco. Diferente de Sange, Cyana não enfrentava qualidade, mas quantidade; O que muitas vezes pode resultar em diversos ferimentos e, quem sabe, até mesmo um membro perdido. A medida com que ia golpeando os guardas ao seu redor a adrenalina ia aumentando em seu corpo, dando-a mais velocidade, força e intensificando todos os seus movimentos.

Alvorada quase atingira o pescoço de Joan, mas o mesmo jogou-se no chão e rolou por entre as pernas da Guardiã, usando as costas da espada para tentar derrubá-la, atingindo sua perna. Sange desequilibrou-se, mas não chegou a cair. Afastou-se e tentou outro ataque, mas o falso rei aproveitou-se de seus ataques contínuos para caminhar pelo salão, chegando até próximo a uma pilastra. Abaixou-se, desviando do golpe de Sange, e a mesma atingiu uma das pilastras, destruindo-a. Os pedaços pesados de pedra caíram em cima da mesma, que teve de assumir uma posição defensiva. Joan, que estava estrategicamente preparado, utilizou-se deste momento para atravessar o peito de Sange com a espada.

O som do golpe foi abafado pelo grito de dor da Guardiã. A pilastra desmoronou.

Cyana por um curto momento virou o rosto para vê-la, e a distração fez com que um dos guardas aproveitasse a situação para golpeá-la com um martelo de guerra em sua perna, destroçando seus ossos. Cyana caiu no chão, sentindo um algoz imensurável. O mesmo guarda que atingira sua perna avançou para finalizá-la, mas ela o derrubou com a perna saudável e fincou a espada em sua garganta. Com o auxilio da espada, levantou-se. Sozinha, a Guardiã da Lua derrotara quinze guardas.

A força que Cyana pusera em sua perna para se equilibrar fez com que um de seus ossos quebrados atravessasse sua pele e ficasse exposto ao mundo, mas mesmo assim ela continuou a arrastar-se em direção à Sange. A aurora do dia ia iluminando o céu pouco a pouco, e em breve seria dia perfeito. Ergueu uma de suas mãos em direção ao corpo da amiga, como se seu toque fosse curativo o bastante para fechar o buraco que a espada de Joan fizera em seu tronco. Sua cabeça doía como uma avalanche, seus braços fracos como uma tênue brisa, a perna destroçada como ruínas, mas era seu coração que mais causava-lhe dor. Ofegava.

— Parece que eu venci. — Convenceu-se o falso Guardiã, sorrindo. — De novo. A Capital é minha.

— P-por que você q-quer tanto a Capital...? — Indagou Sangue, segurando a lâmina gélida de Joan com ambas as mãos. Parecia tão bem encaixada em seu corpo como um quebra-cabeça, e seu sangue escorria lentamente pela arma, pintando-a com seu sangue.

— Porque a Capital é o mal deste mundo. E eu ascendi para destruí-la.

— Ódio? Está é... Sua motivação?

— Minha única.

Sange sorriu, e a expressão vitoriosa em Joan apagou-se, sendo inundada de ódio. Ela estava prestes a morrer, como poderia sorrir? Ele havia ganhado, ela, perdido, e com isto era ele quem deveria sorrir.

— Por que está sorrindo?

— Porque o sol nasceu.

Cyana estacou onde estava. A luz solar atravessou todos os vitrais do castelo e banharam Sange e Joan com uma luz vermelha, dourada, branca. O falso Guardião berrou tão alto que parecia estar no próprio inferno. A Guardiã da Lua fechou ambos os olhos, de tamanha força que a luz brilhava. De onde ambos estavam, emanava poder. E então, após o que pareceu uma eternidade de luz, tudo cessou. Cyana abriu os olhos, sentindo as pálpebras tremerem.

Joan jazia em cinzas. Sange estava de pé, ainda com o ferimento no peito, mas sem a espada atravessada em seu corpo.

— Cyana...? — Chamou Sange, virando-se para trás. — Sua perna...

— Esqueça isso! — Respondeu Cyana, com um tom elevado de voz, voltando a se arrastar em sua direção. — Sange, você...

As palavras eram inexprimíveis. Ambas aproximaram-se em silêncio, cada uma com as próprias dores. Contudo, quando Cyana envolveu Sange nos braços, a Guardiã do Sol tombara para o lado, e ambas caíram no chão. Cyana sentou-se e tomou Sange em seu colo. Estava sangrando demais, e morreria mais rápido do que desejava, pelo o que conseguiu perceber. Cyana pressionou a mão contra seu ferimento, começando a chorar, rogando à Lua que lhe desse apoio.

Mas era manhã.

— Cy... — Sange sorriu, a beira da morte.

— Cale a boca! Você vai ficar bem. — Afirmou Cyana, em lágrimas.

— Eu sei que não vou.

— Sange, eu mandei ficar quieta!

— Está tudo bem.

Silêncio.

— Você vai cumprir as promessas que eu não pude, não vai? — Perguntou Sange, após um gemido de dor. Cyana mordeu um lábio. Como, mesmo no fim, ela podia se importar com promessas?

—... Irei. — Respondeu, arfando.

— Então, se eu fechar meus olhos, saberei que estou completa.

Por favor, não os feche!, pensou Cyana, envolvendo-a ainda mais forte com os braços. Eu preciso de você!

— Obrigada, Cyana. Você foi honrada.

Não fui... Eu não pude manter promessas, salvar quem eu amei. Eu não fui!

O peito de Cyana estava muito apertado para que ela tivesse fôlego para dizer algo. Sange fitou-a com seus olhos frágeis, que agora, banhado com a luz da alvorada, pareciam ser um mar extensamente alaranjado de calmaria.

Sange sorriu, iluminando, como sempre fizera ao sorrir, o dia.

Aquela foi a última vez que o sol e a lua se encontraram.

Notas finais
Bem... Por onde devo começar? A Guardiã do Sol surgiu como uma pequena ideia, um simples momento criativo e gostoso de imaginar. Depois, começou a crescer baseado em imagens, cenas, desfechos e encrencas. Mas só foi aperfeiçoada porque tive a ajuda e apoio de todos vocês. Cada comentário, cada recomendação, cada ajuda, revisão, leitura, puxão de orelha, tudo me fez crescer como pessoa e escritora - e obrigada por isto. Tenho certeza que a Guardiã do Sol tornou-se algo muito maior e mais complexo do que era inicialmente, e devo tudo isto a vocês. Foram quatro meses de muito carinho, ajuda e, acima de tudo, aprendizado. Muito obrigada a vocês que acompanharam até aqui, e sim, este é o último capítulo de A Guardiã do Sol. A verdade é que após o 4~5 cap, eu resolvi transformar GdS em trilogia, e por isto eu terminarei esta história com várias pontas soltas. Após GsD ainda haveriam dois títulos: A Guardiã da Lua e O não Guardião. Haveria, porque não vou escrever a continuação. Não vou porque tenho outros projetos, outros planos, outros desejos. Não é momento para isto. Mas também não direi que este é um adeus; Quem sabe um dia? Se um dia a vontade de escrever as outras duas continuações nascer, eu o farei, e com muito carinho. Este não é um abandono, é um arquivamento. O projeto Guardiões estará guardado para quando meu coração quiser colocá-lo em prática. E novamente, agradeço a todos vocês que leram até aqui, tiveram o carinho de comentar, favoritar, mostrar para a tia, avó, cachorro e recomendar. Vocês são os melhores. Que o Celeste habite em vocês, Guardiões!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!