A Guardiã
4 Capítulo Três: Esgrima
Notas iniciais
A guardiã: Nosso destino é a eternidade...
Capítulo Três: Esgrima
Troquei de roupa e voltei para o quarto. Edward parecia um anjo dormindo, diferente do idiota de quando estava acordado. Peguei nossas malas e comecei a arrumar tudo no closet. Esperava que Edward não ficasse bravo por estar mexendo nas coisas dele, mas eu tinha quase certeza de que ele iria mesmo me obrigar a fazer isso quando tivesse uma oportunidade.
Havia alguns uniformes para nós dentro do closet. Calça social preta, camisa de gola alta preta, blusa cinza para colocar sobre a camisa e paletó cinza para Edward. A única mudança no meu uniforme era que tinha uma saia preta e um meião, no lugar da calça.
Tanto na sua mala como na minha havia apenas roupas e alguns produtos de higiene e, no meu caso, maquiagem. Eles não permitiam pertences sentimentais na Academia. Fotos, presentes, celulares. Nada de nada. Tínhamos que aprender a deixar nossas emoções de lado e eu não tinha ideia de como fazer isso.
Estar aqui, imaginando meu pai sozinho naquela casa enorme, me deixava de coração partido.
Lá pelas seis da tarde, quando o tédio e a fome ameaçavam minar a minha recém conseguida imortalidade, Edward acordou. Ele se espreguiçou suspirando lentamente e varreu o quarto com os olhos, parando finalmente em mim.
– Você não deveria dormir até o anoitecer? – Eu perguntei na mesma hora.
– Eu posso andar durante o dia sabe... Como os humanos podem andar durante a noite... Só que o sol me machuca um pouco. – Ele resmungou dando de ombros.
– Machuca um pouco? – Eu perguntei incredulamente. – Te transforma em cinzas!
– Só se eu for idiota para ficar exposto por muito tempo. Mas isto não vem ao caso... Isso é sua barriga roncando? – Edward perguntou franzindo a testa. Eu corei furiosamente.
– Estou com um pouco de fome. – Eu admiti timidamente.
– Por que não saiu para comer? – Ele quis saber.
– Eu tinha que ficar para te proteger, não? – Eu perguntei duvidosamente. Edward gargalhou.
– Proteger do quê? Não há perigo dentro dessa escola, Swan. E além do mais... Mesmo que quisesse, você não teria capacidade de me proteger ainda, sem treinamento, garota. – Edward falou divertido.
– Eu... Não sabia. Além do mais, não tinha certeza de poder sair sem você. – Eu falei fugindo do assunto.
– Sei... Vamos. Vamos descer para você comer algo. – Ele se levantou e estava pelado. Virei o rosto para a janela. – Pegue minhas roupas, Swan.
Eu me levantei rapidamente, evitando olhar para ele. Mais uma vez foi uma tarefa extenuante. Seu corpo parecia atrair o meu olhar como um ímã.
Peguei o uniforme da academia, sendo que eu já trocara minhas roupas pelo meu, e levei até a cama.
Ele as pegou e começou a se vestir, de costas para mim. Observei pelo canto dos olhos a curvatura de suas costas, os músculos de suas coxas e subindo para as nádegas. Edward se virou nesse instante e me pegou olhando. Desviei o olhar e corei furiosamente.
Ele não disse nada, mas ouvi uma risadinha divertida.
Quando voltei a olhar, Edward já estava vestido. Só posso dizer que o uniforme ficou melhor nele do que em mim. Com certeza.
Ele se aproximou e catou uma mecha dos meus cabelos ruivos que escorregavam para fora da trança.
– Está soltando... – Ele comentou, acariciando o lugar do meu pescoço onde a mecha estivera. Estremeci e levei as mãos à trança, desfazendo-a. Nunca conseguia fazer direito, era uma das minhas maiores frustrações.
Deixei os caracóis caírem pelos meus ombros quase na altura da minha cintura, Edward acompanhou suas curvas.
– Tem um belo cabelo. – Ele comentou.
– Obrigada, é igual ao da minha mãe. – Eu falei. Pensei na minha mãe, em como ela morrera e no homem que me salvara.
– Onde está ela? – Edward quis saber.
– Ela foi morta por um Vampiro Vermelho. – Eu comentei distraída. Olhei para ele pensativamente. – Eu quase fui morta também, mas um Vampiro Branco me salvou. Você é filho de Sir Carlisle Cullen?
Eu não tinha me tocado antes, mas eu tinha a impressão de que Sir Cullen tinha um filho chamado Edward... Ed...
– Você deve estar curtindo com a minha cara! Foi ele que te salvou? – Ele perguntou desgostoso. Eu ergui uma sobrancelha.
– Você acha que seria melhor se ele tivesse me deixado morrer? Pode me matar então, e tentar conseguir outro Guardião, se é isso que te incomoda. – Eu falei friamente, indo em direção ao closet para pegar minha mochila. Com permissão ou sem permissão, agora eu ia realmente sair daquele quarto.
– Não foi isso que eu quis dizer... – Ele agarrou o meu braço, coçando a cabeça, parecendo constrangido. – É só que... Você deve achar que ele é o máximo, como todos os outros.
– E ele não é? – Eu questionei confusa. Edward bufou e me soltou.
– Deixa pra lá. Vamos... – Ele olhou para o closet arrumado. – Você fez isso?
– Claro, quem mais seria? Desculpe ter mexido nas suas coisas, mas...
– Obrigado, ma petite rousse. – Ele disse, me deixando de boca aberta. Ele estava me agradecendo? Essa é nova.
E até que aquele apelido idiota não havia soado tão mal agora, sem o tom de deboche na voz dele. O que significaria?
– Hum... Por nada? – Eu falei duvidosamente.
Edward pegou sua mochila também e nos encaminhamos para a porta. Antes que saíssemos, porém, Edward me parou e olhou fundo em meus olhos.
– Mas antes, uma coisa... – Ele sussurrou, aproximando o rosto do meu e me fisgando pela cintura, colando nossos corpos. Seus lábios foram parar em meu pescoço e sua língua estava úmida ao percorrer sua extensão. Inclinei minha cabeça dando-lhe mais espaço, levei minhas mãos ao seu peito e me senti amolecer em seus braços.
Ele podia pelo menos avisar quando ia fazer algo assim! Fui pega totalmente de surpresa e se ele não estivesse me segurando, cairia de cara no chão.
Uma de suas mãos afastou algumas mechas de meus cabelos que caíam sobre meu ombro e então seus dentes se cravaram em minha pele. Fiquei me perguntando se algum dia me acostumaria àquilo. Eu não sabia se era assim para todos os Guardiões ou se era apenas por que Edward era... Edward. Mas a sensação de seus lábios na minha pele, seu corpo colado no meu e o meu sangue o alimentando era simplesmente entorpecente e me deixava totalmente fora de ar.
Eu sentia os músculos de Edward se flexionarem enquanto ele sugava meu sangue com vontade. E então, com um último movimento de sua língua em minha pele arrepiada, Edward ergueu a cabeça, os olhos brilhantes para mim e uma gota de sangue pendendo em seu lábio inferior. Ele a captou com a língua, ainda me encarando.
Então se afastou levemente, sem me soltar de todo, coisa que eu agradeci fervorosamente, ou desabaria aos seus pés.
– Vamos? – Perguntou por fim.
– Claro. – Respondi fracamente.
Todas as janelas ao longo do corredor estavam fechadas.
– Eles só as abrem depois do anoitecer, para que possamos caminhar por ai sem maiores problemas. – Ele explicou.
No geral, o prédio parecia bem silencioso. Faltavam cerca de duas horas para o anoitecer e acho que todos os vampiros estavam dormindo ainda.
Edward me guiou pelo corredor até a escada principal. Descemos até o salão onde fora a cerimônia de ontem. Não havia mais palco ali, mas várias mesas pequenas, como mesas de refeitório de escola.
Havia alguns Guardiões aqui e ali, bem como uns dois ou três vampiros. O ambiente estava iluminado por um lustre e eu estava me sentindo meio claustrofóbica, sabendo que o sol estava logo ali fora daquelas paredes.
A sensação passou quando vi que havia comida nas mesas. Obviamente a hora do jantar estava se aproximando e minha barriga estava começando a me envergonhar, rosnando como um animal selvagem.
– Você... Não pode mais comer, certo? – Eu perguntei, só checando.
– Comida humana, não. Não preciso mais. – Edward falou. Olhou ao redor. – Vá comer, vou falar com algumas pessoas.
– Certo... – Antes que eu terminasse, porém, ele já havia se afastado. Andei até uma mesa onde outros Guardiões estavam sentados. – Oi.
– Olá. – Reparei que o garoto moreno era o mesmo que eu vira sendo mordido ontem.
– Posso me sentar com vocês? – Eu perguntei timidamente.
– Claro, sente-se. – Ele disse. Um garoto de cabelos pretos e olhos amendoados, com traços latinos, e uma menina de cabelos castanho-escuros e olhos negros, que estavam sentados ali, concordaram. Eu me acomodei e peguei o rosbife e o purê que estavam mais próximos. Coloquei tudo no prato e comecei a comer com vontade.
– Você está mesmo com fome. – O garoto moreno falou, com seus olhos verdes se enrugando em um sorriso. Eu corei e engoli o que tinha na boca. Não estava sendo educada.
– Desculpe. Sou Isabella Swan. – Eu me apresentei.
– Tyler Crowley. – Ele se apresentou. – Esses são Eric Yorkie e Angela Webber.
– Prazer. – Eu falei sorrindo timidamente.
– Adorei seu cabelo. – Angela falou na hora. Eu sorri. Meu cabelo era um dos meus maiores orgulhos. Chamava muita atenção, coisa de que eu não gostava, mas ainda assim...
– Obrigada. – Eu falei. Voltei a comer, dessa vez mais devagar.
– Nós não a vimos por ai durante o dia. – Tyler falou.
– Eu passei o dia todo no quarto, sabe, por isso estou morrendo de fome. Não sabia que tinha permissão do meu mestre pra sair. – Eu falei.
– É, eu fiquei com medo de sair também. – Angela falou, olhando nervosamente ao redor. – Eu não sabia que eles deviam ser assim.
– Nem eu... Eles nunca contam isso na TV. – Eric concordou. Seu sotaque latino era audível e muito sexy.
– Ah, os seus vampiros também foram idiotas com vocês? – Eu perguntei surpresa.
– Shh. – Angela mandou nervosa. – Não diga isso!
– Desculpe. – Eu olhei ao redor nervosamente também. Se Edward me ouvisse... – Edward quase me mata quando o chamei de imbecil.
– O quê? – Tyler gritou. Algumas pessoas olharam para ele, que abaixou novamente a voz. – Você o chamou de imbecil?
– Não foi por mal, eu estava com raiva. – Eu falei.
– Eu deixei a toalha da minha mestra cair e quase tive a cabeça decepada. Você teve sorte. – Eric falou.
– Mas e aquela história de que a vida sem os Guardiões não vale a pena? Eles não deviam nos tratar melhor? – Eu quis saber.
– Diga isso a eles. – Angela falou.
Eu me concentrei de volta na comida, pensando que talvez tivesse sido enganada. Tudo que eles mostravam na TV, sobre os Guardiões serem as pessoas mais felizes da Terra estava começando a parecer mentira. Tudo bem, Edward não era tão ruim, se você prestasse bem atenção. Ainda assim... Pensei que seria diferente.
Terminei de comer e me recostei satisfeita na cadeira. Olhei ao redor e vi que o salão estava mais cheio agora.
– Onde vocês estiveram, se não estavam no quarto, então? – Eu quis saber.
– Lá fora. Esse ambiente fechado não está te matando? – Angela perguntou.
– Com certeza. Gostaria de dar uma olhadinha no sol. – Eu falei saudosa.
– Pois é... Tem um ginásio atrás do prédio. Tem piscina, quadra, sala de musculação... Tudo. – Tyler falou animado.
– Como vocês acham que vão ser as aulas? – Eu perguntei. – Quero dizer, quando Edward me mordeu, eu me senti diferente. Mas até agora não senti nenhum poder extraordinário brotar do nada em meu corpo.
Eric riu, acompanhado por Angela.
– É, é estranho. Imaginei isso de muitas formas, pensei que me sentiria invencível, mas até agora, nada. – Tyler falou sério.
– Edward disse que eu não teria condições de protegê-lo ainda, sem treino. Talvez a gente se sinta melhor depois. – Eu arrisquei.
– Pode ser. – Tyler falou pensativo.
– Eles vão nos ensinar esgrima, lutas estranhas e me disseram que poderemos escolher uma arma, depois. A que melhor se ajustar a nós. – Eric falou animado. Ele tinha um jeito tão espontâneo de falar que contagiava todo mundo.
– Essa é a parte estranha. Eu nunca fui de lutar nem nada... Aprendi defesa pessoal e tal, mas sei lá... – Angela falou dando de ombros em seguida.
– É, eu também não sou lá um grande lutador, mas é pra isso que serve a academia, não? – Eric falou.
– É. – Tyler disse.
– Eu pratiquei boxe, Kong fu, esgrima, e coisas assim. – Eu falei calmamente. Todos me olharam como se eu fosse louca.
– Por quê? Estava esperando um ataque a qualquer momento? – Tyler perguntou. Eu corei.
Na verdade era isso mesmo. Desde que minha mãe morreu, eu tinha medo de ser atacada a qualquer momento, por isso tinha estudado diversos tipos de lutas e outras coisas.
– Eu gosto. – Menti, dando de ombros.
– Você que sabe. – Tyler deu de ombros também.
– Hey Angela, Tyler, Eric... Tudo beleza? – Um garoto com cabelos e olhos muito negros se aproximou da nossa mesa.
– Oi Jake. Quer sentar com a gente? – Angela perguntou.
– Claro. – O tal Jake sentou-se, puxando o prato para perto.
– Isabella, esse é o Jacob Black. – Angela apresentou.
– Oi... Vocês podem me chamar de Isie, sabe. – Eu falei corando. Jacob sorriu.
– Prazer, Isie. – Ele disse, estendendo a mão para apertar a minha. – Sobre o que estavam conversando?
Continuamos especulando sobre que tipo de aulas teríamos, quem seriam os professores, o que nossos mestres fariam nas aulas, já que lutavam desde que nasceram. Esse tipo de coisas.
Algum tempo depois uma garota de cabelos castanho-avermelhados e incríveis olhos cor de violeta se aproximou um pouco da mesa.
– Essa é a minha deixa. – Jake falou, levantando-se. – A gente se vê.
Ele foi com sua mestra, que tinha cara de poucos amigos, apesar de ser muito bonita.
– Acho que a hora das aulas está se aproximando. – Erik falou parecendo empolgado.
– É mesmo. – Concordei, vendo Edward se aproximando da mesa também. – Até daqui a pouco galera. – Eu falei me levantando e me aproximando dele.
– Fez novos amigos, Swan? – Ele quis saber.
– Acho que sim. – Eu dei de ombros.
– Claro que sim. – Ele falou dando um sorrisinho presunçoso em direção à mesa em que eu estava. Olhei para trás para ver do que ele estava falando, mas não vi nada demais. – Vamos, as aulas vão começar. Temos aula de esgrima agora.
– Ah, ótimo. — Eu respondi feliz. Era um dos meus esportes favoritos. Edward me olhou de cima.
– Você gosta de esgrima? — Ele perguntou interessado.
– Gosto sim. — Eu falei sorrindo enquanto entravamos em um corredor escuro no andar térreo. Era estreito, com painéis de madeira forrando as paredes, e havia outros vampiros com seus Guardiões por ali. A maioria estava aglomerada num espaço circular no fim do corredor, de frente para grandes portas de folhas duplas, mas não tão rebuscadas como as da entrada.
Tyler chegou logo depois de nós com sua mestra, uma garota morena com grandes olhos cinzentos. Ao ver Edward, ela se aproximou de nós, trazendo Tyler junto.
– Olá Edward. — Ela falou formalmente.
– Oi Lauren. – Edward disse. Eu sorri para Tyler, que sorriu timidamente de volta. Edward olhou de Tyler para mim por um instante e em seguida voltou a falar com a tal Lauren. — Como você está hoje?
– Ótima. Apenas essa coisa de escola que está me matando. Pensei que já tivesse visto o pior com o Internato Birmingham. — Ela falou mal-humorada.
– Não exagere. Aqui temos muita liberdade, diferente daquele lugar. – Edward falou muito sério.
– Claro, meu pai fez questão de que realmente tivéssemos. – Lauren disse.
– Ah, seu pai. – Edward falou como se estivesse considerando a ideia. Olhei para Tyler, as sobrancelhas erguidas. Ele deu de ombros, o que queria dizer que ele também não tinha ideia do que estavam falando. Eu ri baixinho e ele me acompanhou.
– Qual é a graça? – Edward perguntou para mim, alternando os olhares entre nós.
– Ah... Nada, nada. — Eu falei corando.
– Ora, dividam conosco sua alegria. – Lauren falou fuzilando Tyler com o olhar.
– É só... Estávamos rindo por que não estamos entendendo nada da conversa de vocês, só isso. – Tyler falou cautelosamente.
– Claro, por que não é da sua conta. – Lauren cruzou os braços.
– Ora, não fale assim Lauren. – Edward pediu, o que eu achei uma extrema hipocrisia da parte dele, por que quando estávamos sozinhos ele também não me tratava lá essas coisas de bem. — Ela é assim com todos, garoto, não é nada pessoal.
– Cale a boca, seu intrometido. – Lauren falou olhando para Edward com raiva e em seguida arrastou Tyler para longe de nós.
– Ai, que garota nojenta! — Eu exclamei com raiva. Esperava que ela não castigasse Tyler por isso.
– Então... Já combinou sinaizinhos secretos com seus amigos, não foi? – Edward perguntou acidamente.
– Você também? Eu não acredito nisso. Nunca imaginei que os Vampiros pudessem ser assim! — Eu falei cruzando os braços com força, olhando para o lado.
– Acho que você não entendeu uma coisa, ma petite rousse. – Edward falou suavemente, perto do meu ouvido. Aquele tom me deixava amedrontada de um jeito que eu não conseguia explicar. — Nós, vampiros, temos uma natureza muito possessiva, quase territorialista. Nossos Guardiões... Bom, são as coisas mais preciosas para nós. É por isso que agimos de forma um tanto quanto... Rude... Com vocês.
Voltei-me para ele, surpresa.
– Então está querendo me dizer que vocês agem como idiotas por que gostam de nós? — Eu tentei captar a essência daquela declaração.
Edward riu.
– É basicamente isso. — Ele respondeu sorrindo.
– Eu não entendi. — Concluí.
– Não, mas talvez um dia entenda. — Ele falou misteriosamente.
Continuei confusa, mas não tive mais tempo para pensar sobre aquilo, pois as portas duplas se abriram e um homem alto, moreno, musculoso e com incríveis olhos amendoados apareceu ali.
– Entrem, Aprendizes. — Ele nos convidou.
A sala do outro lado daquela porta era redonda. Arquibancadas circundavam uma espécie de tatame circular. No centro o piso era de um material impermeável e nas arquibancadas, de pedra. Vampiros e Guardiões sentaram-se juntos num dos lados da arquibancada, esperando. Outro homem entrou e se juntou ao primeiro no centro da sala. Este tinha cabelos loiros e olhos cinzentos como nuvens em dia de tempestade.
– Sejam bem vindos ao seu curso de aperfeiçoamento. Ao saírem daqui, esperamos que sejam ótimos guerreiros. Meu nome é Arlan e este é o meu Guardião, Demetrio. — O homem de olhos cinzentos falou.
Fiquei imaginando se Arlan era gay, como Edward me dissera na noite anterior, sobre as preferências de um vampiro.
Bom, ele e Demetrio pareciam uma dupla legal e se olhavam de um jeito cúmplice que me dava certa inveja. Se Edward pudesse ser assim...
– Hoje, iremos dar a vocês a noção inicial de esgrima. Sei que alguns dos vampiros aqui já praticaram essa modalidade, então espero que não morram totalmente de tédio. — Demetrio falou, arrancando risadas de algumas pessoas, inclusive de mim. Mesmo sendo um Guardião, eles o tratavam com respeito, coisa que eu achei estranha, levando em consideração como eu e meus novos amigos estávamos sendo tratados.
– Antes de colocar vocês em uma prática provavelmente danosa para alguns, gostaríamos de explicar algumas coisas. — Arlan se adiantou. – Como todos sabem, esgrima é a arte de lutar portando uma espada. Sim, uma arte. Cada movimento seu e do seu adversário tem que ser minuciosamente estudado, analisado e compreendido. Existem vários tipos de espadas, para vários tipos de guerreiros. Há aquelas para os rápidos e leves, bem como para os mais altos e lentos. A arma deve ser uma extensão do seu corpo, por isso deve-se escolher com cuidado o tipo a ser usado por cada um.
Eu me pendurava em cada palavra que ele dizia, embevecida. Não que eu já não soubesse dessas coisas, porém o modo como ele falava me deixava hipnotizada de paixão.
– Embora cada tipo de arma exija um tipo específico de guerreiro, temos de ensiná-los a lidar com todas, de modo a estarem preparados em caso de precisarem mudar de arma subitamente. – Demetrio completou a fala de Arlan, como se tivessem combinado.
– Hoje lidaremos com a Montante. Essa é a mais comum, a que se vê com frequência nos filmes. Lâmina longa e reta de fio duplo, com um a dois metros de comprimento e cerca de um e meio a três quilos. Bastante pesada para alguns, embora seja uma das mais ofensivas, já que se pode manter distância enquanto se golpeia. – Arlan disse, indo até o canto e pegando duas espadas longas, perfeitamente polidas. – Temos algum voluntário para começar?
Arlan olhou para as fileiras de pessoas, mas ninguém se moveu. Por fim, Edward ergueu a mão, para minha surpresa. Ele se levantou e agarrou minha mão.
– Vamos! Você não disse que gostava de esgrima? – Ele disse entre debochado e curioso. Ele estava me testando?
Ah, se tem uma coisa que eu não recuso é um bom desafio.
– Ótimo, ótimo. — Arlan disse quando nos viu. — Guardiã, nada de ser boazinha com o seu mestre e você, vampiro, nada de mortes nesta sala. Você vai sentir falta de sua Guardiã se ela morrer.
Edward riu debochadamente, me olhando cheio de si.
Demetrio revirou os olhos atrás de Arlan.
– Ele acha que é melhor do que eu, mas nunca me ganhou em uma luta. — Ele resmungou para mim, que estava mais próxima dele. Eu ri, imaginando que seria ótimo vencer o Edward nesta aula.
– Eu ouvi isso, Demetrio. — Arlan falou alegremente.
– Você sempre ouve, meu velho. — Demetrio respondeu se aproximando de Arlan, lhe dando palmadinhas nas costas.
– Vou lhe mostrar quem é velho... — Arlan resmungou baixinho, fazendo alguns vampiros rirem. — Bom, vamos voltar à aula. Quais são os seus nomes?
– Edward e Isabella. – Edward se adiantou.
– Já estudou esgrima, Isabella? – Demetrio perguntou bondosamente.
– Um pouco. – Falei corando quando ele me olhou com aqueles seus grandes olhos amendoados.
– Não fique nervosa, tenho certeza de que Edward não vai te machucar. – Ele levou a mão ao meu ombro paternalmente.
– Certamente. – Estreitei os olhos para Edward, que se mantinha naquela pose altiva.
– Peguem suas armas. – Arlan mandou, estendendo as duas espadas para nós. Apoiei a espada nos pés e puxei um prendedor do braço, fazendo um coque de qualquer jeito para manter meus cabelos longe do rosto. Edward retirou o paletó e jogou-o de lado, me encarando intensamente.
Arlan e Demetrio se afastaram de nós.
– Podem começar. – Demetrio anunciou.
– Vamos dançar. – Edward sussurrou presunçosamente.
Fiz um movimento rápido com os pés, fazendo a espada voar para minha mão, surpreendendo a todos. Edward estreitou os olhos para mim e deu um passo à frente.
Imediatamente me coloquei em posição de defesa, abrindo mais as pernas e inclinando meu corpo para frente. Ergui a espada com as duas mãos, esperando.
Edward se jogou sobre mim a uma velocidade surpreendente. Ainda assim, eu estava preparada e aparei o seu golpe agilmente. Faíscas voaram tanto das espadas como dos olhos de Edward.
Ele girou ao redor de si mesmo e me atacou mais uma vez. Eu me mantive em posição de defesa, apenas observando seus movimentos. Cada golpe seu era aparado por mim, sem se quer pestanejar.
Ficamos vários minutos daquele jeito, até que eu resolvi realmente atacar, pegando Edward desprevenido, com um golpe de cima para baixo. Ele cambaleou para trás, mas se manteve firme.
Em pouco tempo estávamos atacando e defendendo com força total, mas Edward estava mais cansado do que eu, tendo atacado sozinho no início. Ao perceber isso, comecei a atacar mais rápido e com mais força.
Edward se distraiu durante apenas um segundo, mas foi o suficiente para mim.
Com um único golpe, fiz um talho em seu queixo. Foi um corte pequeno, exatamente calculado, e uma única gota de sangue brotou. Uma gota que acabou com a luta.
Meu mestre paralisou em seu lugar e lentamente levou o dedo ao queixo. Pegou a gota com seu indicador e olhou o líquido vermelho, espantado.
Um silêncio opressor caiu sobre a sala. Todos me olhavam assombrados enquanto eu ofegava com o braço da espada molemente pendendo do lado do meu corpo.
O mais incrível é que eu tinha consciência de que nunca lutara tão rápido nem com tanta força, apesar de ser boa. Meus reflexos estavam melhores do que eu poderia me lembrar e a velocidade em que nos movíamos... Era simplesmente maravilhoso.
Eu podia sentir a ardência que sentira quando Edward me mordera em cada um dos meus músculos.
Sim, eu havia mudado. Muito!
E pra melhor.
– Tentou nos enganar, Isabella? – Demetrio quebrou o silêncio, parecendo animado.
– Enganar? – Eu perguntei confusa.
– Sabe lutar como eu nunca havia visto antes. É um dom nato. – Ele falou orgulhoso.
– Eu... Tive algumas aulas antes, nada demais. – Eu falei dando de ombros e corando levemente.
Alguém começou a bater palmas. Olhei para a arquibancada e percebi que era Tyler, que sorria abertamente. Angela e Eric o acompanharam, sendo logo seguidos por todos os outros, tanto vampiros quanto guardiões. Apenas uma pessoa na arquibancada não aplaudia: Jacob Black. Ele apenas me encarava especulativamente.
– Bela demonstração, garotos. Agora os outros, se aproximem. Vamos começar o treino de verdade. – Arlan falou quando os aplausos pararam
Edward ainda me encarava intrigado. Olhei para ele e uma culpa me atingiu, embora eu soubesse que não tinha feito nada de errado.
Apenas não gostara de vê-lo sangrando. Olhei para o corte mais uma vez, mas ele já havia desaparecido. Edward ergueu o dedo sujo de sangue para o lábio, sugando-o, e se aproximou de mim.
– Você foi bem, Swan. – Ele disse.
– Você também. – Eu respondi desviando o olhar do seu.
– Não vou te deixar ganhar da próxima vez. – Ele falou indiferente.
Olhei para ele com raiva.
Deixou-me vencer? Mas não tinha jeito mesmo!
A culpa passou totalmente quando mirei seu olhar convencido brotar novamente no rosto.
Não ia deixar isso barato.
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