A Grande Peça
4 Jogo de olhares
Notas iniciais
Daniel entrou no quarto e acomodou-se numa poltrona próxima da janela. Olhou para o céu. Era noite de lua minguante.
— Queria que fosse noite de lua cheia. Acho a lua cheia linda.
— A lua minguante traz finais de ciclos. – ressaltou Cecília.
O primo pareceu bastante interessado no que a moça acabara de falar.
— Pode me explicar melhor?
— Eu acredito que a lua influencie no modo como as pessoas agem. A lua nova é o nascimento ou renascimento. Perfeita para iniciar algo. A lua crescente é a próxima. Representa o fortalecimento, o crescimento de alguma coisa. Podem ser laços ou um amor. A lua cheia pode vir como o ápice de algo ou o início de um precipício. Ela potencializa tudo. É também a fertilidade. Por último, vem a minguante. A morte, o fim. Ela encerra ciclos. É a última fase da lua.
Ele colocou o cotovelo em cima da poltrona e apoiou o queixo com as mãos. Lembrou-se do final do caso do pai. Ele estava feliz pelo pai ter se separado daquela mundana, mesmo sendo ela a primeira a tomar a iniciativa. Há males que vem para o bem, pensava. Pensava com uma ingenuidade que até hoje tenho pena. Ficava preocupado com a lua nova que estava por vir. E se reatassem? E se o pai arrumasse outra e fosse embora quando chegasse a próxima lua? Estava pensativo há um tempo e Cecília viu a oportunidade perfeita para arrancar informações daquele idiota.
— Algum problema? – perguntou.
— Não, nenhum. – respondeu, tirando aqueles pensamentos da cabeça.
— Sabe, Daniel... Eu não gosto de me meter em problemas particulares. Eu sou só uma hóspede, mas não deixo de ficar curiosa com a situação. Estou me sentindo um pouco deslocada. Primeiro, Glória fica me olhando diferente. Ela parece me odiar. Depois, tem a situação do seu pai. Eu não estou entendendo nada. De qualquer forma, desculpe se estou sendo atrevida. Como eu disse, sou só uma hóspede.
— Você não está sendo nada atrevida, Cecília. É da família. Eu vou te contar tudo. Bom, sobre Glória... Ela é uma invejosa. Nunca aceitou meninas mais bonitas que ela...
— Eu sou mais bonita que ela? – indagou Cecília, provocando e já sabendo da resposta.
— Acho que você é a menina mais bonita que eu já vi. – respondeu, olhando nos olhos da prima.
Por dentro ela estava adorando aquela situação. Usaria o rapaz de fantoche para colher todas as informações possíveis.
— Prossiga, Daniel.
— Além do mais, acho que ela tem medo do noivo dela ficar interessado em você. Como eu já te disse, você é linda e ela sabe disso.
— E o seu pai?
Ele chegou mais perto, falando em tom de confidência:
— A amante terminou com ele. Ele está arrasado. Vou te explicar o que houve. Um dia desses, a mamãe recebeu um telefonema que dizia que meu pai a enganava. Ela ficou muito desconfiada e, num belo dia que ele ligou avisando que chegaria tarde, o seguiu. Eu estava com ela e vimos a tal Leda. Ela era tão linda quanto mercenária. Sugou o dinheiro que o papai pode dar a ela e foi embora. Isso ocorreu hoje. Eu estava no meu quarto e o papai chegou. Bêbado, para variar. Disse coisas horríveis da mamãe. As piores atrocidades que você pode imaginar.
Cecília sentia-se satisfeita com a desgraça daquela família. Queria ficar sozinha para arquitetar o que faria com Glória.
— Daniel, acho melhor você sair do meu quarto.
— Mas Cecília... Eu não tenho onde dormir.
— Não vai ser no meu quarto. Imagina se te vissem saindo daqui pela manhã? O que acha que pensariam?
Ele fixou seu olhar no da prima e acabou aceitando. Foi dormir na sala. Enquanto isso, Cecília sabia exatamente o que faria para colocar a prima em seu lugar. Descobrira seu ponto fraco e usaria contra ela. Começaria se arrumando bem mais para matá-la de inveja. Comeria pelas bordas. Depois, quando visse o tal noivo, daria um jeito de deixá-lo louco. Não era sua intenção fazer com que o noivado da prima acabasse, apenas queria mostrar que era melhor que aquela idiota e que, se quisesse, conseguiria.
Dormiu como um anjo. Acordou e fez uma maquiagem belíssima. Também vestiu uma de suas melhores roupas e desceu para o café.
Estavam todos na mesa. Finalmente vira o famigerado Anselmo. Sentou-se ao lado de Daniel e encarou o tio. Era um olhar provocante e desafiador, ficando ainda mais evidente com a maquiagem que fizera. O homem odiava a família da esposa, mas teve que reconhecer que Cecília era bela. Tinha raiva da menina por carregar o sobrenome Lins, mas... Era linda. Sentia uma mistura de raiva e perplexidade diante de tanta beleza, por isso, olhava ao mesmo tempo em que tentava desviar o olhar e Cecília percebeu isso. Glória também percebeu e cutucou a mãe. Daniel continuou com seu café da manhã sem notar o que estava ao redor.
A hóspede tentava não demonstrar que estava gostando da situação, mas quando percebia, olhava para o marido da tia. Era engraçado e divertido vê-lo sem saber o que fazer e nem para onde olhar. Olhava para Glória, que o encarava como quem sabia o que estava acontecendo. Olhava para a esposa, que o reprovava com o olhar.
— Daniel, como está na faculdade? – perguntou, tentando livrar-se da situação.
— Está tudo muito bem, papai. Cecília, – dirigiu-se à prima – eu nem te contei que o papai é engenheiro também. Pai, quando ela estiver no tempo de estagiar, vai arrumar um estágio para ela na construtora, não vai?
Naquele momento, todos da mesa fuzilavam Daniel com o olhar. Cecília deliciava-se com a situação.
— Claro. – respondeu, pegando a mala e levantando-se da mesa – Se me dão licença, estou atrasado.
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