A Grande Peça

2 A Hóspede


Notas iniciais
Dois capítulos seguidos logo no primeiro dia porque julguei injusto jogar para vocês uma história e deixá-los sem entender nada.

Cecília chegou à casa da tia numa manhã ensolarada e perfeita para aproveitar a praia de Copacabana. Faltava uma semana para as aulas na universidade começarem. Na casa, estavam presentes apenas a tia Sandra e a empregada Conceição. Tocou a campainha e a criada foi abrir a porta.

— Cecília! – Sandra caminhava de braços abertos em direção à sobrinha – Como cresceu! Está uma moça linda! Lembra-se de mim?

A menina fixou o olhar na mulher e não conseguia lembrar-se de tê-la visto nenhuma vez em sua vida.

— Me foge à memória.

— É claro. – respondeu a tia – Você não devia ter nem um ano quando te vi. Muito me surpreende seu pai nunca tê-la mandando para cá nas férias.

— Na verdade eu nunca tive tanto interesse em conhecer o Rio.

— Mas o Rio de Janeiro é lindo! Quando começar a sair, vai ver. Ficará arrependida de não ter vindo antes. Eu adoro.

A menina sorriu forçadamente. O Rio de Janeiro seria apenas uma ponte para o seu sonho de se tornar uma grande engenheira. Aproveitaria para conhecer novas pessoas, é verdade. Seriam cinco anos, de qualquer forma, sem levar em consideração as greves.

Cecília era incrivelmente linda. A mulher mais linda que lhe vier à cabeça jamais poderá ser comparada a Cecília. Ela sabia disso. Sabia também que sua beleza poderia levá-la aonde ela quisesse chegar.

Sandra levou a sobrinha até o quarto e deixou que arrumasse as coisas sozinha e a seu gosto. A menina olhou ao redor do quarto. Era bonito, confortável. Aquelas paredes a acompanhariam durante o seu curso. Organizou tudo como queria. Demorou um pouco para colocar as roupas no guarda-roupa, os cosméticos na penteadeira e os calçados em um canto no quarto. Olhou o relógio, faltava meia hora para as doze. O almoço na casa era servido ao meio dia. Deitou-se na cama para relaxar até chegar a hora.

Enquanto isso, Sandra estava em seu quarto lendo salmos da bíblia. Ela não se incomodava com a sobrinha morando lá, afinal de contas, era sangue do seu sangue. Andava um pouco arrependida de ter se distanciado da família depois que casou. Seu marido só lhe dera dor de cabeça em todos aqueles anos de casados, no entanto, por conta de sua religião, aguentava tudo calada. Daqui a uns anos, estaria aposentado e ela poderia tê-lo somente para si. Ao pensar nisso, ficava conformada.

Até hoje julgo se Sandra realmente amava Anselmo ou se apenas não queria perder a boa vida.

Conceição bateu à porta do quarto da patroa para avisar que o almoço estava pronto e que Anselmo ligara para avisar que não almoçaria em casa. Apenas Glória havia chegado da escola e já estava a sua espera. Levantou-se da cama e ordenou que a criada fosse chamar a sobrinha.

A bela Cecília estava em seu quarto dormindo um pouco quando Conceição bateu à porta.

— Diga.

— A dona Sandra mandou avisar que o almoço já tá na mesa, viu?

— Obrigada.

A moça desceu e encontrou Sandra e a filha sentadas à mesa. Acomodou-se.

— Cecília, essa é Glória, sua prima. Glorinha, essa é Cecília.

Glória fitou a menina de cima a baixo com desdém. Era uma invejosa.

— Oi. – disse.

— Olá! – respondeu de maneira cortês.

— Espero que sejam amigas. – ressaltou Sandra.

Fizeram seus pratos. O olhar de Glória era desafiador e Cecília evitava cruzar o seu. Comeu de cabeça baixa, concentrada apenas no prato e olhando para a tia quando era necessário responder alguma pergunta. Enquanto isso, a prima cortava a carne como quem cortava o pescoço da hóspede.

Cecília terminou seu prato antes que qualquer outra. Olhava para os lados, evitando olhar para Glória. Percebendo a inquietação da sobrinha, Sandra permitiu que fosse descansar. A menina agradeceu aos céus.

— Quanto tempo ela vai ficar aqui, mãe? – indagou Glória assim que a prima saiu.

— Eu não sei... O tempo que durar o curso dela, por quê?

— Mãe... A senhora ainda não percebeu os problemas que essa menina pode nos causar?

— Eu já pensei nisso, Glória. Assim que o Daniel a vir... Tenho pena! Mas ai dele! Se Augusto César souber que o Daniel anda marcando a filha, vem aqui e castra o teu irmão.

— Eu não estou nem aí para o Daniel! Espero realmente que ele se engrace com ela! Antes o ele que o José Carlos.

— Minha filha, o José Carlos te ama! Ele jamais olharia outra menina além de você.

— Eu espero, mamãe.

José Carlos não amava Glória. Ele tinha medo de Glória. Tinha medo do pai de Glória. Se dependesse dele, já havia terminado com a menina. Em uma época, ele realmente pensou em acabar tudo, mas Anselmo o jogou contra a parede e ao invés de terminar, teve que noivar. O casamento estava marcado para o final daquele ano, quando a noiva terminasse o ensino médio. Não podia olhar para o lado, que a menina já estava perguntando o que era e para quem estava olhando. Ele detestava aquela vida. Eu também detestaria.

Após o almoço, as mulheres foram descansar. Daniel chegaria por volta de umas cinco da tarde e sua irmã já estaria alcovitando a menina.

Notas finais
Aproveitem. Próximo capítulo, só depois. Beijinhos. Comentem, por favor!