A Grande Busca

11 Sinais demais para uma só manhã


Notas iniciais
OOOOOOI ;) Me desculpem se vocês acham que estou enrolando muito, é que acontecem muitas coisas pequenas que são importantes para o andamento da história e não posso deixar os detalhes de lado *_* Enfim, espero que curtam esse capítulo como eu curti escrevê-lo. Té mais o/

Enquanto uma chuva incessante caía do lado de fora, eu tentava cessar os pensamentos do lado de dentro. Fechava os olhos repetidas vezes, me revirava no colchão, me forçando a ter algum sono, a finalmente descansar. Estava exausta, sentia todos os meus músculos tensos, doloridos, cansados. Mas minha cabeça estava cheia de dúvidas, inseguranças... medos. E dormir fora da minha cama, com o colchão colocado da melhor maneira possível no chão da sala não fazia o sono vir mais fácil.

Depois de terminar de jantar e acalmar meu estômago embrulhado, todos concordaram em deixar a louça para o dia seguinte. Nós queríamos ajudar, mas estávamos todos tão cansados que decidimos dormir e relaxar um pouco até o dia seguinte, quando decidiríamos nosso plano. Um plano. ‘Seus amigos pensam que sabem o que estão fazendo, mas eles não sabem’. As palavras de Bianca sussurravam em meu ouvido, com um tom provocativo, enquanto eu lutava para me desligar desse mundo por apenas algumas horas. Dormir, só quero dormir.

Lyanna se mexeu no colchão perto de mim, a mão subitamente posta no cabo da espada ao seu lado, juntamente com as partes de aço de sua roupa, enquanto resmungava durante o sono. Não preciso me preocupar, vamos ficar bem, eu pensava. Os colchões estavam dispostos no chão da sala de um jeito bem curioso. Três de casal, um de solteiro. Um meu, um de Manoela, um dos meus avós e um da Dona Angela, a governanta. Cada um fora tirado de suas respectivas camas e colocados entre os sofás da sala de estar para que todos ficassem seguros. Ninguém queria dormir sozinho. Ninguém se sentia protegido. E não é pra menos, justifiquei.

Os colchões de casal foram trazidos com o maior sacrifício do andar de cima enquanto o de solteiro foi pego no quarto ao lado da sala de jantar. A mesinha de centro fora tirada e cada sofá empurrado contra uma escada na lateral da sala, os colchões formando uma linha, da porta até o corredor. Hugo ficara com o de solteiro e dormia no canto mais afastado de mim, perto da porta. Espero que esteja dormindo bem, pensei. Depois, o colchão de meus avós, com Raquel e Pedro, abraçados enquanto desfrutavam de um sono tranquilo. É justo, pensei. A cama de um casal para um casal. Ao lado desses, deitavam Nymeria e Katy, acostumadas a dividir a cama desde pequenas, por serem irmãs.

E finalmente, eu e Lyanna. Olhei para o teto para não precisar encarar o corredor escuro que se estendia à minha esquerda. Meus olhos já haviam se acostumado um pouco com o preto da noite, então já conseguia distinguir algumas formas. Via o lustre no teto, bem acima. A sala deve estar bem curiosa vista do alto, pensei. Sete pessoas compartilhando quatro colchões, nenhum corpo claramente visível na escuridão da tempestade, em uma confusão de lençóis, cobertores e travesseiros. Então, um relâmpago iluminou toda a sala, acompanhado de um barulho ensurdecedor de trovão, e do vento batendo nas janelas fechadas. Consegui enxergar a porta com o clarão. Está trancada, fique tranquila, ninguém vai entrar, eu me consolava. Mas quando a luz se foi e o breu voltou, meus olhos arderam e eu não consegui aguentar. Sucumbi à exaustão, esperando com todas as forças não sonhar.

Mas foi em vão. Tive pesadelos. Vários, em um ritmo ininterrupto, como batimentos cardíacos que repetem a mesma sequência agoniante. O sonho começou com o dia da morte de meu avô. Estávamos em casa, eu e minha irmã lendo tranquilamente no andar de cima e meu avô no de baixo. E então eu ouvi um barulho, alto, de algo batendo na porta, arrombando-a. É só um sonho, é só um sonho, eu repetia pra mim mesma quando ouvi um som ainda mais alto de algo de vidro se espatifando no chão, seguido de uma discussão que eu não conseguia entender. Eu não tinha certeza se aquilo tinha mesmo acontecido no dito dia, mas os barulhos pareciam mais altos, mais perturbadores. Corri para o quarto de Manoela, e ela tinha sumido. Gritei por ela, correndo todo o andar de cima, até que alcancei as escadas e vi lá do alto, meu vô tendo uma convulsão na sala de estar. Meu coração batia rápido, eu não sabia o que fazer pra ajudar. Desci correndo as escadas e antes que pudesse chegar perto dele, uma garota vestida em roupa de garçonete, com curtos cabelos loiros apagados, jogados todos para o mesmo lado, olhos puxados e um sorriso maníaco no rosto, entrou por entre os destroços da porta.

– Não adianta. – ela disse. – Ele está morto, sua tola.

E quando olhei para meu vô, ele havia parado de se mexer. Gritei por ajuda, e a garota desapareceu. De repente, antes que eu pudesse ter uma reação, apareceram todos os seis. Hugo, com uma faca na mão, tentando me abraçar, e Raquel e Pedro, algemados, sendo carregados por ele. Lyanna, Nymeria e Katy apareceram logo atrás, lideradas por uma alta e evoluída garota de cabelos negros. Seus olhos azuis brilhavam mesmo a distância.

– Vamos, aceite minha oferta. É a melhor opção que você tem. – ela sussurrava.

Eu andava de costas, tropeçando nos sofás, a faca de Hugo perigosamente perto do meu coração. Eu tremia, mas sabia de alguma forma que era um sonho. Por isso, parei de andar. Quando fiz isso, a ponta da faca de Hugo quase alcançou meu peito, ele com um olhar triste no rosto, lágrimas caindo dos olhos cinza. Foi quando alguém me puxou por trás, me levando até o jardim de frente. Vi a expressão de surpresa no rosto de todos enquanto o desconhecido me levava pra longe deles. Manoela apareceu, sentada nos degraus da escada, chorando. Chamei por ela, e quando ela olhou pra mim, sorriu, os olhos brilhando de alívio. Uma onda de calor me atingiu, e eu sorri de volta, lutando contra os braços fortes que me levavam pra cada vez mais longe dela. E então, ela sumiu tão subitamente quanto surgiu, uma risada nos lábios, em meio a uma luz roxa.

– Me solte! Me largue! Quem é você?! – eu gritava para meu salvador, me debatendo em seus braços.

E então ele me virou para encarar seu rosto, mas sem me soltar. Era pelo menos cinco centímetros mais alto que eu. Cachos castanhos formavam seu cabelo que brilhava a luz do Sol, tão incomum nesses dias. Tinha um rosto um pouco arredondado, uma pequena marquinha no queixo, que eu também tinha e uma pele branca, lisa como pele de bebê. Ele sorriu pra mim, um sorriso perfeito, cheio de amor e calor. Um sorriso com covinhas. E seus olhos... nunca vira nada igual.

– Fique tranquila. Você me conhece. Está a salvo agora, Alice, descanse. – e com um abraço que fez meu corpo todo se aquecer, eu deitei minha cabeça em seu ombro. Pela primeira vez, eu me sentia segu...

– ACORDA ALICE! ACORDA AGORA! ANDA, ANDA, ACOORDA! – uma voz irritada sussurrava no meu ouvido, enquanto sentia alguém me cutucando. Abri os olhos, relutante. Maldito seja quem me tirou desse sonho, pensei. Olhei pra cima e encarei olhos cinza.

Hugo. Sentei-me no colchão, e já ia começar a perguntar por que ele tinha me acordado com tanta pressa quando vi que todos estavam de pé, ao redor da porta da frente. O silêncio na sala era palpável, ninguém falava nada. Cabelos embaraçados, roupas amarrotadas, eles tinham formado um meio círculo ao redor da porta, a luz do dia já amanhecido entrando pela janela e refletindo a poeira no ar. Via Nymeria um pouco mais para trás que os outros no círculo, agachada, o arco em posição, com uma flecha afiada já preparada. Lyanna tinha sua espada, Katy, seus punhos ingleses. Raquel e Pedro, mesmo sem arma alguma, estavam em posição de alerta.

– O que está aconte... – comecei a perguntar, levantando, tentando arrumar minhas roupas e meu cabelo e indo onde todos estavam.

– Fica quieta! – sussurrou Hugo, segurando meu braço para que eu parasse.

– Me larga! – murmurei de volta, irritada, puxando meu braço de volta. – Me explica porque eles...

E então, ouvimos um barulho de algo batendo na porta. Parei no lugar e prendi a respiração. Ah não, pensei. Esperei por alguns segundos até ter coragem de me mover. Cheguei mais perto e por cima do ombro de Katy vi a maçaneta se movendo pra cima e pra baixo. Alguém quer entrar na casa. Mas ninguém vai entrar, não, ninguém vai nos machucar de novo, pensava comigo mesma. Outra pancada na porta, outra mexida na fechadura. Todos ao redor do círculo, que agora incluía eu e Hugo, estavam tensos, alertas a qualquer movimento, sem saber o que fazer quando este viesse. Eu estava começando a ficar assustada. Lembrei-me da garota loira do meu sonho, da porta toda quebrada e da forma maníaca como ela sorrira pra mim por sobre os destroços dessa. Não, sua louca, você não vai entrar na minha casa. Mas quando eu já estava indo procurar uma cadeira e puxar alguns móveis para barrar a entrada, o movimento cessou. Silêncio total. Nós mal nos atrevíamos a respirar, aguardando, aguardando, por segundos, minutos...

Tive a impressão de que se passaram uns cinco minutos até que nós finalmente nos atrevêssemos a respirar normalmente. O perigo havia passado. Mas esse era o problema. O perigo sempre tendia a vir quando se menos espera, te pegando envolto em sua aparente segurança. Nymeria abaixou o arco, relaxando os ombros. Lyanna abaixou sua espada, respirando fundo e fechando os olhos. Katy colocou os punhos na cintura, soltando um ‘ufa’. Raquel e Pedro se abraçaram e pude ver que Raquel tremia. Olhei para Hugo, precisando muito de um abraço, mas me contive. Lembrei-me do meu sonho, a forma como ele apontava uma faca para o meu coração. ‘É um sinal?’, me perguntava. Não tinha certeza se confiava ou não no pesadelo daquela noite, mas até que o susto passasse, preferia ficar longe.

Como havia cinco banheiros na casa – um para cada suíte e um no corredor no andar de cima e um no andar de baixo – eu me ofereci para arrumar as camas enquanto eles tomavam um bom e necessário banho. Quando Lyanna fez que ia ao banheiro do corredor de baixo tomar um banho, perguntei discretamente se ela queria uma troca de roupa emprestada, já que as roupas simples de couro que ela usava eram as únicas que eu a vira trazendo.

– Não se preocupe. – ela sorriu pra mim, o cabelo desgrenhado e os olhos pesados de sono, erguendo uma bolsinha pequena que segurava em uma mão. – Já me acostumei a levar poucas coisas em viagens longas. Pode parecer que não trouxe nada, mas tudo que eu preciso está aqui.

Cada um deles seguiu para um banheiro com uma bolsa ou mochila. E eu pensando que eles não trouxeram nada. Eles vieram preparados, pensei. Preparados pra ficar, pra ajudar. Meu estômago embrulhou quando lembrei que aquele era o dia em que sairia com Nymeria para escutar a proposta de Bianca. Eles vieram pra ficar, e eu estou indo embora. Quase não podia suportar a culpa. Para aproveitar um pouco o tempo que teria sozinha para pensar, fui arrumar as camas, e o pesadelo da noite passada invadiu meus pensamentos. Enquanto dobrava as cobertas e as colocava em cima dos sofás, tentava por em ordem os detalhes do sonho, que ainda me assustava. O menino, que me abraçara no final... quem era? E por que dizia que me conhecia? Era o mesmo com quem eu sonhara antes de acordar na casa de Hugo? E a menina do sorriso maníaco? Seria ela que tentara entrar pela porta da frente há alguns minutos? Estaria ela ainda rondando a casa? E a garota de cabelos negros? Seria Bianca? Por que Raquel, Pedro, Lyanna, Katy e Nymeria estavam sendo reféns de pessoas como essas?

Mas havia duas pessoas no sonho que me incomodavam mais: Hugo e Manoela. A forma como minha irmã sorrira quebrara meu coração em pedaços e a saudade cresceu em mim de tal forma que quase não aguentei. E a forma como ela sumira logo depois de me ver... será que mesmo depois de todo o meu esforço para encontrá-la, seria tarde demais? Milhares de pensamentos e angústias rodavam em minha mente quando inconscientemente dobrei o último lençol e o coloquei em cima do sofá, na pilha das cobertas e lençóis já arrumados. Estava justamente levantando um dos colchões de casal e o encostando à parede à direita da porta, ao lado de uma das escadas quando a forma como Hugo apareceu em meu sonho perturbou meus pensamentos. O medo daquela faca e daquele olhar me arrepiou toda, como uma carga elétrica. Eu não entendia o porquê dessa aparição dele, mas sabia que me assustava. E mais uma onda de arrepios percorreu meu corpo quando ouvi a voz dele, a alguns passos atrás de mim.

– Poderia ter te ajudado se tivesse me avisado antes.

Respirei fundo, pedindo calma a mim mesma e me virei para encará-lo. Estava com as mesmas roupas de antes, a mesma camiseta simples cinza e a mesma calça jeans. Olhei intrigada para seu cabelo seco e desalinhado, que o fazia parecer como se tivesse acabado de levantar da cama.

– Não preciso de ajuda – respondi, secamente, e senti remorso na mesma hora quando o sorriso prestativo dele se transformou em uma careta de ‘por que está falando assim comigo?’.

Foi só um sonho, Alice, eu me lembrava enquanto suspirava e mudava minha estratégia.

– Quero dizer, consigo muito bem arrumar as camas sozinha, não vai me matar, ok? – tentei soar apenas cansada, não queria que ele sentisse minha apreensão ao encarar de novo aqueles olhos cinza que tanto me perturbaram durante meu sonho. – Afinal, por que não foi tomar banho como os outros? Seu cabelo está seco e não pode ter secado tão rápido.

– Sei que você é extremamente boa em matemática mas dessa vez eu ganhei de você – ele disse enquanto dava um sorrisinho e chegava um passo mais perto. Eu não tinha para onde recuar, então só olhei para ele, minhas costas contra o colchão, confusa por não ter entendido o que ele disse e nervosa por sua aproximação.

– Não entendi – respondi, enquanto dava um passinho minúsculo para minha esquerda, esperando que ele não percebesse.

Ele percebeu. Recuou um passo, a mágoa e o ressentimento estampado em seus olhos. Ele não entende porque se afasta dele, menina. Não tem nenhum motivo pra fazer isso. Um sonho é um sonho, e ele cuidou de você depois que foi atropelada, quando você dormiu por dois dias, disse uma voz em minha cabeça. Tentei ignorar a segunda voz quando dei um sorriso e um suspiro, me forçando a esquecer de tudo aquilo e apenas confiar na realidade. Acontecia que a segunda voz dizia: pois é, mas quem te atropelou foi ele, né.

– São cinco chuveiros para sete pessoas. Não acha mesmo que eu fui tomar banho com algum deles acha? E só porque não fui com os outros na esperança de conversar a sós com você por alguns minutos não precisa se afastar de mim como se eu fosse um maníaco perseguidor – e com os olhos cheios de raiva ele virou as costas e fez que ia embora.

– Hugo, por favor, me desculpe – disse, me arrependendo de ter sido tão rude com ele e segurando seu braço direito pra que não andasse mais. – Foi um dia difícil ontem e, estou cheia de coisas na cabeça, sabe que me estresso rápido demais e faço as coisas sem pensar. É só que, os pesadelos não foram muito bons.

Olhei pra baixo, envergonhada por ter achado que eu era a única que estava tendo dias e sonhos difíceis. Ele se virou pra mim e me deu um abraço. Por uns instantes, queria dormir e não sonhar, não pensar, mas me lembrei de que tinha muitas coisas ainda para resolver e me soltei do abraço, tentando transmitir meu afeto por ele por olhar, já que meu sorriso era tímido.

– Eu queria falar com você, lembra? – ele me disse, enquanto me ajudava a erguer o segundo colchão e coloca-lo contra a parede, junto com o outro.

– Ah, é. Claro. Pode falar – respondi, aguardando a resposta dele.

– É sobre aquele nome estranho que as meninas mencionaram várias vezes ontem. Elas não paravam de falar sobre algo chamado ‘Lá’, se lembra?

Será que ele sabe alguma coisa sobre isso? Ah, seria muito bom ser informada sobre algo, pensava com uma excitação crescente, ansiosa.

– Claro – respondi. – Você sabe o que significa? – perguntei quando encostamos o colchão na parede e nos encaramos, um em cada ponta deste.

– Já ouvi algumas histórias, meu pai costumava falar esse nome quando conversava com minha mãe – ele se virou e foi pegar o outro colchão, cabeça baixa. Ele sente falta da mãe, pensei. A ferida ainda é muito recente. Segui-o e decidi esperar que ele tomasse a iniciativa de falar novamente. Assim que cheguei ao seu lado e erguemos o colchão, ele voltou a falar. – Parece ser um lugar maravilhoso, do jeito que meus pais falavam sobre ele. Não sei onde fica, ou o que é, mas aparentava ser algo diferente do que estamos acostumados. Eles falavam como se não pudéssemos ir pra Lá sempre que quiséssemos, não parecia um lugar onde podíamos chegar de carro, entende?

– Aham – concordei, quando o terceiro colchão foi encostado à parede, ao lado dos outros. – Pensando bem, acho que já devo ter ouvido alguma coisa aqui também. Dos meus avós, eu digo, já que meus pais não moravam aqui. Agora que você mencionou, me lembro de meu avô ter falado algo sobre esse lugar. Sabe, coisas como: ‘Ah querida, como sinto falta de Lá.’. Mas nunca pensei que Lá fosse um nome próprio, entende? Sempre me pareceu que ele estivesse falando de um lugar qualquer, afinal, esse nome é meio confuso.

Ele seguiu pegar o colchão de solteiro e eu me apoiei na parede, já que ele fez sinal de que não precisaria de ajuda.

– Meu pai falava esse tipo de coisas também – ele continuou. – Minha mãe, principalmente, sempre tinha um brilho no olhar quando falava sobre Lá, mas isso eu só sabia porque espionava durante suas conversas, já que eles sempre tinham o cuidado de falar sobre isso quando pensavam que eu estava dormindo.

– Aqui também sempre foi assim, meu vô... – estava prestes a completar a frase, quando Lyanna apareceu na sala, diferentíssima da última vez que a vira. Hugo assobiou e eu fiquei tão chocada que só consegui rir e aguardar uma explicação.

Ela usava uma calça jeans skinny, uma camiseta do ACDC e um all star vermelho, como uma adolescente normal. Seus cachos castanhos ainda molhados caíam por suas costas e seus olhos amendoados brilhavam de expectativa. E o que me chocava mais não era o fato de ela gostar de ACDC, mas o fato de ela estar... normal. Dei outra risada e me aproximei dela, que carregava sua bolsinha também normal e andava como se estivesse desfilando.

– E aí, pareço uma adolescente normal? – ela perguntou pra mim, sorrindo.

– Claro! Você caprichou hein. Você está completamente normal – respondi, e Hugo, apoiado no colchão atrás de mim, concordou com a cabeça.

Nesse momento, ouvimos a voz de Katy, vinda da escada da esquerda, o lado oposto de onde estávamos trabalhando com os colchões.

– Abram alas para a super linda Katy, e sua irmã gata, Nymeria. Opa, e sua irmã loba, né.

E as duas desciam as escadas. Katy, descia como se estivesse em um desfile de moda, uma calça skinny e uma camiseta rosa com um colete jeans por cima, com uma sapatilha também rosa. Já Nymeria descia toda envergonhada, como se se sentisse estranha sem sua armadura e roupa de couro. Usava uma calça jeans skinny também, com uma bata preta com alguns bordados e um all star vermelho sem cadarço.

– Parecemos normais? – perguntaram as duas ao mesmo tempo quando chegaram ao pé da escada.

– Com certeza – respondi, com um sorriso, tentando disfarçar minha vergonha por estar usando uma calça legging e uma camiseta enorme que usara como pijama.

Subi as escadas e me dirigi ao meu quarto, para tomar banho no banheiro que já estava livre. Os prós e contras de confiar em Hugo depois do sonho eram tantos que me confundiam. Por isso, escolhi tomar banho de chuveiro, pra ver se a água que caía com força sobre minha cabeça podia lavar os pensamentos também. Terminei meu banho, mais confusa ainda do que antes, fiz minha higiene matinal e escolhi uma roupa confortável. Uma calça jeans nem tão larga nem tão justa, um all star jeans que não tinha certeza se já tinha sido lavado desde que eu o comprara e uma blusa azul bem larguinha e macia. Olhei no relógio no meu celular antes de sair. Meio dia em ponto. E um detalhe que me assustou muito, dado às circunstâncias: uma mensagem de texto não lida. Quando abri a mensagem, quase tive uma parada cardíaca. O contato estava gravado no meu celular, com o nome da pessoa de quem eu mais queria notícias no mundo. Manoela.

Li, reli e li milhares de vezes a curta e simples mensagem, segurando o celular tão firme que era possível que ele quebrasse, com medo que a mensagem se esvaísse, escapasse por entre meus dedos como areia. A única pista que eu tinha. Meu coração batia forte, a emoção daquelas palavras se traduziu em lágrimas nos meus olhos e em profundo amor em meu coração acelerado. Li tantas vezes que as palavras ficaram gravadas em minha mente, escritas no fundo da minha alma, faladas com a voz de Manoela, pra que eu nunca mais esquecesse.

" Estou bem. Cuidado em quem confia. Venha logo. Eu te amo. ’’


Notas finais
eae, gostaram? =D Reviews, okok?