A Geometria do Isolamento
1 "A Máscara Perfeita
O quarto era uma tumba mergulhada em penumbra. A cama, um amontoado de lençóis úmidos de suor e desalinhados, denunciava uma noite de sono interrompida por pesadelos silenciosos. No chão, o cenário era de uma lenta decomposição: latas de macarrão instantâneo vazias, sacolas de delivery amassadas, garrafas de água pela metade e pratos com restos de comida ressecada. O ar era espesso, carregando o cheiro abafado de comida velha e a fadiga de quem não abria as janelas há semanas.
Nas paredes, vários pôsteres de animes lutavam para permanecer colados. Entre eles, um se destacava pela escala e pelo contraste brutal com o ambiente. Era o pôster de Goku. Ele sorria com uma confiança inabalável, exibindo um "joinha" para o caos ao redor. Aquela imagem parecia ser a única coisa intacta, uma promessa de que "está tudo bem" que Arthur já não conseguia mais acreditar, mas da qual ainda não conseguia se desprender.
A luz azulada do monitor de última geração cortava a escuridão. O quarto estava preenchido por vozes abafadas: de um lado, os gemidos rítmicos vindos das caixas de som; do outro, a respiração desesperada, agressiva e apressada do próprio Arthur. Sentado em frente à tela, sem calças, ele movia a mão freneticamente, o corpo tenso em busca de um prazer que ele sabia ser o prelúdio de uma queda livre.
De repente, o brilho nos olhos dele tremeu. Ele parou o movimento bruscamente. O êxtase evaporou, deixando em seu lugar uma ressaca moral profunda.
— Eu não devia ter feito isso… — murmurou, encarando a própria mão coberta pelo fluido branco. Ele ergueu o olhar para o pôster do Goku, sentindo-se um vilão em sua própria história. — Como eu cheguei a isso…?
O despertador tocou. O som era como uma agulha perfurando seus ouvidos. A vida não esperava pelo seu arrependimento. Arthur tentou se levantar, mas seu corpo parecia feito de chumbo. A fraqueza não era muscular; era uma barreira mental que o prendia àquela cama como se o quarto fosse uma areia movediça.
— Eu não me sinto tão culpado assim… — sussurrou para o vazio. — De tanto repetir isso, acabou se tornando parte de mim.
Ele desligou o computador e caminhou pelo corredor escuro até o banheiro. Diante da porta, sua mão hesitou sobre a maçaneta fria. O suor gelado brotou em sua nuca. Havia um terror irracional em encarar o próprio reflexo. Ele tentou abrir a porta, mas uma onda de calafrios o paralisou. Parecia que, se entrasse ali, algo perigoso o consumiria.
Minutos depois, a fachada estava pronta. Arthur vestia o uniforme escolar impecável, a gravata perfeitamente alinhada e o cabelo penteado com precisão cirúrgica. Por fora, ele era o estudante modelo. Por dentro, ele era o apartamento que acabara de deixar para trás: roupas jogadas, louça suja e ar abafado.
— Será que eu me arrumei pra mim… ou pras outras pessoas? — pensou, enquanto pegava a pasta e saía.
Lá fora, o mundo era um insulto à sua dor. O sol brilhava com uma intensidade que machucava os olhos, as folhas das árvores balançavam com o vento calmo e as aves cantavam. Arthur andava com a cabeça baixa, os olhos fixos no asfalto. Cada risada ao longe soava como um sussurro distorcido sobre sua mediocridade.
— Eles estão falando de mim… — pensava, apertando a alça da pasta. — Eu sou patético. Todos estão me julgando.
A paranoia era um ruído constante em seu cérebro até que um toque em seu ombro o fez estacar. O coração de Arthur disparou, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ele virou-se devagar.
Era uma garota. Cabelos loiros, olhos azuis e o perfume suave de rosas que parecia purificar o ar carregado ao redor dele.
— Bom dia, Arthur! — disse ela, com um sorriso que parecia genuíno.
— Eu… tô bem… e você? — ele respondeu, a voz saindo fraca, as cordas vocais parecendo enferrujadas.
— Eu tô bem sim!
Ao ver o sorriso dela, Arthur apertou ainda mais a alça da pasta.
"Por que ela veio até mim? Será que ela gosta de mim? Ou será que ela percebeu que eu sou estranho?"
— Você tá bem, Arthur? — perguntou ela, analisando o rosto dele com um olhar preocupado.
Arthur forçou um sorriso nervoso, um movimento mecânico.
— Eu tô bem sim. Não dormi o suficiente hoje, só isso.
Ela não pareceu convencida, mas decidiu não insistir.
— Vamos juntos para a escola?
— Ok.
Caminharam lado a lado, mas Arthur mantinha uma distância de segurança. Ele mordia o lábio, sentindo o ar carregado de palavras não ditas. Ele olhou de relance para ela, reunindo cada grama de coragem.
— Sofia, você… — ele engoliu seco. — Eu vi você com o Carlos ontem no café… Por acaso vocês estão juntos?
Sofia parou. Seus olhos se arregalaram. Ela desviou o olhar para o asfalto e mordeu o lábio inferior com força.
— Eu prefiro não falar sobre isso... — murmurou.
Para Arthur, o silêncio dela foi uma confissão de culpa. O estômago dele revirou. "Droga! Eu sou um idiota por ter achado que ela ficaria com alguém como eu". A insegurança agora era uma dor física, enfraquecendo suas pernas enquanto caminhavam em direção à estrutura que surgia à frente: a Escola.
No portão, o "tribunal" já estava formado. Um grupo de alunos observava a aproximação deles. Carlos, com seus cabelos pretos e o brilho frio dos óculos, destacou-se da multidão com um sorriso de predador.
— Sofia! Que bom te ver de novo... — disse ele, a voz calma e dominante.
Sofia estremeceu. Ela não conseguia encará-lo de frente. — Também é bom... ver você, Carlos! — hesitou ela, a voz trêmula.
Carlos aproximou-se e mergulhou a mão nos cabelos loiros da garota, acariciando-os com uma intimidade agressiva. — Que tal se nos víssemos novamente para fazer aquilo? — propôs ele, os olhos fixos nela. Sofia baixou a cabeça, lançando um rápido olhar de desculpas para Arthur — um pedido de perdão que parecia uma despedida.
Arthur assistia a tudo paralisado. Ele queria gritar, queria tirá-la dali, mas seu corpo não obedecia. O coração parecia ter virado gelo.
Carlos finalmente desviou o olhar para ele. — Me desculpe por não ter te visto... estava ocupado com minha "amiga". — Ele deu um sorriso estranhamente gentil. — Você parece bem tenso, amigo.
O sangue de Arthur ferveu. Uma raiva injetada, quente e ácida subiu por sua garganta, mas morreu em sua covardia. Ele manteve a cabeça baixa, olhando para o chão como um animal acuado. Carlos deu de ombros, passou o braço pelos ombros de Sofia e a conduziu para dentro. Ela seguiu em silêncio, sem oferecer resistência.
Arthur ficou parado no portão. Sozinho. O mundo continuava girando, mas sua mente estava quebrada.
— Do que adianta viver se a única pessoa que parece se importar não está mais aqui? — sussurrou para o nada, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos olhos. — No final... ninguém se importa comigo.

FIM DO CAPÍTULO 1
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