A Garotinha: Sherry

1 Primeiro Encontro


Notas iniciais
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." - Vinícius de Morais

–Sherry, tudo bem?

–Aham... – eu a ouço em um tom fraco.

–Amor, logo chegaremos lá e finalmente encontraremos algum lugar para repousar. Enquanto isso tente se aconchegar no banco enquanto eu dirijo, certo?

–Anh... certo.

Volto meus olhos para a estrada. Como está escurecendo, perder algum detalhe da pista pode causar um acidente grave e isso é o que eu menos quero. Afinal, estou me deslocando para Raccoon City, a cidade que será o lugar onde finalmente eu poderei obter descanso depois de meses. A cada placa que passa só me lembra a oportunidade que estou tendo de finalmente acabar meu livro. Chegando à Raccoon, a primeira coisa que farei é me isolar do mundo para um descanso e após isso começar a escrever o restante. Talvez em Raccoon eu encontre inspiração para escrever um final digno e alavancar minha carreira.

Perdido em meus pensamentos, continuo dirigindo com os olhos atentos na estrada que se torna mais escura à medida que o carro avança e, assim como a luz, a quantidade de carros indo e voltando isto é, o fluxo do trânsito, parece diminuir ainda mais. A temperatura também parece cair e mesmo com o aquecedor ligado, não conseguo evitar um pouco de tremor.

Olho o relógio do painel, marcam 19h. Raccoon ainda parece estar um pouco longe o que me faz pensar se uma parada em algum posto de gasolina que preferencialmente tenha alguma "conveniência" é uma boa ideia. Então, vejo as luzes de um posto bem à frente, não me dando tempo pra questionar tanto. Eu olho pra Sherry.

–Sherry...?

–Papai...

–Amor, você está com fome? Sede? Quer alguma coisa?

–Acho que sim... Por quê?

–Tem um posto a frente, quero parar um pouco e descansar alguns minutos. Aproveito e compro algo pra você, certo?

–Sim.

Ela volta a dormir.

–Bem, pelo menos estamos mais perto do que longe, –disse tentando animá-la – logo estaremos pegando as chaves do quarto para dormirmos.

Posiciono o carro com certa dificuldade na minúscula vaga do estacionamento, que por ironia está cheio. Talvez esteja assim por causa da hora do jantar, não sei. Quando finalmente estaciono o carro, olho mais uma vez pelo rosto branco coberto por cabelos louro posicionado ao meu lado. Sinto uma pontada no coração ao ter que acordá-la.

–Você quer descer ou prefere ficar no carro?

–Carro...

Abro a porta do carro um pouco aliviado por não ter que fazê-la levantar. Fecho a porta dando uma última olhada em Sherry e começo a me afastar do carro. É um posto de estrada de grande porte e parece ter restaurante e conveniência. O fluxo parece constante. Enquanto prossigo em direção à conveniência,retiro o mapa e tento enxergar melhor o caminho para Raccoon, mas ainda não parece haver muito sentido, mesmo usando as luzes mais fortes do posto. Fecho o mapa e entro na loja. Torno a colocar o mapa no bolso do casaco.

O condicionador de ar da pequena e rústica conveniência me faz tremer um pouco. Parecia maior vista de fora, mas agora, olhando por outro ângulo, vejo que nem é tão grande assim. Vejo três corredores com prateleiras de um lado e de outro, divididas por uso do produto. À frente, mais próximo à porta fica o caixa, onde tem uma mulher morena sentada atrás do balcão. Entro na segunda prateleira e pego alguns pacotes de biscoito, o suficiente para chegar em Raccoon, presumo.

Entro no segundo corredor e pego três pacotes de biscoito de chocolate, no final consigo pegar uma garrafa de suco de 250 ml, frio. Caminho até a moça por trás do balcão, tiro algum dinheiro que tenho no bolso e entrego junto com os biscoitos que ela imediatamente os joga em um saco e me entrega. Ela me devolve o troco e eu saio da loja em direção ao carro. Tiro novamente o mapa do bolso e, lentamente, ando até o carro enquanto consigo verificar algum acesso a Raccoon.

–Posso ajudar você? Vejo que está meio perdido...

Minha cabeça faz um movimento automático paralelo aos meus olhos que passa a fitar a policial sorridente à minha frente. Ela não é alta, branca e tem cabelo castanho quase loiro, tão longo escondido em parte por uma boina com o brasão de algo que poderia ser a polícia por ali. Olhos azuis, bonita. Sua farda cinza meio azulada. Na blusa, está bordado próximo ao peito o seu nome: Jill Valentine.

–Ér... Acho que sim. – Falei ainda observando a beleza da jovial policial.

–Bem, então pra onde pretende ir?

–Raccoon City. Mas não consigo ver absolutamente nada nesse mapa. Aqui está a localização, -disse apontando no mapa – mas não há nenhuma estrada de acesso. Não compreendo esse mapa.

–Me deixa ver.

Toma o mapa das minhas mãos. Olho de leve para o carro e vejo a silhueta de Sherry que parece escrever ou desenhar algo. Fico um pouco feliz por não ter que acordá-la pra lhe dar comida.

–Sua filha?

Olho rapidamente para Jill no susto da pergunta inesperada.

–Sim, sim. Dezanos. Sherry.

–Ela é bonita... Lembra muito você. –Jill sorri.

–É, dizem isso. Mas ela é adotada.

–Ah, desculpe-me então... –disse voltando os olhos para o mapa. –Bem, não consegui encontrar nenhum acesso por esse mapa mesmo. Acho que ele “excluiu” Raccoon. Mas eu posso te ajudar. Afinal, vez por outra eu vou a Raccoon... Ia, na verdade. Já faz um tempo que não faço rota por lá. Se você quiser, posso te guiar até lá.

–Não, não precisa. Mesmo.

–Na verdade, eu até queria ir lá mesmo. Aproveito e resolvo algumas coisas pela manhã, além de quê, acredito que seja o lugar mais próximo para passar a noite.

–Tá certo então não recusarei mais -sorrio.

–Vou pegar minha moto, é só você me seguir. Aliás, qual é o seu nome mesmo?

–Birkin, William Birkin.

–William, meu nome é Jill Valentine. Vou só pegar minha moto.

Jill sai em direção ao estacionamento do outro lado do posto enquanto volto a caminhar em direção ao carro.

–Sherry.

–Oi pai. Gostou dos meus desenhos?

Ela me mostra desenhos com carneiros e algo semelhante a um rinoceronte embaixo de uma árvore. Eu assinto com a cabeça.

–São lindos filha. Eu trouxe biscoito e suco pra você. Encontrei também uma policial que vai nos ajudar a chegar a Raccoon.

Sherry sorri. A garota loira de olhos azuis olha profundamente nos meus olhos, que não deixam de perceber a ternura, singeleza e amor que aquela criança demonstra ao olhar pra mim. Ela parece tão... pura. Às vezes nem vejo como se fosse realmente minha filha, mas uma espécie de anjo.

Entro no carro e ligo a ignição. Espero Jill aparecer, o que não demora muito.

–Vamos?

–Vamos. –Respondo.

Começo a dirigir o carro enquanto Sherry tenta desenhar alguma coisa. Ela sorri algumas vezes para mim enquanto seguimos Jill pela estrada. A iluminação piora a medida que nós nos afastamos do posto. A paisagem está se tornando quase invisível devido à escuridão enquanto muda gradualmente de campos planos para mata fechada e depois árvores de copa muito alta que se alastram por um solo sinuoso e irregular. A luz da lua penetra entre as árvores e é a única luz além dos faróis do carro e da moto de Jill.

Olho o GPS do carro rapidamente e percebo que estamos para entrar na região das montanhas Arklay, que ficam em volta de Raccoon City. Sorrio. Pelo menos o GPS mostra o posicionamento, mesmo que não mostrasse acessos disponíveis à cidade.

–Amor, estamos quase chegando.

Sherry sorriu.

Jill acelera a moto e faz uma curva ao ponto em que não consigo mais enxergá-la. Piso no acelerador e faço a curva na tentativa de alcançá-la. Foi então que eu vi, jogada no chão, a moto. Parece que houve um acidente, que Jill se desequilibrou... Vasculho toda a região com os olhos procurando um possível corpo, mas não consigo ver nem compreender nada. Parece que ela sumiu de fato...

–PAI, PISA NO FREIO!

Só então percebo que há uma menina vestida de roxo atravessando a rua. Pouco consigo enxergar dela, apenas agir segundo o comando de Sherry.

–PAAAAAAIIIII!!!

Grito ensurdecedor... visão distorcida... dores em todas as partes do corpo... tudo gira... escuro.

Notas finais
Sherry é uma garota de dez anos, filha adotiva de William Birkin que a leva para Raccoon City, uma cidade a qual ele esperava encontrar calma e inspiração para concluir seu livro e alavancar sua carreira. Ao meio do caminho, eles dão de encontro com a figura de uma menina que cruza a estrada fazendo com que sofram um acidente os deixando inconscientes.