Notas iniciais
"Estamos tão ligados, já não temos o que temer." - Humberto Gessinger

Ele abriu a porta dupla mostrando uma sala bem espaçosa. As paredes eram brancas iguais ao chão, que tinha também cerâmicas brancas. A primeira coisa que vi foi a escadaria principal coberta por um tapete vermelho que se estendia até a porta que acabamos de entrar. O salão possui colunas que sustentam o andar de cima. A esquerda, há uma porta marrom de madeira e a direita duas entradas, sendo uma através da porta dupla azul e a outra através de uma porta marrom de madeira, semelhante à da direita. Está escuro, então não consigo enxergar muito do restante da mansão. Mas algo me chama atenção: do lado esquerdo, bem próximo à escada tem uma mesa que está com uma vela e alguns objetos em cima. O fogo da vela chama a minha atenção.

Alexander me põe no chão com cuidado.

–Aléxia, você pode esperar um pouco aqui?

Aceno com a cabeça respondendo que sim.

–Ótimo! Vou fazer os preparativos e prometo não demorar... –ele diz olhando pra mim — Rebecca! Traga uma cadeira para ela!

–Tchau Aléxia!

Alexander sobe as escadas. Assim como no andar que estou, o andar de cima parece apresentar as mesmas características que aquele.

Embaixo, a porta da esquerda se abre e vejo uma jovem de uns 20 a 22 anos, vestida completamente de branco. Ela traz uma cadeira de madeira. Ela parece triste. Rebecca coloca a cadeira exatamente de frente à porta principal, posicionando-a em direção a escadaria.

Ela olha pra mim, me analisando. Eu apenas olho de volta, sem saber muito bem o motivo de sua expressão a me ver. A mulher vestida de branco olha pra mim mais uma vez, percebo seus olhos azuis e o cabelo curto partido de lado formando uma espécie de franja. Ela tanta rascunhar um sorriso no rosto mais desiste, virando e voltando em direção à porta, entrando e fechando-a cautelosamente em seguida. Me sento na cadeira e espero por Alexander.

De repente, tudo se apaga. Não sei se foi falta de energia, mas não consigo ver nenhuma iluminação além da chama da vela em cima da mesinha ao lado da escada. Estou com medo, não devia ter confiado em Alexander! Ele vai me matar e depois matar papai... Começo a ficar apavorada e sinto minha respiração mais rápido que o normal. Sinto que vou desmaiar.

O ar está cheirando a fumaça, parece o cheiro das fogueiras que fazíamos no outono, quando mamãe ainda era viva. A luz da vela continua acesa e ela não parece ser consumida pelo fogo. Coloco a mão no pescoço e sinto o pingente que Alexander me deu... me lembra um daqueles objetos que estavam em cima da mesa, uma espécie de pedra preciosa...

Continuo aguardando. Eu estou com medo, mas não consigo e acho que nem quero me levantar. Esse medo me assusta, mas sei que estou onde devo estar... Alexander não está dando mais sinais de vida.

Ouço som do piano. Sinto a música tocar e me lembro quando mamãe era viva... de novo. Por coincidência, era a música preferida dela que estava tocando, “Moonlight Sonata”, se eu não me engano. Ela toca e a pessoa está tocando-a muito bem. Mas quem estaria tocando ela? Será que Alexander sabe que a música me faz lembrar da mamãe? Ainda continuo ouvindo a música e vejo uma sombra preta entrar pela direita com um saco preto. Ele ia me matar, era o meu fim. Ainda sim, não levanto da cadeira e permaneço imóvel. Percebo que o vulto negro era alguém vestido com uma capa e capuz preto. Ele começa a jogar algo no chão e despois um líquido em cima dessas coisas espalhadas. Sinto um forte cheiro de álcool.

Alguém bate na porta.

–Quem é? –Ouço a pessoa de capuz falar com uma voz masculina.

–Hamilton.

–Entra. Alexander e a garota estão lá em cima, esperando o momento oportuno.

Vejo pouco pela baixa claridade proporcionada pela luz da vela. Entra um homem de terno e gravata. Ele atravessa o salão e se dirige à escadaria principal. Não consigo identificar ou até mesmo notar alguma característica de seu rosto.

Aguardo, pois acho que é a melhor coisa a se fazer. Não consigo entender o que está acontecendo aqui, principalmente depois da resposta do homem de capuz, que continua a espalhar coisas e jogar o líquido em cima delas. Ele tinha dito que Alexander estava lá em cima com a garota... mas que garota, se eu estou aqui embaixo?

O homem de terno continuou caminhando até a escada. Tenho a impressão de que ele avalia a minha condição aqui. Por fim, vejo-o subindo e sumindo na escuridão. Novamente, a porta marrom à esquerda se abre e vejo Rebecca sair de lá. Reconheço que, mesmo com capa e capuz preto, percebo que a capa está aberta e mostra as vestes brancas da moça. Ela está empurrando uma cadeira de rodas e posiciona bem de frente pra mim. Eu apenas observo.

De repente, percebo coisas se mexendo ao meu redor. Parece que pessoas vestidas de preto estão se organizando ao meu redor, mas não consigo ver exatamente. Rebecca sumiu e vejo uma pessoa vestida completamente de vermelho descer às escadas. Por fim, ouço o barulho de algo queimando e percebo que todo o salão está em chamas. Umas 20 ou 30 pessoas estão completamente vestidas de preto, formando um semicírculo a minha volta, deixando uma abertura de frente pra escada de onde descia a pessoa de vermelho. Sinto um arrepio. Cada pessoa tem um cajado na mão esquerda e um incensário na mão direita, que estão sendo acesos um a um, envolvendo a atmosfera com uma fumaça aromática.

Penso em gritar, pois tenho medo do que vai acontecer a seguir. Seria uma espécie de ritual, de sacrifício? Olho pras escadas e presto atenção na pessoa vestida de vermelho. Ela traz consigo algo que lembra um corpo humano nos braços, como se a pessoa tivesse sido queimada. Sinto nojo. Olho atentamente para o corpo, que me deixa enjoada e me da náusea. A pessoa desce completamente às escadas e deixa o corpo na cadeira de rodas. Consigo enxergar os membros, mas não consigo identificar o rosto deformado.

A pessoa de vermelho se vira pra mim e vejo nitidamente seu rosto. Vejo o cabelo loiro e a barba... é Alexander.

Abro a boca por um instante e volto meu olhar para o corpo. Sinto outro arrepio ao ver o rosto deformado, mas que de certa forma demonstra algum resquício de vida. Meu coração acelera. Alexander se aproxima de mim, penso em me afastar. Não parece mais o homem sereno que conheci, que me dava a tranquilidade de um pai... parecia agora um louco que sacrifica crianças. Tento, mas não consigo me levantar da cadeira... ou talvez não queira.

Alexander se coloca entre eu e o corpo sentado na cadeira de rodas.

–Senhores, senhoras e senhoritas aqui presentes –ele começa a falar em voz alta- sabemos o que aconteceu depois que o ritual deu errado e o Caos assolou essa cidade. Sofremos ao não ter conseguido selar o portal. Após isso, falhamos em trazer o nosso deus a Terra com inúmeras imperfeições em todos esses anos. Sabemos que trazê-lo é essencial para reestabelecer a Ordem e quando finalmente encontramos o receptáculo perfeito... bem, todos temos ciência do que aconteceu. Mas estamos aqui! É chegado o momento em que a Ordem abençoará mais uma vez a nossa cidade! Estabeleceremos o paraíso na Terra através do nascimento do nosso deus! Sei que apenas ele pode nos salvar!

O salão se enche de aplausos. Procuro entender sobre o quê ele está falando.

–Vamos iniciar a primeira parte.

Não consigo mais ouvir o som da música do piano, apenas o som do fogo crepitando ao meu redor. Tenho medo de ocorrer um incêndio na casa. Vejo Alexander andar até a mesinha próxima ao corpo e pegar um colar semelhante ao meu. Ele coloca o colar no pescoço do corpo e imediatamente percebo meus músculos se contraírem junto com uma sensação de familiaridade com aquele corpo... como se fosse meu. Sinto e ouço o coração dele bater.

Alexander olha pra mim, esperando alguma reação.

–Aléxia, levante-se.

Sinto que ele está falando comigo, mas não consigo me levantar. Sinto-me mais pesada.

–Aléxia, levante seu braço direito.

Alexander olha nos meus olhos. Eu tento fazer qualquer coisa, mas não consigo. Sinto como se tivesse perdido os movimentos do corpo. Meus braços parecem amarrados aos da cadeira. Ele me observa com calma, tentando entender o que aconteceu. O silêncio prevalece, sendo interrompido apenas pelo barulho do fogo queimando.

–N... não consigo.

Alexander volta-se imediatamente para o corpo e por um minuto sinto todos ali presentes fazerem o mesmo. Fico desesperada. Sei que ele espera que eu faça algo, mas simplesmente não consigo. Estou com medo de não conseguir me mover mais...

–Aléxia, fale alguma coisa.

Ele saiu da frente do corpo e me deixou observa-lo.

–Eu... não sei se consi...

Paro de falar no instante em que percebo que algo que parece a boca do corpo se move juntamente com a minha. Não entendo. Aquele corpo realmente é meu?

Notas finais
Sherry chega com Alexander dentro da mansão. Enquanto espera por ele, ela começa a relembrar coisas de seu passado. Algumas coisas estranhas acontecem, então ela se vê em meio a um ritual que deixa tudo ainda mais estranho. Por fim, ela descobre ter uma ligação com um corpo que nunca tinha visto na vida... ou pelo menos achou que nunca tinha visto.