A Garotinha: Sherry

16 Aléxia Ashford


Notas iniciais
"Porque em cada pedaço de mim, sempre haverá um pedaço de você" - Nicholas Sparks

Sinto meus olhos arderem e os abro. Fecho imediatamente ao senti-los doer por causa da claridade. Aos poucos, começo a abri-los novamente, tentando acostumá-los com a claridade do local. Finalmente começo a enxergar um pouco. Vejo o chão, aparentemente limpo daquela estranha marca e não vejo muitas coisas aos arredores, a névoa é o suficiente para impedir isso. Começo a me levantar aos poucos, ainda tonto e nauseado do que parecia ser ontem à noite. As preocupações voltam, lembro de Varla metamorfoseada em Sherry, o que me deixa com medo de uma ter encontrado a outra e consequentemente ter ocorrido o pior. Tento não pensar nisso. Algo toca as minhas costas, olho para trás e vejo um homem loiro, de barba e terno com uma gravata vermelha bem evidente. É Alexander Ashford.

–William, você chegou um pouco tarde.

–Eu... o quê? –Pergunto ainda com os pensamentos embaraçados.

–Você chegou tarde. O demônio já estabeleceu a marca e agora está partindo para outro lugar.

Tento perceber a gravidade do que Alexander acabou de falar, mas não consigo. Meus pensamentos ainda estão muito devagar para que eu possa construir alguma coisa realmente importante.

–Alexander, eu...

–Tá, tá, tá! Já entendi. Você precisa se recuperar, não é? Tudo bem, espero que você não demore para isso, ou eu e todos dessa cidade estarão perdidos. Inclusive você e sua filha Sherry.

–O quê?

–Ai William, chega! Você precisa parar o demônio, por favor. É um risco que todos nós estamos correndo e só você pode fazer isso por mim. Se não fizer, estamos todos completamente perdidos. William, por favor, faça isso. Lembre que tanto eu como você e sua filha estamos correndo risco de vida, se é que o demônio não a encontrou... William, você precisa fazer isto!

Eu não falo nada. Sinto que estou ficando um pouco mais atento, mas minha cabeça ainda dói e meu corpo quer ficar aqui, deitado no chão. Não aguento nem dar um passo. Mas começo a perceber o que Alexander que dizer... Sei que se eu parar o demônio, ele me ajuda a encontrar minha filha. Mas eu realmente não sei o que e como fazer... Tudo parece confuso, nada do que eu tentei agora deu certo. Varla não era o demônio, e agora ele diz que eu cheguei tar... Espera! Aquela marca que vi à noite, provavelmente era a marca que Alexander falou que o demônio faz. Eu, eu realmente acho agora que ele passou por aqui.

–Alexander... A marca que você falou é uma espécie de octágono?

Ele olha pra mim como se não acreditasse na minha pergunta. Ele ajeita a gravata.

–Evidente.

Não suporto a arrogância dele.

–E como posso encontra-lo novamente?

–William, ele só vai aparecer em mais dois lugares. O primeiro é a Usina Nuclear da cidade. Fica logo após o Raccoon Park. Existe uma entrada que dá de frente a ele. O lugar fica por trás desse hospital e se não fosse pela névoa, seria possível ver daqui. Tome, esta é a chave da usina nuclear. Você vai precisar.

Estendo a mão e pego a chave.

–Agora vá.

–Alexander, se eu o perder... onde posso encontra-lo?

–William, não considere isso como uma opção. Se você o perder, ele só aparecerá em mais um lugar. Mas você saberá onde encontra-lo. Nem se preocupe com isso.

Suspiro fundo. Não suporto mais conversar com ele. Coloco a chave no bolso, ajeito a mochila nos ombros e pego a porta que leva em direção às escadas nem olhando para trás para vê-lo. Estou cheio desse homem. Se ele fizesse isso e parasse esse demônio... talvez eu já houvesse encontrado Sherry e estaríamos de volta pra casa. Mas, sei que tudo tem um preço. Ele pode me ajudar a encontra-la, já acredito que ele possa ter uma clarividência, mas só vai fazer se eu parar essa droga de demônio, que eu nem sei como é. Até pouco tempo, nem acreditava nessas coisas... E pra acabar com tudo, tem Varla que me persegue em tudo quanto é lugar. Eu realmente não sei o que fazer com ela, o que fazer pra que ela pare de uma vez com tudo isso. Será que ela realmente existe? Ontem à noite foi tudo muito estranho, ela virou
Sherry...

Continuo descendo as escadas, tudo parece normal. As paredes, embora velhas, não parecem mais tão estranhas como quando estava escuro. O chão também parece normal... Creio que esse seja o melhor momento para encontrar minha filha, está mais claro, não sinto mais monstros por perto... Respiro fundo e continuo descendo as escadas.

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“Estou deitada sobre uma cama dentro da mansão Spencer. Não sei como, mas ainda sinto todas as dores, sinto queimar. Os ferimentos parecem não se curarem, e dentro de mim alguma coisa dói em meu estômago. É a parte do deus que está viva dentro de mim e de alguma forma, sinto certo vigor quando sinto dores em minha barriga. Não sei quanto tempo faz que estou aqui, mas já se passaram anos. Sei que pessoas entram aqui e veem meu estado deplorável. Vejo meu pai, Alexander... Vejo também Hamilton e Rebecca, que injetam coisas em meu corpo que eu não sei o que é, mas muitas vezes essas coisas me deixam meio lenta e não consigo ter força o suficiente para projetar minha alma para fora. Mas, eles não conseguem fazer com que eu pare de trazer o outro lado. Como prometido, eles estão pagando por tudo o que fizeram.

Eu nasci em Raccoon City, na família Ashford. Era privilegiada por ter nascido nessa família, a mais nobre de toda a cidade. Minha família era a escolhida para manter as tradições de todo o povo, as tradições religiosas. Eu tenho um irmão gêmeo, se é que ele ainda está vivo. Seu nome é Alfred Ashford, e nós éramos muito próximos. Brincávamos todas as tardes, na frente da Mansão Spencer, a nossa casa. Eu me lembro que subíamos em árvores, corríamos até as margens do Rio Circular, que passava próximo. Quando fazíamos isso, nosso pai ia nos buscar e nos arrastava de volta.

No nosso aniversário de 6 anos, nós ganhamos um livro que contava as histórias e tradições religiosas da Ordem, a religião predominante na cidade. Alfred ficou mais interessado do que eu, o que fazia com que me contasse sobre todas as coisas que aprendia e fazia com que eu ficasse interessada também. Alfred era muito legal e nós nos gostávamos muito. Com o tempo, ele ficava mais fascinado com o que lia, o que o fez buscar coisas sobre outros livros. Lembro que todas as noites nós estudávamos juntos coisas relacionadas sobre os cultos realizados e as tradições religiosas. Tudo parecia muito interessante. Foi nesse período que descobri sobre o TriCell, um objeto confeccionado pelos deuses foi deixado na Terra, mas em uma dimensão especial. O objeto era capaz de expandir ou reter o poder de alguém ou de algo. Também era possível transferir esse poder que foi retido para alguém capaz de controla-lo. Alfred sempre dizia que eu era capaz, que era especial. Com o tempo, Alfred começou a se reunir com meu pai todas as noites e eu com a minha mãe. Sempre falávamos sobre isso. Minha mãe me contou que eu tinha sido escolhida, que eu havia sido escolhida para trazer a paz, a luz e a misericórdia à Terra e que um dia eu seria a mãe do deus. Eu ficava feliz, mas ela dizia que eu teria que sofrer muito para ver isso acontecer.

Quando eu completei 7 anos, meus pais nos levaram a nossa primeira reunião no templo. Foi aí onde tudo começou a desandar. Eu achei estranho tudo o que faziam, e no final ofereceram sangue de animais em cima de um altar para o deus que eu não sabia. Mas meu irmão conhecia tudo e me incentivou a continuar. Depois que fizeram o oferecimento, meu pai me levou à frente e disse para eu tomar um pouco do sangue que havia escorrido. Eu não queria, mas Alfred disse para eu tomar e eu tomei. O gosto era horrível e eu vomitei. Alguma coisa aconteceu e eu desmaiei. Quando acordei, meu pai estava sorrindo e Alfred me deu parabéns pelo aniversário e por ter bebido o sangue. Eu sorri apenas, mas fiquei assustada. Meu irmão me contou que quando eu desmaiei aconteceu algo, que outra dimensão apareceu e que isso comprovava que eu era especial. No mesmo dia, meu pai nos deu outro livro que falava sobre os rituais que eram necessários para proteger a cidade e o mundo de um mal que não sabíamos qual era.

Os estudos foram ficando mais intensos. Eu comecei a ficar assustada com os rituais. Um deles consistia em uma mulher cega desde criança, que tinha que correr em meio a um clima criado por incenso, fumaça e fogo no meio de várias meninas no meio da sala da mansão Spencer. Ela precisava pegar todas as meninas. A primeira a substituiria quando fosse mais velha. A menina era cegada por uma máscara com pregos nos olhos, preparada para um novo ritual. A última menina escolhida era trancada na mansão Spencer até que completasse dezessete anos. Ela não poderia ter contato com o mundo exterior para se manter pura. Ao completar dezessete anos, ela era levada para fora da mansão e amarrada a quatro cavalos, cada um amarrado a um dos membros. Os cavalos eram afugentados por fogo em direções opostas, o que fazia com que arrancassem os quatro membros. Por fim, a cabeça era decepada pelo mestre da cerimônia com uma katana, a katana de purificação. O corpo era queimado e o sangue era derramado, oferecido aos deuses e selava o portal evitando assim que o mal tomasse conta e assolasse o povo. Quando conversei com minha mãe sobre isso, ela me contou que o último ritual havia dado errado e o mal estava tomando conta da cidade, por isso eu havia nascido.

O mal só poderia ser removido do mundo com a vinda do deus à Terra. Ela me contou que eu havia sido escolhida para ser a mãe salvadora do mundo e a geradora do deus que traria paz e misericórdia. Mas eu não queria mais ser essa. Eu tinha medo dos rituais que teria que participar para que o deus fosse gerado em mim que eu pudesse dar à luz ao deus. Eu tinha muito medo e pedi para minha mãe para que não fosse eu, uma vez que ela e meu pai eram os líderes da religião atualmente. Não sei se ela pediu se falou com eles... Eles tiveram uma briga muito forte nesse dia e minha mãe saiu de casa para esfriar a cabeça e nunca mais voltou. Hoje eu sei o que aconteceu: meu pai a matou.

Sem saber disso, eu sofri com o desaparecimento da minha mãe. Meu pai continuava insistindo para que eu continuasse a seguir as tradições, que era o meu destino. O tempo foi passando e eu continuei aprendendo sobre a religião. Aos 9 anos, eu descobri o que haveria que passar: O ritual consistia na minha quase morte. Meu irmão gêmeo teria que me estrangular, até que eu ficasse sem fôlego e desmaiasse. Em seguida, meu corpo seria incendiando junto com o hall da mansão e ali o deus aceitaria como sacrifício suficiente e começaria a ser gerado. Em seguida, eu passaria algumas horas sem receber qualquer atendimento, e aquilo serviria pra gerar o corpo do deus em mim. Por fim, todos os que faziam parte da elite da Ordem se reuniria em torno de mim e pronunciariam algumas palavras. Isso seria o suficiente para fazer com que do deus nascesse e meu corpo seria restaurado... Entretanto, minha força vital seria a força que daria os poderes completos do deus e eu não sabia se resistiria a tudo aquilo. Eu era uma garota especial, tinha certo domínio e conseguia usar a força da mente para fazer algumas coisas... Essa força seria usada para os poderes do deus, por isso eu era a escolhida.

Quando completei 10 anos, meu pai me chamou e disse que havia chegado a hora. Eu não queria, eu relutei o máximo que pude... Ele me disse que era o meu destino, que logo o deus traria paz e misericórdia sobre todos por minha causa. Alfred também me incentivou e eu decidi fazer... Eu caminhei em direção ao hall da mansão Spencer...”

–Sherry?

–Aléxia?

–Você sabe agora quem você é?

–Eu sou parte da alma de Aléxia. –Falo triste e engolindo a seco.

–Exato, Sherry.

–Eu... eu passei por tudo isso, por toda essa dor. Meu irmão que tanto me amava, ele me traiu. Ele quase me matou... –Sinto lágrimas se formando em meus olhos.

A garota que estava na minha frente sumiu. Estou chorando. Abro os olhos e vejo que estou no hall da mansão, sentada em uma cadeira de rodas. Meu corpo dói, cada centímetro. Olho para ele, vejo várias queimaduras ainda expostas de não curadas.
Começo a gemer de dor, meu estômago dói.

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Vejo a porta de entrada da usina nuclear. A névoa envolve todo o local. Passei por alguns cães e coisas que eu não sabia o nome, mas nada do demônio. Tiro a chave de Alexander meu deu e seguro firme. Caminho em direção à porta.

Notas finais
Sherry finalmente descobre quem ela realmente é de fato com base em lembranças relacionadas a seu passado, a quem ela era, é e qual sua posição no mundo ao mesmo ponto em que William encontra com Alexander, partindo para mais uma tentativa de parar o demônio que parece ser a fonte de todo o mal da cidade.