Por onde começar...? Está tudo confuso em minha mente. Para você que estiver lendo isso, vou tentar narrar o que ocorreu até o presente momento, os pensamentos que divagaram em minha mente que explicitem o que está me levando a fazer o que farei. Explicarei do melhor jeito possível.

Para os que não me conhecem, meu nome é M. Terry, vinte e três anos, residente de Iowa, nos Estados Unidos da América.

Tudo começou há algum tempo, algo em torno de dois ou três meses atrás, enquanto eu caminhava pela minha vizinhança. Não era um lugar muito grande, apenas um punhado de casas e algumas pequenas lojas que pontilhavam o bairro. Eu tinha um costume, que era caminhar pela vizinhança todo o dia. Era uma rotina, algo em torno das onze da manhã, todos os dias, eu caminhava pelas largas ruas, sempre usando o mesmo trajeto. Eu havia me acostumado e não via razão para parar, embora não pudesse deixar de sentir a típica sensação de repetição que inundava meus pensamentos durante as mencionadas caminhadas.

Durante as tais, eu mantinha meus pensamentos em outros lugares, países distantes e exóticos, pensando em meu futuro, em uma possível família que eu gostaria de possuir um dia. Pensava em meu emprego, também. Eu era artista gráfico, trabalhava em uma pequena empresa que tinha sua sede no centro da cidade. Fora isso, eu também ficava imaginando aventuras e me questionando se um dia eu tentaria torná-las realidade, partir da teoria para a prática. Eram mirabolantes em demasia, mas aquela fagulha de esperança ainda ardia em meu peito.

Um dia, eu parei com meus usuais devaneios e me coloquei no presente, examinando as casas pela quais eu passava brevemente durante minhas caminhadas. Era o momento de trocar de trajeto.

Aquela foi a melhor e a pior escolha que eu já havia feito.

Resolvi expandir meu usual trajeto e visitar ruas pelas quais eu não tinha pensado em passar anteriormente. Subindo a ladeira que enfeitava meu caminho, decidi andar por uma ruela pela qual eu não tinha caminhado. Andando pela estreita rua, uma melodia aguda chamou a atenção de meus ouvidos.

A melodia vinha de uma das casas, a casa mais bonita da ruela, se me permitem acrescentar. Um sobrado, um tom de lilás enfeitava a cobertura, e um amigável carpete de veludo escrito “Bem-vindo” estava à porta. Alheio à isso, procurei a origem do som, do lado de fora do sobrado. Ele vinha, sem sombra de dúvidas, do segundo andar. Forçando minha visão, identifiquei a origem da música.

Era uma garota, simplesmente linda. Cabelos castanhos, lisos e ondulados, caíam sobre seus ombros, no qual um violino lustroso de madeira pousava, desferindo cada nota de sua melodia. Seu rosto era, pelo o que eu consegui identificar, branco como o sol, seus lábios finos e vermelhos, e olhos castanhos esverdeados que não me identificavam, apenas ao instrumento em seus braços. Maravilhado pela beleza que enchia meus olhos e pela melodia tímida que encantavam minha audição, sentei-me perto da casa e fiquei observando-a.

Em nenhum momento ela notou minha presença, absorta nas notas que tocava. Eu fiquei sentado, comendo doces que eu havia trazido comigo, sem tirar os olhos d’A Garota do Violino.

E fiquei lá a tarde inteira, até o sol se por. Quando ela saiu de frente da janela, parando a melodia, foi como se um transe tivesse acabado. Percebendo o horário, voltei para casa, com pressa para não chegar atrasado.

E comecei a freqüentar aquela ruela, todos os dias, para admirar A Garota do Violino e seu respectivo instrumento, tarde após tarde. Infelizmente, ela nunca me notava, o seu desconhecido admirador. Depois de algum tempo, acho que me toquei que estava perdidamente apaixonado pel’A Garota do Violino.

Não sabia como chegar até ela. Se eu tinha um problema, era a minha timidez que não me deixava bater em sua porta e confessar o meu amor, a minha paixão. Mas não, eu apenas ficava no meu canto, ouvindo o tocar hipnótico e seu rosto angelical. Por Deus, como alguém poderia ser tão perfeita? Mesmo não a conhecendo, eu praticamente conhecia a sua personalidade, o seu jeito. Ela extravasava suas emoções com as músicas... Alguns dias as tais eram felizes, outras rítmicas, melancólicas, perdi a conta de quanto tempo eu fiquei amando-a, platonicamente.

Até que aquele dia.

Em uma tarde como qualquer outro, já sem ligar para a rotina, parei em frente a sua casa, bonita como sempre. Mas faltava algo crucial: A Garota do Violino. Ela não estava mais em seu típico lugar tocando a sua melodia, e isso me incomodou.

Esperançoso, voltei no dia seguinte, e no resto da semana. Ela não mais estava em seu lugar. Talvez tivesse ido embora de casa? Até que eu vi, em sua porta, um pequeno laço negro pendurado. Luto. Reunindo minha coragem, bati na porta, e uma senhora de cabelos grisalhos me atendeu. Eu perguntei pela garota, e ela me disse a fatídica verdade: A Garota do Violino havia morrido. Pelo o que eu entendi, antes mesmo de eu começar a admirá-la, ela sofria de uma doença incurável, a qual eu não me lembro.

Agora, estou aqui, as lágrimas marejando meus olhos. Não posso mais viver em sua ausência, embora nunca tenha chegado realmente a conhecê-la. Ela apareceu em meus sonhos e devaneios noite sem fim, e agora ela simplesmente sumiu de minha vida, sem ao menos eu saber o seu primeiro nome...

Não... eu já não agüento mais. Eu não a conheci, ela não me conheceu, mas eu a amei com todas as minhas forças, uma forte obsessão se abateu sobre mim e agora estou perdido em pensamentos. Escrevo aqui para que todos saibam o que aconteceu. Escrevo aqui para expressar meus sentimentos, pois a minha vida já não vale nada. Seguro o revólver em minhas mãos, pronto para disparar assim que terminar esta carta. Eu escrevo aqui para que todos saibam, para que possam saber. Escrevo aqui para que fique registrado o meu amor pel’A Garota do Violino.

Texto retirado da nota de suicídio de M. Terry

Iowa, EUA — 17/01/1993

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