A Garota do Guarda-chuva Azul
17 Capítulo 17
Estou quase terminando de colocar todas as roupas que acabo de lavar no varal quando meu interfone toca, em plena noite de quinta-feira. Pensando que minha vizinha do 304 vem me pedir mais uma xícara de açúcar eu abro a porta levemente impaciente, mas me deparo com alguém completamente inesperado. Alex me encara do outro lado, com uma expressão de pânico, segurando uma grande bolsa com uma das mãos e Mark com a outra.
— Alex? Está tudo bem? – pergunto, notando a palidez de seu rosto – Vamos, me dê isso – digo, pegando a bolsa de sua mão enquanto ela entra, receosa.
— Está tudo bem, é só que... – ela para de falar, como se ainda estivesse tentando assimilar algo – minha casa acabou de ser invadida.
— Como é? – indago, preocupada – Espere, vou pegar uma água para você.
Rapidamente, vou até a cozinha, encho o copo e retorno à sala, onde ela me espera sentada no sofá. Mark está em seu colo, mordendo despreocupadamente um dos anéis de sua mão – Me explique isso direito – peço, a entregando. Percebo que suas mãos estão um pouco trêmulas.
— Benedict continua na casa do amigo e Charlie está viajando a negócios, então tenho passado um tempo maior na empresa esses dias. – inicia, um pouco mais calma, após ter tomado metade da água – Há cerca de uma hora atrás eu estava lá, resolvendo algumas coisas, quando recebi uma ligação da polícia, dizendo que dois caras haviam acabado de invadir a minha casa e que, graças ao alarme, os policiais conseguiram chegar a tempo e prender os dois.
— Mas que merda – digo, chocada.
— Pois é. Então eu fui direto para a casa e os policiais ainda estavam lá. Liguei para Charlie e ele me disse que não consegue deixar Londres enquanto não fechar o negócio, o que deve demorar mais um dia. Eu não quero ficar sozinha naquela casa enorme depois de tudo isso, então meu único pensamento foi o de vir para cá – termina, com uma expressão de quem pede desculpas.
— Fico feliz que tenha vindo, pois, caso contrário, eu mesma teria arrastado você até aqui – brinco, tentando aliviar o clima.
— Eu deveria ter ligado, mas nem me lembrei disso. Meu único pensamento era você – fala, fazendo minhas pernas ficarem bambas. Me sento ao seu lado no sofá, pego uma de suas mãos trêmulas e entrelaço seus dedos nos meus.
— Que bom que está aqui comigo. – digo, sorrindo, percebendo um sorriso tímido se formar em sua boca. Então noto que o colar que eu havia dado a ela em seu aniversário pende em seu pescoço, a deixando ainda mais bonita e não consigo deixar de sorrir ainda mais. De repente, Mark enfia seu focinho frio entre nossas mãos unidas, pedindo atenção.
— Ele está mil vezes melhor – comento. De fato, o cãozinho tem uma aparência muito mais saudável, mesmo que tenha sido adotado por Alex há poucos dias.
— Está sim – concorda, colocando-o no chão. Imediatamente, Ártemis e Apolo, que antes apenas observavam ao longe, se aproximam do filhote lentamente. Ele, animado, corre em direção aos gatos que eriçam suas caudas, amedrontados. Passamos os dois minutos seguintes observando Mark persegui-los, querendo brincar, e estes fugindo dele, o que faz Alex se acalmar mais.
— Ele está se adequando no novo lar? – pergunto, referindo-me à Mark, que está dormindo tranquilamente no meu tapete da sala e sendo vigiado de longe pelos gatos, desconfiados. Eu e Alex estamos assistindo à um filme.
— Totalmente. Lá tem um espaço enorme para ele brincar e quando contei a novidade a Benedict pelo telefone ele simplesmente adorou – explica, sorridente.
— Isso é ótimo – falo.
— É sim – diz, sem graça. O filme acaba de mudar para uma cena onde um casal dá uns amassos bem quentes numa poltrona. Nós duas nos encontramos um tanto envergonhadas.
— Acho que isso não deve dar certo – falo, tentando dar fim ao silêncio constrangedor que paira sobre nós.
— Isso o que? – questiona, confusa.
— Essa posição. Quero dizer, não deve ser nada sexy um ficar sentado em cima do outro enquanto se beijam – explico.
— Garanto que você adoraria se experimentasse – fala, rindo.
— Pois eu garanto que não acharia a menor graça – contesto, dando de ombros.
— O que acha de testarmos essa sua teoria? – propõe, com uma expressão de desafio no rosto.
— Manda ver – digo, rindo, considerando que isso não passa de uma brincadeira.
Então, para o meu completo espanto, ela se levanta do sofá em que estamos sentadas e deposita as mãos ao redor do meu pescoço. Olhando fixamente em meus olhos, Alex sobe em cima de mim e posiciona suas pernas nas extremidades exteriores das minhas coxas, fazendo com que ficássemos na posição quase exata do casal do filme, no qual já não estamos prestando a mínima atenção. Totalmente surpresa, eu involuntariamente coloco minhas mãos em seus quadris, o que a faz soltar um sorriso irresistivelmente sedutor.
Ela aproxima seu rosto do meu até nossas bocas ficarem a centímetros de distância. Seus olhos, sempre grudados nos meus, revelam uma ânsia tão intensa que me vejo presa neles e não consigo deixar de dirigir a ela um olhar igualmente cheio de desejo.
Cada parte de mim anseia desesperadamente por aquele contato e, quando ela deposita um beijo suave a milímetros de minha boca, é como se eu estivesse prestes a explodir. Alex continua beijando meu rosto, formando uma maravilhosa trilha até meu pescoço. Ela mergulha uma de suas mãos em meus cabelos e os puxa levemente para o lado, no intuito de deixar meu pescoço em maior evidência, fazendo com que eu prenda a respiração, tomada por um êxtase absurdamente prazeroso.
Seus lábios macios e quentes tocam delicadamente minha pele, deixando minha respiração mais pesada. Mordendo o lábio, sou capaz de sentir mais profundamente o seu perfume arrebatador. A excitação toma conta de mim e aperto seus quadris com mais força, trazendo-a para mais perto e colando nossos corpos. Suas ações são intensificadas e ela começa a me beijar com menos delicadeza, assumindo um ar feroz, como se estivesse faminta por aquele contato. O desejo insano que sinto só aumenta a cada toque dela e sinto meu coração bater a mil por hora.
Antes que eu acabe me deixando levar totalmente por aquelas sensações espetaculares, ela para de beijar meu pescoço e levanta sua cabeça para me encarar. Seus olhos têm um misto de desejo e divertimento.
— E então, – começa, com um sorriso malicioso formado nos lábios – você continua a não achar a menor graça nisso?
— Me lembre de nunca mais duvidar de você – é tudo o que consigo responder, tentando recuperar o fôlego.
— O que está fazendo? – indaga Alex, confusa. Ela acaba de voltar do banheiro e me observa cobrir o sofá com um lençol.
— Preciso forra-lo com alguma coisa se eu quiser dormir nele esta noite – digo, distraída.
— Como assim? – questiona, boquiaberta – Quem vai dormir aí sou eu. Não posso deixar que durma no sofá na sua própria casa por minha causa
— Eu é que não posso deixar você dormindo nele. Acredite, ele é bem desconfortável para isso.
— Então por que nós duas não dormimos na sua cama? Ela é de casal, nos cabe perfeitamente – propõe Alex, ainda indignada.
— Você quem sabe – digo, engolindo em seco, tentando parecer o mais neutra possível. A ideia de dormir na mesma cama que ela me embrulha o estômago. Então reparo que ela está com o mesmo conjunto de moletom coberto por desenhos de cactos que a vi usando em sua casa certa vez. Não consigo deixar de sorrir após me lembrar do quanto ela fica bonita nele, acrescentando – Belo pijama.
Enquanto terminamos de nos preparar para dormir, noto que a noite está consideravelmente fria. Pego o maior edredom que tenho e cuidadosamente me sento na cama, onde Alex já se encontra, igualmente tímida e sentada.
— Obrigada – agradece, depois que eu a entrego sua parte do cobertor. Seus cabelos loiros estão graciosamente despojados e seus olhos verdes me encaram com curiosidade.
— Por que está me olhando desse jeito? – pergunto, levemente nervosa.
— Porque você é completamente diferente das pessoas que eu conheço – responde, ainda me analisando.
— E, mais uma vez, eu me pergunto se isso é um elogio – brinco, apagando a luz. Não estamos completamente no escuro, visto que a lua emite uma luz suave de minha janela. Me cubro com o edredom e deito a cabeça no travesseiro. Alex faz o mesmo, e, deitadas, nos viramos uma para a outra.
— Você ainda não entende o quanto eu te acho linda, não é? – diz.
— Só não entendo o motivo. – retruco, sem graça – Caramba, hoje está realmente gelado.
— Você está com frio? – questiona.
— Estou – digo, com uma careta.
— Por que não vem para mais perto de mim, então? Eu não mordo, sabia?
— Se eu chegar perto, quem vai ficar com frio é você. Se esqueceu do quanto minha pele é gelada? – contesto.
— Pare de bobagem – fala, me puxando para ela e me envolvendo em um abraço. Nossas cabeças ocupam apenas um travesseiro e meu rosto está a centímetros do dela. Quase que imediatamente sinto o frio se esvaindo de meu corpo, ao sentir seu corpo quente e reconfortante junto ao meu.
— Bem melhor – admito. Fechando os olhos.
— Engraçado, – começa – também me sinto mais quente abraçada a você.
— Deve ser coisa da sua cabeça – sugiro.
— Eu não acho. Você sempre faz isso comigo – consta.
— Eu sempre te esquento? – pergunto, confusa, voltando a abrir os olhos.
— Bem, de certo modo sim. – responde, sorrindo – Hoje, por exemplo, tive uma das experiências mais assustadoras da minha vida e estava completamente sem chão. Mas então eu fui até a sua casa e, quando você abriu a porta, me olhando com aquela carinha de preocupação, eu soube que tudo ficaria bem.
— Você teve um dia e tanto hoje, não é? – falo, acariciando seu rosto.
— Nem me fale – concorda, fechando os olhos.
Nesse momento, ela está tão deslumbrante que me pego apreciando-a. À luz da lua, seus traços ficam ainda mais encantadores e meu peito é preenchido por uma sensação maravilhosa.
— Eu te amo, Alex – solto, baixinho. Completamente chocada e arrependida pelo que fiz, observo sua reação, que é completamente inesperada. Com os olhos ainda fechados, seus lábios se curvam num enorme sorriso. Me abraçando mais fortemente, ela aproxima ainda mais seu rosto do meu. Nossas bocas estão a milímetros de distância e, prendendo a respiração, imagino que ela vai me beijar a qualquer momento.
— Eu também te amo, Emma – são as últimas palavras de Alex, antes de ela adormecer profundamente, com o rosto ainda colado ao meu.
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