Notas iniciais
Olá gente. Essa é a primeira história que estou postando, então espero que gostem. Como estou postando tudo de uma vez, não irei tecer comentários nas notas dos próximos capítulos.
Comentem aí a opinião de vocês. Escrevi tudo com muito carinho e empenho.
Boa leitura!

— Está caindo o maior temporal lá fora em?- comenta meu último cliente da noite, enquanto conta o dinheiro para pagar as flores que encomenda, segundo ele, para presentear a namorada.

— Está sim- respondo, brevemente, enquanto termino de embrulhar as tulipas que ele pede, atrás do caixa.

— Sabe que essas tulipas vermelhas simbolizam o amor duradouro?- ele pergunta, com um sorriso sonhador no rosto.

— Então ela com certeza vai adorar o presente- digo eu, sorrindo, entregando o embrulho a ele e recebendo o dinheiro.

— Seus olhos- diz o rapaz, boquiaberto, ao olhar mais detalhadamente para o meu rosto.

— O que tem eles?- pergunto, distraída.

— São incríveis. Você usa lentes de contato?- ele indaga, olhando fixamente para eles, o que me irrita levemente.

— Herdei da minha mãe. — respondo, apenas. É a terceira pessoa que comenta sobre eles, apenas hoje. Extremamente claros, de um intenso azul gelo, meus olhos sempre chamaram muito a atenção das pessoas, em conjunto com meus longos cabelos naturalmente claro acinzentados e minha pele branca e pálida como giz. Meu pai costumava se referir a mim como uma pessoa assustadoramente bonita. Ainda não sou capaz dizer se aquilo era um elogio — Mas obrigada.

— São realmente fascinantes- responde, caminhando lentamente para a saída da loja, ainda observando-os, sem cerimônias, como se eu fosse uma atração turística – Preciso correr para não ficar encharcado e estragar meu presente- e, com um grande sorriso de adeus, sai da floricultura, abre um guarda-chuva preto e vai embora.

Então eu finalmente consigo soltar o suspiro que estava prendendo desde que ele havia chegado. Para mim sempre foi extremamente penoso me relacionar com as outras pessoas. Minha mãe morreu em meu parto, devido a uma complicação. Meu pai me odeia, inconscientemente, por eu ter matado o grande amor de sua vida. Isso o levou a passar os primeiros 18 anos da minha vida focado exclusivamente no trabalho e depois se mudou para a Europa, para se casar com uma mulher que ele mal conhecia, me deixando morando sozinha nos Estados Unidos. Tenho um mínimo e raro contado com o resto de minha família, que também não é exatamente muito acolhedora. Isso me fez crescer sozinha, antissocial e estranha.

Olho para fora da loja, e, com uma careta, percebo o quão forte está chovendo e que a rua está escura, deserta e assustadora. Concluindo que seria ótimo se eu fosse para casa o mais rápido possível, fecho e organizo tudo e, como estou sozinha hoje, dou mais uma checada nas coisas quando me preparo para ir embora.

Pego o meu guarda-chuva azul num canto e, ao reparar um pouco mais nele, noto o quão velho e desgastado está. Sempre que penso em livrar-me dele, me lembro do quanto ele é importante para mim e acabo desistindo.

A primeira e única vez em que eu e meu pai nos entendemos, e até nos divertimos, foi no meu aniversário de 8 anos, onde ele, inesperadamente, me levou a um parque de diversões. Ele estava especialmente animado naquela ocasião, considerando que também era o aniversário de morte da minha mãe e que nunca costumávamos fazer nada especial nessa data.

Nós andamos em praticamente todos os brinquedos do parque, e, naqueles que eram mais radicais, em que eu gritava e fechava os olhos, ele segurava minha mão e me dizia que estava tudo bem. E aquele foi o dia em que eu descobri como era me sentir segura. A sensação de que eu estava protegida, sã e salva. Porém, foi a primeira e única vez que eu senti aquilo. Já no fim da tarde, quando estávamos indo embora, começou a chover. Ele foi em uma das barracas de camelô que estavam ali perto, comprou um guarda-chuva azul enorme o suficiente para caber nós dois, e me entregou-o, rindo e dizendo:

— Este é o seu presente querida, feliz aniversário.

— Muito obrigada, papai — eu disse, verdadeiramente radiante, pois ele nunca me dera um presente antes.

Então, abraçados, voltamos para a casa. Apesar de toda a felicidade que preenchia o meu peito naquele momento, alguma coisa me dizia que, no dia seguinte, as coisas voltariam ser exatamente como sempre foram.

Desde então, eu sempre guardei esse guarda-chuva. Afinal, por mais que eu não seja especialmente fã do meu pai, aquele havia sido o melhor dia de minha vida.

Após me relembrar do motivo de eu ainda guardá-lo, mesmo estando eu, atualmente, com 22 anos de idade, eu abro a porta de entrada da loja. Ao sair, enfrento as primeiras rajadas frias, que atingem o meu rosto com violência.

Após trancar a loja e tentar abrir o guarda-chuva, percebo que ele está emperrado e fico um tempo considerável parada em frente a floricultura tentando, inutilmente, abri-lo. Então, começando a ficar molhada e impaciente, decido investir toda a minha força na parte que está travando, até que finalmente se abre. Porém, devido a uma forte e repentina ventania na minha direção, ele escapa das minhas mãos e começa a ficar cada vez mais longe de mim, levado pelo vento.

Era só o que me faltava, penso eu, enquanto começo a correr pela rua deserta em busca do guarda-chuva. Ele está indo em direção à avenida principal da cidade, que possui um grande movimento de veículos.

Após correr por cerca de um minuto, chego na avenida e logo localizo-o. Quando me preparo para começar a correr novamente, já encharcada e ofegante, algo tira completamente a minha atenção. Uma mulher. Ela está do outro lado da rua, e, apesar de eu não conseguir ver seus traços nitidamente, uma sensação completamente desconhecida por mim percorre meu corpo, semelhante a uma carga de eletricidade. Por cerca de um segundo essa sensação me domina e eu fico parada, estática, sem saber o que fazer. Logo após ela dá lugar a um outro sentimento: o de perigo.

Tudo acontece muito rápido. Enquanto eu a observo, percebo que ela está atravessando a rua e que está demasiadamente distraída com uma conversa ao telefone para olhar para os lados. No mesmo instante, vejo que um carro em alta velocidade se aproxima cada vez mais dela e que ele não parece ter a intenção de parar.

Subitamente, meus instintos tomam conta de mim e, de repente, o guarda-chuva não importa. Nada mais importa. A única coisa importante para mim, naquele momento, é salvar a vida daquela mulher, e, em cerca de milésimos de segundos, eu me vejo correndo em direção àquele carro. Em seguida, tudo fica escuro.