A Garota do Guarda-chuva Azul
6 Capítulo 6
As duas semanas seguintes se passam com uma lentidão agonizante. Fico praticamente o dia inteiro na mesma posição e as horas passam tão devagar naquele hospital, que, nesse tempo, consegui terminar duas séries e assisti à mais maratonas de filmes que em qualquer uma das férias de verão que tive quando era pequena.
Eu e George nos vemos com tanta frequência diariamente que sei o nome de todas as namoradas que ele já teve, a primeira vez que ele caiu de bicicleta e o dia em que ele aprendeu a fazer costeletas de porco.
As únicas coisas que fazem dessas duas semanas menos torturantes são a comida magnífica que oferecem no hospital e Alex. Ela me visita sempre que pode e, após muitas conversas, descubro que temos muito em comum, apesar de vivermos em mundos completamente diferentes.
Ela leva o filho dela junto, duas ou três vezes. Apesar de, normalmente, eu não gostar de crianças, sinto uma grande e surpreendente afeição pelo menino assim que o vejo pela primeira vez. Assim como Alex fala, é realmente inteligente, bonito e carinhoso. Com o cabelos sedosos e castanhos, percebo que ele tem os olhos dela. Verdes e intensos.
Meu corpo se encontra muito menos dolorido e a maior parte dos pontos arroxeados em minha pele desapareceu. Meu olho ainda dói, mas minha perna está bem melhor. Inclusive, nas poucas vezes em que eu e Alex saímos para o jardim, aprendi a andar com o auxílio da muleta e com apenas um olho, e estou muito satisfeita com meu desempenho.
— Estou realmente muito curiosa para saber como você subirá esses três lances de escada sem que eu precise te levar de volta para o hospital – Alex brinca. As duas semanas finalmente acabaram e ela me levou com seu carro até meu apartamento. Estamos paradas em frente à enorme escada do primeiro andar, e sinto um leve pânico me invadir, após me imaginar tropeçando em algum degrau e caindo.
— Ora, não é um pouco óbvio? É você quem vai me carregar por essa longa jornada – brinco, começando a subir os primeiros degraus.
Durante a subida, Alex me supervisiona meticulosamente, como se eu fosse um bebê aprendendo a andar. Ainda não me acostumei com todo esse cuidado que ela demonstra ter comigo, e não consigo deixar de sentir uma leve fisgada de estranhamento perante esses seus episódios de apreço. Depois de um tempo consideravelmente longo, consigo chegar ao quarto andar e me dirijo à minha porta.
— Pelo visto você já pegou o jeito – Alex diz, me analisando.
— Você já não vai mais precisar me carregar por todas essas escadas. Uma pena, não acha? – pergunto, destrancando a porta. Então ouço barulhos de garras a arranhando, do lado de dentro e sinto a ansiedade tomando conta de mim. Estou realmente muito ansiosa para ver meus gatos.
— Com certeza – ela ironiza.
Abro a porta e dois felinos extremamente agitados vêm ao meu encontro, e pulam em mim com tanta animação que me jogam no chão.
— Meu Deus, Emma, você está bem? – Alex pergunta, se ajoelhando e me tentando me ajudar a levantar. Porém, eles estão tão ansiosos que continuam a pular em cima de mim, e, por fim, ela desiste e também se senta no chão, observando a cena.
Quando me dou conta da quantidade de dias que estou sem vê-los e no quanto parecem felizes e aliviados com a minha chegada, me parece inevitável a sensação de alívio que toma conta do meu corpo, por saber que eles, duas das pouquíssimas criaturas no mundo que se importaram comigo durante toda a minha vida, estão bem.
Então pego nos braços Apolo, que sempre foi o mais manhoso, enquanto me abaixo o máximo que consigo e esfrego levemente o meu nariz no focinho gelado de Ártemis, que retribui o gesto carinhosamente e fecha os olhos.
Algum tempo depois, quando me dou conta de que estou jogada no chão, em frente à minha casa, com meus gatos em cima de mim e com uma Alex, também no chão, observando toda a cena com um olhar de admiração, tento me recompor rapidamente.
— Acho que está na hora de entrarmos – digo, constrangida, me levantando com a ajuda dela.
— Uau – exclama, olhando para dentro da casa – Você tem mesmo ótimos vizinhos.
Confusa, passo pela porta, olho o ambiente e consigo ver do que Alex está falando. Está tudo em sua perfeita ordem e limpeza. É como se, ao invés de ter passado duas semanas fora, eu tivesse acabado de dar uma faxina na casa. Tudo está limpo e organizado e um suave frescor de lavanda invade minhas narinas. Então, após analisar o espaço, boquiaberta, localizo uma cesta cheia de pães de mel em cima da mesa, ao lado de um bilhete. Quando o pego leio a seguinte mensagem: “Todos nós tentamos deixar sua casa o mais limpa possível, para que não precise fazer muitos esforços quando chegar. Dona Cátia da 102 fez questão de fazer esses pãezinhos para você, aproveite. Te desejamos melhoras. Abraços dos seus vizinhos”.
Apesar de ainda estar muito surpresa, um enorme sentimento de gratidão preenche meu peito e eu começo a pensar que, afinal, eles não são tão ruins assim.
— Bom, – eu começo, colocando o bilhete de volta na mesa – acho que vou passar a aceitar os convites das senhoras do primeiro andar para jogar pôquer em agradecimento.
— São realmente muito atenciosas. – ela diz, olhando ao redor, depois de colocar minhas coisas no sofá – Sua casa me parece muito bonita e confortável.
— Se você tivesse vindo aqui três semanas atrás com certeza não acharia isso – brinco.
— Charlie tem uma caixa de som igualzinha a esta. – fala, animada, apertando o botão de ligar dela. Então, uma música lenta e suave preenche o ambiente. Comecei a escutá-la na noite anterior ao acidente – Uau, eu não achei que você fizesse o tipo romântica – acrescenta, rindo.
— E não faço. – digo, constrangida – Nem sei como essa música veio parar aí.
— Ora, vamos, – ela começa, se aproximando de mim, com um sorriso – não tem do que se envergonhar. É uma bela música. Perfeita para uma dança – e, encostando minhas muletas numa parede, pega minhas mãos.
— Tá brincando Alex? Eu não sei dançar, principalmente nesse estado – digo, em pânico, enquanto ela me guia para o centro da sala, rindo.
— Relaxa Emma. Nada melhor que dançar para reduzir o estresse. Além do mais, – ela fala, passando seus braços ao redor da minha cintura firmemente, colando seu corpo ao meu e, mais uma vez, deixando nossos rostos a centímetros um do outro – eu sou uma ótima dançarina.
Com o coração batendo a mil por hora, encaro seus olhos, que devolvem um olhar profundo. Então, tomada pela sensação maravilhosa de estar tão próxima a ela, coloco meus braços ao redor de seu pescoço, nos aproximando ainda mais. Conforme ela se move numa dança lenta e eu a acompanho com uma surpreendente facilidade, consigo sentir seus cabelos, macios e sedosos.
Tudo o que consigo ver, entorpecida por aquele sentimento avassalador, são seus olhos cor de esmeralda. Estes observam cada traço do meu rosto, como se ela quisesse gravá-lo perfeitamente em sua memória. Também não posso deixar de reparar em suas feições. Seu rosto é tão perfeito que parece ter sido esculpido por anjos. Seus contornos são tão suaves e, ao mesmo tempo, tão acentuados, que me vejo mergulhada neles. Esse momento parece durar uma eternidade. E é como estivesse durando segundos.
Sinto que cada parte do meu corpo tocada por ela vai entrar em combustão a qualquer momento. É uma sensação única. Extraordinária. Seus movimentos são suaves e elegantes, evidenciando sua experiência na dança. Então sinto seu cheiro. Novamente, é aquela fragrância adocicada e sedutora. Involuntariamente, todo o meu corpo pede por mais, e me vejo sedenta por aquele aroma irresistível. Deixando-me levar completamente pelo desejo, aproximo meu rosto de seu pescoço e toco delicadamente sua pele quente e macia com a ponta do meu nariz, inalando mais profundamente aquele perfume avassalador. Em seguida, Alex me aperta ainda mais, como se correspondendo ao meu gesto.
Estamos tão inertes naquele momento que demoramos alguns segundos para perceber que a música havia terminado e dado lugar ao silêncio.
— Como você aprendeu a dançar assim? – eu pergunto, ainda levemente tomada pelo êxtase. Ela não me solta, e nossas bocas continuam próximas. Ela tem um olhar sedutor no rosto.
— Anos de prática. – responde, após alguns segundos, distraída. Então, voltando a si, pega minhas muletas de volta, com uma mão, e as entrega para mim – Como se sente? Mais calma?
— Calma não é bem a palavra que eu usaria, mas admito que me sinto melhor – respondo, desatenta, enquanto observo Ártemis se emaranhando entre minhas pernas.
— Já é alguma coisa. Nossa, preciso ir – diz, alerta, olhando as horas no celular – Benedict já saiu da escola.
— Obrigada pela carona – digo, enquanto abro a porta.
— Não foi nada – responde, descendo as escadas, apressada.
Quando tranco a porta um súbito pensamento invade minha mente: será que estou apaixonada por Alex? Atordoada, sento em meu sofá. Apolo sobe nele e se deita ao meu lado, sonolento. Enquanto acaricio sua cabeça peluda e macia, penso em tudo o que aconteceu nas últimas duas semanas.
Penso em quando a vi pela primeira vez e senti aquela coisa inexplicável. Quando acordei e notei o quão bela era ela. Me lembro do desconforto que senti quando ela me contou que era casada. Dos longos, intensos e indecifráveis olhares que trocamos. Do estranho desejo que senti de beijar seus lábios naquele dia e do quão segura eu me sinto em seus braços. Me recordo do modo como meu coração bate descompassadamente quando estou perto dela e do fato de eu pensar nela inúmeras vezes ao dia e constantemente ansiar por sua chegada. Penso em como eu me senti quando ela prometeu que sempre me iria me proteger e em como o meu corpo reage a cada toque dela.
Jamais havia sentido algo parecido por nenhuma outra pessoa. Nenhuma mulher havia provocado esses sentimentos em mim e, apesar de nenhum homem igualmente nunca tê-lo feito, eu sempre pensei que o cara certo ainda não havia aparecido para mim. Nunca, em toda a minha vida, considerei que eu poderia gostar de uma pessoa do mesmo sexo que eu.
Apesar de ainda estar confusa, finalmente consigo concluir que estou apaixonada por Alex, e isso me deixa desesperada. Afinal, além do fato de ela ser uma mulher e muito mais velha que eu, ainda é casada e tem um filho. Não tem a menor chance de isso dar certo, ou de, pelo menos, dar em alguma coisa. Sem contar o fato de que ela certamente não sente nada por mim. Mas, então, o que explica todas vezes em que ela acariciou o meu rosto e o modo como ela me olha? Logicamente, deduzo, em seguida, que é por causa da enorme gratidão que ela sente por mim, após eu ter salvado sua vida. Minha cabeça está a mil por hora e eu não faço ideia do que fazer.
Olho para a mesa, vejo os pães de mel e percebo que estou com fome. Então, enquanto como-os, fico pensando na enorme confusão em que eu me meti, por causa de apenas um guarda-chuva velho.
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