— Então, o que achou? – Alex pergunta. Estamos sentadas em um banco rodeado por um enorme jardim composto pelas dálias mais deslumbrantes que eu já vi. São donas de um vermelho profundo e incomparável. Banhadas pelo pôr do sol, elas fazem com que o cenário se assemelhe ao de um sonho paradisíaco.

— Acho que vou pedir para ficar mais algumas semanas por aqui – brinco, fechando os olhos, para apreciar uma brisa suave que vem de encontro ao meu rosto, levando consigo a fragrância delicada e singular das flores – Eu estava mesmo precisando sair para tomar um ar.

— Você costuma vender muitas dessas na floricultura? – ela pergunta, casualmente.

— Com certeza. O significado das dálias atrai muitos clientes.

— É sério? – pergunta — O que elas simbolizam?

— Bom, na linguagem popular elas denotam à expressão “os teus olhos queimam”, no sentido de que eles transmitem uma paixão intensa que permanece oculta, mas que está sendo insinuado – digo, e percebo que, subitamente, nós duas estamos desconfortáveis – Mas também estão muito relacionadas a levar alegria ao ambiente e à transferência de boas energias, como uma transmissão de força a quem precisa – completo, numa tentativa de amenizar o clima.

— Deve ser por isso que as colocaram no hospital. – comenta Alex, distraída – Quero dizer, não por simbolizarem a paixão secreta, mas pelas boas energias – acrescenta, constrangida, o que me faz soltar uma risada que logo é retribuída por ela, voltando a deixar o clima descontraído.

— Então, me conte mais sobre você. – peço, curiosa – Só falamos sobre mim, até agora.

— Não creio que eu tenha alguma peculiaridade a compartilhar, mas vamos lá. – brinca, e, após pensar por alguns segundos, continua – Aos 12 anos meus pais morreram em um acidente, então fui morar com minha tia Michonne, que sempre cuidou de mim da melhor maneira que pôde, mesmo sendo extremamente pobre. A única solução que enxerguei para ajudá-la era arrumar um bom emprego, mas só conseguiria isso se estudasse muito e conseguisse uma bolsa de estudos para a faculdade. Então tudo o que eu fiz durante toda a minha adolescência foi estudar incessantemente.

— Mas, espere, como ficam os garotos nessa história? Com toda a sua beleza, você certamente atraía muitos pretendentes, não é mesmo? – questionei, intrigada.

— Certamente que não. – respondeu, com uma risada – Fiquei na lista das Meninas Mais Feias da minha sala por 3 anos consecutivos. Eu usava óculos, aparelho nos dentes, tinha inúmeras espinhas espalhadas pelo meu rosto e não fazia ideia do que eram produtos de beleza. Apenas quando fiquei mais velha e consegui entrar para uma das melhores faculdades da região é que comecei a me cuidar e a melhorar consideravelmente minha aparência. Tive um ou dois namorados antes de me formar, até que consegui um emprego em uma grande empresa e conheci o Charlie. Ficamos amigos rapidamente e logo percebemos que formávamos uma ótima dupla no que se dizia respeito ao trabalho.

“Desde então, com a ajuda um do outro, começamos a subir de funções muito rápido, pois éramos imbatíveis juntos e, em questão de pouco tempo, já ocupávamos uns dos cargos mais importantes da empresa. Estávamos namorando a um tempo quando decidimos nos casar e formar uma família. Um ano depois, nosso filho nasceu e decidimos que um de nós deveria realizar seu trabalho em casa, para que pudéssemos demonstrar mais presença em seu desenvolvimento e optei por fazê-lo, pois minha função era mais concebível de ser realizada à distância”

“Então, há cinco anos, tenho realizado a tarefa mais exaustiva, porém, mais recompensadora, de todas: a de ser mãe. Benedict é um menino extremamente inteligente e doce e é a maior alegria da minha vida. Atualmente, ele já está indo à escola, o que me possibilita uma ida à empresa todos os dias, mesmo que por algumas horas.”

— E você ainda me diz que não te nenhuma peculiaridade para compartilhar? – pergunto, boquiaberta.

— Não sei dizer algo que faça de mim uma pessoa peculiar – ela responde, confusa.

— Que tal o fato de você ser uma mulher extremamente inteligente, profundamente doce, empoderada e extremamente bonita? – digo, inconformada.

— E que tal o fato de você ser uma garota peculiar? – ela pergunta, com uma sobrancelha arqueada.

— É, já me falaram mesmo do quanto minha aparência é estranha – brinco. Apesar de estar acostumada a ouvir comentários como esse diariamente, não consigo deixar de sentir uma pequena tristeza dentro de mim, por esse ter vindo de Alex.

— Emma, – ela diz, colocando a ponta de seu dedo indicador em meu queixo e erguendo delicadamente minha cabeça, de forma a me fazer encarar seus olhos expressivos – você não é estranha. O seu rosto é a coisa mais linda, delicada e única que eu já vi. Você é dona de uma suavidade tão deslumbrante e extraordinária que eu tenho medo de tocar você e acabar te quebrando.

— Eu não sou de vidro Alex – é a única coisa que consigo responder, após ouvi-la, atônita. Tenho dificuldades em processar tudo o que ela fala, minha boca está seca e não consigo mover a menor das células do meu corpo. Então ela sorri docemente e tira a mão do meu rosto.

— Tem razão, não é de vidro. – ela comenta, me analisando, pensativa – Você é como uma princesa de gelo. Delicada, singular e encantadora.

— Então você é uma rainha de fogo. Majestosa, imponente e deslumbrante – retruco.

— Mas isso faria de nós inimigas mortais. – observa Alex, se divertindo com a brincadeira – Como poderíamos nos relacionar sem machucar uma a outra?

— Ora, mas não é essa a questão? O amor machuca. O amor fere. Amar dói.

— Eu não concordo. Penso que o amor cura, revigora e protege – ela fala, introvertida, olhando para o horizonte – Nossa, olhe como está tarde – comenta, surpresa, fazendo-me perceber que, de fato, havíamos passado muito tempo conversando – Preciso ir embora, aqueles dois já devem estar preocupados. Vamos, eu te ajudo a levantar – diz, estendendo as mãos para mim.

— Não precisa. – digo, pegando as muletas – Vou te mostrar que não sou tão frágil quanto eu aparento ser.

— Se você insiste, madame – ela diz, num tom de formalidade cômica.

Levo um tempo maior do que eu pensei, mas consigo me levantar sozinha e me orgulho disso. Enquanto me acompanha até meu quarto, noto que Alex tem uma expressão preocupada no rosto.