— Como assim você vai passar o Natal sozinha? – pergunta Alex, indignada, pelo outro lado da linha. É dia 24 de dezembro e eu estou conversando no telefone com ela em meu horário de almoço da floricultura.

Passamos a nos falar com uma frequência maior pelo celular desde o seu aniversário. É como se nós duas estivéssemos evitando ver uma a outra. Não sei os motivos dela, mas sei que o meu é que não tenho certeza sobre conseguir segurar minha vontade de beijá-la quando nos encontramos. Porém, pois mais que estejamos fisicamente distantes, não consigo deixar de reparar que nós duas estamos mais grudadas que nunca. Semelhante a casais apaixonados de namorados, conversamos o tempo inteiro, seja por ligação ou mensagem, e ficamos muito tempo conversando mesmo depois de nos despedirmos. Isso faz eu me sentir um tanto hipócrita, visto que sempre classifiquei essas atitudes como infantis e idiotas. Mas penso que essa é a questão. Aprendi que amor nos deixa bobos e leves, e ainda não descobri se isso é uma coisa boa.

— Por que está tão chocada? Desde que comecei a morar sozinha eu sempre passei esses feriados sozinha – respondo, com naturalidade, lembrando-me de que havia passado meu último ano-novo comendo macarrão instantâneo.

— Isso não é possível. – ela começa, revoltada – O Natal é a época mais maravilhosa do ano, onde você se reúne com todos que você ama.

— A lista de “pessoas que eu amo” está um pouco vazia no momento – argumento, ironicamente.

— Então eu não estou nessa lista, senhorita Emma? – ela pergunta, fingindo indignação.

— Claro que está.

— É bom que esteja, pois esse ano você vai passar comigo – fala, me fazendo engolir em seco.

— Está louca, Alex? Você tem que ficar com a sua família, eu me viro aqui. Nem mesmo gosto desses feriados – devolvo.

— Eu jamais te deixaria sozinha numa noite tão importante. Além disso, você também está na lista das pessoas que eu amo, então tem a obrigação de estar comigo.

— Mas eu sequer fui convidada.

— Estou convidando agora. – ela retruca, com simplicidade – Fora que não será nada de mais, pois receberemos apenas a família de Charlie.

— Mas e a sua família? – pergunto, curiosa.

— Nós sempre alternamos entre passar o Natal com a família dele ou com a minha – explica.

— Não sei não Alex. E se o Charlie não gostar da ideia? – indago, receosa. Na verdade, eu tenho a certeza de que ele irá fazê-lo, ao lembrar do quanto ele parecia furioso na discussão que os dois tiveram em seu aniversário, mas preciso me fazer de desentendida para Alex não desconfiar de que eu ouvi alguma coisa.

— Não importa o que Charlie acha. – ela diz, meramente – Aquela é a minha casa também, então ele não tem o direito de proibir a entrada dos meus convidados, não se preocupe com isso. E você vai sim, nem que eu tenha que te arrastar até lá.

— Tudo bem, você venceu – eu falo, pesarosa. Começo a sentir o pânico me invadir no momento em que me dou conta de que Alex admitiu estar apaixonada por mim para o marido com quem estarei cara a cara em algumas horas.

— Sabia que rolava algo entre vocês – comenta Cheryl, empolgada — O maridão deve estar puto agora.

No caminho para a casa de Alex decidi ligar para Cheryl e abri o jogo. Contei para ela a história inteira, desde como me senti quando vi Alex pela primeira vez, na noite chuvosa, até nossa última ligação em que ela me convidou para passar o natal com ela, incluindo nosso beijo e a parte em que ouvi ela dizendo a Charlie que estava apaixonada por mim. Apesar de ter jurado a mim mesma que nunca contaria nada disso a ninguém, senti que precisava desabafar e que Cheryl, apesar de ser completamente maluca, certamente me ajudaria com isso.

— Nem quero imaginar o quanto – digo, temerosa.

— Acho que ele deve estar te esperando com uma faca na mão para fazer de você o peru de Natal – ela brinca.

— Para com isso Cheryl. – repreendo-a, irritada – Preciso que me ajude, não que faça piadas.

— Tudo bem, me desculpe. – ela diz, ficando mais séria – Olha, eu acho que você não deveria se preocupar tanto assim. Afinal, se ele quisesse fazer algo com você já teria feito, pois eu duvido que ele tentaria alguma coisa com toda a família dele presente. Fora que Alex certamente vai proteger você.

— Mas ainda assim vai ser algo constrangedor. Mesmo que ele não faça nada, não vou ter cara de ficar lá com a família dele, sorrindo, como se nada estivesse acontecendo.

— Relaxa. Vai acabar rápido, são só algumas horas. Fora que a família dele provavelmente não sabe de nada, então vão te tratar bem, tenho certeza – argumenta. Perante suas palavras, me sinto mais calma e tranquila e paro de sentir como se eu estivesse prestes a dar meia volta e sair correndo.

— Ok. – começo, respirando fundo – Muito obrigada Cheryl, de verdade.

— Não foi nada. Vai dar tudo certo.

— Feliz Natal.

— Pra você também – devolve, desligando. Em seguida, paro em frente ao grande portão da mansão de Alex e noto que há vários pisca-piscas ao redor da casa.

— Feliz Natal Emma! – grita Benedict, contente, quando ele abre a porta para mim.

— Feliz Natal. – digo, abraçando-o – Pode colocar este presente na sua árvore, por favor? – peço, entregando um pacote com um embrulho vermelho.

— Oba! É pra mim? – ele pergunta, esperançoso.

— Não seja mal-educado, Benedict. – fala Charlie, surgindo atrás dele e me dando um grande susto. Com uma careta, o menino sai correndo para dentro e nos deixa sozinhos – Olá Emma, como vai? – cumprimenta, dessa vez sem apertos de mão.

— Boa noite Charlie. Vou bem e você? – devolvo, observando-o. Seu rosto aparenta tranquilidade, mas seus olhos estão carregados de raiva.

— Estou ótimo – responde, apenas.

— Trouxe este vinho, espero que gostem – falo, entregando-lhe a garrafa.

— Vejo que este é de excelente qualidade. – ele diz, após analisá-la por alguns segundos- Você o escolheu sozinha? – questiona, com uma sobrancelha arqueada.

— Na verdade não entendo nada dessas coisas. A moça da loja quem me indicou esse – explico, sem graça.

— Foi o que eu pensei. – começa, com um sorriso de satisfação nos lábios – Você é nova demais para entender coisas assim.

— Emma, você veio! – exclama Alex, se aproximando, antes que eu, levemente ofendida, consiga pensar em uma resposta suficientemente boa para o comentário sarcástico dele.

— Não tive muita escolha não é? – comento, quando ela me abraça de maneira rápida, mas longa o suficiente para eu me sentir super desconfortável por estar fazendo isso na frente de Charlie, que apenas observa.

— Venha, vamos ver o pessoal – ela diz, enquanto nós três nos dirigimos para a sala, silenciosamente, cada um mergulhado em um pensamento. Torço para que todos se divirtam e dê tudo certo, mas por dentro sinto que alguma coisa ruim vai acontecer.

Inicialmente, a noite se mostra surpreendentemente calma e agradável. Alex me apresenta, pela segunda vez, aos familiares de Charlie, que me cumprimentam alegres. Quando me junto a eles na sala, que está completamente decorada com enfeites de natal, assim como o resto da casa, noto que eles também parecem ser ricos, pelas roupas e acessórios chiques e seu modo de falar.

Enquanto todos conversam animadamente uns com os outros, reparo que Charlie pousa seus olhos em mim algumas vezes de modo tão rápido e discreto que eu só percebo por já imaginar essa atitude por parte dele, considerando que fizera o mesmo no aniversário de Alex. Apesar disso, ele age como a pessoa mais feliz da casa, sempre dando atenção a todos.

Como passo a maior parte do tempo entretida com o avô de Charlie, que se mostra um velhinho muito agradável e divertido em um debate aprofundado sobre o branqueamento dos corais e as possíveis futuras consequências, eu e Alex praticamente não conversamos, para alívio meu e, provavelmente, dela.

É hora da ceia, e, após desejarmos “Feliz Natal” um para o outro, começamos a comer. O banquete se mostra sensacionalmente delicioso, como sempre. Após isso, o tio de Charlie começa a contar uma sequência de piadas e todos, apreciando a sobremesa, caem na risada. Nesse momento percebo, com certo pesar, que não consigo me lembrar a última vez em que participei de uma ceia de Natal.

Algum tempo depois, vamos até a enorme árvore no centro da casa, lotada de presentes ao redor, e começamos a distribuir nossas lembrancinhas. Pego o que comprei e o entrego a Benedict, que me devolve um enorme sorriso e rasga o embrulho rapidamente.

— Uau! – ele exclama, boquiaberto – Como você sabia que eu gostava do Homem de Ferro?

— Não sabia – explico, contente com sua reação.

— Mamãe, olha só que maneiro que a Emma me deu! – ele diz, exibindo o boneco a Alex, que se aproxima de nós.

— Muito bonito – ela fala, sorrindo — Como é que se diz?

— Obrigada Emma – Benedict agradece, satisfeito.

— E o presente dela, você não vai pegar? – ela pergunta a ele.

— Verdade! Espere aí Emma. – pede ele, correndo para a árvore e pegando um presente em baixo dela. Eu e Alex o observamos, rindo de sua empolgação – Toma, eu e a mamãe que escolhemos.

— Verdade? – indago, tirando o embrulho. Em seguida, vejo, surpresa, que é uma blusa muito bonita do Star Wars – Caraca, muito obrigada gente.

— Eu sei que você adora esse negócio, então quando o Benedict achou essa blusa eu tive que comprar – explica Alex.

— Eu simplesmente amei – digo, sendo completamente sincera.

Então, olho ao redor. Todos estão rindo, abrindo presentes ou se abraçando. Entregues ao clima do Natal, todos parecem satisfeitos e felizes, como se por apenas estarem entre si já fosse o suficiente. Nesse momento, sinto um enorme vazio dentro de mim.

— O que foi Emma? – pergunta Alex, preocupada, após notar que eu havia me prostrado de repente. Saindo de meus devaneios, percebo que Benedict já está no outro lado da sala, recebendo mais um presente de um de seus parentes.

— Não é nada de mais, não se preocupe. – começo, tranquilizando-a – É que eu nunca participei de uma troca de presentes de Natal antes. Estava me perguntando se as coisas seriam diferentes se minha mãe não tivesse morrido.

— Olha só, — ela começa, após alguns segundos em silêncio – eu sei que as coisas são difíceis. Eu também já me perguntei um milhão de vezes se eu seria uma pessoa diferente se meus pais não tivessem morrido ou se eles achariam Benedict mais parecido comigo ou com Charlie. Mas nunca vamos descobrir, Emma, porque eles se foram. Então tudo o que podemos fazer é seguir – fala. Nesse momento, com um olhar de puro afeto em seu rosto, Alex coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha – Eu me lembro de quando, naquela noite no hospital, você me disse que não tinha absolutamente ninguém. Desde então, isso fica martelando na minha cabeça e eu só preciso te dizer que estou com você. – fala, pegando minhas mãos frias e cobrindo-as com as suas macias e quentes – Eu estou com você, Emma. No momento em que você pousou seu olhar assustado em mim depois de acordar no hospital eu senti que estava inexplicavelmente conectada a você e que eu seria capaz de qualquer coisa para te proteger. Então, saiba que sempre farei tudo o que estiver ao meu alcance para ganhar um dos seus sorrisos encantadores – conclui, me olhando tão intensamente que chego a supor que ela consegue ler meus pensamentos. Meu corpo está imóvel e tudo o que consigo fazer é assimilar tudo o que ela acaba de me dizer.

— Pensei que apenas eu sentisse essa conexão com você. – é tudo o que consigo dizer, com uma risada nervosa – Eu a senti quando te vi atravessando a rua naquela noite do acidente.

— Quer dizer então que você me salvou só porque sentiu que não poderia viver sem mim? – ela brinca – Mas, sério, eu nunca senti isso por ninguém. Sinta-se lisonjeada, Emma, porque você me conquistou – termina, fazendo meu coração bater mais forte.

— Você me conquistou primeiro, eu só retribui o favor. – devolvo, rindo – Mas obrigada, Alex, por estar sempre comigo e por me proporcionar uma experiência única esta noite. Além disso, Benedict com certeza é mais parecido com você – brinco.

— Fico feliz em saber – ela diz, rindo.

Nesse momento, a prima de Charlie a chama e ela responde, dizendo que já vai.

— Preciso ir. Você vai ficar bem? – pergunta.

— Tudo bem, eu farei o sacrifício de me virar sozinha. Onde é o banheiro, inclusive? – indago, ansiosa para saber onde aquele bendito banheiro fica.

Alex me explica onde é e eu me dirijo para ele, pensativa.

Finalmente te achei, penso, sentindo-me vitoriosa, finalmente avistando o banheiro que me meteu numa baita confusão no aniversário de Alex e caminhando em direção a ele.

— É isso mesmo o que eu estou pensando? – pergunta uma voz masculina e autoritária atrás de mim, fazendo-me pular de susto.

Me viro e, apesar do ambiente escuro estar iluminado apenas por uma fraca luz vinda da sala, consigo identificar Charlie caminhando em minha direção.

— Como é? – digo, confusa.

— Você estava mesmo paquerando a minha esposa na frente da minha família e do meu filho há alguns minutos atrás? – indaga ele, calmamente. Apesar de seu tom de voz soar normalmente, seu rosto tem uma expressão mortífera. Que porra esse cara acha que está fazendo? Penso, incrédula.

— Paquerando a sua mulher? Seja lá o que você pensa ter visto, não foi nada além de Alex me consolando sobre minha mãe ter morrido – falo, com a voz carregada de sarcasmo, começando a ficar irritada.

— Você pode se fazer de coitadinha para sensibilizar a Alex mas a mim você não engana. – ele começa, ameaçador – Consigo ver o quão ridiculamente apaixonada está por ela e todas as suas táticas patéticas para conquista-la.

— Qual é o seu problema? – pergunto, sustentando seu olhar de fúria com igual carga de raiva.

— Um deles é que a minha esposa está apaixonada por uma garotinha. – ele diz, e, após constar que não houve nenhuma expressão de surpresa em meu rosto, continua, rindo – E o outro é que você já sabe disso.

— Olha, eu... – começo, após alguns segundos em silêncio.

— Sabe, eu nunca pensei que isso aconteceria. – ele interrompe, passando a mão por seus cabelos sedosos – Sempre tivemos uma relação tão maravilhosa e apaixonada. Mas aí você aparece e estraga tudo.

— Isso não é verdade e você sabe disso. O casamento de vocês já estava uma droga antes de eu salvar a vida da sua esposa – devolvo, dando ênfase na última parte.

— Ah, então é isso o que ela te disse? – pergunta, revoltado – E, logicamente, claro que você tinha que mencionar o fato de ter salvado ela. O que quer? Um prêmio Nobel?

— Escuta, Charlie, – falo, o mais lenta e claramente que consigo – eu não sinto nada pela Alex além de um grande sentimento de amizade e não espero que ela largue você para ficar comigo, se é o que está pensando que ela vai fazer – termino, sentindo uma pontada de culpa por ter mentido na primeira parte.

— E você ainda tem a coragem de mentir pra mim. – ele diz, rindo novamente. Em seguida, ele se aproxima de mim, e, com o dedo indicador apontado para o meu rosto, conclui, aumentando a voz – Eu sei que você quer pegar a minha mulher, sua vadiazinha!

— Que porra é essa, Charlie? – grita Alex, tirando bruscamente a mão dele de perto do meu rosto. Estou uma mistura de irritação com surpresa, por sua chegada repentina – Emma, você está bem? – pergunta, analisando-o meu rosto meticulosamente.

— O que, agora você acha que eu bati nela? – ele questiona, incrédulo.

— Eu não sei mais o que achar de você, Charlie – ela diz, com raiva, se colocando entre mim e ele.

— Me desculpe, ok? – ele começa, colocando as mãos na cabeça, como se tivesse acabado de ser dar conta do que tinha feito – Eu não sei o que deu em mim.

— Nunca pensei que você pudesse fazer algo tão idiota. É melhor você ir – ela fala, fria.

Charlie simplesmente se vira e volta para a sala. Então Alex segura meu rosto com suas mãos, e, preocupada, pergunta:

— Tem certeza de que ele não fez nada com você?

— Tenho, não se preocupe. Ele só falou algumas coisas – respondo, tentando acalma-la.

— Quais coisas? – indaga, com uma expressão de pânico no rosto.

— Bom, – começo, constrangida – primeiro ele disse que eu estava te paquerando na última vez que conversamos. Depois afirmou que eu estou apaixonada por você e que você está apaixonada por mim. – e, dizendo essa última parte, analiso sua reação, que é de espanto – Então eu garanti a ele que não sinto nada por você e ele explodiu daquele jeito que você viu.

Tenho a impressão de ter visto uma sombra de decepção passar por seu rosto quando digo que não sinto nada por ela.

— Não acredito nisso! – fala, extremamente irritada – Olha, Emma, eu realmente não sei de onde ele tirou todas essas coisas, ok?

— Por acaso você contou a ele que nós... – pergunto, referindo-me ao nosso beijo. Apesar de saber o motivo pelo qual ele está agindo deste modo, não consigo deixar de sentir-me curiosa a respeito do que mais ela contou a ele.

— Claro que não. – responde, rápido demais, como se fosse a coisa mais óbvia a se ter feito – Charlie está sendo ciumento porque passamos muito tempo juntas e eu tenho um carinho muito grande por você. – mente – Ele só está vendo coisas onde não tem.

— E ele já fez isso antes? – questiono, com uma sobrancelha arqueada.

— Charlie nunca agiu dessa forma. Desde a primeira vez que o conheci eu nunca o vi tão alterado como agora – fala, preocupada.

— Calma, tudo bem? Você, mais do que ninguém, sabe que Charlie é uma pessoa boa e gentil. Ele só não está conseguindo lidar com os sentimentos dele. – digo, dessa vez sendo eu a envolver seu rosto apreensivo – Não sei de onde ele tirou isso, mas coloque-se no lugar dele. O que você faria se pensasse que o seu marido está apaixonado por um garoto de 22 anos? Ele só está confuso – dizendo isso, olho no fundo de seus olhos que refletem toda a angústia que preenche seu ser nesse momento e completo, triste – Todos nós estamos.

— Meu Deus. – fala, passando a mão pelos cabelos, em choque – Eu sou uma pessoa horrível.

— Você não é uma pessoa horrível Alex – digo, soltando uma risada nervosa.

— É claro que eu sou – retruca, pensativa.

— Você mesma me disse que não sente nada por mim – não consigo me segurar.

— Mas eu te beijei – fala, baixando a voz.

— E, novamente, você me disse que foi apenas uma tentativa de escape do seu casamento – argumento, mordendo o lábio.

— Tem razão – diz, evitando meu olhar. Não sei se isso se deve ao fato de eu já saber a verdade, mas, nesse momento, me parece óbvio que ela está mentindo.

— Olha, foi incrível fazer parte desse Natal com vocês, mas acho que preciso ir agora – falo, louca para ir embora.

— Você quem sabe. – ela diz, mesmo com sua expressão me dizendo que realmente é o melhor a ser feito – Eu te levo.

— Não precisa fazer isso, a noite está ótima para um passeio – objeto.

— Não ouse pensar que vou deixar você sair por aí do meio da noite como fez no meu aniversário – ela fala, ofendida.

— Tá bom. Mas, sério, obrigada mesmo por hoje – agradeço, verdadeiramente grata.

É uma manhã chuvosa de Natal, 25 de dezembro e aqui estou eu na floricultura. Como o movimento da loja costuma ser vazio neste feriado, Cheryl não precisa vir também. Até agora nenhum cliente aparece e começo a pensar na noite passada. Em como me senti estranha no meio de tantas pessoas animadas e na forma como eles pareciam ser uma família unida, apesar de todas as dificuldades. No momento em que a morte de minha mãe me veio em mente e em como Alex foi gentil em me reconfortar. Me lembro de como eu me senti quando ela me disse que também sentiu aquela estranha conexão. O que isso significa, afinal?

Me recordo do quanto tudo parecia estar indo tão bem antes de Charlie ir atrás de mim e começar a falar aquelas coisas. Do quão ofendida eu fiquei, mesmo sabendo que grande parte daquilo era verdade e da raiva presente em minhas respostas. As imagens de Alex surgindo e se interpondo entre mim e ele me vêm à cabeça. Não consigo deixar de soltar um pequeno sorriso quando me lembro de toda a sua preocupação comigo.

Então tivemos aquela estranha conversa onde mentimos descaradamente uma para a outra. Por que eu fiquei tão mal ao dizer que não sentia nada por ela? E qual o motivo me levou a querer desesperadamente que ela admitisse naquele momento que estava sim apaixonada por mim, mesmo sabendo que seria loucura? Estou tão confusa com tudo isso que continuo a não me sentir culpada por ter defendido Charlie e tentado amenizar sua barra para Alex, pois sei que as coisas também não devem estar sendo fáceis para ele. Por mais que ainda esteja irritada com sua atitude infantil sinto pena dele, pois o cara realmente parece ser legal, apesar de tudo. Os homens e seus egos frágeis, penso, revirando os olhos.