Notas iniciais
Olá pessoas lindas, como estão? Trazendo mais um capítulo de AGCL para vocês. Alguns dos meus leitores andaram acertando alguns palpites, ou vocês são muito bons de chute ou eu sou muito previsível. Enfim, fico muito feliz com as teorias de vocês. Chega de blábláblá.... Tema: líder Boa leitura!

ATRITO

Miyako não estava com ânimo algum de permanecer no trabalho, os minutos pareciam passar demoradamente e seu desejo de que o expediente acabasse logo parecia mais distante. Hanamizuki tinha voltado para casa depois que o trio havia se comprometido a fazer o que fosse necessário para resgatar Kariya.

Motomiya acabou se comprometendo a acompanhar a menina até em casa. Era visível que ele não desejava fazer tal coisa, mas Inoue não poderia sair da loja e Takaishi parecia tão irritado que seria capaz de voar com os dois pés na menina enfeitada. Miyako sorriu de soslaio ao imaginar a cena, a única vez que vira o loiro tão chateado foi quando eles ainda enfrentavam o Kaiser. No final, o guardião da esperança se prontificara a informar Iori e Hikari do que descobriram.

A menina se perguntava se Kariya era motivo pelo qual o namorado não voltara do Digital World. Era uma possibilidade. Se o menino estivesse mesmo possuído pelos Dark Spore, Ken melhor do que ninguém entendia como era estar sob efeito da planta, mas achava muito drástico ele ter sumido dessa forma. Ele poderia ter avisado, usado o Digivice para mandar uma mensagem, qualquer coisa que não a fizesse ter vontade de largar tudo e trazê-lo de volta pelos cabelos.

O que mais a preocupava era o fato do garoto estar solitário, não entendia porque deixar Wormmon para trás. E se um Digimon malvado aparecesse? E se Kariya induzisse algum Digimon a atacar o gênio? Ken era esperto, mas o que poderia fazer se tivesse que lutar com outro Digimon, seu Digivice de nada adiantaria em um momento como aquele, sem seu parceiro para evoluir.

Quando finalmente o expediente acabou, ela pode voltar para o conforto do seu apartamento, tomar um banho demorado, lavar a cabeleira lavanda e chorar no chuveiro, já que ninguém estava vendo. Daisuke já tinha ligado avisando que Hanamizuki tinha sido despachada com segurança, sim ele usara a palavra despachar. E que ele já tinha retornado ao seu próprio apartamento. Ele também reclamara que V-mon estava para baixo, mas não mais por efeito do golpe de Monzaemon, mas sim porque não se conformava em ter sido tão patético. Takeru também tinha mandado uma mensagem dizendo que estava no apartamento de Iori e que eles estavam buscando novos dados baseados nas informações que a garota do primeiro ano informara.

A veterana só poderia imaginar, enquanto ensaboava os cabelos, por que Takeru ficara tão irritado pela atitude da menina. Seria por causa da covardia? Da falta de atitude? Do medo? Ele era bastante compreensivo e não se irritava facilmente. Quando explodiu com Kaiser, ele carregava ali o horror de ver o outro manipular e brincar com as vidas dos Digimon sem se importar. Vida essa que sempre fora muito preciosa para ele.

Talvez ele sentisse a dor de Kariya, o horror que o garoto vivenciou ao ter seu Digimon arrancado dos braços. Talvez não fosse apenas isso. Ele era muito mais jovem do que Karin quando encontrou Patamon. Ele tinha medo e era inseguro, mas ele lutou. Ele sempre lutou e talvez fosse isso que o irritasse, aquela covardia sem sentido, aquele desejo de ser indiferente mesmo com o mundo desmoronando diante de si. Não importava o quanto pensasse Miyako nunca iria saber, mas ao menos teorizar sobre isso afastava seus pensamentos do que Ken estaria fazendo e pensando e isso lhe dava certo consolo.

A garota saiu do banho, colocou uma roupa velha dessas de ficar em casa e enrolou os cabelos em uma toalha. Seu estômago roncou e ela se perguntou se faltaria muito para o jantar. Foi quando seu celular começou a tocar.

Ela atendeu no terceiro toque, depois de ver o nome do loiro que morava alguns andares abaixo aparecer no visor.

“Takeru-kun?”

“Precisamos ir para o Digital World agora.” A voz parecia agitada.

“Aconteceu alguma coisa?” O tom preocupado fez com Hawkmon e Wormmon, que brincavam no quarto, voltassem sua atenção para a conversa da menina.

“Apenas pegue Hawkmon e venha para o apartamento do Iori.”

“É um Digimon?”

“É algo muito pior.” A voz saiu sombria.

“É alguma coisa sobre o Ken?” Wormmon se aproximou com os olhos em expectativa.

“Eu sinceramente espero que não.” O garoto desligou antes que a garota violácea pudesse questionar mais.

Miyako encarou o relógio sobre a escrivaninha. Era quase sete horas da noite. Em breve sua mãe serviria o jantar, depois eles assistiram televisão e a menina deitaria cedo, por causa do colégio no dia seguinte.

“Miyako-chan, encontraram o Ken?” A voz fininha de Wormmon a tirou do transe.

“Não sabemos, mas precisamos ir para o Digital World agora.” E fez sinal para Hawkmon acompanhá-la.

“Eu vou com vocês!” Protestou o inseto se agarrando a perna magricela.

“É mais seguro você ficar aqui...” Hawkmon começou, Wormmon não estava totalmente recuperado e Ken ainda não tinha voltado do Digital World.

“Está tudo bem...” Miyako sorriu de forma acolhedora, pegou o inseto e o colocou no ombro. Era perigoso levar um Digimon sem parceiro, ainda mais quando ela sequer sabia o que iriam enfrentar, mas sabia como era frustrante ser deixado para trás e se fosse sobre Ken, Wormmon tinha todo o direito de saber.

=8=

“Bem, como é você...” Kaiser se ajeitou, mesmo para sua forma espectral ficar agachado não era exatamente confortável. “Podemos pular toda parte de explicação. Você sabe que é um Dark Spore e sabe como isso funciona.”

Ken desviou o olhar para o garoto que ainda imobilizava no chão, ainda o mesmo sorriso bobo estampado no rosto. Desde que colocara os olhos em Kariya, sabia que se tratava de um Dark Spore por mais que desejasse que o problema fosse outro. Não entendia por que o garoto estava sendo afetado, até onde se lembrava Oikawa Yukio tinha colhido todas as flores negras, mas isso não era algo para se preocupar agora.

“Para o Dark Spore não faz muita diferença de quem seja o hospedeiro desde que haja algum.” Kaiser sorriu.

Ken encarou sua contraparte e sentiu o corpo estremecer. Dark Spore só precisava do mínimo de trevas no coração de alguém para florescer e todo mundo tinha algum ressentimento. Não importava se era um ódio gigantesco ou uma dor da qual você se lembrasse muito pouco, mais cedo ou mais tarde, os esporos floresceriam com essa mágoa e tomariam completamente o hospedeiro.

“Esse garoto é um desconhecido para você, mas toda a dor, toda a tristeza que ele sente, o remorso, a raiva, tudo isso você conhece muito bem.” O sorriso aumentou. “E você não vai permitir que alguém tão jovem e tão puro vivencie as mesmas experiências que você, estou certo?”

O gênio voltou a analisar Kariya que se debatia sob ele na tentativa de alcançar Apemon. A dor de perder Botamon existiria sempre, mas não aquele ódio cego, aquele ódio que só a Dark Spore poderia proporcionar a alguém.

Apesar de todo o estrago que o menino causara, nunca chegara a fazer nada de que viesse se arrepender pelo resto da vida. Deixá-lo avançar seria ver sua história se repetir e talvez com mais loucura e violência. Ken sempre teria seu passado para assombrá-lo, Kariya não precisava ter o mesmo destino. Se ele poderia carregar as cruzes de ambos, então ele o faria.

“Ele ficará livre depois?” As mãos tremeram e instintivamente aumentou o aperto para não deixar transparecer seu medo.

“O ódio e a dor ainda vão estar nele. Mas os efeitos da Dark Spore não estarão mais presentes.” Explicou embora achasse desnecessário, tanto Kaiser quanto Ken sabiam muito bem como aquilo funcionava.

O adolescente encarou o menor, ele parecia inabalável em sua insanidade. Não poderia salvá-lo de si mesmo, mas ao menos aquela loucura cega não existiria mais e talvez finalmente pudesse ser persuadido a desistir.

Kaiser o encarava ansioso, esperando uma resposta, mas Ken estava com medo de dar aquele passo. Conhecia as trevas, sabia como era ser consumido e afogado por elas, sabia como era estar cego dentro do próprio desejo, sabia quanto o mal fizera ao se deixar seduzir. Talvez seus amigos nunca entendessem sua decisão, Miyako nunca o perdoasse, mas aquela era sua decisão. Não queria parecer um herói, pois não o era, mas se ele poderia salvar alguém de ter o mesmo destino que o seu, ele o faria.

“Está certo.”

“Essa maldita bondade no seu coração, sabia que acabaria servindo de algo.” O sorriso se intensificou até quase não caber no rosto.

“Você disse que não era sobre mim desta vez.” E Ken não pôde deixar de sorrir diante da perspicácia de seu lado sombrio.

“Sempre é sobre você!”

=8=

Kariya sentiu a grama rala pinicar seu rosto e o corpo dolorido. Estava com uma dor de cabeça fortíssima e a claridade do dia, quando abriu os olhos quase o cegou. Quando finalmente se orientou viu que o céu no oeste estava alaranjado enquanto uma cortina tom de anil rapidamente cruzava a abóboda celestial vinda do leste. Uma brisa fria vinha do noroeste anunciando o início da noite, mas ainda não havia estrela alguma no céu.

Quando tentou se sentar viu que estava coberto por um grosso casaco que sabia pertencer a Ken, mas olhando em volta não viu o garoto em lugar algum. O som da água correndo no riacho era sua única companhia, pois nem a floresta densa parecia respirar vida.

Sentia-se terrivelmente melancólico e cansado. Se lembrava de tudo o que fizera nos últimos meses, mas isso lhe parecia um sonho distante, como se alguém os tivesse vivido em seu lugar. O ressentimento de Karin ainda existia, mas não tinha mais desejo de matá-la, ou coragem ou forças para isso. . Embora tivesse as lembranças, não tinha total consciência das coisas que fizera, da sua gravidade ou das suas implicações, mas sabia que tinha feito coisas erradas. Só que naquele momento desejava apenas voltar para casa, se esconder do mundo e chorar por tudo o que tinha feito aos pobres Digimon.

Se levantou e se embrulhou no casaco. Sorveu um pouco da água que corria límpida e tentou se lembrar de qual era o portal mais próximo, correu a mão pelo bolso da calça e só então lembrou-se de que o Digivice havia caído no riacho e sido arrastado pela força das águas. Ou seja, ele não tinha como evoluir mais Digimon algum, mas também não tinha uma forma de voltar para casa.

Ichijouji Ken seria sua única salvação, mas o garoto não estava ali. Porém tinha deixado o casaco, o que significava que voltaria logo. Talvez, só tivesse ido buscar algo para que eles comessem.

Ficou ali, esperando Ken voltar, abraçando os joelhos e tentando imaginar se os Digimon o perdoariam, ele tinha resolvido que pediria desculpar um por um, a todos que fizera algum tipo de mal.

Não fazia muita ideia do que tinha acontecido nas últimas horas, Ken o imobilizara no chão e o Digivice foi para dentro do riacho enquanto Shamamon fugia. Mas depois disso não tinha certeza do que acontecera, não sabia precisar quando adormecera, mas parecia que um peso enorme tinha sido tirado dos seus ombros. Havia ressentimento, tristeza e angustia, e ele gostaria muito de chorar (mas seria vergonhoso se Ichijouji o flagrasse aos prantos), mas o ódio, a raiva, o desejo cego e louco, isso não parecia mais habitar seu coração.

Ouviu o barulho do mato farfalhar, como imaginara, Ken não o deixaria para trás e deveria estar cheio de frutas deliciosas.

“Ichijouji-kun.” Se levantou e se virou na direção do som, mas instantaneamente empalideceu.

Não era Ken, mas o gigantesco Apemon de coloração laranja e com um tacape de osso na mão. Ele rosnou ao ver o garoto que estremeceu diante do som ensurdecedor.

Os olhos escuros perderam o brilho e Kariya mordeu os lábios enquanto dava um passo para trás. Ele estava tremendo tanto que não conseguia pensar direito e a única coisa que conseguiu fazer foi chorar.

=8=

Iori estava sentado diante do computador, o semblante sério. Ele estava tão ocupado analisando dados que quem atendeu a porta foi Takaishi. Mas ele sequer deu atenção a Miyako, fez sinal para que ela entrasse enquanto discutia com alguém ao telefone, pela conversa inflamada e pelo jeito informal só poderia ser Yamato.

Hikari já estava lá, passara o dia todo com Iori procurando uma maneira de encontrar Ichijouji. Tailmon a acompanhava. A garota do cabelo lavanda sentou-se ao lado da amiga, eles esperariam até Daisuke chegar para poder embarcar no Digital World.

“Alguma notícia do Ken?” Não resistiu em perguntar enquanto se ajeitava no sofá.

“Infelizmente não.” E não era o que gostaria de dizer a amiga, ainda mais com Wormmon ali, que pareceu muito decepcionado. “Mandamos mensagens para o Digivice dele, tentamos rastreá-lo, mas não tivemos sucesso. Sinto muito.” Tentou abrandar, mas Inoue sorriu daquele jeito que queria informar que não estava culpando a amiga.

Quando finalmente Motomiya chegou, acompanhado de V-Mon, Takeru já tinha desligado o celular e estava frustrado porque seu irmão disse que não poderia ajudá-lo. A menina não entendeu por que Ishida deveria ajudá-los e isso lhe deu um mau pressentimento. Se eles precisavam da ajuda os veteranos algo muito ruim deveria ter acontecido.

“Já que estamos todos aqui.” Iori começou. “Vou ser breve. Primeiro, as informações que vocês conseguiram com Hanamizuki foram muito úteis. Consegui restaurar o portal.” E todos na sala sorriram. “Também consegui isolar o sinal do Digivice dela, mas ele tem sérias distorções, não sei se é por ser um modelo diferente do nosso, mas não consigo rastreá-lo com precisão. Mas parece estar na floresta.” O mesmo lugar onde Iori tinha triangulado o sinal do Digivice do Ken, então eles realmente estavam juntos, como suspeitara. “Aparentemente temos outro Digimon descontrolado.” Então Kariya estava agindo novamente, mas se Ken estava com ele, não o deixaria tentar evoluir um Digimon. “Não temos certeza de que tipo é. As informações foram passadas pela Palmon, mas ela não viu o monstro, apenas conversou com alguns Digimon que fugiram da floresta e contaram o caso a ela.”

“Se esse é o problema, o que estamos esperando?” Daisuke ajeitou os goggles, animado e V-Mon ficou em posição de batalha. Agora que sabiam que o problema era apenas um menino raivoso, seria muito mais fácil de resolver.

“Não é tão simples. Eu recebi leituras de uma Torre Negra.” E a sala mergulhou em silêncio. Torre Negra? Nenhum deles ouvia aquele nome fazia um bom tempo.

“Espera...” Hikari ficar bastante surpresa. “Torres negras não aparecem assim. Estivemos no Digital World ontem e não havia nada.”

“Hikari-chan tem razão.” Confirmou Daisuke, eles teriam visto ou ficado sabendo, pelo menos.

“Acredito que não seja uma torre, ao menos não como estamos acostumados.” O menor cruzou os braços sobre o peito. “Palmon está perto da área onde a Torre Negra está instalada e segundo ela, não há nada lá. O que me faz acreditar que algo construído com as mesmas propriedades da Torre Negra esteja sendo criado.”

“Mas só o Kaiser poderia criá-las certo? Ele foi induzido, mas só ele tinha poder suficiente para erguê-las.” Motomiya recordou e Inoue sentiu a cabeça girar. Ken não faria isso, não o seu Ken, ele não era mais esse tipo de pessoa.

“Talvez Kariya consiga fazer o mesmo.” Takeru sugeriu. “Ele consegue controlar um Divigice diferente, talvez isso não seja uma dificuldade para ele.”

“Takeru está certo.” Daisuke concordou enfaticamente. “Além disso, essa coisa só apareceu agora que o Hanamizuki decidiu ficar por lá. Tenho certeza que é ele.” Ichijouji era seu melhor amigo, sabia como o garoto andava melancólico, mas nunca o Ken que ele conhecia e confiava faria tão coisas, ele nunca mais retornaria para as trevas. Mas e se tivesse? E se tivesse que lutar com ele novamente? Não seria como da primeira vez, eles eram amigos, grandes amigos.

Inoue deslizou os olhos para Daisuke que parecia travar uma guerra mental, suas mãos tremiam, mas ele não parecia se dar conta disso. Aparentemente, ele estava vacilando, e ela sabia bem o porquê. O medo que a afligia, de que Ken voltasse para as trevas, perturbava também o líder e se questionou se o menino estava mesmo em condições de liderar e resolver tantas questões simultâneas.

“Se é só isso, é melhor irmos logo.” Miyako falou séria, atraindo a atenção para si. “Nossa função é derrotar o Digimon descontrolado e descobrir a origem da Torre Negra.” Finalizou.

“E quanto ao Ken e o garoto Hanamizuki?” Daisuke não entendeu, como Miyako poderia listar as prioridades da missão e não inclui-los. Eles estavam namorando certo? E Kariya era só uma criança confusa. Na sua visão, eles deveriam ser a prioridade.

“Se nós decidirmos fazer tudo isso, vamos perder o foco. Algumas coisas são mais importantes que outras.” E lhe doía dizer isso, mas se cada um do grupo fosse para lá com uma mentalidade, seriam facilmente derrotados.

“Você vai deixá-los para trás?” O líder insistiu.

“Não estou deixando ninguém, mas cada problema por vez. Ken pode se cuidar sozinho e se estiver com Kariya serão dois problemas a menos.”

“E se não estiver?”

“Nós vamos cumprir nossa promessa e resgatar o garoto, mas agora, com o surgimento de uma Torre Negra, isso terá que esperar.” Ajeitou os óculos.

“E o Ken? E se estiver ferido? Machucado?”

“Eu não posso fazer nada quanto a isso, e quanto mais tempo perdemos discutindo isso, mais tempo demoraremos para resolver o caso do Digimon descontrolado e mais tempo Ken e Kariya terão que esperar.” A frase saiu aos gritos.

“Ken estava certo, você não deve amá-lo realmente.” E Daisuke se arrependeu assim que disse a última palavra. A sala mergulhou em um silêncio funesto que só foi quebrado pelo ruidoso tapa que recebera de Miyako.

“Nunca mais.” A voz saiu como um rugido. “Nunca mais coloque em xeque meus sentimentos pelo Ken.”

O garoto não reagiu, nem retrucou. Apenas ficou ali, sentindo o rosto arder enquanto o grupo o encarava. Conhecia Miyako há muito tempo, conhecia sua maneira de agir ou pensar, mas às vezes, vezes como aquela, ela lhe parecia uma completa estranha. Não pela explosão ou pelo tapa, mas pelas palavras duras que dissera. Ela iria mesmo deixar Ken para trás, se fosse necessário?

A garota sacou o Digivice do bolso e se posicionou diante do computador, abrindo o portal. Wormmon e Hawkmon emparelharam com ela. Hida fez menção de dizer algo sobre a partida do inseto sem um parceiro, mas desistiu diante do olhar obstinado da mais velha.

A possibilidade de deixar Ken para trás lhe doía a ponto de corroer, mas com todos esses acontecimentos simultâneos e a instabilidade que Daisuke demonstrara durante a conversa só sobrara à garota assumir a liderança. Ken não estava lá para segurar as pontas, então ela teria de fazê-lo sozinha.

Pensando agora, com clareza. Parecia tão idiota seu desejo egoísta de ir ao Digital World sozinha para salvar Ichijouji. Ele não era nenhuma donzela em perigo e ela tinha suas obrigações para com o grupo. Mesmo que ela tivesse partido e o encontrado, ele não ficaria feliz por vê-la deixar suas obrigações com o grupo para trás.

Ela tinha que se manter firme, pés no chão, cabeça no lugar, ajudar o grupo e resolver um problema de cada vez, ser a mente de Ken, a liderança de Daisuke e sua própria determinação. Ela tinha que se manter centrada se quisesse resgatá-lo e se manter centrada para não se deixar abalar pelas palavras de Daisuke. Quando Ken havia confidenciado ao amigo suas suspeitas sobre os sentimentos da adolescente?

Notas finais
N/T: Miyako e sua mão pesada hauhauaauh. Alguém reparou que desde o capítulo 25, toda a trama se passa em um único domingo? E pior, o próximo capítulo também. Comentem!