Notas iniciais
Cá estou novamente e com a última parte das tretas aventureiras no Digital World. O próximo capítulo volta ao convívio normal do nosso casal (que ainda não é um casal). Eu agradeço aos comentários, apoio e aos leitores que mesmo não comentando estão sempre por aqui, lendo o capítulo. Tema da Semana: Descoberta Boa leitura!

O DIGITAL WORLD CHAMA — parte final

Eles caminhavam lado a lado em completo silêncio. Inoue trazia um adormecido Poromon nos braços, enquanto Ichijouji equilibrava Minomon sobre o ombro. O Digital World já estava totalmente absorvido pela noite e a Cidade do Princípio ia ficando para trás. A garota tentava a todo custo não se lembrar do que tinham feito, mas os agradecimentos de Elecmon ecoando em sua mente a impediam de esquecer o ocorrido.

Depois de uma longa discussão, os digiescolhidos concluíram que o melhor seria extinguir Golemon, dar a chance de renascer na cidade que ele mesmo tentara destruir e começar tudo novamente, mas de maneira diferente. Podia ser um pensamento acalentador, mas não diminuía o peso da ação que fariam.

Para Miyako, destruir um Digimon em batalha era uma coisa, havia o calor da guerra, a necessidade de se defender. Mas atacar um Digimon preso em uma armadilha era quase uma execução. Mas, ela não era ingênua, se estivessem em batalha, seriam seus parceiros que seriam abatidos. Não queria fazer aquilo, mas não podia deixar todo o peso da responsabilidade nas costas do garoto mais novo. Embora isso nunca tivesse sido abertamente discutido, todos sabiam que era ela quem assumia a liderança quando Motomiya não estava presente. Como líder, não podia simplesmente se anular e deixar que alguém tomasse a decisão por ela. Por isso, fora ela, quem erguera a voz na noite e pedira para que Aquilamon lançasse um Blast Rings poderoso contra Golemon, dando início a execução.

Quando o gigante de pedra ficou envolto pelas chamas do Digimon alado, ela pôde ouvir a voz de Ken, séria e sombria, ordenar que Stingmon desferisse seu Spiking Strike contra os olhos do monstro. Contra a grossa carapaça de pedra, aquele era o único ponto vulnerável e com o bicho imobilizado seria muito mais fácil de acertar. O inseto hesitou, encarou seu parceiro que permanecia firme, e sem protestos atacou. A garota virou o rosto e pretendia permanecer assim até ter certeza que tudo acabara, mas Ken chamou sua atenção.

“Inoue-san...”

Ao invés de se desfragmentar em dados envolto por uma luz, uma estranha fumaça escura saia do corpo do Digimon. Através da fumaça, a dupla pode ver o monstro voltar a sua coloração normal e reduzir seu tamanho para o qual eles estavam habituados. Antes de ser absorvido por uma luz forte, Miyako tivera certeza de ouvir o Digimon balbuciar um agradecimento. Quando, finalmente, todo o processo de renascimento acabou, um Digitama se encontrava diante deles, esperando o tempo certo de ser chocado e receber sua nova chance.

“Obrigado?” A violácea encarou o parceiro, que repetia o agradecimento proferido por Golemon initerruptamente, as sobrancelhas franzidas. Não fora apenas ela que ouvira, mas, antes que pudesse indagar sobre isso, seus parceiros Digimon voltaram a formas em treinamento e Poromon simplesmente capotou[1], mergulhando em um sono pesado, de tão exausto que estava.

Não demorou muito para que Elecmon recobrasse a consciência e ficasse ao mesmo tempo surpreso e profundamente agradecido com o feito das crianças. De acordo com o monstrinho, Golemon chegara do nada a Cidade do Princípio e iniciara o ataque sem nenhum diálogo sequer. Ele parecia interessado nos Digitama, embora não fizesse a menor ideia do por que ou o que iria fazer com eles. Como era sua responsabilidade como guardião da cidade, proteger os ovos, ele partira para o ataque, sem muita diplomacia, mas o desfecho da história, as crianças já conheciam, onde ele perdera homericamente.

Miyako tentava sorrir diante dos agradecimentos e elogios, mas era difícil sentir-se digna depois do que haviam feito, por isso, sentiu-se aliviada quando Ken argumentou que estavam cansados e só queriam ir para casa. Elecmon se ofereceu para levá-los até o dispositivo que usariam de portal, como agradecimento, mas Ichijouji afirmou que eles ficariam bem e isso não era necessário.

O silêncio só foi quebrado quando finalmente chegaram ao ponto de extração. Ichijouji sacou o Digivice do bolso e com um sorriso meio torto se despediu. Ele retornaria para seu sombrio quarto, enquanto Miyako, usando o próprio Digivice, provavelmente retornaria para seu barulhento e cheio apartamento. Eles precisavam ter uma séria conversa sobre tudo o que acontecerá e pela tentativa fracassada de vê-la gesticular e balbuciar coisas incompreensíveis enquanto ele se despedia, percebeu que o desejo era mutuo, mas aquele não era o melhor lugar, nem aquela a melhor hora. Já agradecia internamente que o seu desafeto não tivesse atrapalhado no desempenho da batalha.

Aproximou seu Digivice do computador quase soterrado pela relva e se teleportou. Sentiu o chão desaparecer e se materializar sob os pés e a visão ligeiramente turva se estabilizar, mas não pôde enxergar muita coisa, pois sentiu alguém colidir com ele e ir ao chão. Ken se viu sentado em um piso frio e esverdeado, que em nada lembrava seu quarto. Miyako estava ao lado dele, já tentando se levantar e parecia tão surpresa quanto ele.

Os adolescentes se colocaram de pé, se entreolharam e então para o computador de onde tinham vindo. Aparentava ser um caixa eletrônico vinte e quatro horas, a telinha luminosa piscando opções para os clientes. Em volta, luminosos excessivos e coloridos indicavam que eles não estavam mais em Odaiba.

“Shinjuku?” Miyako ajeitou os olhos tentando reconhecer a localidade. Às vezes, ela vinha até Shinjuku fazer compras com a Aya. “Mas, por que estamos aqui?”

Ichijouji encarou novamente o computador do caixa eletrônico e seu Digivice. O portal deveria ter sido aberto em seu apartamento e não em local qualquer no meio da rua.

“Acha que isso está relacionado com o Golemon que enfrentamos?” A garota o tirou de seus pensamentos. Um Golemon descontrolado e um portal aberto no lugar errado, isso provavelmente era muito mais que uma infeliz coincidência. Tinha algo estranho acontecendo em Digital Word.

Mas antes que o moreno começasse a divagar sobre as mais diversas teorias, sua mente foi atraída por um gritinho afetado.

“Já?” Miyako encarava a tela do caixa eletrônico, fitando o relógio digital que aparecia apreensivamente. Só então, Ken notou que ela trajava um vestido rosa cheio de babados e sapatos de boneca. O cabelo estava arrumado e o rosto maquiado de forma leve, quase imperceptível.

Os olhos de Ken vagaram da garota arrumada para a tela do caixa eletrônico que marcava as horas. Ele não fazia ideia de qual horário Miyako iria se encontrar com Izumi, mas pela reação que tivera, estava bem atrasada.

Ele a viu tirar o celular de uma pequena bolsa de mão toda enfeitada e digitar furiosamente, mas parar antes de enviar a mensagem.

“Já é muito tarde.” Resmungou para si mesma.

“Está atrasada?” Tentou soar natural, mas a voz saiu carregada.

“A apresentação do Koushiro-kun começou às sete horas.” Olhando no relógio da tela do caixa, já havia muito passado do horário. “Mas, eu posso ver a apresentação através da internet, depois.” Balançou a cabeça numa tentativa de consolar a si mesma, mas, era nítida a frustração em seu rosto.

“Você ainda pode ir para o jantar.” A voz do rapaz saiu alta, meio autoritária. Miyako encarou o moreno sem entender. Não sabia se aquilo tinha sido uma sugestão ou provocação.

“Eu não...”

“Eu posso ficar com Poromon, depois você pode ir buscá-lo em casa.” Sorriu, mas não foi um sorriso alegre. “Se você pegar o metrô agora, pode ver uma parte da apresentação. Essas coisas demoram, você sabe.” Deu de ombros como se não se importasse.

A garota travava uma batalha interna, queria muito ir a apresentação de Koushirou e ficava agradecida com o fato de Ken estar facilitando as coisas. Mas, por outro lado, era estranho ver o garoto que se opôs tanto a aproximação dela com o mais velho, ser gentil de repente. Não que Ichijouji não fosse uma pessoa gentil, mas, ele simplesmente não andava fazendo jus ao seu brasão nas últimas semanas.

“O que há de errado com você?” Foi tudo que conseguiu questionar, com uma voz falhada e duvidosa.

“Não há nada, realmente.” A voz não trazia inflexão e os olhos estavam vazios. Havia sim, algo de errado, mas ele não diria. Miyako não entendia como em apenas algumas semanas ele passara de um garoto doce e companheiro, para o sadismo diabólico do Kaiser e finalizar como um fantoche sem opinião. Mas, talvez, essa última versão fosse um pouco mais suportável e fácil de lidar do que a sombra do Kaiser.

Antes que pudesse escolher o que fazer, Ken estendeu as mãos, esperando que a garota entregasse o parceiro. Sem pensar muito, ela entregou o Digimon e com uma pequena mesura agradeceu ao amigo.

Ken pôde vê-la se afastar, o barulho dos sapatos contra o piso esverdeado, rumando a caminho da estação de metrô. Fechou o pequeno Poromon adormecido em um abraço e tomou o caminho que o levaria para casa. Seria um caminho longo e solitário, ou quase solitário.

“Você é idiota? Entregar a sua garota assim.” A voz ecoou dentro de sua cabeça. O riso debochado, as palavras arrastadas.

“Ela não é minha garota.” Respondeu simplesmente.

“Com esse corpo mole que você faz, com certeza não é.” Zombou o Kaiser.

“E nunca será.”

“Está entregando os pontos? Fracote.”

“Você viu também...”

E o Kaiser também tinha visto. A questão não era admiração exagerada por Izumi, as roupas bonitas, o capricho excessivo que Ken nunca imaginara ver na mais velha. Era o olhar decepcionado, a frustração de perder o encontro, a preocupação com o relógio. Aquele olhar aflito ao fitar os segundos que corriam, dizia muito mais que qualquer palavra que Ichijouji pudesse usar para expressar o que sentia. Não importava se era amor verdadeiro ou uma paixão velada que Inoue nutrisse pelo senpai, a chance de Ken tinha ficado no passado e assim deveria ser.

“Você pode simplesmente obrigá-la a estar com você.” Mas a sugestão da sua outra parte não parecia satisfatória nem para ela mesma. O Kaiser se recolheu, como se fechasse dentro de seu mundo particular e não pareceu mais disposto a conversar com sua parte boa.

“Ken-chan, com quem você está falando?” Minomon resmungou sonolento, empoleirado em seu ombro.

“Ninguém.” Mas seu parceiro adormeceu antes de ouvir a resposta.

Ichijouji Ken ajeitou os Digimon que carregava e continuou seu caminho para casa, desta vez, um caminho longo e solitário.

Notas finais
N/T [1] na região onde eu moro é comum usar a expressão capotar quando se está com muito sono e consegue se dormir quase que instantaneamente. NOTA: Pessoal, talvez eu precise parar a fic por duas semanas. Eu estou estudando para um concurso público e meu curso mudou de dia e horário, justo para o dia que eu deixava livre para escrever. Então até que eu prestar o concurso, meu horário está bem escasso. Espero conseguir escrever durante o almoço, mas caso isso não aconteça, vou ficar acabar atrasando duas semanas. Espero que compreendam e não me abandonem. Qualquer dúvida é só mandar nos comentários ou MP.