A Garota do Cabelo Lavanda
7 Capítulo 7
Notas iniciais
A IMPORTÂNCIA DO PRIMEIRO BEIJO
Ken não entendia como garotas havia se tornando um assunto tão recorrente durante o horário de almoço. Na verdade, garotas não, mas sim Hikari. Ele até entendia que eles não eram mais crianças, que os hormônios estavam à flor da pele e que era inevitável encararem uma garota com segundas intenções, mas isso não queria dizer que todos os dias eles teriam que falar sobre mulheres.
“O primeiro beijo é muito importante para uma garota.” Concluiu Daisuke de forma teatral.
Takeru arrancou a revista que o ruivo trazia nas mãos. Era um daqueles periódicos para garotas, que geralmente fala sobre moda e comportamento. A revista estava aberta em um artigo que falava sobre a importância do primeiro beijo para as garotas. Era descrito como uma experiência fantástica e única, que poderia influenciar negativamente toda a vida amorosa da moça caso não fosse executado com a pessoa correta.
“Desde quando você lê esse tipo de coisa?” Agitou o encadernado diante do rosto do amigo.
“Eu não leio.” Motomiya fez uma careta. “Mas a Jun largou em cima da mesa, e eu acabei vendo. Dessa forma, preciso me preparar para ser o memorável primeiro beijo da Hikari-chan.” Completou ambicioso.
“Eu se fosse você não criaria muitas esperanças. Aqui diz que as garotas preferem dar seu primeiro beijo com um garoto que já tenha experiência no assunto e até onde sei você nunca beijou ninguém.” Provocou, depois de ler dinamicamente alguns parágrafos da matéria.
“Isso é só um detalhe. Além disso, você fala como se fosse um grande conhecedor do assunto.” Daisuke retorquiu apenas para ver o loiro quase enfiar a cara no periódico e ficar vermelho até as orelhas.
Ken não entendeu bem a reação do garoto, embora fosse amigo de Takeru, não eram tão íntimos a ponto de saber se ele já tinha beijado alguém. Pela reação presumia que sim, mas como Hikari ainda não tinha tido nenhum contato tão próximo com um garoto, ficou em dúvida de com quem o loiro poderia ter vivido a experiência.
“Bem, pelo menos você não precisará se preocupar com isso.” Daisuke desviou o assunto, encarando o moreno.
“Por que diz isso?” Questionou Ken sem entender.
“Ora, porque Miyako já teve seu primeiro beijo.” Informou o ruivo, com aquele tom de voz conspirador de quem conta uma informação secreta que não deveria ser revelada.
“E exatamente como você sabe disso?” O loiro se intrometeu, bastante desconfiado da veracidade daquela informação.
“Ela me contou.” Vangloriou-se. Ao perceber que os garotos trocaram um olhar desconfiado, complementou. “Na verdade, foi Hawkmon quem me disse.”
“Eu não sabia que a Miyako-san tinha um namorado.” Foi tudo que o moreno conseguiu responder. Não que estivesse triste ou decepcionado, afinal eles eram adolescentes e se relacionar com outras pessoas era perfeitamente normal, mas não podia negar que estava um pouco surpreso.
“Com ciúmes é? Mas não se preocupe, não é nenhum namorado, era só um garoto da sala dela durante o ensino fundamental.” Informou o ruivo.
=8=
Ken não saberia dizer por que a informação de que a garota dos cabelos lavada já beijara alguém o incomodava tanto. Eles eram só amigos, então não fazia diferença com quem ela se relacionava. Era verdade que não conseguia tirá-la da cabeça desde o dia do festival, mas aquilo não era motivo para ficar tão enciumado. Ele era maduro suficiente para entender que provavelmente, quando tivesse uma namorada, ela já teria tido relacionamentos anteriores.
Na verdade, havia uma parte sua que ficara extremamente feliz em saber que o primeiro beijo da garota não tinha sido com Izumi, como chegara a suspeitar. Não que realmente fizesse diferença, mas saber que o objeto de admiração da moça ainda permanecia apenas como objeto de admiração lhe dava certo conforto.
A mente do garoto passou tanto tempo ocupada por esses pensamentos que mal viu o tempo passar e quando o sinal tocou, já era final do dia e hora de voltar para casa. Não arrumou suas coisas apressadamente como geralmente fazia. Hoje era dia em que todos os seus amigos tinham compromissos dos clubes que participavam, e o moreno voltava para casa sozinho.
Terminou de ajeitar seu material e alcançou o corredor, quando foi interrompido por uma voz feminina. Se virou a tempo de ver uma garota correr da porta da sala em sua direção. Suzuki-san, Mizuki-san. Ele não tinha certeza do nome da garota, apenas sabia que estudavam juntos. Ela se sentava próxima a ele e era um dos poucos alunos que não o tratava com hostilidade, embora quase nunca conversassem.
Era uma garota pequena e magra com o cabelo castanho volumoso e ondulado. Ela sempre mantinha o uniforme impecável, o rosto maquiado e trazia pequenos acessórios sempre fofos e coloridos nos braços e orelhas. Ela aprecia ofegante e um pouco acanhada.
“Ichijouji-san, você já está indo?” Perguntou enquanto tentava regularizar a respiração.
“Sim.” Concordou com um aceno de cabeça.
“Está ocupado?”
“Na verdade não.” Maldita língua comprida, ele realmente gostaria de dizer que tinha outro compromisso, mas como Miyako e Wormmon já haviam dito várias vezes, ele era um péssimo mentiroso.
“Bem, então podemos conversar?” A voz da menina saiu demasiadamente melosa e gentil.
“Pode falar.”
“Talvez aqui não seja o local mais apropriado.” Ela olhou ao redor para constatar que estavam no corredor e vários alunos ainda circulavam ao redor deles.
“Pra mim está bom aqui.”
A garota não pareceu muito contente com a resposta, mas decidiu dar prosseguimento a conversa.
“Bem, como você sabe, eu tenho uma grande admiração por você.” Na verdade, ele não sabia. “E se você não estiver namorando...” Ela pareceu constrangida em dar continuidade ao assunto, mas respirou fundo e tomou coragem. “Talvez nós pudéssemos sair.”
“Sair?” Arqueou as sobrancelhas sem entender.
“Sim, como em um encontro. Eu gosto muito de você.” Falou com a voz mais doce que conseguiu.
Ichijouji Ken não tinha certeza do que estava acontecendo, sabia que era bonito e sua aparência e fama de gênio faziam relativo sucesso com o público feminino. Mas ele mal conversava com a tal garota, sequer sabia seu nome, não fazia o menor sentido aquela declaração. Ficou encarando-a sem entender, enquanto ela o encarava de volta com olhos esperançosos. Fosse o silêncio incômodo que se instaurou sobre eles, fosse a determinação de sua declaração, a menina não esperou por uma resposta. Deu um passo a frente, se aproximando, puxou-o pela gola da camisa e selou seus lábios nos dele.
O garoto permaneceu de olhos abertos encarando os olhos fechados preenchidos com uma sombra azulada, a respiração quente escovar seu rosto e o gosto de morango do batom que a garota usava. O coração dela batia muito rápido em contraste com o seu que parecia ter parado. Era no mínimo uma sensação estranha e inusitada, mas não muito agradável.
“Desculpe interromper, mas vocês estão na passagem.” Uma terceira voz cortou o contato entre eles. A menina corou violentamente enquanto ele demorou a decifrar que a voz que os interrompera era familiar. Era a voz de Inoue Miyako.
A menina estava parada no corredor, no início da escada, com a mochila pendurada nas costas.
“Eu esqueci meu livro na sala de aula.” Informou ao ver a expressão confusa no rosto do rapaz.
Ken não disse nada, deu um passo para o lado, abrindo a passagem. A tal Suzuki ou Mizuki cumprimentou sua senpai com uma mesura e também abriu passagem. Com passos rápidos, o moreno a viu cruzar o corredor e entrar na sala do 2-B.
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“Miyako-san.” Ela deu um encontrão nele enquanto saia da sala, após recuperar o livro. Ele estava com o rosto vermelho e a respiração acelerada, mas não parecia ter corrido. “O que aconteceu...”
“Tudo bem.” Ela sorriu, mas de um jeito estranho, que ele nunca vira antes. “Não precisa me pedir, eu não vou contar aos outros.”
“Não é isso.” Mas ele não sabia muito bem o que dizer. Fora atrás dela por puro impulso e agora as palavras lhe faltavam.
“Sua namorada está te esperando.” E indicou com a cabeça a garota que ainda esperava no corredor. “Não é muito gentil deixar uma menina esperando assim. Ainda mais para vir falar com outra, ela pode ficar com ciúmes.” E sorriu de novo, aquele mesmo sorriso estranho.
“Ela não...”
“Eu preciso ir, tenho monitoria no clube de informática. Até mais.” E com uma manobra, abriu passagem e atravessou o corredor.
O adolescente a viu se afastar e sumir quando atingiu a escada. A garota que beijara ainda estava no corredor, encarando-o de longe. Ken respirou fundo tentando ordenar seus pensamentos. Ele não sabia o que fazer com a garota, nem sabia como dizer a ela que tudo fora um engano. O único pensamento que martelava em sua cabeça era que ele gostaria que seu primeiro beijo tivesse sido com Inoue.
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